Amor ou Obsessão/ LIVRO II: Os gêmeos de Tara
10 O Sangue de Suffolk
O médico da corte havia se afastado, balançando a cabeça em sinal de desistência. Dominic mal conseguia abrir os olhos, e o silêncio no quarto real só era interrompido pelos soluços abafados de Maya e Michael. Ester segurava a mão do marido, sentindo a vida dele escorrer entre seus dedos como areia fina.
Foi então que a porta se abriu. Não com a delicadeza de um servo, mas com a determinação de alguém que carregava um segredo pesado. Mellysa entrou, com o rosto marcado pelo choro recente, mas com as mãos segurando um antigo estojo de couro negro.
— Saiam todos — Mellysa ordenou, sua voz não tinha a arrogância de antes, mas uma urgência desesperada. — Agora!
— Mellysa, não é momento para suas crises — Michael disse, levantando-se com os olhos vermelhos.
— Eu disse para saírem! — ela gritou, aproximando-se da cama. — Ester, você sabe que meu pai, o antigo Duque de Suffolk, não morreu apenas de velhice. Ele sofria do mesmo mal do coração que Dominic herdou. Ele deixou um registro... uma mistura de raízes do Sul que o médico da corte nunca ousou usar por ser considerada perigosa demais.
Ester levantou o olhar, uma centelha de esperança mística brilhando em meio às lágrimas.
— A Flor de Gelo de Mônaco... misturada com mandrágora branca?
— Sim — Mellysa abriu o estojo, revelando uma pequena raiz seca e cristais de sal marinho. — É um veneno se for dado em excesso, mas é a única coisa que pode fazer um coração exausto voltar a bater com força. Eu guardei isso para mim... para quando minha hora chegasse. Mas ele é meu irmão. Eu não vou deixar o Leão morrer por causa de um grito que eu mesma provoquei.
Luan deu um passo à frente para ajudar a mãe. Maya observava, paralisada, enquanto as duas mulheres que passaram a vida em lados opostos — a rainha druida e a duquesa ambiciosa — uniam as mãos sobre o peito de Dominic.
Mellysa moeu a raiz com uma agilidade que ninguém sabia que ela possuía, enquanto Ester preparava a base da infusão com o calor de suas próprias mãos, entoando cânticos baixos que pareciam fazer as sombras do quarto dançarem.
— Beba, Dominic... — Mellysa sussurrou no ouvido do irmão, ajudando Ester a verter o líquido amargo entre os lábios dele. — Não ouse me deixar aqui sozinha para carregar a culpa de ter te matado. Lute, seu velho teimoso!
Por vários minutos, nada aconteceu. O corpo de Dominic estremeceu uma vez, duas, e depois ficou imóvel. Michael abraçou Maya, fechando os olhos, esperando o pior.
De repente, Dominic soltou uma lufada de ar violenta, como se tivesse acabado de emergir de águas profundas. Suas bochechas, antes cinzentas, ganharam um tom de vermelho vivo. Ele abriu os olhos e, embora ainda estivesse fraco, o brilho nítido da inteligência estava lá.
Ele olhou para Mellysa, que ainda segurava seu ombro, e depois para Ester.
— Parece... — Dominic murmurou, a voz ainda fraca mas firme — que o veneno da minha irmã finalmente serviu para algo bom.
Mellysa soltou um soluço de alívio e escondeu o rosto nas mãos, enquanto Ester se jogava sobre o peito do marido, ouvindo o coração dele bater forte e rítmico, como um tambor de guerra.
Dominic olhou para Michael, que ainda segurava a coroa nas mãos, pronto para a cerimônia do amanhecer.
— Não guarde essa coroa, meu filho — disse Dominic, estendendo a mão para ele. — Eu viverei para ver você ser rei. Mas faça isso agora. Diante de mim. Antes que eu decida que ainda tenho forças para governar por mais dez anos apenas para te irritar.
Michael sorriu entre lágrimas, sentindo que o peso da responsabilidade agora era compartilhado com a vida recuperada do pai. No canto da sala, Maya e Luan se abraçaram, sentindo que o milagre de Mellysa não havia apenas salvo o Rei, mas também dado a eles a chance de um futuro sem o peso do luto.
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