A primeira coisa que eu percebi era que algo estava faltando. Não parece algo muito comum de se perceber num mundo escuro de letargia no qual eu estava naquele momento, mas foi exatamente isso que eu percebi algo estava faltando e que era estranhamente muito importante. Não sei quanto tempo se passou até que eu percebesse o que era, mas quando eu percebi foi um grande choque: eu não estava respirando. Desesperadamente inspirei pelas minhas narinas o ar e o deixei que preenchesse os meus pulmões e então os cheiros me atingiram como uma pancada

Achei que fosse espirrar, mas não o fiz ao invés disso eu passei a analisar cada cheiro detalhadamente. Havia madeira por perto, madeira polida, e muita limpeza no ambiente. Havia fumaça, pouca, dissipada, mas ainda assim ela estava lá. Também tinham dois cheiros que eu não podia identificar, eram bons e os dois pertenciam a criaturas de sexos opostos, o que isso significava eu ainda ia descobrir. E entre outros cheiros sutis havia outro, muito parecido com um dos cheiros das criaturas, só que era ligeiramente diferente, era doce como o outro, mas parecia sujo e velho e de certa forma ruim.

Aos poucos eu comecei a ouvir. Era como se meus ouvidos estivessem tampados e essa coisa que estava o tampando fosse retirada aos poucos. Primeiro percebi minha própria respiração, regular e controlada e depois ouvi chiados, apitos e mais alguma coisa que eu não conseguia definir o que era, mas eu podia ouvir carros. Não estavam pertos, pelo menos a uma ou duas dezenas de metros, como eu sabia disso era um mistério, mas eles estavam lá e certamente havia um semáforo, porque de tempos em tempos os carros paravam e voltavam a andar.

Abri meus olhos e por alguns segundos fiquei cega, mas conforme eu ia me acostumando com a claridade percebi que não estava tão claro assim. Na verdade parecia que algo grosso estava tapando mais de noventa por cento da luz, mas mesmo assim eu conseguia enxergar os contornos. Levei algum tempo para entender que eu estava encarando uma parede com uma estante cheia de livros. Eu sabia que este local deveria ser familiar, mas ele não o era.

Cogitei a ideia de me mover, mas antes disso testei meus membros para saber se eles me respondiam e eu fiquei aliviada por saber que estavam. Meu tato me disse que eu estava deitada em cima de algo macio, porém irregular, viscoso, mas só em partes e umas pequenas coisas felpudas.

Sentei-me e algo caiu na minha frente, peguei o objeto e o levei até a frente de meus olhos e tive que espremer um pouco a minha memória para perceber que eu estava segurando uma pena. Então essas coisinhas felpudas eram penas, estranho.

Girei a minha cabeça e vi um quarto que parecia ser comum, uma estante, um armário, uma mesa com um computador, mas faltava algo. O que era mesmo? Algo que geralmente tem em todos os quartos, era... A cama. Desci meus olhos e vi que eu já estava nela, mas a cama parecia estranha, lençóis, colchão e alguns tecidos estranhos ao local rasgados e espalhados por todo o canto. As penas voavam toda a vez que eu me mexia e também tinha uma mancha enorme, era escuro e a coisa visco, e era dali que vinha o cheiro bom e sujo. Inclinei-me e lambi o local, só para depois cuspir, o gosto era pior que o cheiro.

Levantei-me da cama um pouco vacilante, mas consegui me manter em pé sem muito esforço. Avistei que o que estava tampando a luz era uma pesada cortina, fui até lá, mas quando toquei na ponta para puxá-la para o lado uma dor lacerante atingiu as pontas dos meus dedos me fazendo retirar os dedos imediatamente. O movimento foi rápido demais e eu estranhei, mas se eu estava inteira, quem se importava? Eu não.

Fui na direção oposta fugindo da fonte de dor e me deparei com a porta, a abri e meus olhos tiveram outro momento de cegueira. Do lado de fora estava bem mais claro com o sol invadindo a casa. Sim! Eu estava numa casa! A constatação disso foi uma grande surpresa.

