Amor de Flor
13 سیزده
Notas iniciais

Eu não sei se você sabe como é, mas às vezes a nossa barriga dói. Um momento em que nenhum banheiro no mundo resolve, nem remédio para cólica ou algo do tipo. É algo que beira a ansiedade e preocupação. É um momento em que meu mero estômago parece receber um murro, pois aquela notícia havia sido um murro para mim.
Continuei andando, ainda mais empolgada, com passos longos e lépidos. Logo então percebi que já havia chegado no estabelecimento onde Liz cursava. Eu a vi em frente do portão enorme do estabelecimento. Ela não estava sozinha, um garoto conversava com ela. O reconheci do ônibus, o menino que a encarou estranhamente.
Assim que Liz me avistou, ela parou de falar com o cara e me gritou. O menino parecia muito perdido em meio aquela situação, pois ela simplesmente ignorou o que ele estava falando para chamar-me. Não posso mentir, eu me senti reconhecida.
Eu cumprimentei o garoto com um gesto frio com a cabeça e abracei a Liz logo depois, segurando sua cintura bem forte para deixar meu dia ainda mais feliz e memorável.
— Liz, o resultado do concurso saiu — falei ainda no abraço, soando as palavras perto do seu ouvido.
— Saiu? O quê? Como assim? — Nos afastamos. — Você passou?
Eu assenti em resposta.
— Parabéns! — Liz voltou a me abraçar, aquela já deveria ser a parte em que aquele homem estranho, tentando algo com a minha Liz, fosse embora.
— Desculpe, mas do que vocês estão falando? — perguntou o cara desconhecido por mim, totalmente perdido.
— Ah, desculpe-me — falou Liz. — Esta é a Maya, minha... amiga. — Notei sua hesitação. — Estamos falando sobre o concurso no qual nos escrevemos e, desculpe-me novamente, mas eu quero muito ver o resultado em casa então... Até mais!
Eu segurei a mão de Liz e ela deixou que eu entrelaçasse nossos dedos. Cara, definitivamente, sem contestações, aquela foi a melhor sensação do mundo e a única coisa que conseguiu sanear aquela dor estranha que a gente tem na barriga quando está ansioso.
Foi então que no ônibus, ainda tendo acesso aos seus dedos, que eu não consegui mais limpar a garganta e só queria sorrir curtindo aquele comento coma agarota que eu... amava. E em um só pensamento, sem pensar nem sequer uma vez, eu acabei por falar uma bobagem.
— Liz, eu acho que te amo.
Então eu vi seu sorriso, naquela boca escura, meio arroxeada, sua pele marrom, mulato-escura. Linda, linda, muito linda. E seus cachos emoldurando seu rosto tão lindo e perfeito.
— É sério, Liz — continuei. — Eu te amo tanto que nada dói, sabe? Parece que eu morri e estou montada em unicórnios usando roupas brancas, mas eu simplesmente estou com você, algo que nunca será simples porque você equivale a uma mitologia, mas você é tão real e... eu devo estar falando muita merda, mas é porque eu te amo e quando a gente ama, de verdade mesmo, a gente fica tão besta... e eu estou muito besta agora porque eu te amo de verdade.
Mas sabe quando parece que nós apagamos? Quando tudo o que fazemos parece irreal e, é tão bom, mas passa tão rápido que demora três segundos para você processar tudo? Três segundos é uma infinidade de números.
É porque a Liz é realmente importante para mim e eu sei disso como se fosse algo natural. É como se a relatividade, mesmo que o que eu falarei seja impossível, mas que aquela porra da Lei Quântica — se tal existe — dissesse que mesmo que qualquer merda acontecesse na minha vida, eu me apaixonaria pela Liz.
— Por que você me ama? — A pergunta da mulata me surpreendeu.
— Eu não sei — consegui responder.
Liz continuou com o sorriso.
— Você não vai dizer mais nada? — perguntei.
Ela sacudiu os cabelos anelados em um ato negativo, mas se aproximou de mim, cada vez mais, colando seu nariz no meu, sem se importar com quem estava no ônibus, e tocou seus lábios nos meus. Foi um ato seco, simples, mas que havia sentimento envolvido. Quando há sentimento é tão especial.
O incrível é que com tanta coisa para falar, tanto sentimento para colocar para fora, nós ficamos quietas. Liz olhava pela a janela e eu encarava a cadeira da frente, como se nela eu pudesse me visualizar no céu andando em unicórnios usando roupas brancas.
***
— Liz, chegamos — chamei-a. Ela havia cochilado na cadeira desconfortável do coletivo.
— Já? — perguntou despertando rapidamente. — Poxa.
Nossas mãos já não estavam juntas, mas não demorou muito tempo para nos abraçarmos a caminho de casa. Eu abri o portão rapidamente e ninguém parecia estar lá. Eu não vi uma luz sequer acessa, mas não hesitei em abrir a porta de entrada.
Liz franziu o cenho quando me viu abrir a porta devagarinho, hesitando. Vi seus olhinhos curiosos invadirem a minha casa escura, sem ninguém visível.
— O que está aconte...
— Surpresa! — o grito vindo da casa interrompeu-me.
A luz fora acessa repentinamente revelando minha mãe, a mãe de Liz juntamente a meu pai e minha irmã rodeando um bolo de chocolate aparentemente delicioso.
— Eu não acredito! — falou Liz indo aos braços de sua mãe. — Eu te amo!
Eu só continuei a sorrir, pensando que aquela família daria tão certo reunida.
— Não nos deixe neste suspense, qual foi a colocação? — perguntou Liz.
Minha irmã mostrou o celular em suas mãozinhas e entregou para Liz. Eu me juntei para ver junto a ela e, sem nenhuma surpresa, eu vi meu nome em primeiro lugar. Liz de Lira Souza estava em terceiro lugar, o que a fez dá uns alto de alegria.
— Nós conseguimos! — falei. Ela me beijou na bochecha. — Nós conseguimos, porra!
A mãe de Liz franziu o cenho diante do xingamento, mas pareceu não se importar depois de alguns segundos. Minha mãe nos olhou e não gostou nem um pouco de ver nossos rostos suados e mãos sujas.
— Vão se cuidar — disse minha mãe — para partirmos o bolo.
Eu a Liz nos encaramos, corremos até meu quarto e abandonamos as mochilas sobre minha cama. Ela sorria tanto, eu amava tanto aquele sorriso aberto e magnífico.
— Nós. Vamos. À. Itália!
— Aquiete o faixo, só no final do ano — disse.
— Aquiete essa sua tristeza e desanimação, pois eu vou ficar animada até a véspera da minha viagem.
— E o que você acha da próxima etapa, para ganhar a bolsa na faculdade? — perguntei.
— Foda-se, eu vou á Itália.
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