Amor ou Obsessão/ LIVRO II: Os gêmeos de Tara
8 O Rugido e a Sombra
O Grande Salão de Tara estava iluminado por mil velas, mas o brilho das chamas não conseguia dissipar a tensão palpável que pairava sobre a mesa real. Era a última noite do banquete em honra à comitiva de Mônaco, e o vinho fluía em taças de ouro, mas o silêncio entre os convidados era cortante.
Maya, com o queixo erguido e os olhos faiscando com a determinação que herdara de Ester, trocou um olhar rápido com Luan, que estava em pé, em sua posição de guarda, logo atrás da cadeira de Dominic. A decisão fora tomada. Ela não permitiria que o homem que amava fosse tratado como um segredo vergonhoso.
No meio do serviço de carnes, Maya levantou-se. O som da seda de seu vestido esmeralda roçando no chão atraiu todos os olhares. Michael e Catarina, que compartilhavam um entendimento silencioso após a noite nas estrelas, pararam de falar imediatamente.
— Pai, Mãe, nobres convidados — iniciou Maya, sua voz ressoando clara e sem hesitação. — Tara foi construída sobre a verdade e a coragem. Por isso, não posso mais permitir que o silêncio proteja o que meu coração já gritou. Eu amo Luan de Suffolk. E ele me ama. Não como primos, não como protegidos, mas como homem e mulher que pretendem unir suas vidas.
O salão mergulhou em um vácuo de som. Mellysa, que estava sentada à direita de Ester, deixou sua taça cair, o vinho tinto espalhando-se pela toalha branca como uma mancha de sangue.
— Isso é um absurdo! — Mellysa gritou, levantando-se, a voz carregada de um veneno que parecia ter sido guardado por anos. — Luan é um guarda, um Suffolk! Você é a Princesa de Tara! Isso é uma desonra para a coroa, uma mancha na linhagem Mackenzie! Eu não aprovo, eu não aceito e eu não permitirei que meu filho se perca nessa loucura!
Luan deu um passo à frente, mas antes que pudesse falar, a atmosfera do salão mudou drasticamente.
Dominic, que até então permanecera em silêncio absoluto, levantou-se. Ele não usou as mãos para se apoiar na mesa; ele se ergueu com a força bruta que o tornara uma lenda. O ar parecia ter ficado mais pesado, e o brilho nos seus olhos escuros era como o de uma fera prestes a atacar.
— SILÊNCIO! — O rugido de Dominic fez os candelabros tremerem e os guardas estrangeiros recuarem. Após anos de uma paz diplomática e calma, o Velho Leão explodira novamente.
Ele caminhou lentamente até Mellysa, cada passo ecoando como um veredito.
— Você fala de linhagem, Mellysa? Você, que quase destruiu esta família com suas intrigas no passado? Você ousa falar em desonra na minha mesa? — Ele apontou para Maya e depois para Luan. — Estes jovens têm mais honra em um dedo do que toda a nobreza que se curva por medo! Se eles se amam, eles têm a minha benção, pois eu sei o preço de lutar por quem se ama contra o mundo inteiro!
Dominic voltou seu olhar para o salão, o peito subindo e descendo com uma fúria que não se via há décadas.
— Quem aqui ousa questionar a vontade do Rei? Quem ousa julgar o coração da minha filha?
Ninguém ousou respirar. Mellysa sentou-se, pálida e trêmula, derrotada pelo poder esmagador de seu irmão.
No entanto, assim que o silêncio se instalou e a tensão começou a baixar, a força de Dominic pareceu esvair-se de uma só vez. Ele levou a mão à têmpora, fechando os olhos com força, e depois a outra mão pressionou o lado esquerdo de seu peito. Sua respiração, antes poderosa, tornou-se um chiado doloroso.
— Dominic? — Ester levantou-se, o rosto perdendo a cor instantaneamente.
O Rei tentou se segurar na mesa, mas suas pernas vacilaram. Michael e Luan correram para ampará-lo antes que ele atingisse o chão. O rosto de Dominic, antes rubro de raiva, agora estava acinzentado e coberto por um suor frio.
— Minha cabeça... dói como se houvesse fogo... — ele sussurrou, a voz falhando enquanto desabava nos braços do filho.
— Médico! Tragam o médico agora! — Michael gritou, sua voz embargada pelo pânico.
Ester caiu de joelhos ao lado do marido, segurando o rosto dele entre as mãos, as lágrimas já inundando seus olhos. Ela sentia o pulso dele — rápido, irregular, fraco. O terror que ela pensou ter enterrado anos atrás voltou com uma força avassaladora.
— Dominic, não... não faça isso comigo. Fique aqui, Leão. Olhe para mim! — ela implorava, enquanto o salão, antes em festa, transformava-se em um cenário de desespero.
Catarina, vendo a cena, sentiu um aperto no peito que nunca sentira antes. Ela viu o império de Tara vacilar, não por uma invasão, mas pelo cansaço de um coração que lutara por tempo demais.
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