Notas iniciais
Queria agradecer aos que acompanham e em especial aos que deixaram comentários nos capitulos anteriores. De verdade, isso me motiva a continuar! Estamos chegando a reta final, talvez apenas mais dois capítulos para terminar essa jornada. Ah, uma dendo aqui porque vai ter uma leve insinuação de mpreg (não sei bem se é essa a denominação no caso de homem-trans, então eu vou adotar assim mesmo) Não vai ser algo que vai ser explorado a fundo, mas será mencionado então já lhes deixo preparados^^

Hyoga foi o primeiro a acordar no dia seguinte, era sábado então a família se dava aquele pequeno luxo de acordar mais tarde. Com um gerente na oficina agora, Milo e Camus se organizavam em casa durante a semana e iam para a oficina mais tarde. No sábado, ambos se davam aquele dia fora de trabalho e apenas assuntos domésticos e momentos com os filhos. Pela porta trancada, o loiro pensou que os pais tinham finalmente feito as pazes. Era o mínimo de alegria que precisava naquele dia.

Depois de fazer a higiene matinal, olhando para seu rosto inchado de tanto chorar e pensando que era um deja-vu, Hyoga foi tratar de fazer um café da manhã para toda a família. Comeria rápido algo para ir até a academia do prédio e só então voltaria para tomar um café da manhã propriamente dito, não era porque estava em frangalhos que deixaria sua rotina de treinos para lá. Agora tudo que tinha era aquela competição amadora e o desejo de ajudar Camus a se livrar de Saga.

Deixaria Ikki e Kagaho para se resolverem sozinhos e bem longe deles. Sabia que não era sua culpa, apesar de ainda não ter certeza de que conscientemente havia se interessado por Li Ang por conta da sua ligação com Ikki. Eles pareciam, o advogado sênior da Elíseos era uma exata cópia mais velha e sem cicatriz do jovem pediatra. Hyoga não acreditava que não tivesse notado. No fundo, ele provavelmente notara, mas resolveu deixar para lá porque sentia-se sozinho e queria pelo menos, algum remendo do seu grande amor.

Com tudo pronto, deixou a mesa posta e vestiu algo confortável para se exercitar. Uma ultima espiada no irmão e três batidas na porta dos pais, Hyoga saiu da cobertura para o térreo onde ficava a academia. Faziam isso todas as manhãs por causa de Krest, era sempre bom ter um adulto supervisionando o garotinho hiperativo e esse adulto geralmente era Camus porque Milo dormia demais. Ao descer para a academia ficou satisfeito por ela estar vazia àquela hora, já tinha seus exercícios pré-estabelecidos por Camus então podia fazer tudo sozinho e foi o que fez, colocando os fones do Ipod e deixando-se imergir nos exercícios e na música por um bom tempo que nem percebeu Shun e Shiryu chegarem junto com outros moradores do condomínio.

– Ei flor da Sibéria! Estou chamando vo- – Shun havia se aproximado do russo para chamar-lhe a atenção já que percebera que Hyoga estava com fones de ouvido fazendo exercícios para as pernas em um dos aparelhos – O que foi isso no seu rosto?!

– Oi Shun! – Hyoga parou o exercício e tirou os fones do ouvido, apenas escutando a pergunta alarmada do amigo e Shiryu se aproximava também.

– Ei russo, você se meteu numa briga ontem? – perguntou o sempre sereno administrador do projeto Medalha de Ouro.

– Mais ou menos... Você não viu seu irmão hoje Shun? – Hyoga esfregou a toalhinha no rosto e na nuca para enxugar o suor que escorria abundante pela hora de exercício.

– Encontrei ele agora pouco no hall, ele e a Esmeralda foram para Laka passar o fim de semana com uns amigos da Esme, – Shun deu de ombros – Por que?

– Fim de semana de casal, hum? – Hyoga sorriu amargo, sentindo aquela compressão no peito voltar de novo – Por que eu não estou surpreso?

– O que foi que aconteceu ontem? – Shun olhou para o amigo mais atentamente, percebendo as olheiras e o olhar triste do russo, ele todo parecia um tanto cabisbaixo e isso lhe fez lembrar de quatro anos atrás – O que foi que aconteceu Hyoga, me conta!

– Acho melhor você conversar com o seu irmão primeiro, o que ele tem para te contar é mais importante. – Hyoga se ergueu e colocou a mão no ombro do melhor amigo – Depois conversamos.

– Hyoga!

– Shun, vamos passar lá depois para conversar com o Hyoga. Seu pai nos convidou para um jantar mais tarde certo? – Hyoga assentiu mesmo que não soubesse direito sobre o jantar – Aí vocês conversam.

Hyoga assentiu e depois foi embora deixando Shun e Shiryu para trás, o primeiro mordia o lábio e tinha o interior se revolvendo de curiosidade e porque não de temeridade? Parecia que algo estava acontecendo de novo e envolvia o irmão e o melhor amigo.

– Acha que eles tiveram uma recaída e o Ikki o dispensou de novo depois? – perguntou ao marido enquanto ambos iam para as esteiras.

– É o que ‘tá parecendo, mas tem mais coisa aí. – Shiryu estalou a língua – Aconteceu outra coisa bem séria! Sério, era só olhar para o Ikki hoje e ver que ele teve uma noite de merda. Aí o Hyoga tá daquele jeito de novo... Por que conversar com o Ikki?

– Sei lá! – Shun mordeu a boca mais uma vez, tentando pensar no que poderia ter acontecido.

Em Laka Ikki estava em meio os amigos de Esmeralda ouvindo a conversa animada e toda a agitação, mas sem realmente prestar a devida atenção, embora conseguisse disfarçar bem ou a esposa não se importava de ter o marido ali taciturno e silencioso apenas bebendo uma cerveja. Ikki era normalmente assim nas reuniões com seus amigos, ela até se admirou dele ter concordado em vir naquele fim de semana. Ele geralmente recusava ultimamente, só era empolgante no inicio do namoro, depois do casamento eles passaram a ter amigos separados. Amamiya se engajava em causas sociais e medicas, tinha seus amigos da faculdade de medicina enquanto Esmeralda saía com a boemia da pesquisa literária e histórica. Mesmo com todas as diferenças eles viviam juntos e funcionou por quatro anos.

Agora não parecia funcionar tanto assim, mas eles levavam tudo na mesma ou pelo menos tentavam. Esmeralda queria acreditar que aquele período na Grécia era apenas passageiro, que Ikki iria perceber que o melhor para eles era alçar voo e terem a vida deles sem paradeiro certo que tinham antes. Que era o melhor para eles, porque ela o amava e mesmo que aparentasse independência, ela era tão dependente do amor dele que doía. Por isso fingiu não notar como ele chegara destruído e sem rumo na noite anterior, que sentira o cheiro de sexo nas roupas dele que ficaram jogadas no chão do banheiro e que não percebeu ele ficar no sofá naquela noite porque queria ficar longe dela, não porque “apagara assim que deitara lá para assistir TV”, como havia dito no café da manhã deles. Ele passara o dia introspectivo e dócil, mas em seus olhos Esmeralda conseguia ver o turbilhão que lhe ia dentro da alma e que o marido não ousava dividir com ela. Talvez porque soubesse que ela não tinha nada para dizer a ele, porque ela não tinha.

Então viajaram para a casa na praia de um casal de amigos dos tempos da faculdade, para fugir de sua própria realidade. Com sorte eles voltariam para casa na segunda e estariam bem de novo, ambos desejavam isso.

Ikki olhou o celular e navegou rapidamente em suas redes sociais. Não havia nada de muito interessante, de alguma forma buscava algo sobre Hyoga, queria saber como o loiro estava, mas não tinha coragem de perguntar nem por mensagem. Seus sentimentos eram confusos desde que o vira naquele corredor com Kagaho, agora era torturante depois do que tiveram na sala de balé e depois daquela briga com o pai... Por falar em pai, Kagaho conseguira seu numero e já ligara algumas vezes e ele não atendera. Não sabia agora se odiava mais o pai por tê-lo abandonado ou por agora ter se apaixonado por Hyoga e ter batido nele. Apenas pedira pelo amor dos deus que Hyoga não falasse com Shun sobre isso até que ele voltasse.

