Amor ou Obsessão/ LIVRO II: Os gêmeos de Tara
16 O rei solitário
O inverno caiu sobre Tara como uma maldição. O gelo cobriu as janelas e o vento uivava pelos corredores vazios do castelo, imitando o som de sussurros que Michael não conseguia calar. Ele se sentava à cabeceira da mesa de jantar todas as noites, cercado por dezenas de cadeiras vazias, observando a comida esfriar enquanto a solidão o devorava vivo.
Ele tentava governar com mão de ferro, mas a burocracia do reino era um labirinto sem a diplomacia de Dominic ou a intuição de Ester. Os camponeses, temendo o novo Rei "Carrasco", começaram a esconder colheitas, e os boatos de que o Leão havia abandonado o trono para viver como um eremita enfraqueceram a moral dos soldados.
Certa noite, enquanto o fogo na lareira morria, Michael viu uma sombra no canto do quarto. Por um segundo, ele pensou ser Silas, com a corda ainda no pescoço, mas era apenas sua própria paranoia projetando fantasmas nas tapeçarias. Ele levou as mãos à cabeça, a coroa caindo no chão com um estrondo metálico que ecoou por todo o quarto.
Ele percebeu, com um aperto no peito, que não sentia falta do poder; ele sentia falta do riso de Maya, da mão firme de Luan no seu ombro e do olhar de aprovação de Dominic. Ele sentia falta do cheiro de alfazema que Ester deixava por onde passava. Sem eles, o título de Rei era apenas uma etiqueta em um homem morto por dentro.
Incapaz de suportar o silêncio por mais um minuto, Michael convocou o capitão da guarda. Ele não ordenou uma prisão, nem um ataque. Sua voz saiu fraca, desprovida da fúria que o dominara no banquete.
— Encontre-os — sussurrou Michael, olhando para o mapa da floresta. — Não usem armas. Não usem força. Apenas descubram onde estão. Eu preciso saber se eles... se eles ainda estão vivos.
Os espiões partiram sob a neve, infiltrando-se nas matas fechadas onde Ester conhecia cada trilha oculta. Demorou semanas, mas eles voltaram com notícias. A família não estava em uma cabana miserável; eles haviam reconstruído o antigo refúgio druida de Ester. Havia fumaça saindo da chaminé, Luan estava caçando para prover a mesa, e Dominic passava as tardes ensinando Maya a ler os sinais do céu. Eles pareciam, segundo os relatos, em paz.
Aquela palavra — paz — atingiu Michael como um soco. Ele tinha o castelo, o ouro e o exército, mas eles tinham a paz. Tomado por uma mistura de desespero e um último resquício de orgulho, ele decidiu que não enviaria soldados para buscá-los. Ele mesmo iria.
Ele montou seu cavalo negro e cavalgou sozinho pela neve, sem escolta e sem manto real. Ele queria ver com os próprios olhos o que havia jogado fora. Ao chegar na orla da clareira, ele viu Dominic de costas, cortando lenha com a mesma força que usava para governar. Maya estava sentada perto do fogo, rindo de algo que Luan dissera.
Michael parou o cavalo, escondido entre as árvores. Ele queria descer, cair de joelhos e pedir perdão. Mas, ao ver a expressão de tranquilidade no rosto da mãe enquanto ela colhia ervas na neve, ele percebeu o tamanho do seu crime. Ele não apenas os expulsara; ele os libertara de um fardo que ele agora carregava sozinho.
Dominic parou de cortar a lenha e olhou exatamente na direção onde Michael estava escondido. O Velho Leão ainda tinha os sentidos aguçados. Ele não se moveu, não chamou, apenas sustentou o olhar na direção da floresta por um longo tempo, como se desse ao filho uma última escolha: a coroa ou o coração.
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