Amor ou Obsessão/ LIVRO II: Os gêmeos de Tara
19 O Espelho da Rainha
Michael estava sentado no chão de mármore frio de seus aposentos, com a coroa jogada em um canto escuro como se fosse um objeto amaldiçoado. Garrafas de vinho vazias espalhavam-se pelo ambiente, e o cheiro de mofo e solidão impregnava as cortinas de veludo. Quando a porta pesada de carvalho rangeu, ele não se deu ao trabalho de levantar a cabeça.
— Eu ordenei que ninguém entrasse! — Michael rosnou, sua voz rouca e carregada de uma fadiga que beirava o delírio. — Fora daqui, ou mandarei o capitão preparar uma cela para quem quer que ouse me desafiar!
— Então prepare as correntes, Michael Mackenzie, pois eu não pretendo sair.
O som daquela voz foi como um choque elétrico. Michael ergueu o rosto lentamente, os olhos avermelhados e as olheiras profundas destacando-se na pele pálida. Catarina estava parada sob o arco da porta, vestindo um manto de viagem escuro, a postura tão rígida e imponente quanto a de uma estátua de gelo sob o luar.
Michael levantou-se com esforço, cambaleando levemente, a raiva borbulhando para esconder a vergonha de ser visto naquele estado.
— O que faz aqui? — ele sibilou, aproximando-se dela com os punhos cerrados. — Veio rir do rei que você abandonou? Veio ver como Tara se tornou silenciosa sem os risos irritantes de Maya ou os conselhos inúteis de Dominic? Saia! Volte para Mônaco! Eu não preciso de uma rainha que me olha como se eu fosse um monstro!
Ele apontou para a porta com um gesto violento, o braço tremendo de fúria.
— SAIA AGORA! Eu sou o Rei! Eu mando neste solo e na vida de cada pessoa que respira este ar! Se você não cruzar essa porta em um minuto, eu juro que esquecerei quem você foi para mim!
Catarina não recuou um único centímetro. Ela deu um passo à frente, entrando no círculo de luz de uma única vela que restava acesa.
— Você não é um rei, Michael. Você é um cadáver que se esqueceu de cair — ela disse, a voz cortante e desprovida de medo. — Você grita porque o silêncio deste palácio te conta a verdade que você não quer ouvir: que você matou o pai errado. Você enforcou Silas, mas foi o espírito de Dominic que você tentou assassinar dentro de si mesmo.
— Cala a boca! — Michael avançou, parando a centímetros do rosto dela, o hálito de vinho e desespero atingindo-a. — Você não sabe de nada! Eu protegi a minha honra!
— Que honra?! — Catarina gritou, e pela primeira vez, a rocha se quebrou em indignação. — A honra de um covarde que precisa de uma forca para se sentir poderoso? Eu estive com eles, Michael. Eu estive na floresta. Vi seu pai cortando lenha com mais dignidade do que você tem sentado nesse trono manchado de sangue. Ele mandou que eu viesse, porque ele ainda acredita que existe um homem debaixo dessa armadura de ódio. Mas eu... eu estou começando a achar que ele se enganou.
Ela estendeu a mão e tocou o peito dele, empurrando-o levemente.
— Olhe para este lugar. Olhe para si mesmo. Você expulsou todos os que te amavam e agora está aqui, reinando sobre poeira e sombras. Mate-me também, se for o que seu "poder" exige. Mande o carrasco! Mas saiba que, mesmo morto, Silas tem mais companhia do que você jamais terá enquanto usar essa coroa.
Michael vacilou. As palavras de Catarina agiram como o veneno de Mellysa, mas em sentido inverso; elas estavam rasgando a névoa de sua loucura. Ele olhou ao redor, vendo pela primeira vez a decrepitude de seu isolamento.
— Eles estão... felizes? — ele sussurrou, a voz subitamente pequena, o ódio esvaindo-se para dar lugar a uma dor insuportável.
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