“Que diabos aconteceu entre você e o Hyoga?” foi a mensagem que recebeu do irmão um pouco depois do jantar, quando decidiu se isolar e ir para a varanda da casa beber sozinho. Decidiu ligar para Shun porque tentar explicar aquilo por mensagem seria complicado.

– Eu volto amanhã de manha pra Atenas, passo na sua casa para conversarmos. – disse assim que o outro atendeu – Ele te falou alguma coisa?

– Ele não precisou me contar nada Ikki, é só olhar pro Hyoga pra saber que aconteceu alguma merda! – Shun estava irritado e seria problemático lidar com ele assim, o irmão era um pequeno barriu de pólvora. Quando era mais jovem, era dócil e fofo, mas isso se perdeu com o tempo – O que foi? Me diz logo que vocês transaram e você se arrependeu porque isso é a sua cara.

– Bem por aí. Mas não é só isso, só que isso não é assunto para falar no telefone então quando a gente chegar a gente conversa.

– Ikki... Agora que ele estava melhorando, que ele tinha encontrado uma pessoa... Não é justo com ele, nii-san! Quando você vai admitir que ama aquele loiro e que vocês têm que ficar juntos?!

– É tarde demais Shun... – Ikki fechou os olhos lembrando do pai. Ele dissera que amava o russo, na frente dele e sem se importar com toda a história deles não era? Para Ikki, Kagaho provara que estava disposto a tudo para ficar com o loiro e mesmo que ele, Ikki, se mostrasse arrependido e quisesse ter Hyoga de volta, ele não abriria mão de ficar com o russo.

Ele não hesitara em largar a família para trás e construir a carreira sólida que tinha hoje, pensou Ikki olhando a praia ao longe, então Kagaho Li Ang Sing não era um homem de simplesmente desistir do que queria. Nem pelo filho, talvez por se tratar de Ikki que ele não desistiria, já que conhecia toda a historia deles e pelo visto todo o sofrimento do russo. Ou talvez não, ele não conhecia aquele homem de quem era filho então só podia imaginar o que ele faria.

***

Aiacos atravessou o jardim cumprimentando rapidamente o jardineiro e a governanta de Li Ang Sing que conversavam ali, era fim da tarde de domingo e os serviçais voltavam de sua folga do fim de semana. Nos fins de semana eram os dias em que os sócios da Elíseos se dedicavam a si próprios ou a família, no caso de Radamanthys que era casado com Valentin e tinham filhos, Minos que também era casado com um sociólogo chamado Albáfica. Apenas ele e Kagaho ainda permaneciam solteiros, Kagaho ainda tentou um casamento que acabou de forma desastrosa e Aiacos nunca tivera essa inclinação... Talvez por que no fundo ainda tivesse esperança de passar o resto da vida com aquele cujo o seu coração pertencia desde muito jovem.

Aiacos de Garuda ouvira brevemente a história sobre Hyoga ser apaixonado desde a infância por alguém, Kagaho mesmo havia comentado que esse era o fantasma no armário que impedia o russo de se entregar inteiramente. Entendia isso, ele mesmo tinha esse amor abnegado que guardava consigo por todo aquele tempo então ele compreendia a dificuldade do jovem advogado de deixar tudo para trás. Se para ele que do alto dos seus quarenta anos e todas as experiências amorosas, todo o sofrimento que envolvera ver seu grande amor ter filhos com uma simples garçonete e depois deixá-los para trás, depois disso casar-se novamente com uma fútil e impulsiva publicitaria e então se separar dela para em seguida trazer para sua vida e cama diversos casinhos de duas noites e nunca, mas nunca, notar que ele estava ali o tempo inteiro era difícil deixar para trás aquele amor, imaginava o que seria para aquele jovem romântico e traumatizado por um relacionamento abusivo.

Nesse momento seu amor estava sofrendo, sozinho e trancado desde a sexta a noite quando chegara em casa conforme lhe confidenciara Constance, a governanta francesa que cuidava de Kagaho há vinte anos. Mal tocara em todas as refeições, logo Li Ang que era conhecido pelo seu apetite voraz! Alguma coisa estava errada e por isso Aiacos tinha sido o escolhido para ver o que era, dos sócios e amigos, era o mais próximo do senhor autossuficiente Kagaho. Se fez notar por três batidas na pesada porta de carvalho e logo ouviu um resmungo e “Não preciso de nada”, baixo e seco.

— Sou eu Li, abra a porta. – respondeu ao amigo e logo pode ouvir o barulho da tranca abrindo e o semblante sombrio do outro. Kagaho tinha a barba por fazer e ainda usava o roupão e as roupas de dormir, o que era de se admirar porque era difícil encontrar o amigo descomposto mesmo em casa.

Kagaho voltou à sua escrivaninha onde estavam vários documentos abertos e também o notebook, pelo visto ele trabalhava mesmo tendo o dia livre para fazer o que quisesse notou Aiacos.

— Pensei que você não saía do quarto porque estava cansando aquele moleque que agora é seu submisso. – comentou Aiacos divertido, porém o comentário fez o semblante do outro se fechar ainda mais e ele conteve a língua. Apenas deixou-se sentar na cama e olhar Kagaho voltar à escrivaninha – Não vai me dizer porque você está se sentindo um bosta?

Kagaho não o olhou de imediato, mas sabia que Constance logo daria com a língua nos dentes para sua família e que alguém apareceria, inclusive já esperava que fosse Aiacos dada a relação que eles tinham. E o primo sabia lê-lo como ninguém mais sabia.

— Eu peguei o Hyoga com outro cara ontem. – disse de uma vez, se recostando na poltrona e fitando o teto porque não queria ter de fitar Aiacos e sua expressão triunfante de “eu te avisei”.

— E? Não é como se você estivesse apaixonado por ele, é? É só um moleque vadio que você apanhou, vamos seguir em frente.

— Ele estava com o Ikki, ele é apaixonado por ele desde os doze anos de idade! Eles estavam juntos... – Kagaho passou a mão nos cabelos puxando-os para trás – O Ikki é apaixonado por ele...

— E o que isso t- – Aiacos se interrompeu se erguendo olhando Kagaho com o cenho – O Ikki que você está falando é o seu filho?!

Tudo que Kagaho fez foi assentir e Aiacos ficou boquiaberto sem saber o que dizer, não podia acreditar que o mundo era tão pequeno assim para juntar o amante de Kagaho e o filho que ele não via há muito tempo dessa forma.

— Meu filho Aiacos... Eu amo aquele loiro e agora eu sei por quem ele sempre foi apaixonado! Caralho como eu vou competir com meu próprio filho?! Ele já me odeia o suficiente sem precisar de mais isso! – Kagaho quase gritou a última frase, se levantando da poltrona, batendo os braços ao lado do corpo em um gesto de angustia! Passara aquele final de semana pensando naquilo e não encontrava saída. Tentara diversas vezes ligar para Ikki, outras para Hyoga e não deixava que a ligação se completasse. Queria falar com o filho, dizer que nunca ligou os pontos e que não sabia da ligação entre Ikki e Hyoga, mas não saberia o que dizer quando Ikki perguntasse se lutaria por Hyoga. Para o loiro não ousava ligar por se sentir um miserável por ter batido nele daquele jeito e dito aquelas coisas.

Para Aiacos as palavras de Kagaho eram como ferroadas. Era o desespero que via em Kagaho por estar naquela situação que lhe matava, por sentir que Li Ang estava dizendo a verdade quando dizia que amava aquele moleque russo. Ele nunca dissera que amava ninguém, nenhum dos outros amantes ou a esposa, nem mesmo os filhos então porque agora ele estava desesperado por pensar que poderia perder aquele franguinho? Pensava Aiacos paralisado e ferido.

Iria passar por tudo aquilo de novo? Mas agora seria pior porque Kagaho estava apaixonado e não era por ele.

