Notas iniciais
Título em Armênio, significa "nove" e se pronuncia, mais ou menos, "inaé". Bjs

Vesti uma calça jeans folgada, uma blusa-social. Atei meu cabelo em um rabo de cavalo e sorri para o espelho. Minha franja, reta, me dava um ar mais infantil, por isso pincelei meus lábios com um tom vermelho forte e fiquei satisfeita com o resultado. Por fim, completei meu visual com suspensórios.

— Você parece um homem — disse minha mãe.

— É, eu sei.

— Mas você prometeu — falou-me.

— É só por hoje, mãe. É uma garota especial.

—Entendo — disse-me. — Mas prometa-me que amanhã não vai estar assim, sua irmã vem nos visitar...com o seu pai.

Meus pais eram divorciados. Minha mãe optou por essa ruptura. Eu concordei com tudo, pois já era grandinha, mas minha irmã mais nova ainda sofre bastante com isso, algo que é relativamente recente, dois anos.

Minha irmã não vem muito aqui. Meu pai não gosta do bairro onde moramos, do exemplo que eu dou a ela e nem do ar que é-se respirado nesta casa. Mas eu não reclamo, às vezes eu até o entendo. Eu entendo que ele não quer me ver, nem ver minha mãe. Mas as famílias modernas são assim, eu me considero moderna.

— Tudo bem, mãe — falei. — Quando Andressa chegar, eu estarei usando um vestido.

Minha mãe sorriu em resposta e saí, antes me despedindo com um beijo em sua bochecha.

Quando cheguei a casa de Liz, sua mãe me fuzilou com os olhos. Ela não me mandou entrar. Apenas franziu o cenho me olhando de cima a baixo.

— Você é a amiga que Liz falou?

— É... sim, sou eu — respondi.

— É assim que você se veste sempre?

— Quê? — Enrubesci.

— Olha, vou abrir logo o jogo. Minha filha não vai ser lésbica por causa de gente como você. Eu quero ter netos e ela quer um marido.

— Sobre o quê você está falando? — espantei-me.

— Não se faça de sonsa, você está dando em cima da minha filha. Você acha que eu não sei das cartas? Saiba que minha filha não é lésbica!

— Se você tem tanta certeza que ela procura um homem, por que está falando a mim?

— Para você ficar atenta. Minha filha não é sapatão.

— Senhora, eu sei disso — falei-lhe. — Eu já falei também, a Liz é minha amiga.

—Estou com os olhos colados em você — finalizou a mãe de Liz.

— Mãe, é a Maya? — escutei a voz de Liz longínqua. — Peça para ela entrar.

— Bem, nossa conversa acabou — sussurrou para mim.

— Tudo bem, obrigada.— Eu entrei na casa.

Dei duas batidinhas na porta do quarto de Liz e fui atendida imediatamente. Ela me recebeu com um sorriso. Apenas vi seus cabelos cacheados ainda molhados e seu corpo coberto por uma toalha.

— Estou bastante atrasada, não? — disse-me enquanto abria a porta.

— Sim você está. — Eu entrei no quarto me deparando com uma pequena pilha de roupas sobre a cama.

— Não sei o que vestir. Parece óbvio não?

— Para mim, do jeito que você está já é perfeita!

— Engraçadinha. — Liz segurou firme a toalha que cobria seu corpo. — Pegue este vestido aí, o verde. Vou usar este.

Ela caminhou nas pontas dos pés, com os cachos balançando. Não tem como eu explicar-lhes como esta imagem é incrível, eu só podia ficar ali pensando no jeito rude como ela me tratou ontem e na repetição das ofensas feitas agora por sua mãe. Por quê?

Quando eu voltei minha atenção a Liz novamente, ela já estava secando o cabelo. Eu me levantei e caminhei até onde ela se arrumava. Vi um sorriso desenhar-se em sua face, eu percebi que ela sorria para tudo.

— Minha mãe não falou nada sobre sua roupa? — ela perguntou.

— Sim, perguntou.

— E o que eu você disse?

— Que eu seria o mais perto do “marido” que você quer.

— Marido? — Liz voltou a rir. — Eu sei que você não falou isso, senão minha mãe não te deixaria entrar.

— Tá, mas me deu uma vontade. — Eu sorri tanto quanto Liz. — Ela me odeia.

— Sim, eu não duvido nada. — Ela desligou o difusor com qual secava o cabelo. — Mesmo se fosse um garota a me convidar para sair, minha mãe continuaria puta da vida em, como ela diz, "ver sua única garotinha crescer".