Atravessei o corredor tomando cuidado para não tocar nos raios de luz que entravam pela grande varanda que dava para uma rua movimentada – e lá estão os carros – e abri a primeira porta que eu alcancei. O quarto que eu entrei era muito mais iluminado e muito mais bagunçado do que o que eu estava e foi só então que eu percebi que estava nua.

Pudor. Foi tão de repente e tão forte que a sensação me fez correr para o roupão jogado em cima da cama de forma desleixada sem me preocupar com o raio de sol no caminho. O contato foi de menos de um segundo, mas a dor foi tão forte que me fez soltar um chiado que me pareceu estranhamente errado, só não entendi como.

Peguei o roupão, me vesti e voltei para o corredor, sempre desviando cuidadosamente do sol e acabei parando em cima de uma escada. Achei que fosse senti vertigem, não lembrava como vencer aquele obstáculo e acabei descendo sentada, de certo que se houvesse outra pessoa ali eu estaria muito envergonhada.

Lá embaixo tinha outro corredor, menor e com menos portas. À minha esquerda o corredor terminava em uma porta que dava para o aparente desconhecido. À minha direta, dava para um vão que parecia a entrada de um cômodo branco, uma porta virada para a rua e outro vão que eu não pude ver o que tinha dentro.

Segui para este vão que eu não consegui ver e ele estava impecável. Sofás dispostos de forma harmoniosa com uma mesa de centro, estantes cheias de livros, vasos do tamanho da minha perna e uma televisão. Era a sala! Claro que era, o que mais poderia ser?

Liguei a televisão esperando não sei o que, e surgiu a figura de uma mulher bonita tagarelando sobre qualquer coisa que deveria aparentar ser deliciosa. O que eu vi na tela fez minha boca salivar, mas não foram os pratos cobertos das mais variadas coisas que ela dizia estar em um preço imperdível, mas o pescoço pulsante e vivo da mulher bonita. Saquei o telefone quase que imediatamente e disquei os números que apareciam grandes na tela. Uma voz me atendeu, não era aquela da mulher bonita, estranhei, mas eu estava faminta e ela me prometia comida.

Tentei falar qualquer coisa, mas a minha voz não veio. As palavras se formavam em minha mente, mas eu não conseguia transformá-las em som. A mulher ao telefone começou a perder a paciência e só quando ela ameaçou desligar a minha voz saiu.

– Eu quero o prato mais caro que você tiver. – falei alto demais, quase gritei na verdade e do outro lado da linha teve um momento de silêncio.

– Isso é algum tipo de brincadeira? – cuspiu a mulher.

– Não, não é, que quero o prato mais caro que você tiver e pago o dobro se o trouxer em dez minutos. – outro momento de silencia do outro lado da linha.

– Se for alguma brincadeira...

– Não é, por favor.

Depois de mais alguns momentos implorando finalmente a mulher cedeu e eu dei o endereço. Não de qual parte da minha memória ele veio, apenas quando eu o disse só pareceu bastante certo.

Fiquei sentada esperando a mulher do telefone chegar e em exatos dez minutos uma campainha no cômodo branco tocou. Em um pulo eu já estava agarrada ao interfone quase gritando para a mulher entrar. Eu estava faminta e ela tinha me prometido comida. Dali a menos de um minuto houveram batidas na porta e eu me pus no corredor a uma distância segura.

– Entra. – eu falei e a porta abriu. Os raios de sol terminaram a meros centímetros dos meus pés.

A minha decepção pareceu evidente, pois quando o entregador entrou ele ficou encabulado e perguntou se estava tudo bem, mandei que ele deixasse a entrega na cozinha – lembrei que esse era o nome do cômodo branco – e ele obedeceu categoricamente. Eu estava faminta e eles tinham me prometido comida.

