Amor de Flor
15 Quinze
Notas iniciais
O sábado não demorou em chegar, foram lindos e preguiçosos dias que o antecederam e que fizeram estar mais segura com relação a Liz. Nós já estávamos inseparáveis e isto era tão bom para mim. Eu sempre ser correspondida em algo, amar alguém que me amasse e enfim isto aconteceu na minha vida.
Eu estava esperando Liz chegar aqui em casa, enquanto eu me arrumava. Escolhi uma calça jeans juntamente a uma blusa de malha estampada e uma jaqueta jeans para me proteger do frio noturno. Calço o primeiro tênis que eu encontro e me esbarro com minha mãe ao sair do quarto.
— Liz está te esperando lá na sala, com a Andressa — disse minha mãe. — Seu pai liberou a moto. — Ela me estendeu uma chave. — Só porque a sorveteria é aqui na vizinhança, não vá mais longe que isso.
Abri um sorriso em resposta e fui direto onde estava minha flor-de-lis.
Deparo-me com Andressa no colo de Liz, que estava linda em um vestido arroxeado e uma sapatilha preta. Seus olhos encontraram os meus e ela sorriu, assim como Andressa que já havia a adotado como irmã.
— Está na hora de ir — cantarolou Liz, fazendo Andressa saltar do seu colo para o chão.
— Vão logo porque eu vou assistir filme com a mamãe — disse Andressa. — É só para mocinha, vocês não vêm!
— Então vamos logo — falei a Liz.
Eu aprendia a pilotar uma moto desde os sete anos, pois nesta época, eu tinha meu pai mais perto de mim. Hoje em dia, quando ele vinha em casa eu ainda pilotava com ele pela praça aqui perto ou pela praia, algumas vezes sozinha. E hoje eu levaria a Liz comigo.
— Você sabe pilotar? — perguntou a mulata.
— Por que a pergunta?
— Sei lá — disse-me.
Eu montei e a esperei vir atrás de mim.
— Segure, minha Liz — pedi quando percebi que ela já havia colocado o capacete.
Senti a mão de Liz apertar minha cintura e por mais que aquilo fosse forte, foi maravilhosamente perfeito. Uma sensação que me dava cada vez mais a segurança de que ela daria certo, de que nós faríamos um ótimo casal.
O vento tocou meus dedos, os gelando automaticamente. Meu sorriso sob o capacete me fez tratar da estrada como algo tão automático. Chegamos na sorveteria depois de poucos minutos, estacionei a moto e entrei juntamente a Liz.
Era um local bem organizado, fazendo-me pensar que a família de Heiwa tinha uma condição financeira bem favorável. Liz sentou-se logo em uma das mesas perto da vidraça, onde nós podíamos ver um pequeno campo que prescindia uma praia maravilhosa.
— Eu vou falar com Heiwa.
Liz revirou os olhos em resposta.
Eu avistei Heiwa arrumando instrumentos juntamente com mais duas pessoas em uma parte mais alta do chão, aparentemente feita para essas apresentações ao vivo. Como sempre, Heiwa vestia roupas masculinas, um casaco de couro sobrepondo uma camiseta branca folgada juntamente a uma calça jeans.
— Heiwa — a chamei.
— Oi... — Ela se virou a mim, surpreendendo-se com minha presença. — Que bom que você veio!
— Ah, sim — respondi. — Obrigada, eu vim com a Liz e convidei mais dois amigos.
—Então eu te peço mil obrigadas, quanto mais gente melhor. — Ela me agarrou em um abraço. — Obrigada mesmo, gata.
— Não precisa agradecer.
— Ah, preciso sim — disse Heiwa. — O que eu fico devendo a você?
Sim, naquele momento eu tive plena certeza de que ela estava se jogando para cima de mim, e que Liz estava vendo tudo e ficaria irritada. Mas eu tenho uma ótima desculpa que tornaria uma sugestão, praticamente. A Liz não pode ter ciúmes, a menos que eu seja namorada dela. Algo que me vem sempre a mente. Talvez hoje eu consiga concretizar o pedido, já que amanhã termina nossa semana juntas.
— Nada — respondi a ela. — Nadinha mesmo.
Então eu saí em direção a minha Liz que estava sentada com Felipe e Mar quais aparentemente haviam chegado quando eu estava cumprimentando Heiwa.
— Um encontro de casais — falei. — Não é Liz?