— Vamos lá.

***

— Você falou que o filme era bom — falou-me Liz.

— Ah, se você quiser a gente pode compensar.

— Maya! — Ela sorriu novamente.

— O quê? Uma semana passa rápido, sabe? — Eu a parei colocando meus braços ao redor de sua cintura.

— O que você quer fazer? — Ela me perguntou.

— O que você quiser! Que tal um sorvete?

— Aceito o sorvete se você me fizer uma poesia — disse Liz.

— Ótimo, agora vem cá. — Eu puxei Liz em um abraço.

— Você tá se aproveitando demais. — Ela sussurrou em meu ouvido.

— Fique quieta, lá vai a poesia. — Eu beijei sua bochecha.

— Nem nos montes encontrarei fuga, nem no sol, nem na chuva. Você é tudo o que me perturba, me traz azar e me faz sortuda.

— Isto tá confuso.

— Fique quietinha, eu estou abrindo meus sentimentos. — Eu a apertei mais no abraço.

— Você é tudo o que eu procuro, me deixando no escuro. Eu acredito em um mundo, onde o que eu vejo é noturno.

Liz abriu um sorriso, pareceu gostar dos versos improvisados.

— Por que você acha que precisa de uma fuga? — perguntou.

— Não é isto que quer dizer. O verdadeiro significado é que eu não consigo fugir da sua imagem. Como se você estivesse presente sempre.

— Interessante — falou enquanto eu voltava a beijar sua bochecha.

— E por que eu te perturbo? Por que te trago azar?

— Você me perturba, pois está quase sempre na minha mente e... me traz azar, pois eu me vejo novamente gostando de alguém que é heterossexual. Mas eu me sinto feliz, por isso há a sorte.

— Ah, não fique assim — disse Liz.

Eu fiz beicinho.

— Você parece uma criança assim — reparou Liz. — Uma criança linda até.

— Você me acha linda, hein.

— Nada de desconcentração — falou-me. — Voltemos ao poema.

— Esta parte eu não posso dizer o significado, você mesma vai descobrir.

Ela franziu o cenho.

— Mas o que você está achando de hoje?

— Eu dou nota máxima. Você me alegrou bastante. — Liz foi a primeira a entrar na sorveteria.

— Então eu posso te beijar, não? — perguntei.

— Ah, acho que você merece um beijo.

Eu sorri em resposta.

Sentamos uma ao lado da outra. Liz com um potinho de sorvete de pitanga. Eu, com uma xícara repleta de chantilly que cobria meu bolo-sorvete.

— Você tá com um belo bigode branco — me alertou.

— Ah, obrigada. — Eu a deixei encostar sua cabeça no meu ombro.

— Ainda não sei como você come tanto e continua magra — notou. — Queria ser assim também.

— Você é perfeita — deixei escapar.

Dez segundos, vinte segundos, trinta, quarenta, cinquenta segundos de silêncio. Um beijo.

Os lábios de Liz tocaram os meus, senti o gosto de pitanga dominar o suave sabor de chantilly. Foi um beijo simples, contei trinta segundos e então ela se afastou.

— Droga, por que você faz isso? — perguntou Liz mudando totalmente de expressão. — Por que você me encrenca tanto?

— Isto não é encrenca — eu disse. — Não é nada de ruim se é o que te faz feliz.

— Mas eu não sou lésbica! — gritou. Fiquei constrangida com um e outro olhar dirigido a nós.

— Pelo jeito você é no mínimo bissexual, não há problema algum nisso.

— Há sim, Maya — disse. — É porque você não sabe o que eu passo.

Liz recolheu sua bolsa, levantou-se.

— Eu vou com você.

— Não, não — pediu Liz. — Eu preciso esfriar a cabeça.

— Você tem que lembrar da promessa — falei-lhe.

— Me espere amanhã cedo na sua casa, às sete — ela me disse. — Eu vou tentar te explicar tudo.

Então Liz saiu, deixando-me só.

Eu só a veria sete horas, tenho certeza que o sono não seria meu amigo esta noite.

Notas finais
Eu queria fazer um capítulo maior, mas o colégio me presenteou com uma gincana de merda, que eu tô tentando organizar e eu ainda tive uns milhões de trabalhos para apresentar- que ainda não acabaram- e, como se tudo isso fosse pouco, eu ainda vou começar meu Jovem Aprendiz. Espero que isso não afete as postagens.