O cheiro e o som me atingiram quase que ao mesmo tempo. Era doce o som e acelerado o cheiro, ou deveria ser ao contrário? Não sei, só sei que eu estava faminta e o pescoço dele era suculento e em menos de um piscar de olhos eu estava colocando o homem contra a parede e enterrando os meus dentes em sua artéria.

Ele não gritou, nem se mexeu, apenas me deixou ali tendo o prazer de saborear o líquido quente e doce e quente e, eu já falei doce? Era como se eu estivesse voando ou uma montanha-russa ou dormindo no colchão mais macio ou dançando ou fazendo tudo ao mesmo tempo. Não há palavras como descrever o sabor perfeito, o aroma perfeito, a consistência perfeita, era simplesmente perfeito, tão perfeito que eu não consegui e soltei um gemido.

Não de onde, como ou quando, eu só senti a pancada na minha nuca. não doeu, mas me desconcentrou e eu me virei para chiar para qualquer coisa que estivesse me atrapalhando, mas o chiado morreu na minha garganta quando eu vi os olhos azuis. Os olhos azuis eram como eu, e a mulher que acompanhava os olhos azuis era como o homem da entrega que, sem perceber, eu havia deixado cair inconsciente.

Um instinto começou a gritar em minha cabeça, corra! Fuja! Ele vai te matar! Virei-me para obedecer, mas uma mão se enterrou em meu cabelo e o puxou para trás me impedindo de fugir. Comecei a gritar e espernear tentando me livrar do aperto, mas ele tão incrivelmente mais forte que eu que era apenas tudo inútil. Ele me virou para que eu encarasse seus olhos azuis tão profundo que eu me perdi neles por um momento e o achei terrivelmente familiar e isso só aumentou o meu medo.

– Pietro, aqui, mate-a. – a pequena havia passado por mim sem que eu percebesse e tinha voltado trazendo consigo uma haste brilhante que era pontiaguda em uma das extremidades e tinha um cheiro horrível, o cheiro da minha morte.

Os olhos azuis pegou a haste e a levantou para aniquilar a minha vida, mas parou com a mão no ar e depois de um momento de reflexão e a abaixou, mas não na minha direção para me matar, só para a mulher a pegar.

– O que você está fazendo? – ela perguntou histérica.

– Eu sei o que estou fazendo, apenas fique quieta e limpe esta bagunça. – os olhos azuis desviaram de mim só por um segundo e eu soube que eu não seria morta, pelo menos ainda.

Fui arrastada até uma porta debaixo da escada que quando foi aberta revelou um quarto mais escuro do que o que eu acordei, lá não entrava nenhuma luz. Fui jogada lá dentro sem a menos delicadeza e a porta foi trancada sonoramente.

Eu estava assustada, minha morte poderia está sendo planejada nesse exato momento pela mulher e por Pietro... Esse maldito nome tão familiar e tão amedrontador. Agachei-me e abracei-me, eu precisava lembrar das coisas que eu não havia reparado até agora, como, por exemplo, o meu nome e quem sou eu.

Espremi a minha cabeça tentando lembra. Aos pouquinhos um nome foi surgindo em meio a uma névoa de confusão. Bia... Alguém me chamava assim, mas esse não era o meu nome, era só um apelido, mas era Bia de quê? Bianca? Não, era... Beatriz! Sim esse era meu nome, Beatriz. Mas ainda faltavam muitas coisas.

Dois rostos foram tomando forma, uma mulher de uns trinta e poucos anos e uma garota mais nova que eu, elas eram... minha mãe e irmã! Eu morava com elas, mas onde estava o meu pai, porque, afinal de contas, todos tem um pai. Eu não conseguia me lembrar dele, será que ele estava viajando? Não, meus pais eram separados? Não, meu pai... estava morto, desde os meus doze anos de idade. Aí foi o começo da parte ruim, mas não foi o começo do fim, isso aconteceu bem depois e ainda estava faltando não um buraco, mas uma cratera na minha memória, mas uma coisa apareceu em minha mente e me atormentou pelos restos dos meus dias: um par de olhos cinza-nebulosos.

Notas finais
Posto mas... prometo.