​O som das carruagens de Mônaco partindo ainda ecoava pelo pátio quando Dominic, apoiado pesadamente em seu cajado, terminou de ler a carta que Catarina deixara com um dos servos. Suas mãos, que já haviam empunhado espadas e governado nações, tremiam — não de fraqueza, mas de uma dor profunda que nenhuma raiz de Mellysa poderia curar.

​Ester estava sentada ao pé da lareira, o rosto escondido entre as mãos. O silêncio no quarto real era denso, quebrado apenas pelo estalar da lenha.

​— Ela se foi, Ester — disse Dominic, a voz rouca, entregando o papel à esposa. — Catarina partiu, e suas palavras são como lâminas. Ela diz que viu nos olhos de Michael o mesmo brilho dos tiranos que mataram a alma de seu próprio reino. Ela pede que eu retome o trono... para salvar o que restou de nós.

​Ester leu as linhas apressadas, as lágrimas manchando o pergaminho.

— Silas trouxe o veneno, Dominic. Mas o ódio que Michael destilou... aquele ódio é dele. Ele sentiu que sua legitimidade foi roubada diante de todos. Ele matou o pai biológico para tentar matar a própria dúvida sobre quem ele é.

​Dominic caminhou até a janela, observando o filho caminhar sozinho pela muralha, com a capa ao vento, parecendo uma estátua de gelo.

​— Eu o criei para ser um leão, mas ele escolheu ser um lobo — lamentou Dominic. — Ele gritou com você, Ester. Ele a silenciou na frente de estranhos. Esse não é o filho que eu conheço. O poder, quando misturado com a vergonha, é um ácido que corrói o coração mais nobre.

​Ester levantou-se e abraçou o marido pelas costas, encostando a cabeça em seu ombro.

— Maya está trancada no quarto, com medo de que o próximo alvo da fúria dele seja o Luan. Mellysa está apavorada. O castelo que era um lar agora parece uma prisão de pedra.

​Dominic virou-se, os olhos brilhando com uma resolução sombria.

— Um rei que governa pelo medo não governa um povo, governa um cemitério. Eu lhe dei a coroa para protegê-los, não para transformá-lo em carrasco.

​— O que você vai fazer? — perguntou ela, temendo a resposta.

​— O que um pai deve fazer quando o filho se perde na escuridão — Dominic suspirou, pegando sua velha espada que estava pendurada na parede. — Vou confrontá-lo. Não como o Rei que ele desafiou, mas como o homem que o ensinou a andar. Se Michael quer ser um carrasco, ele terá que olhar nos olhos do pai que o escolheu antes de derramar mais uma gota de sangue.

​Ester segurou o braço dele.

— Ele está fora de si, Dominic. Ele pode...

​— Ele pode ser o Rei de Tara — interrompeu Dominic, firmemente —, mas ele ainda é o meu filho. E eu não vou permitir que ele destrua a alma deste reino em nome de um orgulho ferido.