​O Salão do Trono estava mergulhado em sombras, iluminado apenas pelas tochas que projetavam formas distorcidas nas paredes de pedra. Michael estava sentado no trono, a coroa pendendo levemente sobre sua testa, os olhos fixos no vazio. O silêncio foi interrompido pelo som metálico do cajado de Dominic batendo contra o chão de mármore.

​Dominic entrou sozinho. Ele não vestia mantos reais, apenas sua túnica de guerreiro e o olhar de quem já viu mil invernos.

​— Saia desse assento, Michael — disse Dominic, sua voz baixa mas carregada de um trovão contido. — Você está sentado em madeira e ouro, mas seu espírito está rastejando na lama.

​Michael levantou o olhar. Não havia o brilho de admiração que costumava ter pelo pai, apenas um cinismo gélido.

​— O trono é meu por seu decreto, pai. O carrasco foi minha escolha. Silas era uma praga que precisava ser extirpada antes que infectasse a linhagem que o senhor tanto lutou para proteger.

​— Você não protegeu linhagem nenhuma! — Dominic rugiu, aproximando-se até ficar a poucos passos do filho. — Você matou um homem desarmado por puro orgulho. Você gritou com sua mãe, a mulher que o trouxe ao mundo e o protegeu de monstros reais. Você afastou a rainha que amava porque não suportou a verdade sobre sua origem. Você não é um rei, Michael... você é um menino assustado brincando com uma coroa de espinhos.

​Michael levantou-se abruptamente, a mão apertando o punho da espada.

— Não me chame de menino! Eu fiz o que o senhor não teve coragem de fazer. Eu limpei o passado. Agora ninguém pode questionar quem eu sou.

​— Todos questionam agora! — Dominic rebateu, apontando para as portas fechadas. — O povo tem medo de você. Sua irmã chora nos braços de Luan porque não reconhece o irmão. Catarina partiu porque viu em você o reflexo de tudo o que ela odeia. Você trocou o amor pelo medo, e esse é o pior negócio que um homem pode fazer.

​Michael deu um passo à frente, o rosto a centímetros do de Dominic. A tensão era tão alta que parecia que o ar iria entrar em combustão.

— O senhor está velho e fraco, Dominic. Talvez a raiz de Mellysa tenha curado seu coração, mas nublou seu julgamento. Se continuar a me desafiar, se tentar retomar o que me deu... eu o considerarei um traidor da coroa. E sabe o que faço com traidores.

​Dominic não recuou. Ele olhou profundamente nos olhos de Michael, buscando um resquício do filho que ele amava.

— Você me ameaça com o exílio ou com a corda, Michael? — Dominic sorriu com uma tristeza infinita. — Vá em frente. Se você acha que sua coroa brilha mais do que a honra de sua família, então eu já o perdi. Mas saiba de uma coisa: um rei que governa sem o coração do seu povo acaba governando apenas sobre cinzas.

​Dominic deu as costas, mas parou antes de sair.

— Sua mãe está esperando no boticário. Ela não quer o seu trono. Ela quer o filho dela de volta. Mas temo que o filho que ela amava tenha morrido na forca junto com Silas.

​Michael ficou sozinho no salão, o eco das palavras de Dominic chicoteando sua mente. Ele olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que assistiram à morte do pai biológico, e sentiu o peso da coroa tornar-se subitamente insuportável.