***

A semana passou-se arrastada para a família Savalas, mesmo que aparentemente tentassem manter uma rotina agradável, o medo de que Saga poderia aparecer deixava todos em alerta. Hyoga estava praticamente um esquife de gelo e recusava-se a conversar sobre si mesmo e sobre Kagaho ou Ikki, estes dois pareciam ter concordado em deixar o loiro sozinho de modo que quase não se viram. Nem mesmo quando Hyoga foi assinar os papéis da demissão na Elíseos, o russo passara apenas no RH e depois na recepção para falar com Eire. Prometeu que sairia com ela no sábado para conversar mais sobre o que tinha acontecido e para se verem mais, ela era uma boa amiga e esperava manter a amizade mesmo não trabalhando mais lá.

Não esperava ver Kagaho no escritório, ao menos uma vez suas preces foram atendidas e ele conseguiu sair do escritório de advocacia sem falar com nenhum dos sócios, mesmo que tivesse curiosidade para saber o que Minos estava fazendo em relação à Saga. O advogado fora jantar com sua família no meio da semana e eles conversaram por horas sobre como poderiam fazer Saga se mostrar e o avanço das investigações, até o caso de Radamanthys fora reaberto por conta da descoberta de várias falcatruas de Saga para burlar as investigações. O grande escritório de advocacia Laskaris estava sofrendo um abalo que repercutia em toda a Grécia e até fora dela, por isso Shaka Evrad tinha voltado e agora estava novamente instalado no apartamento do quarto andar do condomínio deles com o marido. Prometera ajudar no que fosse possível para fazer Saga ser preso definitivamente.

Ter Shaka de volta, mesmo casado estava deixando a família Savalas inquieta. Milo não se tranquilizou ao ver o marido do loiro, porque assim que ele e Camus se viram, o francês parecia de certa forma aliviado de feliz. Não se desgrudavam e Shaka estava sempre por perto, mesmo que com o marido e o ciúme de Milo era indisfarçável.

— Então você casou e agora é um homem sério. – Camus servia vinho ao amigo e ao marido naquela noite de sábado após terem jantado a boa comida do francês – E com um filho! Quem podia adivinhar? Adotado ainda por cima, logo você senhor Evrad.

— Ok, você pode jogar isso na minha cara. – Evrad sorriu de lado tomando o vinho e notando Milo e Camus trocando um sorriso cínico, esperava aquela acusação mesmo em tom de brincadeira em algum momento naquela semana – Acontece, que quando nos apaixonamos nos tornamos aquilo que mais desprezávamos.

— Tolos apaixonados. – Milo sorriu ainda mais.

— Exatamente. Mu adorou Kirk assim que o viu no Tibet e depois de descobrir que o garoto era descendente do povo dele, ficou enlouquecido! É muito difícil fazer um ariano desistir do que quer que seja, quando percebi, ele já estava com os papéis da adoção prontos e assinados por ele. – os três riram divertidos, Shaka deixou que seu olhar pousasse no marido que agora brincava na varanda com Kirk e Krest, ajudando-os a se comunicar porque o menino tibetano não falava grego e Krest só falava russo ou francês, além do grego. Mu Nigapoi adorava crianças, não era à toa que agora esperavam o segundo filho – Ele também estava no meio do processo de transição de sexo, então era difícil para ele se imaginar grávido e só agora depois de um ano e meio de terapia para se aceitar como um homem que pode engravidar, que Mu conseguiu. – olhou para a barriga saliente na bata que o tibetano usava.

Mu tinha vinte quatro anos e há oito estava em processo da mudança de sexo, fora um processo longo por conta da não aceitação do próprio Mu, que mesmo com as necessidades gritantes do seu eu interior e do seu corpo, ainda tentou seguir como uma mulher e até havia casado por imposição dos pais e de si mesmo. Contudo quando decidiu largar o casamento e a casa dos pais, partiu em uma jornada de autoconhecimento até o Tibet e fora lá que conhecera Shaka.

— De todas as pessoas, você era o único que eu nunca imaginaria com um homem trans., Shaka. – Camus disse sincero, Shaka não se ofendeu com o comentário, pelo contrário, até concordou porque ele mesmo nunca imaginou que sua vida poderia dar aquela reviravolta – Você sempre foi muito rígido, mesmo que fosse gay e tudo mais...

— Você tem razão, eu sempre tive alguns próprios preconceitos que me faziam parecer hipócrita, culpa talvez da minha própria dificuldade em aceitar que o mundo não pode ser do jeito que eu quero. Contudo, depois do que aconteceu com você, comigo... Eu percebi que tentar planejar a vida nos mínimos detalhes era perda de tempo. Buda me guarde! Mas veja você, olha como sua vida se transformou com esse grego louco e seus filhos?!

— A vida do Camus melhorou cem por cento, tá legal?! A melhor decisão da minha vida foi ter ajudado o ricaço enguiçado no meio da avenida. – Milo falou presunçoso, apertando o joelho do marido que estava ao seu lado no sofá e revirava os olhos.

— Nem me lembre desse dia, eu só conseguia pensar que você era o mecânico do Xvideos!

Os três voltaram a rir divertidos, relembrar como tudo começou era sempre bom e nostálgico. Parecia que fora há muito tempo, um tempo que foi ao mesmo tempo bom e difícil, mas que agora mudara as vidas deles para sempre.

— ‘Tô saindo! – Hyoga passou pela sala quase correndo com o capacete e a jaqueta de couro apenas acenando para quem estava na sala.

— Ei garoto, onde vai? – Milo ergueu a voz para perguntar, Hyoga estava no vestíbulo já destrancando a porta.

— Sair com a Eire! – e em seguida a porta bateu. Camus e Milo se entreolharam, o grego suspirou frustrado.

— Ele ainda está arredio? – Shaka perguntou.

— Ele mal pára em casa, passa o dia treinando, correndo e na academia, nunca vi ele tão dedicado aos treinos como agora. – foi Camus que respondeu – Depois que saio da oficina eu vou para a Fundação ajuda-lo com os treinos, mas ele só fala quando é algo relacionado ao treino ou a coreografia, já tentei saber sobre como ele está se sentindo sobre tudo... Mas é em vão.

— É uma situação delicada pelo que você me contou e os dois se afastaram, como se tivessem acordado de que iam se resolver primeiro e só então decidir o que fazer com relação à Hyoga. – Shaka comentou olhando o casal de amigos – Ele deve estar tentando superar sozinho. Conhecendo-o como o conheço, ele decidiu não dar trabalho e trancar tudo igual alguém que nós conhecemos certo Milo?

— Nisso, eles dois são iguaizinhos! Tenho vontade de abrir a cabeça dos dois com uma chave de fenda. – Milo estalou a língua contrafeito – Como eu tenho vontade de passar com meu carro por cima do Amamiya!

— Credo! Ainda bem que o Hyoga não é uma garota, se não buda ajudasse ele. – Shaka fez uma careta.

Camus se ergueu e foi verificar o telefone, como esperava havia uma mensagem de Shun perguntando por Hyoga, pelo que o ruivo sabia hoje era a noite de reunião dos antigos membros do Medalha de ouro na casa do Amamiya mais jovem. Hyoga disse que sairia com Eire, então significava que ele não iria a reunião. Já tinha faltado a última por esperar confrontar Ikki e Esmeralda, mas após o encontro no estacionamento Camus imaginou que ele não fizesse mais caso por isso. Agora ocorrera toda aquela situação com Ikki, então provavelmente ele estava evitando um encontro com o moreno.

— O Hyoga não está apenas evitando o Ikki, ele está me evitando também. Ikki também não quer me contar direito o que houve e isso já está me irritando! – Shun disse quando Camus lhe disse que Hyoga havia saído com uma amiga – Eu vou descobrir que merda aconteceu, se você sabe de alguma coisa é melhor me falar Camus.

— Não posso, petit, sinto muito! Esse segredo não é apenas meu e Ikki deve conversar com você primeiro... Se Milo não estivesse tão furioso sobre Hyoga, eu arriscaria pedir a ele para falar com o seu irmão. Ikki sempre escutou o Milo.

— Deus... Enfim, eu passo amanhã aí e tiro essa história a limpo, obrigado Camus! – e Shun desligou, esfregando o rosto e sentindo um peso sombrio no coração ao pensar no irmão e no amigo.

