​O quarto real estava mergulhado em uma penumbra fúnebre, iluminado apenas pelo brilho trêmulo das velas e pelo fogo baixo na lareira. O cheiro de ervas medicinais e incenso Druida pairava no ar, enquanto Ester trabalhava sem descanso, com as mãos trêmulas, tentando estabilizar o homem que era o seu mundo.

​Dominic estava deitado sobre as peles de urso, a respiração curta e ruidosa. Quando ele abriu os olhos, não havia mais a fúria do banquete, apenas a lucidez de um homem que conhece o próprio limite. Ele buscou a mão de Michael, que estava ajoelhado ao lado da cama, com o rosto banhado em lágrimas.

​— Michael... — a voz do Rei era um sussurro rouco, mas carregado de urgência. — Ouça-me bem.

​— Pai, por favor, não se esforce. O médico diz que o senhor precisa de repouso — Michael implorou, apertando a mão calejada do pai.

​— O tempo de repousar na terra está chegando, meu filho. Mas o trono... o trono não pode esperar — Dominic tossiu, uma dor aguda cruzando seu peito. — Não deixe Tara perdida. Não deixe o que construímos se esvair por falta de um guia. Eu quero... eu ordeno que você seja coroado. Agora. Amanhã, ao nascer do sol.

​— Eu não estou pronto, pai. Não sem o senhor! — Michael soluçou.

​— Você tem o meu espírito e a sabedoria da sua mãe — Dominic sorriu fracamente, olhando para Ester, que chorava silenciosamente enquanto preparava uma infusão. — Você está mais pronto do que eu jamais estive. Proteja sua irmã. Proteja este solo.

​No canto do quarto, Maya estava desfeita. Ela se escondia nos braços de Luan, soluçando contra o peito do cavaleiro. O peso da culpa a esmagava; ela sentia que sua revelação e a briga no banquete haviam sido o golpe final no coração cansado do pai.

​Luan a segurava com uma força protetora, beijando o topo de sua cabeça, embora seus próprios olhos estivessem vermelhos. Ele via o homem que o criara, que o perdoara e que o defendera poucas horas antes, desvanecendo-se diante de seus olhos.

​— É minha culpa, Luan... eu o matei — Maya sussurrou, a voz quebrada pelo desespero.

​— Não diga isso, Maya — Luan respondeu, sua voz soando como um juramento. — Ele lutou por você porque ele te ama. Ele deu o último rugido para garantir que você fosse feliz. Não deixe que esse sacrifício seja em vão. Nós vamos enfrentar isso juntos.

​Ester aproximou-se de Dominic com a taça de ervas, mas seus olhos encontraram os dele e ela soube. O vínculo que os unia desde o boticário na floresta estava vibrando com o adeus.

​— Beba isso, meu leão — ela disse, a voz tentando manter a firmeza druídica.

​Dominic bebeu um pouco e olhou para todos na sala: Michael, o herdeiro que se tornaria rei; Maya e Luan, o amor que ele validou com seu último ato de força; e Ester, a mulher que deu cor à sua vida cinzenta.

​— Michael... — Dominic chamou uma última vez. — Chame a Rainha Catarina. Quero que ela testemunhe o nascimento de um novo Rei. Quero que Mônaco veja que Tara nunca cairá.

​O silêncio voltou ao quarto, pesado e sagrado. Fora das muralhas, o povo de Tara começava a se reunir, segurando tochas em vigília, sentindo que a era do Velho Leão estava chegando ao fim, enquanto uma nova, e talvez mais desafiadora, estava prestes a começar sob a luz de uma coroa apressada.