O retorno a Tara foi envolto em um silêncio desconfortável. Enquanto Maya e Luan tentavam integrar Marcos à rotina do castelo, Michael mantinha-se distante, observando das sombras com uma desconfiança que beirava a obsessão.

​Ao cair da primeira noite em solo irlandês, Dominic encontrou o jovem Marcos na sacada leste, o mesmo lugar onde, anos antes, ele costumava observar as fronteiras de seu reino. O rapaz olhava para a floresta escura, os dedos batendo nervosamente no parapeito de pedra.

​Dominic aproximou-se sem pressa, o som de seu cajado anunciando sua presença. Ele parou ao lado de Marcos, ambos olhando para o horizonte.

​— É uma vista que impõe respeito, não é? — começou Dominic, sua voz profunda e calma. — Mas a pedra é fria, Marcos. Ela não oferece o calor que um homem precisa para viver.

​Marcos não se virou, mas seus ombros relaxaram minimamente.

— Meu pai dizia que este castelo deveria ter sido dele. Que o senhor roubou o lugar que o destino reservou para o sangue dele.

​Dominic deu um curto sorriso triste.

— Silas sempre foi um homem alimentado por sombras. O destino não reserva lugares, rapaz; nós os conquistamos com escolhas. Eu não roubei Tara de Silas, eu a protegi dele. Mas você não é o seu pai. Eu vejo o rosto dele em você, sim, mas vejo algo nos seus olhos que ele nunca teve: dúvida. E a dúvida é o primeiro passo para a sabedoria.

​Marcos finalmente virou-se, encarando o Velho Leão.

— Michael me odeia. Ele me olha como se eu fosse um pecado que ele quer esquecer.

​— Michael não odeia você, Marcos. Ele odeia o que você o faz lembrar — Dominic explicou, colocando uma mão pesada e reconfortante no ombro do jovem. — Ele vê em você o momento em que ele perdeu a própria humanidade. Ele precisa de tempo para entender que você não é o carrasco do passado dele, mas uma chance de ele ser um homem melhor no presente.

​Dominic inclinou-se um pouco mais perto, o olhar fixo e penetrante.

— Você veio aqui em busca de vingança, Marcos? Ou veio em busca da família que seu pai nunca soube ser?

​O jovem hesitou, a máscara de sarcasmo caindo por um instante.

— Eu só queria saber... se eu era real para ele. Ou se eu era apenas um segredo que ele guardava para usar contra o rei.

​— Aqui, você não será um segredo — afirmou Dominic com autoridade. — Maya lhe ofereceu um lugar na corte, e a palavra de uma Rainha de Tara é lei. Mas a minha palavra como pai é um conselho: não tente ser o filho de Silas aqui. Tente ser o homem que Marcos quer ser. Se você honrar este teto, este teto o protegerá.

​Marcos baixou a cabeça, sentindo pela primeira vez o peso daquela recepção.

— Obrigado... Majestade.

​— Chame-me de Dominic — o velho sorriu, começando a se afastar. — "Majestade" é para quem ainda carrega o peso da coroa. Eu agora só carrego o peso da minha própria história. E ela é longa o suficiente para caber mais um capítulo, se você estiver disposto a escrevê-lo com honra.