Amor de Flor
11 Jedanaest
Notas iniciais
A chegada da minha mãe a porta me fez muito alegre. Ela sorriu ao ver-me acariciar o rosto de Liz, que se surpreendeu com o sorriso da minha mãe e levantou-se rapidamente.
— Voltei, minha flor — falou minha mãe.
A primeira coisa que eu vi foi uma criaturinha escondida nas pernas da minha mãe, era minha irmãzinha, uma pequena garota com cinco anos de idade e um cabelo castanho claro bem lisinho.
Corri atrás da figura em um pulo e nos abraçamos fervorosamente a ponto de nos jogar no chão e rolar como se tivéssemos a mesma idade. Ela sorria como sempre, esbanjando as janelinhas, dois dentes faltando que lhe faziam, para mim, mais bonita.
— Elas se amam demais — escutei minha mãe falar para Liz. — Flor é uma ótima irmã.
— Quanto tempo elas ficam separadas? — perguntou Liz à minha mãe.
— Não deixo ficarem longe uma da outra nem por uma semana, mas esses dias eu trabalhei nos finais de semana e elas tiveram de se afastar mais.
Quando eu já me levantava, a luz do sol foi coberto por um corpo alto encostado na porta. Era meu pai. Corri em direção a ele e o abracei com força. Senti-me culpada por ter aquela família quase perfeita, enquanto a Liz estava tão machucada devido seu relacionamento familiar.
Depois de ganhar um beijo no topo da minha cabeça o meu pai, fui até Liz, que já parecia estar sem-jeito perto de tanta gente que não conhecia. Eu sorri para ela e ganhei um sorriso de volta. Eu amava aquele sorriso.
— Esta é a Liz — falei.
— Sua namorada? — perguntou meu pai fazendo Liz sorrir bastante.
— Quem dera! — respondi.
— Sua filha é uma comédia — indagou Liz. — Ela quer dizer que somos ótimas amigas.
Eu havia me assumido este ano. As coisas foram difíceis nos primeiros dias, minha mãe chorava bastante por ter medo de ver sua filha sofrer algum tipo de preconceito, mas aos poucos ela foi conhecendo meus amigos, as pessoas com quem eu mantinha contato. Aos poucos ela se acalmou, principalmente depois d’eu prometer que daria muitos netinhos a ela.
— Eu vou preparar o almoço logo, Liz tem que ir a escola. — Minha mãe correu à cozinha.
— Acalme-se, mãe — disse. — Não são nem nove horas.
— Mas o que eu vou fazer hoje é demorado!
— Então tá — falei, provocando mais um sorriso em Liz.
— Liz você vai almoçar com a gente, não? — perguntou minha mãe à mulata.
— Se você negar, ela entra em depressão — digo.
— Neste caso, eu fico então — decidiu Liz.
Carreguei Liz e Andressa ao meu quarto. Decidimos brincar de algo e acabamos por deixar Andressa bagunçar todo meu guarda-roupa em sua brincadeira de estilista.
Quando Andressa já tinha familiarizado com Liz a ponto de me fazer excluída da brincadeira, eu saí para buscar um lanche para nós três e comemos muito. Quando percebi, meu quarto era uma mistura de roupas amontoadas com pacotes vazios de biscoitos.
Eu e Liz começamos a recolher tudo. Começamos pelas roupas, então eu percebi que Liz tinha muito mais habilidade com isto do que eu. Sorria sempre que ela dobrava algumas peças em dez segundos, enquanto eu me emaranhava com uma simples blusa.
— Está vendo, a gente se completa! — falei.
— Neste caso você se completa com qualquer um que saiba dobrar roupas.
— Ah! Você me ama!
— Cale a boca. — Liz me empurrou com o quadril, brincando. — Preciso ir ao banheiro, onde fica?
Apontei para ela onde ficava o banheiro e ela saiu do quarto. Minha arrumação ficou bem mais lenta sem ela, mas eu já estava acabando. Andressa brincava com as últimas peças desdobradas e parecia bem distraída.
— Papai me falou que quando você ama uma pessoa, você se casa com ela — disse Andressa, me surpreendendo. — Você quer se casar com a Liz?
—Ah, que menina esperta. — Fui até ela e a enchi de cócegas.
— Você quer se casar com ela — cantarolava Andressa entre os sorrisos.
— Cale a boca — pedi já avermelhada.
— Você quer se casar com a Liz! — continuou a cantarolar. — Você quer se casar com a Li... — Eu e Andressa nos deparamos com a mulata nos olhando com os olhos semicerrados.
— Ela quer se casar com você! — concluiu minha irmã, diretamente para Liz.