Hyoga foi encontrar Eire na boate em que ela e o garoto que estava saindo, tinham marcado de encontrar ele. Decidira não ir para o encontro do Medalha de ouro porque não estava em um momento pacifico consigo mesmo para conviver com os amigos casados e namorando, agora Eire decidira chamar o garoto que estava saindo naquela semana para ir junto e Hyoga queria se estapear. A loira prometera levar um amigo para o russo e isso significava encrenca em dobro, essas coisas nunca davam certo para ele.

Porém, quando chegou na boate se sentiu um pouco mais animado. Havia muita gente para que se sentisse miserável por estar num encontro às escuras e depois de alguns minutos conversando com Isaak, ele não parecia tão ruim ou talvez fosse a tequila fazendo efeito vai saber. Era duas da manhã quando ele sentiu que podia se considerar uma pessoa satisfeita por ter alguém dançando junto de si e álcool suficiente no corpo para esquecer os problemas. Então estava livre?

Aparentemente não porque conseguia ver Ikki ali? Porque diabos estava vendo Ikki ali no deck superior e... Shiryu? Pandora estava lá com Hilda e Seiya e a namorada. “Que maravilha!” pensou tomando sua dose de vodca, Isaak estava beijando seu pescoço, mas ele não pensava muito nisso porque estava olhando Ikki se debruçar sobre a proteção do deck com uma cerveja na mão.

— Que tal a gente ir embora daqui para outro lugar? – gritou Isaak no seu ouvido, apertando o corpo mais para junto do dele. Hyoga revirou os olhos ao sentir a ereção do outro, devia se sentir feliz não? Ele estava querendo transar, era o máximo que conseguiria ali e poderia aproveitar. Mas sentia-se muito irritado.

Empurrou Isaak para afastá-lo e se virou para o bar a procura de mais bebida, pedindo ao garçom com um sorriso charmoso duas doses de tequila que virou quase ao mesmo tempo. Sentiu a cabeça girar, mas seguiu confiante. Ia ficar ali mais um pouco depois iria embora e não falaria com ninguém porque não estava a fim de ser sociável.

— Então é por isso que você não foi para a reunião? Prefere se embebedar aqui sozinho e se arriscar depois a ter um acidente voltando bêbado para casa desse jeito? – a repreenda de Shun saiu clara e baixa justamente por ele ter falado no momento de transição de uma música e outra, em outro momento Hyoga abaixaria os olhos e sentiria a repreenda, aceitando que estava errado. Em qualquer outro momento que não aquele.

— Melhor que ficar a noite toda vendo os casais felizes falando sobre a vida maravilhosa que têm. – comentou ácido sem se virar – E eu não estou sozinho. – olhou em volta para procurar por Isaak e Eire, a amiga estava na mesa entretida com o garoto que trouxera. Isaak sumia pela multidão continuando a dançar – Deixa eu voltar a dançar.

— Hyoga porque você está agindo assim? Nós somos seus amigos, você sabe que estar com a gente vai te ajudar a conversar sobre isso – Shun se aproximou do amigo que virava outra dose de tequila. Fora Ikki quem vira o loiro na boate e Shun pediu que todos esperassem para que ele fosse conversar com ele. Ir a boate fora ideia de Pandora e Hilda, como todos haviam ido embora, os dois casais e Ikki, que estava sem Esmeralda naquele dia, resolveram esticar a noite – Muito maduro da sua parte fugir dos seus problemas e preocupar todo mundo.

— Eu estou tentando ficar sozinho, é você que está me sufocando assim como todo mundo!

— Porque ficar sozinho se uma conversa clara resolvia a vida de vocês cacete?! – Shun perdeu a paciência.

— Conversa?! – Hyoga olhou para Shun, a expressão repleta de descrença – Me diz em que ia me ajudar ficar conversando com vocês sobre a bosta da minha vida? Shun, eu tenho vontade de me jogar pela janela quando vejo vocês todos juntos e realizados, todo mundo bem consigo mesmo e com a vida que levam enquanto eu tô aqui sozinho e com a cabeça fodida! – Hyoga cresceu sobre Shun, ele estava muito irritado e alcoolizado para pensar que o amigo só queria lhe ajudar –Você já conversou com o seu irmão? Ele já te disse que me odeia por ter transado com o pai dele?! Por isso ele nem consegue olhar na minha cara?! O Kagaho me chamou de puto porque eu transei com o Ikki na sala de balé, ele disse que eu sou doente por aceitar migalhas e ele ‘tá absolutamente certo.

Foi a expressão chocada de Shun que fez Hyoga parar e levar a mão a boca, tinha despejado aquilo assim sendo que prometera guardar segredo até que Ikki pudesse falar com o irmão. Fora a única coisa que Ikki lhe pedira e após isso nenhuma palavra do moreno. “O que eu estou fazendo deus?!”, disse a si mesmo e então sem saber o que fazer, se afastou e começou a sair de perto de Shun, precisava sair dali imediatamente. Shun se tocou um segundo depois e começou a seguir Hyoga, a massa de pessoas dificultando o avanço dos dois.

Ikki viu do deck que os dois pareciam discutir e decidiu descer para impedir qualquer coisa já que ambos estavam alterados pelo álcool. Shun não era tão forte, ficava embriagado com muito pouco e Hyoga parecia mesmo de longe já parecia muito alto. Quando chegou ao primeiro piso encontrou o irmão e o amigo já saindo da boate.

Nenhum dos três percebeu uma quarta pessoa seguindo Hyoga, chegando mais rápido à saída e quando o russo abriu a porta para o frio da madrugada foi imediatamente agarrado.

— Eu senti tanto a sua falta docinho. – a voz inconfundível e o aperto dos braços dele em volta do seu corpo fizeram Hyoga estremecer e o pânico veio rápido, tomando conta de cada fibra do seu corpo bêbado.

***

— O que nós precisamos agora, é de alguma forma deixar que Saga saiba que Shaka está aqui, você mesmo disse que ele se mostraria se visse o indiano aqui. – Minos cruzou as pernas e tomou seu vinho. Tinha ido à casa dos Savalas por os olhos no grande “salvador” de Camus. Tinha escutado do ruivo a história de que Saga usara o professor de filosofia indiano para atingir Camus e no processo o francês quase cometera suicídio. Apesar do profissionalismo, Griffon estava impressionado com o indiano. Shaka Evrad poderia sim ser alguém por quem se perderia a cabeça e ele lhe lembrava alguém.

— Duvido que ele já não saiba, já que tem agentes por todo lugar e está monitorando a vida de Camus. – Kagaho comentou de passagem. Viera a contragosto, o amigo norueguês lhe trouxera dizendo que ia passar rápido nos Savalas para pegar uns documentos e agora estavam ali tomando vinho com os pais de Hyoga e o casal amigo deles. Conseguia sentir a ira de Milo para si como ondas eletromagnéticas, mas por polidez do francês, diga-se de passagem, o ex-mecânico estava controlado. O que não significava que ele disfarçava que gostaria de descarregar a Glock na cabeça de Kagaho.

Mas apesar de tudo isso ele ainda olhava para a porta e para os corredores a espera de vê-lo. Camus deixara escapar em meio a conversa que ele saíra para uma festa com os amigos, informação essa que o deixou um tanto amuado e ele preferiu ficar calado enquanto Minos e Shaka conversavam sobre o caso de Camus, com o francês dando algumas impressões sobre o que ele conhecia de Saga e sobre o passado deles. Kagaho nada ouvia, só queria sair dali, já estavam horas naquela conversa e sabia que Minos queria que ele ficasse ali para perguntar de certo russo.

— Chega! De verdade Minos, eu preciso ir embora.

— Tudo bem, nós temos que ir, uma pena não termos encontrado Hyoga. Eu queria realmente conversar com ele sobre sua decisão de deixar a Elíseos, Radamanthys é muito incisivo em dizer que ele poderia ser um grande advogado. – Minos se ergueu e os outros também – Você poderia convencê-lo a ir falar comigo na segunda Camus? Prometo que mantenho Kagaho longe dele, vocês não parecem muito animados com a perspectiva de Kagaho e Hyoga juntos de novo, não é?

