Notas iniciais
Elisabeth ainda sofre em seu luto por Darcy, mas Chang tem seus planos para fazê-la ressurgir das cinzas. mas embora ele tenha seus próprios motivos para isso, são as palavras de um simples soldado que fazem a velha Elisabeth Darcy voltar.

Pouco a pouco a situação foi se tornando normal em Rosings. Normal em relação aos outros porque Elisabeth parecia ter mergulhado em uma espécie de letargia. Passava horas e horas sentada no jardim ou na sacada de seu quarto. Os treinos com Georgiana foram se reduzindo ate que Mei Li se encarregasse deles. Todo e qualquer esforço para que ela se animasse foram em vão. Até que, um dia, Chang a procurou quando Elisabeth realizava algumas posturas de Tai Chin Chuan.

— Quanto tempo ainda, Huang Mei?

— Para que Chang? — ela respondeu sem parar de se exercitar.

— Para você parar de choramingar como uma menininha mimada e covarde?

— Eu estou de luto. Você não entende isso?

— De luto por um covarde que tinha que ter ficado aqui cuidando da família.

— Você nunca conheceu meu marido Chang. Não pode dizer isso dele.

— Posso e devo. Você se casou com um eunuco.

— Você está passando dos limites, Chang. — Elisabeth sibilou, parando na mesma hora. Agora não haveria exercício de meditação no mundo que a aliviasse de sua raiva

— Eu nem comecei. Choramingar por um eunuco filho de uma cadela. Um covarde cuja lança não se ergue na batalha com uma mulher, um...

— Já chega! — ela bradou pegando a adaga que estava em seu tornozelo como sempre. — Eu vou fazer você engolir cada ofensa.

Chang deu um sorrisinho sarcástico. O fogo havia voltado aos olhos de Huang Mei, como ele pretendera.

— Estou esperando por isso Huang Mei... — ele respondeu sacando também a sua adaga.

Elisabeth avançou para ele ensandecida. Chang era seu amigo, mas falar aquelas coisas do seu amado? Uma afronta imperdoável!

Os dois cruzavam golpes como se suas vidas dependessem disso. Chang defendia-se dos golpes, mas, pelo menos por duas vezes esteve a ponto de terminar a luta. O que deixava Elisabeth cada vez mais furiosa.

Então, com uma rasteira, Elisabeth o derrubou e ficou sobre ele, encostando sua adaga no grosso pescoço dele. Os dois ficaram se olhando ofegantes. Até que Chang deu um sorrisinho satisfeito.

— Isso, Huang Mei... Honre o nome que seu mestre lhe deu. Arda com o fogo do Dragão. Queime-me com esses olhos em brasa. Como no dia em que eu perdi para você.

Elisabeth parou o ataque ao ouvir as palavra dele. Com um suspiro, saiu de cima dele e lhe estendeu a mão para ajudá-lo a levantar

— Eu nunca venci você a não ser hoje. Mestre Liu considerou empate.

— Ele considerou. Mas, no momento em que eu fitei seus olhos negros, eu me perdi.

Elisabeth ficou um pouco perturbada pelas palavras dele. Chang era tão calado... Ele era movido pela ação. Hábil com as armas e os punhos, nunca com as palavras.

— Eu não entendo suas palavras, Chang.

— Não mesmo? É claro que não. Você, sempre orgulhosa de quem era, estava cega para o sentimento que me preenchia cada vez mais. Eu amava você Huang Mei. Sempre amei. — ele se ajoelhou diante dela. — Deposito minha honra e minha espada aos seus pés. — ele baixou a cabeça em submissão total

Elisabeth não sabia o que fazer. Nunca havia passado por isso. Considerava Chang um bom amigo, nada mais. Nunca poderia suspeitar da intensidade dos sentimentos dele.

Ela só pode agir da única maneira que sabia. Verdadeiramente. Se ajoelhou junto dele e lhe levantou a cabeça.

— Aceito sua amizade. Sua espada, se a batalha surgir. E sua honra, se você aceitar a minha em troca.

Ele sorriu. Um sorriso de quem sabia ter perdido uma batalha antes mesmo dela começar.

— Liz? Lizzie?

Ao ouvirem os gritos de Lydia, Elisabeth e Chang levantaram-se do chão e correram na direção dos gritos. Encontraram Lydia ofegante.

— Deus do céu, Lydia! O que aconteceu? É um ataque?

— Não! O Coronel Fitzwilliam quer vê-la imediatamente.

— Mas o que aconteceu?

— Os homens que ele mandou para... — parou antes de dizer "trazer o corpo de Darcy " — ...Derbyshire estão de volta.

Elisabeth empalideceu.

— Encontraram Darcy?

— Não sei. Mas ele pediu que fosse ao gabinete imediatamente. E sozinha. — Lydia disse olhando para Chang que seguia sua irmã como uma sombra.

