Amor ou Obsessão/ LIVRO II: Os gêmeos de Tara
9 O Crepúsculo do Leão
O quarto real estava mergulhado em uma penumbra fúnebre, iluminado apenas pelo brilho trêmulo das velas e pelo fogo baixo na lareira. O cheiro de ervas medicinais e incenso Druida pairava no ar, enquanto Ester trabalhava sem descanso, com as mãos trêmulas, tentando estabilizar o homem que era o seu mundo.
Dominic estava deitado sobre as peles de urso, a respiração curta e ruidosa. Quando ele abriu os olhos, não havia mais a fúria do banquete, apenas a lucidez de um homem que conhece o próprio limite. Ele buscou a mão de Michael, que estava ajoelhado ao lado da cama, com o rosto banhado em lágrimas.
— Michael... — a voz do Rei era um sussurro rouco, mas carregado de urgência. — Ouça-me bem.
— Pai, por favor, não se esforce. O médico diz que o senhor precisa de repouso — Michael implorou, apertando a mão calejada do pai.
— O tempo de repousar na terra está chegando, meu filho. Mas o trono... o trono não pode esperar — Dominic tossiu, uma dor aguda cruzando seu peito. — Não deixe Tara perdida. Não deixe o que construímos se esvair por falta de um guia. Eu quero... eu ordeno que você seja coroado. Agora. Amanhã, ao nascer do sol.
— Eu não estou pronto, pai. Não sem o senhor! — Michael soluçou.
— Você tem o meu espírito e a sabedoria da sua mãe — Dominic sorriu fracamente, olhando para Ester, que chorava silenciosamente enquanto preparava uma infusão. — Você está mais pronto do que eu jamais estive. Proteja sua irmã. Proteja este solo.
No canto do quarto, Maya estava desfeita. Ela se escondia nos braços de Luan, soluçando contra o peito do cavaleiro. O peso da culpa a esmagava; ela sentia que sua revelação e a briga no banquete haviam sido o golpe final no coração cansado do pai.
Luan a segurava com uma força protetora, beijando o topo de sua cabeça, embora seus próprios olhos estivessem vermelhos. Ele via o homem que o criara, que o perdoara e que o defendera poucas horas antes, desvanecendo-se diante de seus olhos.
— É minha culpa, Luan... eu o matei — Maya sussurrou, a voz quebrada pelo desespero.
— Não diga isso, Maya — Luan respondeu, sua voz soando como um juramento. — Ele lutou por você porque ele te ama. Ele deu o último rugido para garantir que você fosse feliz. Não deixe que esse sacrifício seja em vão. Nós vamos enfrentar isso juntos.
Ester aproximou-se de Dominic com a taça de ervas, mas seus olhos encontraram os dele e ela soube. O vínculo que os unia desde o boticário na floresta estava vibrando com o adeus.
— Beba isso, meu leão — ela disse, a voz tentando manter a firmeza druídica.
Dominic bebeu um pouco e olhou para todos na sala: Michael, o herdeiro que se tornaria rei; Maya e Luan, o amor que ele validou com seu último ato de força; e Ester, a mulher que deu cor à sua vida cinzenta.
— Michael... — Dominic chamou uma última vez. — Chame a Rainha Catarina. Quero que ela testemunhe o nascimento de um novo Rei. Quero que Mônaco veja que Tara nunca cairá.
O silêncio voltou ao quarto, pesado e sagrado. Fora das muralhas, o povo de Tara começava a se reunir, segurando tochas em vigília, sentindo que a era do Velho Leão estava chegando ao fim, enquanto uma nova, e talvez mais desafiadora, estava prestes a começar sob a luz de uma coroa apressada.
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