​Os jardins de Tara, geralmente vibrantes e cheios de vida, pareciam estranhamente silenciosos sob a névoa daquela manhã. Michael caminhava com passos decididos, mas seu coração batia em um ritmo incerto. Ele avistou Catarina sentada em um banco de pedra, observando o horizonte cinzento da Irlanda. Ela segurava um pequeno camafeu de prata, os dedos traçando o contorno do objeto com uma melancolia que parecia isolá-la do resto do mundo.

​— A senhora parece estar a mil léguas de distância, Majestade — Michael iniciou, aproximando-se com cautela. — Espero que o frio da nossa terra não a esteja afugentando.

​Catarina não se assustou. Ela guardou o camafeu lentamente e virou o rosto para ele. Seus olhos azuis eram como lagos congelados; bonitos, mas impenetráveis.

​— O frio da Irlanda é honesto, Príncipe Michael — ela respondeu, sua voz soando como o toque do cristal. — Diferente do calor de Mônaco, que muitas vezes esconde o veneno das intrigas de corte. Prefiro saber exatamente o que me faz tremer.

​Michael sentou-se a uma distância respeitosa, tentando encontrar uma fresta naquela armadura de seda.

— Entendo que a vida a obrigou a erguer muros altos, Catarina. Mas aqui, o senhor meu pai e minha mãe prezam pela verdade. Não precisa estar em guarda o tempo todo.

​Catarina soltou um riso seco, desprovido de alegria.

— Aos quinze anos, eu vi o mar engolir tudo o que eu amava. No dia seguinte, tive que assinar decretos de guerra e impostos enquanto o luto ainda me sufocava. Os muros não foram erguidos por escolha, Príncipe. Eles são a única coisa que impede o meu reino de desmoronar.

​Michael sentiu uma vontade profunda de segurar a mão dela, de oferecer o calor que a sua própria família transbordava, mas algo na postura rígida de Catarina o impediu. Ela era uma rocha, moldada pela dor e pela responsabilidade precoce.

​— Eu gostaria de conhecê-la — ele disse, com uma sinceridade que o fez parecer muito com Dominic. — Não a Rainha de Mônaco que assina tratados, mas a jovem que gosta de... o que a faz feliz, Catarina?

​A pergunta pareceu pegá-la de surpresa. Ela hesitou, e por um breve segundo, a barreira oscilou. Mas, tão rápido quanto surgiu, a máscara de rainha voltou ao lugar.

​— A felicidade é um conceito perigoso para quem governa sozinha — ela disse, levantando-se com uma elegância gélida. — O que me satisfaz é o dever cumprido e a segurança do meu povo. Se o Príncipe busca por conversas leves e sorrisos fáceis, temo que tenha procurado a pessoa errada.

​— Eu nunca disse que buscava o que é fácil — Michael retrucou, levantando-se também, seus cabelos castanhos balançando com o vento. — Meu pai lutou trinta anos por um reino antes de encontrar a paz nos braços de uma mulher que o desafiou. Eu não tenho medo de muros, Catarina. Tenho paciência para escalá-los.

​Catarina parou por um instante, as costas voltadas para ele. Suas mãos apertaram as dobras do vestido de veludo.

— Pois saiba que algumas rochas não são feitas para serem escaladas, Michael. Elas são feitas para sustentar o peso de uma coroa. Com licença.

​Ela se retirou sem olhar para trás, deixando Michael sozinho no jardim. Ele observou o rastro do vestido dela sobre a relva úmida, sentindo que, embora ela o tivesse repelido, o desafio apenas alimentava o fogo em seu peito.

​Enquanto isso, escondida atrás de uma coluna de mármore, Maya observava a cena. Ela sentiu uma mão pesada em seu ombro e quase saltou de susto. Era Luan.

​— Ele não vai conseguir, não é? — Luan sussurrou, observando Michael parado no meio do jardim.

​— Meu irmão é teimoso, Luan. Mas aquela rainha... ela não é apenas triste. Ela tem medo de que, se deixar alguém entrar, não sobrará nada dela para governar — Maya respondeu, suspirando. — E você? Vai continuar me seguindo como um cão de guarda ou vai finalmente admitir por que estava escondido aqui?

​Luan engoliu em seco, a proximidade de Maya fazendo sua garganta fechar.

— Estou apenas cumprindo ordens, Princesa. O Rei me pediu para não perder os gêmeos de vista.

​— Mentiroso — Maya sorriu, um sorriso que fez o mundo de Luan girar. — Você mente tão mal quanto Michael tenta flertar.