— Me deixe! — pediu a garota.
— Ela está com ciúmes — expliquei para Mar e Felipe. — Parece que não sabe que ela é a única garota por quem eu me apaixono todos os dias.
— Que fofa! — disse Mar. — Por que o ciúme?
— Não é ciúme! — queixou-se Liz. — É porque eu não gosto dessa tal de “Relva”.
— Heiwa — consertei.
— Que nome horroroso — disse Felipe.
— Nenhum nome é horroroso, só é diferente — disse Mar.
— Concordo com a Mar, até porquê o nome da minha filha será bem diferente: Ohana Lira — falei.
— Você vai deixar, Liz? — perguntou Felipe.
— Nem vou responder — berrou a mulata.
— Quero ter uma filha para chamar de “Mar Júnior”
— Que merda! — exclamei. — Que barbaridade.
— “Marcela Júnior” no caso — falou Felipe.
— Há anos que eu ignorei este “cela” do meu nome. — Mar arrumou os cabelos azuis. — Eu sou um mar, como meu cabelo.
— Se eu excluir letras do meu nome, eu fico sem — falou Liz.
— Sabe uma coisa que eu acho? Que nós deveríamos comer. — Eu levantei.
— Vamos lá — concordou Felipe.
Fizemos o pedido dos nossos almejados sorvetes quando Heiwa e sua banda começaram com os primeiro acordes.
***
A voz da Heiwa era algo revolucionário, não digo de algo extraordinário ou surpreendente, mas sua canção pedia mudanças. Ela deixada transparecer uma indignação quase viva que eu também senti, e aprovei.
Quando menos percebi a música acabou e Liz não estava mais perto de mim. Eu não sei o porquê, mas eu estava caminhando em direção a Heiwa, ansiando para falar algo àquela garota.
— Você cantou muito bem — disse.
— Obrigada, linda — respondeu-me. — Você vai voltar?
— Sim, talvez... com a Liz. — Apontei para a mulata que sentava a mesa conversando com Mar e Felipe.
— Já que você veio com sua turma, acho mais que justo que você vá com minha banda e eu à praça para tocarmos violão.
— Parece uma boa ideia — falei. — Vou falar com eles.
— Tudo bem — respondeu. — Daqui a cinco minutos nós vamos.
Liz me entregou um sorriso e eu a correspondi. Talvez na praça, a situação poderia tornar-se provável para um pedido em namoro... Seria romanticamente perfeito a mim atiçando minha confiança e à a felicidade da minha flor-de-lis.
— Eu não vou poder ir — disse Felipe.
— Verdade, nós vamos ir a uma estreia no cinema.
— Agora? — perguntou Liz.
— Agorinha, nove horas começa. — Mar levantou-se arrumando os cabelos azuis.
Liz também levantou e segurou minha mão. Era ótimo sentir tudo aquilo, pois ser correspondida tornou-se tanta novidade para mim. Uma mistura nítida, heterogênea, mas que tinha um equilíbrio perfeito. Como o Yin-yang.
— Eu vou com você — disse Liz.
— É este o meu plano — respondi.
***
Heiwa estendeu uma toalha sobre a grama da praça bem iluminada com os postes antigos quais bem arquitetados. Sentei ao lado de Liz, que por usar vestido deixou suas coxas evidentes, fazendo-me perdida naquela visão excitante.
— Este é o Lucas. — Heiwa indicou ao integrante mais alto, com uma barriguinha um pouco evidente, de cabelos louros e com orelhas ornamentadas com vários brincos e alargadores. Ele era bonito. — Este é o Fernando. — O integrante baixinho, de corpo exercitado, cabelos encaracolados no ombro e raspado aos lados e dono de uma cor de pele avermelhada, como a dos índios.
— Eu sou a Maya — apresentei-me aos dois. — E esta é a Liz.
— Como vocês se conheceram? — perguntou Fernando a nós duas. Pensou-nos namoradas obviamente.
— Elas não são namoradas — disse Heiwa por nós.
— Mas mudando de assunto — salvou-me Lucas. — Eu trouxe uma coisinha.
Era bebida alcoólica, cachaça das bravas. Eu sei que eu ainda vou completar apenas quinze anos, mas pense em uma pessoa completamente alcoolizada, treinando para a vida de autora suicida diagnosticada com overdose... então esta pessoa sou eu, obviamente, e eu acho que bebi um pouco demais.
