Michael cavalgou de volta ao Palácio sob uma tempestade que parecia refletir o caos em sua alma. Ao cruzar os portões de Tara, o barulho dos cascos no pátio vazio soava como um lamento. Ele subiu as escadarias sem olhar para os guardas, que se encolhiam à sua passagem, e trancou-se em seus aposentos. O Rei estava cercado de ouro, mas o silêncio era tamanha que ele podia ouvir o próprio coração batendo — um som oco, solitário e amargo.

​Enquanto isso, longe dali, o som do gelo quebrando sob rodas de uma carruagem discreta anunciava uma visita inesperada ao refúgio na floresta. Catarina, que nunca conseguira tirar a família Mackenzie da cabeça, retornara à Irlanda. Ela não foi para o castelo; seguiu as trilhas que os locais sussurravam levar ao "Velho Rei".

​Ao chegar na clareira, ela encontrou um cenário que a deixou sem fôlego. Não havia luxo, mas havia uma luz que o Palácio de Tara perdera. Dominic a recebeu com um aceno de cabeça, enquanto Ester servia um chá aquecido no fogo da lareira.

​— Majestade — disse Catarina, curvando-se levemente. — Eu não poderia partir sem saber se o senhor estava bem. Vi o que aconteceu naquele banquete... vi o que Michael se tornou.

​Dominic sentou-se diante dela, o rosto marcado pelas sombras das árvores, mas os olhos ainda carregando a sabedoria de décadas.

​— Michael está doente, Catarina — disse o Velho Leão, sua voz grave ecoando suavemente. — Ele não está doente do corpo, mas do espírito. Ele deixou o medo do passado governar o presente. Ele expulsou a luz da sua vida e agora está morrendo de frio no meio do verão.

​Catarina baixou o olhar, lembrando-se do Michael que a levara para ver as estrelas.

​— Eu não o reconheço mais, Dominic.

​— Poucos o reconhecem — interveio Ester, tocando o ombro de Catarina. — Mas ele ainda é o nosso filho. E ele ainda é o homem que você viu sob o céu noturno. A coroa é um peso que ele não sabe carregar sozinho.

​Dominic inclinou-se para a frente, fixando seus olhos nos de Catarina.

​— Eu tenho um último pedido para você, Rainha de Mônaco. Não como um favor político, mas como o pedido de um pai que não pode mais alcançar o próprio filho. Vá visitá-lo.

​Catarina hesitou, o coração disparado.

— Ele me afastou. Ele agiu como um carrasco.

​— Exatamente por isso ele precisa de você — Dominic insistiu. — Michael só ouvirá a verdade de alguém que ele não pode controlar ou exilar. Vá ao palácio. Mostre a ele que, mesmo na escuridão que ele criou, ainda há alguém que se lembra de quem ele realmente é. Se houver um resto de alma naquele rei, sua presença será o espelho que o fará acordar.

​Catarina olhou para a floresta e depois para o casal que abrira mão de tudo pela paz. Ela percebeu que a coragem de Dominic não estava apenas na espada, mas na capacidade de perdoar o imperdoável.

​— Eu irei — ela sussurrou, a determinação voltando aos seus olhos azuis. — Mas não farei isso por Tara. Farei isso pelo homem que ele costumava ser.