Liz sorriu em resposta.
— Eu não coloquei esta ideia na cabeça dela — admiti.
— Como se coloca uma ideia na cabeça de alguém? — perguntou Andressa, nos obrigando a mudar de assunto para poder explicá-la.
Logo veio a hora do almoço, eu já estava pronta, fardada para mais um dia de aula. A diferença é que eu iria com Liz, que coube perfeitamente em um vestido meu. Ela não precisava de farda para fazer as aulas de Literatura Brasileira.
***
— Cor favorita? — perguntei enquanto caminhávamos em direção ao ponto.
— Verde — respondeu Liz. — E você?
— Azul.
— Primeiro beijo?
— Doze anos, e você?
— Catorze — respondeu. — Com um garoto?
Eu balancei a cabeça negativamente esperando que ela comentasse algo, mas não foi o que aconteceu.
— Faculdade?
— Vou começar no próximo ano, farei Filosofia.
— Sério? — Arregalei os olhos.
— Sim, seríssimo e você?
— Eu penso em fazer História, mas não tenho certeza, sabe...
— A única certeza da vida é a morte. — Liz me olhou.
— Ah, que lúgubre — comentei.
— É, mas é verdade — ela concordou. — O que você acha da morte?
Eu a olhei incrédula. Que tipo de pergunta era esta?
— É sério. — Ela balançou meu braço. — Fale!
— Eu realmente não sei. Poderíamos viver lá no céu, montados em unicórnios com os anjos cantando toda hora e pessoas com roupas brancas e limpas, sem precisar de alvejante. Eu não sei, realmente, mas deve ser mais legal do que a vida.
— Ou pode ser outra vida — completou Liz.
— Ou a gente pode só morrer mesmo. — Eu sentei no banco da parada de ônibus.
— Ou pode ser como no videogame, onde tem fases, níveis e tudo mais.
— Sabe, eu prefiro acreditar nos unicórnios e roupas brancas — suspirei.
— Você tem uma mente confusa, Maya — ela disse. — Deveríamos conversar...
— Ei! — escutei alguém dizer, interrompendo Liz.
Olhei para quem cobria a luz do sol e não acreditei na silhueta larga, com roupas masculinas, cabelos curtíssimos com laterais raspadas e um sorriso largo dirigido apenas para mim, ignorando a minha flor-de-lis.
— Ei — respondi. — Que engraçado de achar de novo.
— Tecnicamente fui eu quem te achei — disse a menina.
— Ah... bem... é. — Cocei o topo da cabeça. — Eu sou a Maya, esta é a Liz.
— Sua namorada? — perguntou a andrógina.
Deixarei Liz responder.
— Não, somos amigas — disse Liz.
— Ah, eu só pensei que...
— Tudo bem — falei, um pouco magoada devido a resposta fria de Liz.
— Bem, eu meu nome é Rêevá — falou-nos.
— Rêevá? —perguntou Liz tirando as palavras da minha boca.
— H-E-I-W-A, mas se pronuncia Rêevá — explicou-nos.
— Interessante — falou Liz com uma expressão esquisita.
— Bem — falou Heiwa —, eu tenho uma banda pequena e vamos tocar no aniversário de três anos da sorveteria daqui, que meu pai é dono. Eu vi vocês duas lá um dia desses, por isso pensei que eram... namoradas.
— Ah, sim. Nós fomos realmente lá — comentou Liz ainda com a expressão estranha, sem sorriso. — Mas, mudando de assunto, a que horas será a apresentação?
— Neste sábado, às oito horas. Conto com vocês. E... Maya, apareça lá mais vezes. — Heiwa deu uma piscadela para mim e atravessou a rua.
— Como ela te achou? — perguntou Liz depois de um segundos de silêncio.
— Sei lá — respondi. — Por quê?
— Nada, só acho estranho alguém que você nem mesmo conhece começar a falar com você de repente.
— A gente já tinha se conhecido, bem na verdade...eu tombei nela.
—Então ela acha que pode interromper nossa conversa por ter tombado em você? — Liz parecia realmente irritada.
Eu ergui os ombros em resposta.
— E ela ainda deu em cima de você — comentou Liz. — Tipo, ela te pediu para ir na casa dela.
— Na sorveteria do pai dela — consertei.
— Não é a mesma coisa?
— Não é, Liz. — Dei uma risadinha. — Você não está com ciúmes, hein?
— Não estou, tá? — disse. — Eu só acho que se ela quer ganhar respeito como homossexual ela não deveria cantar as pessoas por aí.
— Liz, você está com ciú...
— Olhe, o ônibus! — interrompeu-me. — Vamos lá!
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