Elisabeth correu para o gabinete. La chegando viu que um jovem estava sentado numa cadeira e que o médico do regimento o examinava. Fitzwilliam e Bingley estavam com ele.

A entrada da jovem chamou a atenção do grupo. Bingley se adiantou para recebe-la.

— Minha cara, venha e sente-se. Talvez as notícias a deixem um pouco perturbada.

— O que aconteceu? Darcy foi encontrado? Ele virou um... — sua garganta fechou diante da possibilidade. — virou um não mensurável?

O soldado a viu se aproximar e se levantou fazendo uma mesura desajeitada.

— Sra. Darcy! Santo Deus, eu a encontro finalmente.

— Quem é você? — Elisabeth perguntou

— Sou o soldado Sutton, senhora. E lutei ao lado do Coronel Darcy no ataque próximo a Lambton.

— Lambton? — ela virou-se para Fitzwilliam — Isso é a dez quilometros de Pemberley.

— Sim. — o Coronel Fitzwilliam, geralmente tão sisudo, estava com um semblante quase risonho. — Ouça o que ele tem a dizer. Continue soldado.

— Nós estávamos aquartelados quando uma massa enorme de mortos vivos veio na nossa direção. O Coronel Darcy correu para artilharia para ordenar o alinhamento e o disparo dos canhões. Derrubamos muitos, mas parecia que, quanto mais derrubávamos, mais vinham. Logo, eles estavam sobre nós.

Ele parou para tomar um pouco de água. Sua garganta arranhava.

— O Coronel parecia estar em todo o lugar. Lutando como se tivesse sido possuído pelo anjo vingador de Deus. Quando terminamos com os mortos vivos onde estávamos e mais vinham na nossa direção, eu virei para ele e disse que não íamos conseguir. Ele apenas me fitou e disse que eu pensasse em minha família e lutasse. Apenas isso. Devo dizer, senhora, que acho que o pensamento dele estava na senhora.

Elisabeth sentiu a dor mesclar-se com o orgulho de seu marido ao ouvir o soldado.

— Então, quando nós corrermos para enfrenta-los, um cavaleiro de cartola avançou na direção do Coronel. Eu gritei para avisa-lo, mas foi tarde demais. O cavaleiro o atingiu e ele ficou la caído. Tentei socorre-lo, mas fiquei preso com alguns mortos vivos. Mas, então eu vi algo e sabia que tinha que vir contar a senhora.

— O que?

— Vi quando o cavaleiro fez um sinal para duas abominações que estavam próximas. Eles pegaram o coronel e o colocaram em cima do cavalo. O cavaleiro então saiu em disparada. Peguei um cavalo que estava por ali e segui os dois. Parei quando eles chegaram a uma grande propriedade. Ali tinha muitos mortos vivos para que eu ousasse enfrenta-los. Então fiz meia volta e vim o mais rápido que pude para contar.

— Você foi de uma grande coragem, soldado. Agora deve ir descansar. — disse Fitzwilliam.

O soldado bateu continência e se retirou. Não antes curvar-se numa reverencia respeitosa para Elisabeth que a respondeu prontamente com um sorriso agradecido. Mas os pensamentos da moça estavam longe dali. Estavam em Derbyshire onde, em algum lugar, seu amado Darcy estava vivo!

Fitzwilliam serviu-se de um cálice de vinho. Serviu outro e levou para Elisabeth.

— Acho que você precisa disso, minha cara.

— Acha mesmo que Darcy possa estar vivo, Coronel?

— O relato do soldado nos diz que sim. Mas com que propósito? Um resgate?

— Um resgate? Do que adiantaria dinheiro para um morto vivo ou para um dos cavaleiros do apocalipse? — respondeu Bingley.

— Não... — ponderou Elisabeth.- Se ele foi levado a mando de Wickham, não será dinheiro que ele irá querer. Será a mim.

— Mas por que?

— Vingança. De mim e de Darcy. Pura e simples. Ele o arrebata, pois sabe que eu irei até o inferno para salva-lo e ele teria a nos dois. Sabe que nos amamos e que um faria qualquer coisa pelo outro. — ela tomou um gole do vinho. — Mas por outro lado, estou pensando na entrega do sobretudo de guerra e da espada de Darcy. Tudo foi feito para que pensássemos que ele estava morto. Ele não poderia saber que o soldado Sutton veria seu cavaleiro apocalíptico leva-lo. Então, ele nem suspeita de um possível resgate. — concluiu com um sorriso enorme.

O coronel Fitzwilliam a olhou estupefato.

— Senhora Darcy... Não pensa em ir resgata-lo.

— Só não penso como vou.

— Impossível.

— Coronel... Para mim, impossível é apenas o possível que ainda não aconteceu. Eu vou até Derbyshire e só saio de lá caminhando como uma morta viva ou em um cavalo branco junto ao meu Darcy. — anunciou ao beber o resto do vinho e depositar o cálice com estudada calma sobre a mesinha.

Notas finais
Pense numa mulher arretada...