Amor ou Obsessão/ LIVRO II: Os gêmeos de Tara
20 A Ruína do Rei
O grito de fúria que Michael sustentava nos pulmões morreu como uma chama sufocada por uma avalanche. Ele olhou para Catarina, buscando o brilho de desprezo que justificaria seu ódio, mas encontrou apenas uma compaixão profunda e devastadora. A força que o mantinha de pé — um amálgama de orgulho ferido e vinho — simplesmente evaporou.
As pernas de Michael cederam. O Rei de Tara desabou no chão de mármore, não como um soberano, mas como um homem que acabara de perceber que estava enterrado vivo. Ele escondeu o rosto nas mãos, e o primeiro soluço que escapou de sua garganta foi um som animalesco, carregado de meses de solidão e de uma culpa que ele não conseguia mais conter.
— Eles estão em paz, Michael — Catarina sussurrou, ajoelhando-se à sua frente, sem se importar com a poeira ou com a frieza do chão. — Eles têm o céu, a terra e uns aos outros. Enquanto você... você só tem o eco do seu próprio nome.
— Eu destruí tudo... — Michael balbuciou entre soluços violentos, os ombros sacudindo sob o peso do manto real. — Eu vi o olhar de medo da Maya... eu vi o desgosto nos olhos do meu pai. Eu matei aquele homem achando que o sangue dele lavaria a minha vergonha, mas o sangue dele me manchou para sempre!
Ele levantou o rosto, as lágrimas traçando caminhos limpos na pele suja de cinzas e cansaço. Com um gesto trêmulo, ele levou a mão à cabeça, arrancou a coroa de ouro e a estendeu para Catarina. O metal precioso brilhou fracamente sob a luz da última vela.
— Leve isso... — ele implorou, a voz quebrada. — Dê ao Dominic. Dê ao povo. Eu não quero mais ser o Rei. Eu não consigo mais ouvir o silêncio deste lugar. Catarina, por favor... eu sou um monstro? Diga-me que ainda resta algo do homem que te levou ao telhado para ver as estrelas.
Catarina não pegou a coroa. Em vez disso, ela envolveu as mãos de Michael com as suas, forçando-o a soltar o objeto, que caiu sem importância no mármore. Ela o puxou para perto, permitindo que o Rei de Tara escondesse o rosto em seu ombro. Pela primeira vez em meses, o calor humano penetrou o frio que Michael cultivara como uma armadura.
— O monstro não choraria assim, Michael — ela disse suavemente, acariciando os seus cabelos castanhos despenteados. — O monstro não sentiria o peso do que fez. Mas para encontrar aquele homem de novo, você precisa deixar o Rei morrer. Você precisa caminhar até aquela floresta não como um soberano exigindo retorno, mas como um filho pedindo um lugar à mesa.
Michael agarrou-se ao manto de Catarina como um náufrago.
— Eles vão me odiar... Luan nunca me perdoará por ter ameaçado a paz deles.
— O seu pai te conhece — Catarina respondeu, afastando-se o suficiente para olhá-lo nos olhos. — Ele sabia que você chegaria a este ponto. Ele sabia que o rugido de um leão solitário acaba sempre em um pedido de socorro.
Michael respirou fundo, o ar entrando em seus pulmões com uma clareza que ele não sentia há muito tempo. Ele se levantou, ainda vacilante, mas com um brilho diferente no olhar. Ele não olhou para o trono. Ele olhou para a porta.
— Eu não vou levar a coroa — Michael declarou, limpando o rosto com o dorso da mão. — Eu vou levar apenas o que me resta: a minha verdade.
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