— Ela está bêbada — disse Liz por fim.
— Ninguém fica bêbada com um copinho só — disse Fernando.
— Mas ela tomou uns seis desse seu “copinho só”. — Liz ria muito.
— Eu amo vocês. — Me joguei aos braços de Liz. — Eu amo essa mulher, mas ela não me ama. — Agarrei sua cintura. — Eu fui à casa dela...
Minha consciência trabalhava em algo que me fizesse calar a boca, mas era o álcool que falava por mim naquele momento.
— Ela veio de moto — falou Liz. — Alguém pilota?
— Eu piloto — disse Fernando.
— Lucas pode levá-la de carro, Fernando nos segue com a moto e depois nós te levamos, Liz.
— Combinado, obrigada a todos vocês. — Liz levantou, erguendo-me logo depois.
— Eu te amo tanto — sussurrava a Liz.
— Eu sei... eu sei — respondia.
— Ela realmente está mal — comentou Fernando enquanto observava a situação.
Eu estava cambaleando presa à mão de Liz a caminho do carro de Lucas, que havia nos chamado segundo antes, quando Liz encontrou um amiguinho dela. O mesmo que estava no ônibus e olhou profundamente a ela, o mesmo que conversava com ela na frente de onde ela faz o curso.
Eu não escutei bem a conversa deles. Eram muitos risinhos e eu ria também, mas abraçada a Liz, com a cabeça afundada no seu peito. Então resolvi encarar a figura perto da minha flor-de-lis.
— Espere... eu me lembro desta menina — disse a Liz. Estava falando sobre mim?
— Eu a vi na frente da sua casa algumas vezes.
— Você deve está errado, ela só foi lá uma vez, com o amigo dela. — Liz sorriu em resposta,
— Mentira! — exclamei. — Eu invadi sua casa duas vezes.
Cale a boca, Flor. Fique quietinha.
— Ela não sabe o que fala, está bêbada — disse Liz ao rapaz.
— Não, eu estou falando sério... Eu peguei até seu chaveirinho. — Cambaleei sem o apoio de Liz e me segurei no carro de Lucas.
— Meu chaveiro? — Liz perguntou. — Ele sumiu mesmo...
— Eu não estou entendo — disse o garoto.
— Não seja burro — falei entorpecida. — Eu entrei na casa dela, me escondi no cesto de coisas... sei lá... de roupas. — Gargalhei.
— Você não pode estar falando sério — disse Liz.
— Nunca falei tão sério. — Gargalhei. — Nem parece! — Mais risadas. — Você vai ficar zangada?
— Claro! — Liz gritou.
— O que está acontecendo? — perguntou Lucas. — Por que toda esta demora?
— Quer que eu chame a polícia? — perguntou o amigo de Liz a ela.
— Vai chamar o quê, rapaz? — aumentei o tom de voz. — Você está ficando idiota? — Cerrei os punhos e depois só vi suas mãos cobrindo a bochecha.
— Acalme-se, moleca. — Lucas segurou meus braços e tudo depois disso foi rápido demais.
Eu me soltei dos braços do louro, e voei no menino que estava com a bochecha machucada.
— Eu vou chamar a polícia! — gritou. — Não chegue perto de mim.
— Você é um idiota! — gritei.
— Segure essa menina! — Liz disse.
E quando eu prestei atenção no quão cinza era minha visão, eu já estava encarando a parede da delegacia municipal.
***
—É uma baixinha danada — argumentava uma voz que eu bem conhecia... a do meu pai. — O menino está com a mandíbula quebrada. — Ouvi risos. — A polícia nunca viu algo parecido, normalmente é a mulher que apanha.
— Isso não tem graça! — disse minha mãe. — Ainda tem o que Liz nos disse.
— Invasão e agressão... — disse meu pai. — Nós a criamos bem, não?
Ouvi passos pesados em direção a mim, uma silhueta bem equipada e fardada, um policial que ergueu meu queixo e examinou meus olhos mortos.
— Então está é a garotinha valentona — disse. — Sua sorte é que não ouve denuncias algumas. A garota gostava muito de você para prestar denuncias e não teria provas o suficiente e o pai do garoto agredido era machista o suficiente para não admitir que o filho apanhasse de uma menina, nada vai sair desta delegacia... Mas me ouça, você não é esse tipo de pessoa, e nem quer ser assim.
— Eu estou com dor de cabeça — foi o que consegui dizer.
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