— Bem, o que você pensaria de um cara que bateu no seu filho e ainda o tratou como um puto? – Milo disse com ironia.

— Bem... Parece que ele teve seus motivos. – Minos começou a dizer e Kagaho ergueu a mão e o fez se calar.

— Isso de qualquer forma não diz respeito a vocês, é um assunto entre mim e Hyoga até que nós dois tenhamos conversado sobre eu gostaria de verdade que vocês não ficassem comentando e tirando suas próprias conclusões. – ele despejou impaciente – Eu realmente sinto muito por ter perdido a cabeça e agido do modo como agi, mas não é a você que eu preciso pedir perdão Milo.

Ambos se enfrentaram com o olhar endurecido, Milo chegou a crispar os punhos, mas nada fez. De certa forma sabia que independente do que sentia, era Hyoga que teria que decidir se perdoava Kagaho ou não. Fechou a cara e saiu da sala, indo para o corredor dos quartos e tentando se controlar para não quebrar uma das lindas antiguidades de Camus, seria muito ruim para ele se isso acontecesse. Mas seu celular começou a vibrar e estranhou que alguém lhe ligasse aquela hora, atendeu sem olhar a tela e mesmo que olhasse o número era desconhecido.

— Boa noite Milo, você deixa seu anjinho sair sozinho e bêbado pela cidade assim? E se ele reencontrar um velho amigo? – em seguida a risada que ele bem conhecida e lhe fez sentir um calafrio. Depois disso só o bip da ligação cortada e Milo voltou para a sala correndo.

— Ele vai pegar o Hyoga! O Saga vai pegar o Hyoga! – gritou já procurando a carteira e as chaves e logo todo mundo começou a acompanha-lo, Mu ficou com as duas crianças enquanto Shaka seguiu com Milo e os outros.

Na frente da boate Hyoga deixou que o pânico o dominasse pelo minuto que levantou o rosto para ver que era realmente Tenma que o segurava, seus braços estavam sendo esmagados tal era a força que o outro rapaz fazia ao apertá-lo junto a si. Fazia algum tempo que não via Tenma, antes com ele no hospital ele parecia bem e calmo, até conseguiam conversar um pouco, mas sempre acompanhados por seguranças e Tenma meio dopado. “O que você está fazendo aqui?!”

— Sabe, eu tenho um advogado agora e ele me prometeu que eu vou poder sair da clínica e ficar com você. Ele disse que vai me ajudar porque eu não sou louco, essas pessoas estão contando mentiras. – Tenma cheirou os cabelos de Hyoga – Docinho porque você está fedendo a bebida?

— Me solta! Vai se foder, eu não vou passar por isso de novo! – gritou Hyoga, empurrando Tenma apenas o suficiente para que pudesse erguer mais a cabeça, era um tanto menor e isso o ajudou, porque conseguiu dar uma cabeçada certeira nele e desnorteá-lo a ponto dele afrouxar o aperto do agarre.

Quando Shun e Ikki saíram pela porta, Tenma balançava a cabeça para desanuviar a visão e já se preparava para pegar Hyoga de novo, agora tirando algo do bolso que logo eles viram ser uma arma. Shun aterrorizado segurou o irmão que se preparava para dominar o outro e Tenma se distraiu com Ikki que avançava sobre ele, isso deu a chance que Hyoga precisava. O russo pegou uma das barras de ferro que seguravam as cordinhas que separavam as filas na entrada da boate, por sorte as barras eram apenas fincadas na terra e foi fácil tirar uma delas. Hyoga estava furioso e só pensava que não ia ter de novo uma arma apontada para a sua cabeça, podia estar bêbado, mas acima de tudo estava furioso.

Então o russo golpeou Tenma, a barra de ferro atingindo a nuca do mais velho com precisão e força, mas Hyoga não se dominava mais então ele o atingiu de novo e de novo gritando:

— EU NÃO VOU PASSAR POR ISSO DE NOVO! EU NÃO AGUENTO MAIS! – o jovem ex-patinador estava em seu limite, a bebida potencializando todos os sentimentos ruins que guardava dentro de si. Tenma estava jogado no chão, o golpe o deixara muito tonto e abriu uma fenda na cabeça de onde escorria sangue, ele não conseguia se levantar e estava recebendo mais golpes até que Ikki segurou Hyoga e torceu sua mão para que largasse a barra – Eu vou acabar com esse filho da puta! Me solta Ikki, vai se foder você também! – gritava o loiro.

— Calma, shiu... Já passou! A polícia está vindo, vamos embora daqui – os carros da polícia vinham chegando, alguns seguranças da boate tinham chamado e estavam lá fora agora. Havia mais carros chegando e um deles estacionou e dois caras iam sair quando ouviram o barulho da sirene da polícia, desistiram de recolher o japonês e partiram a toda velocidade. Com outro carro na cola deles, os outros estacionaram próximos, mas foram impedidos pela policia de se aproximar – Droga!

— Eu não aguento mais, sempre tem alguém querendo me machucar, sempre tem. murmurava Hyoga agora em lágrimas, Ikki o abraçava junto a si apertado, tentando tranquiliza-lo mesmo que tivesse um tanto assustado com aquele rompante de Hyoga. Parecia como fora no dia em que se encontraram no ringue de patinação, só que agora muito pior. O russo parecia ter perdido a sanidade por um momento.

— Ele se machucou? Está ferido? – Shun veio para perto do irmão, os policiais começavam a se aproximar, um deles falando com os Amamiya e Ikki começou a discutir com ele, mas foi afastado e imobilizado por outros dois enquanto Hyoga era algemado também. Shun ergueu as mãos e concordou em ir pacificamente. Outros policiais estavam próximos a Tenma, mas ele estava nocauteado e mesmo assim eles o algemaram. Os seguranças tinham dado o alerta de briga na porta da boate, por isso as viaturas estavam recolhendo todos para esclarecimento na delegacia.

— Não, e-eu acho que... – Ikki se ajeitou no banco melhor porque fora apenas jogado dentro da viatura junto com Shun, Hyoga estava sozinho na outra e pelo o que eles podiam ver agora o loiro estava vomitando no carro da policia – Puta merda ele tá passando mal lá! – os policiais estavam chamando a ambulância, que estacionava para cuidar de Tenma, havia uma gritaria lá fora – Merda!

— Meu deus Ikki, o que foi aquilo?! O que o Tenma tá fazendo fora do hospital? E o Hyoga... Ele surtou Ikki! – Shun apertou as mãos aflito – Ele me falou que tava transando com seu pai, quem era ele tava falando Ikki?!

— Ah Shun, eu ia te contar! – Ikki bateu a cabeça no banco frustrado – Que merda de noite! Eu ainda não queria vir.

— Olha é o Kagaho com o Milo e o Camus! Como eles sabiam que a gente tava aqui? – Shun tentou sair do carro, mas o policial bateu o cassetete na janela.

Milo estava prestes a bater em todos os policiais que via na frente, mas Kagaho assumiu o controle de tudo junto com Minos, usando sua influência e experiência como advogado. Minos principalmente porque logo procurou saber quem era o chefe da operação e tratou de conversar sobre com ele.

— O garoto está em atendimento em uma das ambulâncias, estamos pegando os depoimentos das testemunhas, mas vamos interroga-los na delegacia. – disse o jovem oficial líder da operação – O que sabemos é que ele estava espancando o outro rapaz com um dos bastões de aço da cerca da boate. Inclusive já recolhemos a arma para perícia.

— Milo é o Tenma! – Camus alertou ao ver o ex-lutador saindo na maca em direção a uma das ambulâncias, a outra estava Hyoga sendo atendido. O grego sentiu o sangue gelar ao ver Tenma ali, por isso o filho perdera a cabeça.

— Oficial, esse garoto que atacou meu filho tem problemas mentais. Ele já o ameaçou várias vezes, ele o perseguia! – Milo se interpôs entre Minos e o policial – Você pode ver que há uma ordem de restrição vigorando sobre ele.

