Amor de Flor
14 Fjorton
Notas iniciais

Depois de aquele bolo delicioso ter trago a mim sonolência, e Liz ter declarado perda total da sanidade, fomos dormir. Arrumamos um colchão ao lado da minha cama e sem hesitar, Liz deitou sobre a estrutura macia.
Quando o escuro se tornou, inesperadamente, meu inimigo, eu escutei o farfalhar dos cobertores, anunciando a inquietação de Liz.
─ Maya, você está acordada? ─ sussurrou.
─ Sim.
─ Eu realmente senti ciúmes daquela garota de nome esquisito ─ disse Liz, fazendo-me arregalar os olhos. Felizmente, o breu ajudou-me, disfarçando o espanto.
─ Cara, eu já sabia disso ─ eu falei.
─ Mas eu, sei lá, eu só tenho você ─ disse Liz, como se tivesse sob o efeito de algum entorpecente. Culpei, automaticamente, o chocolate.
─ Você tem sua mãe, minha mãe, todos estão aqui para te apoiar ─ consegui falar.
─ Não seja idiota, Maya. Você acha que minha mãe ainda estaria ao meu lado a partir do momento que eu dissesse “eu sou lésbica”.
─ Ah, então por isto eu seria a única?
─ Sim, você é a única pessoa que me amaria mais como gay.
─ Você sim que é uma idiota. ─ Gargalhei. ─ Agora, boa noite. Eu estou com muito sono.
Fora uma ilusão a partir do momento em que eu constatei sono. Veio a mim uma lembrança, e, particularmente, a sensação de surgir uma lembrança era semelhante a de querer uma bela noite de sono.
Minha reminiscência iniciou-se com a primeira garota por quem eu me apaixonei. Uma menina magrela, como eu, mas alta e com um cabelo totalmente repicado. As pessoas costumavam achar que ela tinha inclinações homossexuais por não usar maquiagem, por andar com garotos, por causa do estilo másculo. E eu também achava. Achava que ela poderia ser meu refúgio, algo que comprovaria como minha escolha fora a melhor.
Então eu a conheci. Uma menina gentil e tímida resume bem seu estado de personalidade. Então a gente começou a se aproximar bastante, como amigas, até que logo eu já a abraçava sempre e trocávamos beijos na bochecha, como se tivéssemos nascido grudadas.
Mas o tempo passou, ela conheceu garotos e eu senti ciúmes. Eu deveria falar isto a ela, mas ao mesmo tempo vinha o medo... o medo de perder seus abraços cotidianos. E em um suspiro enchi meu peito de coragem, caminhei pesadamente até aquela garota dos cabelos curtos e repicados. Olhei aos seus olhos castanhos e seu cabelo louro. Mordi o lábio, mas consegui dizer que eu gostava dela.
Seria perfeito até aí. Como os filmes europeus, em que o final é abstrato e reflexivo, mas não: tinha que continuar... E continuou. Eu vi o franzir de suas sobrancelhas, eu senti a tensão tangível, a raiva, confusão e senti, acima de tudo, meu medo.
─ Foi mal, Maya, mas para mim isto não é normal.
Para ela isto não era normal e nunca seria. Isto se provou com o fim da nossa amizade, com um namoro envolvendo ela e um amigo meu. Com meu coração partido por uma menina, pela primeira vez.
─ Isto não é normal?
Então eu senti um toque partindo da minha testa, logo depois pro meu ombro. Um beijo estalado na bochecha, e meu desespero foi-se gradativamente, transformado em coragem para abrir os olhos: eu vi Liz me esperando acordar.
─ Você fala dormindo ─ comentou Liz.
Eu lembrei do meu sonho, em formato de lembrança e pude ter um pouco de medo. Será que o comentei inconscientemente no meu sonho?
─ O que eu falei? ─ perguntei, quase que rugindo devido a voz recém-despertada.
─ blábláblá, alguma coisa, não é normal e sei lá mais o que ─ disse. ─ Depois você se virou para lá e para cá e disse que acha que blábláblá e nada mais compreensível. Mas me diga aí, com o que você sonhou?
─ Com nada, eu não me lembro. ─ Cobri minha cabeça com o travesseiro.
─ Vai, Maya ─ implorou Liz. ─ Conte para mim.
─ Não ─ soou minha voz, abafada pelo travesseiro.
─ Por favorzinho ─ pediu. ─ Vá, vá, vá.
A ignorei, fui ao banheiro, liguei o chuveiro e torci para que a água levasse aquelas lembranças ridículas.
***
─ Leia direito estas regras, por favor.
─ Eu estou lendo ─ queixou-se Liz.
─ Então a viagem é só daqui a... ─ Tentei contar.
─ Dois meses, na época de férias. ─ Liz penteava o cabelo.
─ Olhe com atenção!
─ Já olhei, Maya ─ disse Liz. ─ Você poderia se acalmar, fazendo o favor?
─ Eu não posso Liz, não posso...
A garota dos cachos semicerrou os olhos.
─ Isto tem a ver com seu sonho de hoje, Maya? ─ perguntou friamente.
─ Quer saber, Liz? ─ falei já impaciente. ─ Tem a ver sim, tem tudo a ver. Agora eu só quero descansar um pouco tentar esquecer essa merda de pesadelo que eu tive hoje.
─ E por que você não me conta, talvez eu possa ajudar.
─ Contar a você não será uma boa estratégia pra esquecer tudo, tá? ─ comentei. ─ Só continue a ler, vá.
─ Tudo bem, Senhorita Estresse. ─ Liz acariciou meu cabelo liso, fazendo-me fechar os olhos apreciando o ato.
─ Eu disse que te amava ─ falei abaixando o tom de voz. ─ Por que você não disse que me amava também.
─Porque eu não quis ─ falou Liz. ─ Afirmar algo não é tão importante quando você demonstra por meio de ações.
─ Ações? ─ Eu balancei a cabeça negativamente. ─ Você tem cada ideia.
─ Você que tem cada ideia ─ afirmou Liz. ─ Como eu vou acreditar que você me ama se nem um sonho você quer dividir comigo.
─ Tudo bem, eu conto. Mas não é nada demais─ Repousei a cabeça em seu colo. ─ Eu só me lembrei da primeira pessoa por quem me apaixonei e... e as coisas ficaram estranhas hoje.
─ Você a viu recentemente? ─ perguntou Liz. ─ Os sonhos são como reflexões, ter visto ela pode ter influenciado na sua noite.
─ Não ─ respondi. ─ Eu não a vi fisicamente.
─ Como assim?
─ Eu a vi em você, Liz. ─ Cobri meus olhos com as mãos.
─ Ela fez algum mal a você que eu também fiz? ─ Liz pareceu preocupada.
─ Não, pelo contrário. ─ Abri um sorriso de canto. ─ Eu só tenho medo que depois, sei lá, tudo dê errado.
─ Não vai acabar errado ─ garantiu Liz.
─ Por quê?
─ Porque eu também te amo.
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