​A manhã de treinamento no pátio de Tara era barulhenta. O som do aço contra o aço ecoava pelas muralhas enquanto Michael e Luan duelavam sob o olhar atento dos instrutores. Michael era técnico, preciso; Luan era rápido, quase desesperado em seus movimentos.

​Do alto da varanda, Maya observava. Ela usava um traje de montaria, com o arco curto pendurado nas costas.

​— Você está sendo muito benevolente com ele, Michael! — ela gritou, rindo. — Luan está com a cabeça nas nuvens hoje!

​Ao ouvir a voz dela, Luan vacilou por um milésimo de segundo. Foi o suficiente para Michael desarmá-lo, fazendo sua espada voar pelo pátio. Luan caiu de joelhos, ofegante, o suor escorrendo pelo rosto jovem e másculo.

​— Ela tem razão — disse Michael, estendendo a mão para ajudar o amigo a se levantar. — Onde você está hoje, Luan? Sua guarda estava aberta como um livro.

​— O sol estava nos meus olhos — mentiu Luan, limpando o rosto e evitando olhar para a varanda onde Maya ainda sorria.

​Luan sabia que o sol não era o problema. O problema era que, todas as noites, ele sonhava com o dia em que Ester o salvara da morte, e como aquele vínculo parecia ter selado seu destino ao da filha dela de uma forma que ele não conseguia explicar. Ele devia sua vida à Rainha, e agora sentia que sua alma pertencia à Princesa.

​Mais tarde, na biblioteca, o encontro foi inevitável. Maya estava em cima de uma escada, procurando um manuscrito antigo sobre as linhagens druídicas, quando Luan entrou.

​— Deixe-me ajudar, Maya — ele disse, aproximando-se rapidamente para segurar a escada.

​— Eu consigo sozinha, Cavaleiro — ela provocou, mas ao descer, um degrau falso a fez perder o equilíbrio.

​Luan a segurou antes que ela atingisse o chão. Por um momento eterno, o mundo parou. O perfume de flores silvestres que emanava de Maya atingiu Luan como um feitiço. Ele a segurava firmemente pelos braços, e a proximidade era tanta que ele podia contar as sardas no nariz dela.

​— Você está sempre me segurando, não é? — Maya perguntou, sua voz subitamente mais baixa, notando pela primeira vez a intensidade estranha nos olhos do primo.

​— É o meu dever — Luan respondeu, a voz rouca. — Proteger a coroa.

​— E se eu não quiser ser protegida como uma joia, Luan? E se eu quiser ser vista como... algo mais?

​Luan soltou-a como se tivesse se queimado. Ele deu um passo atrás, a máscara de cavaleiro voltando ao lugar.

— Você é a Princesa de Tara, Maya. Para mim, você é tudo o que este reino representa. Não posso vê-la de outra forma.

​Ele saiu da biblioteca sem olhar para trás, deixando Maya confusa e com o coração batendo de um jeito que ela não entendia. Ela não sabia que, escondido atrás de uma das estantes, o Rei Dominic observava tudo, acariciando sua barba prateada com um sorriso enigmático.

​— O jogo começou — murmurou o velho Leão para si mesmo. — E este será muito mais difícil de vencer do que o meu.