— Ele estava sob internação em um hospital psiquiátrico – Camus ajuntou – Pode puxar a ficha médica dele e os boletins de ocorrência, podemos provar que ele é problemático e podia estar perseguindo Hyoga. Ele provavelmente só se defendeu.

— Vamos para a delegacia verificar tudo.

— Você não pode levar os dois jovens Amamiya para a delegacia algemados! Eles estavam tentando intermediar a situação, não estão armados e nem tem ficha criminal, porque os algemou oficial? – Kagaho interpelou o policial de forma enérgica – Eu exijo que os solte! Ou vou achar que estamos lidando com uma clara atitude xenófoba das autoridades locais e dessa forma vou exigir uma reparação do estado por isso.

— Xenofobia? Você está me provocando advogado? – o oficial chegou bem próximo de Kagaho que não se intimidou, deixando que um sorriso ainda mais sarcástico lhe moldasse os lábios.

— Qual outra explicação para algemar dois jovens sem antecedentes criminais e leva-los sob custódia sem que ambos não tenham feito nada? Só porque são japoneses?

O oficial trincou o queixo e mordeu a língua para não falar algo bem feio para Li Ang. Odiava advogados! Com um resmungo ele se afastou para mandar liberar Ikki e Shun da viatura e Kagaho foi junto para se certificar que os filhos fossem soltos mesmo e sem nenhum tipo de arbitrariedade, enquanto os Savalas e Minos iam para a ambulância onde Hyoga estava sendo atendido. Havia uma jovem médica atendendo o russo que agora estava inconsciente.

— O que houve com ele?! Ele se feriu?! – Camus entrou na ambulância desesperado e Milo também, os dois olhando aflito para o jovem russo e Minos permanência falando com os policiais e ao telefone.

— Ele teve uma crise nervosa, nós precisamos contê-lo, não fiquem assustados por conta das contenções na maca. – ela explicou de forma a tranquilizar o casal – Ele estava muito abalado e está com um nível alto de álcool no sangue, é arriscado demais dar qualquer tranquilizante para ele agora. Mas ele já está tomando glicose, acredito que vou ter que removê-lo para a emergência.

— Puta merda! – Milo xingou baixinho, acariciando o rosto do filho – Eu nem acredito que o Tenma apareceu de novo, doutora ele não machucou meu filho machucou?

— Não, mas o seu filho machucou o outro rapaz e bastante. Por isso os policiais queriam prender ele. – a morena mexeu na trança se solidarizando com a aflição dos pais – Já vi casos assim, os policiais geralmente são mais rígidos quando se trata de dois homens, mas qualquer pessoa pode sofrer um relacionamento abusivo independente do gênero. Pelos menos vocês têm um advogado, ele não vai deixar que o garoto saia do hospital direto para a cadeia.

— Por que prenderiam o Hyoga?! – Camus não queria acreditar que eles fariam algo assim. Tinha certeza que se Hyoga não tivesse revisado, Tenma poderia ter sequestrado ele ou coisa pior!

— Provavelmente indiciarão o garoto por lesão corporal grave, vai haver inquérito e julgamento, já vi muitos casos assim pra saber. Ouvi seu marido falar que o outro garoto já tentou matar seu filho, bem isso pode ser um argumento pra ajudar seu filho.

Camus e Milo se entreolharam, ambos com o peito apertado pelas palavras da médica. Camus sabia um pouco como era tudo aquilo, ouvira falar de muitos casos em que os agredidos iam a julgamento por ter tentado se defender. Se Hyoga tivesse que enfrentar julgamento por ter se defendido de Tenma, seria um duro golpe para o loiro e a família. Minos ainda estava falando com os policiais, Milo foi ver enquanto Camus ficava junto ao enteado e aguardava para saber se Hyoga seria levado para o hospital.

Kagaho ficou próximo a viatura em que Ikki e Shun eram soltos a contragosto do oficial, mas logo os dois estavam livres da algema e fora da viatura. Shun olhou para o advogado sênior com curiosidade e para Ikki em seguida, cujo o olhar estava na ambulância em que Hyoga estava.

— Ah, saquei esse lance de transar com o pai! Porra que merda de cidade pequena é Atenas afinal? – o japonesinho soltou um risinho nervoso, passando a mão nos cabelos da nuca e olhando sem graça para o advogado – Então, quando foi que vocês descobriram que estavam gostando da mesma pessoa?

— No mesmo dia em que peguei Hyoga e Ikki no estúdio de balé da Fundação. – Kagaho respondeu à pergunta, um tanto desconfortável por estar falando aquilo com Shun. Ele era seu filho mais novo, mesmo que nunca tivessem convivido – Você parece muito com a sua mãe.

— E você é a cara do Ikki, como é que o Hyoga nunca se tocou nisso?! Cara isso é muito bizarro! – o administrador do projeto medalha de ouro não conseguia encontrar o que dizer – Por isso que o Hyoga ficou pirado, isso é muito louco.

— Agora você entende. – Ikki deu de ombros olhando o irmão – Aí está o nome dos cheques Shun, o homem que pagou o enterro da Agatha e o meu curso de administração.

— Li Ang Sing. – Shun disse o nome bem lentamente olhando para o “pai” detidamente, Kagaho se sentiu incomodado com aquele olhar que parecia lê-lo até a alma. Não mentira quando disse que Shun se parecia com a mãe, ele era quase a cópia masculina de Minoko com a adendo dos olhos verdes ainda. Característica tão rara entre japoneses, mas Minoko tinha uma avó grega e por isso que viera para a Grécia morar – Prazer, meu nome é Shun!

E o japonesinho estendeu a mão para Kagaho, a seriedade estampada no rosto de Shun. Aquele era um momento insólito e bem diferente de como ele imaginava que seria se um dia fosse conhecer o pai, Shun apesar do irmão, tinha vontade de entender porque o pai deles se afastara e nunca quis conviver com eles apesar de continuar a dar dinheiro para a sua família. Seus sentimentos quanto a esse afastamento era de que o pai não gostava deles, talvez mesmo os odiasse.

— Você acha que eles vão prender o Hyoga? – Ikki perguntou para quebrar o clima estranho, não queria que o irmão pensasse que agora voltariam as boas como se o pai fosse alguém que pudessem perdoar. Era toda uma vida longe para que tudo fosse simplesmente esquecido.

— Só se passarem por cima do meu cadáver! – Kagaho cerrou os punhos, olhando também para a ambulância – Eu vou colocar esse Tenma numa prisão psiquiátrica, ele nunca mais vai ver o Hyoga!

***

Só pela madrugada conseguiram voltar para casa, depois de horas e depoimentos na delegacia e no hospital onde Hyoga ficou em observação. Não conseguiram livrar o loiro do inquérito, mas o agravante de que Tenma tinha várias passagens na polícia por agressão e era foragido do hospital psiquiátrico em que estava internado, acabaram por atenuar o flagrante de Hyoga. Ele ainda teria que dar explicações a polícia assim que se recuperasse completamente, Minos conseguira liberação para ele justamente por conta do abalo emocional e instabilidade por conta do álcool. Contudo, o relato de Shun e Ikki e as imagens do circuito de câmeras da boate ajudariam. Minos as três horas da madrugada já tinha as imagens, os testemunhos dos seguranças sobre como Tenma tinha entrado e tivera apoio de um carro que o deixara ali. Os seguranças de Kagaho haviam conseguido a placa do carro e fotos dos ajudantes de Tenma.

Depois do telefonema que Milo recebera, não restava dúvidas de que Saga fora responsável pela saída de Tenma do sanatório.

— Vem, você precisa descansar agora. – Camus apoiava o loiro russo junto com Milo, mas com um gesto de cabeça pediu ao marido que o deixasse levar o enteado sozinho. Hyoga permaneceu em silêncio por todo o caminho, ainda estava meio bêbado e passando muito mal por conta de tudo. Tudo isso não era maior que a vergonha por estar passando por aquilo de novo, vergonha e desesperança.

Na sala, Milo e os Amamiya ficaram juntamente com Kagaho que fizera questão de trazer os filhos para casa e acompanhar o loro russo, embora nem tivesse falado com ele realmente. Conseguira uma medida temporária devido ao estado de Hyoga para que ele não falasse com a polícia, contudo logo eles precisariam conversar para alinhar os depoimentos.

