Amor ou Obsessão/ LIVRO II: Os gêmeos de Tara
29 Revelações
O boticário de Ester era o único lugar do castelo que ainda preservava o aroma das matas, um refúgio de ervas secas e silêncio. Marcos estava sentado em um banco de madeira, observando a Rainha Mãe preparar uma infusão, quando o peso da verdade finalmente desabou sobre ele.
Ester parou o que estava fazendo e olhou para o jovem. Não havia ódio em seus olhos, apenas uma tristeza antiga que parecia vir de uma vida inteira de superação.
— Você veio aqui acreditando em uma lenda, Marcos — começou Ester, a voz firme, mas carregada de dor. — Você acredita que Silas era o verdadeiro rei por ser o pai biológico dos gêmeos. Mas a verdade é muito mais sombria do que os contos que ele lhe contou.
Marcos franziu o cenho, pronto para defender a memória do pai, mas Ester continuou antes que ele pudesse falar.
— Eu era apenas uma plebeia, uma menina com sonhos simples, quando Silas me encontrou. Ele não me amou, Marcos. Ele me usou. Ele abusou de mim quando eu ainda era uma criança em espírito e, quando percebeu o que tinha feito, ele me largou na floresta como se eu fosse um fardo descartável. Ele traiu a sua própria mãe naquele momento, traiu a decência e a honra.
O rapaz empalideceu, as mãos começando a tremer sobre os joelhos.
— Meus pais me encontraram quebrada — Ester prosseguiu, aproximando-se dele. — Quando os bebês nasceram, eles os adotaram como se fossem deles, para que eu não fosse alvo de fofocas ou da vergonha da vila. Silas nunca teve nada aqui. Ele não era um rei exilado; ele era um covarde que fugiu da responsabilidade e só voltou anos depois para tentar colher os frutos de um campo que ele só fez incendiar.
Marcos levantou-se abruptamente, o choque estampado em cada traço de seu rosto.
— Não... ele dizia que vocês eram amantes... que Dominic roubou a mulher e os filhos dele por ganância! Ele dizia que era o herdeiro de um direito sagrado!
— O único direito que Silas conhecia era o de tirar o que não lhe pertencia — Ester disse, tocando o braço do jovem. — Ele usou você, Marcos. Usou a sua lealdade para manter viva uma mentira que justificasse a própria maldade. Ele não era um homem bom que foi injustiçado. Ele era um abusador que não suportou ver que a mulher que ele tentou destruir se tornou rainha ao lado de um homem de verdade.
Marcos cambaleou para trás, sentindo o chão desaparecer sob seus pés. Toda a sua identidade, todo o seu propósito de "recuperar a honra do pai", desmoronou em segundos. O homem que ele idolatrava como um mártir era, na verdade, o monstro da história de Ester.
— Então... eu não sou o irmão de um rei — ele sussurrou, a voz carregada de náusea. — Eu sou o filho de um monstro.
Nesse momento, Michael apareceu à porta. Ele ouvira as últimas palavras da mãe. O olhar de fúria que ele carregava transformou-se em algo novo: uma compreensão amarga. Ele viu em Marcos não o filho do seu inimigo, mas outra vítima da devastação que Silas deixara para trás.
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