Notas iniciais
Eu pensei que demoraria, mas o domingo deu-me folga o suficiente. Título em latim, significa "dez" e se pronuncia quase como "détchême"

Minha mãe sorriu ao vê-me de manhã com um vestido. Meus lábios não estavam pincelados e eu pude usar minha coroa de flores mais exagerada, a de rosas brancas.

— Mãe, eu estou esperando alguém — falei-lhe.

— Você sabe que eu não gosto de visitas quando eu não estou em casa.

— Não se preocupe, é só um conversa civilizada com minha amiga. — Eu acertei a coroa de flores sobre meu cabelo.

— Tudo bem, querida. — Minha mãe agarrou a chave do carro sobre a mesa na cozinha. — Quando eu voltar, me apresente esta tal amiga.

— Tentarei fazê-la esperar um pouco, quero que ela te conheça e conheça a Andressa também.

— Boa sorte com a conversa civilizada — disse minha mãe sorrindo. — Eu volto daqui a uma hora.

— Tudo bem. — A acompanhei até a porta. — Eu te amo.

— Também te amo, minha flor.

Liz não cegou às sete em ponto, e eu realmente não esperava isto, mas eu queria, mais do que nunca, vê-la. Eu já sentia que estava dependente daquela luz que ela me fornecia.

Havia também aquele beijo, algo que eu nunca iria esquecer, por mais que eu tentasse e agredisse minha mente colorida. Seus lábios acobreados trilhando um caminho à minha boca vermelha.

Eu queria tanto sustentar aquele sabor cítrico e adocicado em mim que ele se foi. E agora eu estava só, mais uma vez. Mas eu não podia reclamar ou xingar minha realidade universal, pois desde o começo eu já tinha falado... que eu iria me machucar novamente.

Foi então que a campainha tocou.

Abri a porta e voltei a ver a silhueta mulata de Liz desenhada atrás das grades do portão. Ela não sorria, estava com os braços cruzados dentro de um casaco largo e no seu rosto... ah, aquilo cortou meu coração em mil pedaços... seu côncavo enxado ganhou uma tonalidade arroxeada.

— Liz — falei preocupada enquanto destrancada freneticamente o cadeado. — O que aconteceu?

Assim que o portão foi aberto, Liz saltou no meu pescoço, me envolvendo em um abraço e fazendo um barulho de choro. Era uma tortura vê-la chorando, sem aquele sorriso tão incrível...

— Meu padrasto — começou Liz. — Eu sabia que isto iria acontecer!

Segurei sua mão, levei-a até dentro de casa, onde o ar mais quentinho permitiu que ela tirasse o casaco largo e revelasse mais um hematoma no braço, a marca de quatro dedos, quase na altura do ombro.

— Você quer água? — perguntei. Depois me arrependendo, pois queria oferecer algo melhor ao invés de água.

Liz assentiu em resposta.

Trouxe para Liz um copo com água gelada. Ela o aceitou e deu o primeiro gole, seu sorriso veio logo depois que metade da água já havia ido embora. Como ela ainda conseguia sorrir?

— Meu padrasto me bateu muito — falou-me desfazendo o sorriso. — Minha mãe o deixou fazer isto...

Eu a abracei apenas com um sentimento tangível de preocupação. Seus cachos eram quase como uma almofada para mim, naquele momento, e eu simplesmente amei o cheiro que vinha dos seus fios... Eu entorpecida com a minha garota utopia, sendo que ela estava ali para falar de algo que merecia toda a minha atenção.

— Eles te bateram por causa do nosso encontro? — perguntei preocupada.

— Não — disse Liz. — Eu... eu afrontei minha mãe ontem. Ela falou do meu pai e... ela sabe que eu não gosto disso.

— Por que se sentiu tão ofendida a ponto de tratar sua mãe assim?

— Por que meu pai é gay, Flor! — disse Liz em uma só vez. — Minha mãe tem uma raiva tremenda da doença que ela chama de homossexualismo. Ainda por cima, casou-se com um tipo de religioso extremista que volta sempre a falar e refalar do meu pai o tempo todo. Mas, Maya... eu amo tanto meu pai.

— Acalme-se, minha flor-de-lis. Vai ficar tudo bem. — Eu acolhi Liz o rosto de Liz no meu colo, acariciando suas bochechas bronzeadas.

— Entendeu o meu medo agora? — perguntou a mim. — Entende o porquê de eu não querer me apaixonar por você?

— Mas você não tinha contato com o mundo LGBT antes de mim? — perguntei. — Não é algo que você se identificou antes mesmo de saber da minha existência?

— Não — admitiu Liz. — Isto só me encrencou quando minha mãe achou as cartas. Eu admito que eu sempre me achei tão heterossexual.

— Então quando sua mãe reclamou com você por causa das cartas, caiu a ficha de que era uma menina gostando de você?

— Eu passei a ver as cartas de outro modo, acabei por ver que eu me casaria com o autor das palavras, mas então eu sempre lembrava que o autor era e sempre foi uma garota.

— Então você gosta do autor das palavras, mas não gosta de mim?

— Eu não gosto do fato de não poder gostar de você, Maya — disse Liz. — Porque eu realmente queria repetir milhões de vezes o momento de ontem.

— E você pode repetir.

— Não, eu não posso — respondeu. — Não com minha mãe me esperando, pronta para esfregar na minha cara que meu pai morreu por gostar de garotos, por me abandonar. Ela generaliza os gays, acha que todos farão o que meu pai fez. Ela acha que seu eu gostar de você, eu a abandonarei.

— Seu pai...morreu?

— Há seis anos — explicou Liz. — Ele morreu de pneumonia, seu sistema imunológico estava uma merda depois de ter sido infectado com AIDS.

— Por isso o ódio da sua mãe? — perguntei. — Ele transmitiu o vírus a ela?

— Meu pai nunca trairia a minha mãe, ele só se assumiu, quando eu era pequena, e foi viver a vida dele.

— E não está perto de você viver sua própria vida — tentei mudar de assunto. — Vai poder morar sozinha, já tem dezessete anos.

— Bem, você está certa — falou Liz. — Eu gosto muito de você, Flor.

— Eu sei disso — brinquei. — Você me ama e não quer admitir.

— Eu terei de te amar mesmo, até porque é você que vai cuidar disso aqui. — Liz apontou para o olho e logo depois o ombro.

— Ah, minha flor-de-lis quer cuidados então... — falei. — Cuidados meus.

— Se eu fosse desprovida de melanina já teria corado. — Liz fechou os olhos para receber o carinho.

— Você não vai correr mais depois que a gente se beijar? — perguntei.

— Não sei, Flor — disse-me Liz. — Eu prefiro não pensar nisso.

— Você poderia ficar aqui em casa esta noite, por causa da sua mãe e seu padrasto. Minha irmãzinha está vindo para cá, ela amará ganhar uma nova amiguinha.

— É uma ótima ideia, mas não se esqueça de que eu ainda preciso falar com minha mãe.

— Você “já tem dezessete anos” — imitei sua voz. — Mas não se preocupe, minha mãe resolverá isto.