— E agora como vai ser senhor advogado? – Milo perguntou à Kagaho para quebrar o silencio.

— O inquérito vai ser aberto e em alguns dias vocês serão chamados para depor, Minos conseguiu que o mesmo delegado que está cuidando do caso Saga Laskaris também tomasse parte desse episódio de hoje e eu já falei com o pessoal da clínica em que o rapaz estava internado. – Kagaho respirou fundo, estava exausto também por aquela noite – Amanha vou averiguar as câmeras de segurança e acompanhar a polícia com os depoimentos de lá, mas me adiantaram que havia um alerta de fuga para Tenma. Um dos funcionários foi subornado para ajudar.

— Filho da puta! – Ikki passou a mão nos cabelos repicados, respirando fundo pra tentar se acalmar – Tomara que ele tenha tido um traumatismo craniano e tenha morte cerebral.

— Não vai ser muito difícil, o Hyoga estava disposto a ver os miolos dele espalhados no chão. – Shun comentou olhando um ponto distante – Agora eu entendi porque o meu amigo estava transtornado daquele jeito e eu ainda pressionando ele a me contar as coisas...Ikki porque não me disse?!

— Eu ia contar Shun! – os irmãos se olharam, o mais jovem tinha o olhar esmeraldino raivoso. Sentia-se tapeado por todos, mesmo que entendesse o porquê do mistério, mas ainda sim se sentia enganado – Eu mesmo estava tentando uma forma de lidar com... – e Ikki fez um gesto vago para Kagaho – A última vez que eu o encontrei eu tinha nove anos e você era um bebê, nossa mãe estava morta. E agora nós nos encontramos assim!

Milo apenas observava aquele embate entre os Amamiya e Kagaho, apesar da preocupação com o filho, também sabia que os irmãos estavam passando por um momento delicado ali e ele também os amava. Vira-os crescer, ajudou Agatha na difícil tarefa de criar os órfãos e transformá-los em garotos de bem. Sentia-se um pouco responsável por eles também.

— Eu qu- Eu preciso conversar com vocês – interveio Kagaho – Passei a semana ligando par ao Ikki para vê-lo, para ter contato com você também Shun, mas o Ikki não atendia nenhuma das minhas ligações então eu esperava vir aqui para tentar falar com vocês.

— Falar o que? Você só está aqui pelo Hyoga! Se você não tivesse me encontrado com o Hyoga, você não estaria se importando. – cuspiu Ikki raivoso – Pare de bancar o pai arrependido!

— Chega Ikki! – Shun interrompeu Ikki – Eu quero conversar com ele, quero saber porque ele abandonou a gente.

— O que isso vai acrescentar na sua vida Shun?! De que adianta saber, você passou a vida inteira sem ele, pode muito bem seguir o resto dela sem saber de nada. – o moreno abriu os braços e os deixou cair ao lado do corpo – Ele não ficou quando precisávamos, não precisamos mais deles!

— Mas eu ainda quero saber. – disse o jovem Amamiya resoluto olhando o pai detidamente.

Shun não tocava no assunto por causa de Ikki, por saber que aquela vontade machucaria o irmão mais do que qualquer coisa e amava demais o irmão para isso. Nunca poderia apagar todos os sacrifícios que Ikki fizera por si, mas Shun sentia falta do pai. Queria poder saber quem era e ter sua resposta respondida. Porque ele o tinha abandonado daquela maneira? Dessa forma, com esses pensamentos em mente Shun se aproximou de Kagaho e tirou o celular do bolso.

— Posso anotar se telefone? Eu quero muito saber porque você foi embora, então depois que eu pensar sobre hoje, eu quero te ligar para que você venha até a minha casa para gente conversar. O problema entre você e Ikki agora parece mais complicado, mas não me diz respeito. Eu já havia dito à Ikki que ele deveria ter arrumado a vida dele há tempos, que esquecesse a ilusão de felicidade em que vive e buscasse o que realmente quer... Mas a vida não espera que a gente se decida, agora ele está tendo a prova disso!

Ikki fechou a cara e sem falar mais nada resolveu sair dali, se Shun ainda achava que Kagaho merecia atenção, o problema era dele. Ikki não perdoaria, para Shun sempre fora fácil pensar no lado bom das coisas, para aceitar os erros dos outros. Mas ele não convivera com a mãe deles e todo o esforço dela em cria-los só com a ajuda de Agatha. Shun era muito criança para se lembrar como Agatha odiava Kagaho por ter deixado a filha abandonada com duas crianças pequenas e mesmo que depois ele tenha enviado dinheiro, ainda sim não apagava sua falta.

O Amamiya mais velho foi embora deixando a sala dos Savalas em um silêncio constrangedor, Shun apesar de todas as perguntas em sua mente sabia que o momento era inoportuno. Estavam na casa de seus amigos e acabavam de chegar de um quase sequestro de Hyoga, a família Savalas estava toda em um nível grande de estresse. Os problemas familiares dos Amamiya deveriam ser resolvidos entre eles.

— Milo, assim que conseguir resolver algumas coisas em casa amanhã, virei para ver o Hyoga. Nós vamos ser informados sobre o inquérito? – isso ele já perguntou para Kagaho.

— Vou mantê-los informados. – Kagaho disse respirando fundo, parecia que tinha saído de uma audiência de um dia inteiro porque estava exausto.

— Você pode ficar aqui Kagaho, eu já arrumei o quarto de hospedes para você. Parece exausto e sem cabeça para atravessar a cidade a essa hora da noite. – Camus veio do corredor dos quartos – Hyoga está dormindo agora, ainda está se sentindo muito mal por causa da bebida. Shun querido, você precisa de algo também? Não quer comer algo antes de ir?

— Não Camus obrigado, eu já vou indo, Shiryu está me esperando. – o japonesinho veio para perto do casal e abraçou ambos, um abraço apertado em cada um para passar conforto. Shun era muito sereno e nesses momentos parecia uma fortaleza de certeza, ao contrário do que pensava Ikki. Era bem verdade que dos dois Amamiyas, Shun fosse o mais pé no chão enquanto Ikki parecia uma ave do paraíso.

Após a saída de Shun Camus levou Kagaho para o quarto de hospedes, o advogado resolveu aceitar a oferta dos Savalas porque realmente se sentia exausto. Não costumava dormir fora de casa, mas após o banho e de se trocar com uma muda de roupa de Milo, Kagaho desabou na cama sem precisar de muita coisa para adormecer. No quarto adiante, Milo e Camus estavam sentados abraçados na cama, o ruivo entre as pernas de Milo e o grego apoiado no encosto da cama. Ali fechados em seu quarto os dois deixavam a tranquilidade de lado para deixar que as apreensões lhe tomassem. Camus não conseguia deixar de culpar-se pelo que ocorrera com Hyoga, mesmo que tenha sido com Tenma e o histórico do passado, alguma coisa lhe dizia que Saga estava por trás daquela escapada como uma forma de atingir sua família. Parecia-lhe doentio que tudo em sua vida ele remetesse à Saga, mas para Camus sua vida só havia se tornado um inferno depois que o grego havia saído do hospital psiquiátrico e antes quando ainda namoravam.

— Por deus não se culpe, sei que está pensando o mesmo que eu de que Saga pode estar envolvido nessa fuga do Tenma. Ele poderia fazer isso, ele sabia que o Tenma é doido e que se saísse viria direto atrás do Hyoga. – a voz do empresário era sombria – Mas não esqueça que Saga ser louco também não é culpa sua.

— Pensar que Tenma quase conseguiu pegar o Hyoga... – Camus mordeu o lábio e apertou os braços de Milo que o abraçavam – Como esse menino vai ficar agora depois disso Milo?! E se ele for preso?

— Kagaho jurou que não vai permitir, ele não conseguiu livrá-lo do flagrante e que ele esperasse o inquérito em liberdade? Hyoga tem o maior advogado da Grécia aos seus pés, ele não vai ser preso. – Milo riu de lado, aquela novidade não estava descendo tão bem, mas não podia deixar de notar como Kagaho estava apaixonado pelo seu “anjinho” – Agora quanto a ele lidar com isso, eu na verdade estou bem satisfeito que ele tenha feito isso. Queria mesmo que ele tivesse matado o Tenma, mas isso complicaria a vida dele... Isso mostrou que ele está cansado de ser o lado fraco.

— Típico de você achar bom que Hyoga tenha quase matado alguém espancado. – o ruivo revirou os olhos e se ajeitou entre as pernas de Milo para olhar seu rosto, o olhar amendoado estava fixo no rosto bronzeado do marido que agora exibia uma expressão agressiva – Mas... Se isso o fizer se sentir bem, por mim que Tenma ou Saga que morram!

— Nós vamos pegar esse filho da puta e vamos ter nossas vidas de volta. – Milo beijou Camus delicadamente, acariciando o rosto alvo com carinho – Nós estamos perto, ele está apelando porque está encurralado. E agora nós temos A Elíseos para nos apoiar, Kagaho vai mover céus e terras, pode apostar!

Camus assentiu e com um empurrão leve fez Milo se deitar e ambos se ajeitaram na cama para dormir, mesmo que estivessem longe de sentir sono. Contudo em determinado momento o sono venceu e o casal adormeceu exausto e cheio de preocupações.

***

Ele estava correndo, sentia seu coração bater tão intensamente pelo medo que a qualquer momento teria um ataque cardíaco. Mas Tenma corria atrás de si e estava chegando muito perto. Conseguia ouvir a respiração dele próxima e só mais alguns passos ele o pegaria...

— Não! – gritou ao ser arremessado para o chão e em seguida as mãos de Tenma em seu pescoço apertando-o e Hyoga já não conseguia gritar, ele era muito forte! Estava sufocando-o...

Se debateu, precisava sair ou ele o mataria, começou a arranhar os braços dele na tentativa de livrar-se do aperto.

— Hyoga! Acorde Hyoga! – sentiu seu corpo ser sacudido e então a sua garganta foi solta, eram suas próprias mãos que apertavam seu pescoço e ao abrir os olhos viu o olhar preocupado de Kagaho sobre si.

Sem pensar muito jogou-se nos braços dele apertando-o forte enquanto chorava, o pesadelo parecia tão real que lhe deixara totalmente assustado. Nem pensara em porque era Kagaho que estava li no meio da madrugada lhe ajudando a livrar-se de um pesadelo.

— Calma, você está seguro agora, já passou. – o japonês acariciava suas costas em movimentos circulares, deixando-se apertar pelo loiro desesperado. Depois de tudo que havia lhe acontecido era de se esperar que ele tivesse pesadelos. Estava indo a cozinha tomar um copo de agua quando ouviu os murmúrios do quarto do loiro, a porta estava aberta, provavelmente precaução de Camus antevendo algum terror noturno. Contudo o casal Savalas também parecia exausto, eles não acordaram.

— O que você está fazendo aqui? – Hyoga se afastou, enxugando o rosto e olhando Kagaho ali, com um pijama de Milo. Pijama esse que Milo nunca usara porque costumava dormir nu em pelo e só tinha algumas calças de moletom que usava quando precisava sair do quarto.

— Seus pais me convidaram para dormir aqui, para não ter que atravessar a cidade dirigindo. – Kagaho deu de ombros, agira por impulso e agora que Hyoga parecia ter voltado a si, não sabia como o loiro o receberia depois de tanto tempo sem procura-lo. Já faziam semanas que evitava Hyoga e tinha a cabeça quente pensando num modo de resolver aquela situação entre o loiro e ele sem machucar o filho.

— Obrigado. – disse o russo sincero e limpando as lágrimas mais uma vez – É patético eu estar passando por isso de novo, mas eu quase o matei e corro o risco de ir para a prisão então porque estou tão assustado? – riu entre lágrimas, as mãos tremulas passaram pelos fios dourados do cabelo – Eu ia matá-lo hoje sabia! Eu tô cansado de ser perseguido, de apanhar por ser mais fraco que todo mundo... De ser um estorvo!

— Você não é um estorvo! E você não é fraco, pare de se sentir assim. Aquele cara que é um lunático igual ao Laskaris. – Li Ang acariciou o rosto do mais jovem, olhando bem fundo nos olhos cor de céu – Você é muito forte, já passou por muita coisa. Tem uma família que ama você e ninguém tem culpa da loucura das pessoas. Você se defendeu, ele ia te sequestrar e sabe deus o que faria... – na última frase o queixo de Kagaho trincou e no olhar uma chama de ira se fez notar. Queria beber o sangue daquele moleque – Eu juro a você, vou trancafiar aquele filho da puta em um presidio sanatório do qual ele nunca vai sair. Ele nunca mais vai chegar perto de você, Hyoga.

— Não precisa fazer isso tudo por mim, eu não mereço de verdade.

— Eu amo você, te protegeria até no inferno! – Hyoga lambeu os lábios secos, ouvir de novo aquela frase de Kagaho mexia demais com ele. Há quanto tempo desejava ouvir que era amado assim? Claro que tinha o amor dos pais e da família, mas queria ser amado e desejado como o homem que era e Li Ang estava ali novamente lhe dizendo que lhe amava – Eu não quero desistir de você, se me perdoar Hyoga eu quero tentar de novo.

— Mas e o Ikki?! – Hyoga se afastou segurando a cabeça com as mãos. Relutara também em ir atrás do advogado por causa de Ikki Amamiya, sentia como se estivesse traindo-o ou coisa assim. Apesar de saber que Ikki era casado agora e estava longe do seu alcance – Ele é seu filho!

— Ele vai ter que aceitar. Hyoga escuta, – pegou as mãos do russo e segurou nas dele – Me diz que você quer tentar ter o Ikki de volta e eu não vou interferir, eu juro que me afasto e não vou tentar nada. Prometo que continuo com o seu caso, com o do seu pai, mas não vai haver nem sombra de nada entre nós. Mas só se você quiser! – Kagaho afastou a franja de Hyoga e tocou sua testa com os lábios, apesar de ainda o leve cheiro do álcool estar presente, o advogado podia sentir o cheiro natural que amava naquele loiro – Agora se você quiser tentar de novo eu estou aqui, de coração aberto pedindo para você me perdoar.

Hyoga fechou os olhos sentindo o toque suave dos lábios de Kagaho em sua pele. Aquele homem em poucos meses lhe fizera despertar tantas coisas em si próprio! Sua vivacidade, a sensualidade que julgava morta, o ardente desejo de ser amado como sempre quis. Poderia amá-lo um dia se quisesse, se empregasse esforço e aceitasse de uma vez que Ikki Amamiya pertencia ao seu passado. A noite entre eles na sala de balé poderia muito bem ser a despedida para deixar Ikki finalmente ir.

— Eu quero tentar. – disse seguro de si – Seja lá o que aconteça com a gente, que dure um ano ou o resto das nossas vidas... Eu quero realmente tentar amar você, mas não quero que isso seja mais um obstáculo entre você e o seu filho. Eu sei que apesar da revolta, o Ikki esperava que o pai voltasse um dia e ele precisa de você. Assim como você precisa deles também, Shun e Ikki são sua família também e antes tarde do que nunca vocês se reencontrarem.

— O que significa? – Kagaho o olhou ressabiado, não estava gostando daquela história. Sabia que o caminho com os filhos seria árduo e levaria tempo, por isso não estava disposto a esperar com relação a Hyoga.

— Significa que eu não quero que desista deles, não podemos ficar juntos se isso acontecer. Eu vou me sentir culpado e – Hyoga suspirou olhando a janela – acho que Ikki vai seguir em frente agora que ele sabe que tudo acabou entre nós, que o que ele tinha de nostálgico na verdade era apenas isso, uma lembrança. Agora vai ficar tudo como tem de ficar então você precisa estar presente na vida dele e de Shun.

— Nós vamos dar um jeito. – Kagaho puxou Hyoga para seus braços, pensando agora em si e lá no fundo pensando também em Ikki. Será que o filho realmente desistira de Hyoga ou estava apenas confuso em não queria abandonar a esposa para não se igualar a ele?