Amor com amor se paga - No limite!
7 Capítulo 07
Notas iniciais
— Eu realmente achei que meu pai ia fuzilar você ou algo assim, ele nunca fez nada parecido! — Hyoga se encostou à porta do closet, olhando Kagaho separar sua roupa para o dia seguinte de forma meticulosa. O cômodo era um exageiro na opinião de Hyoga, maior até do que o que Camus dividia com Milo na casa deles — Não entendi o que aconteceu e ainda estou em dúvida sobre estar aqui, ainda mais depois da discussão dos dois. É óbvio que o senhor Milo está tentando atenuar os fatos. — o jovem russo colocou as mãos nos bolsos do roupão negro que usava, haviam tomado banho e Kagaho não viu necessidade de se vestirem. Ele mesmo só vestirá uma calça de moletom e mais nada.
— Acredito que seu pai quer apenas que você se distancie um pouco de tudo. — disse o advogado senior colocando uma gravata na poltrona dentro do closet. — Talvez Milo perceba mais que você.
— Acha que ele está preocupado comigo? — a expressão de Hyoga era cética e desconfiada. Ainda não estava acostumado ao fato de Lee Ang Sing saber decifrar as entrelinhas.
— Algo aconteceu no seu passado. Meu palpite é que seja algo muito semelhante ao que ocorreu agora e associando ao que você disse sobre seus problemas no passado... — Kagaho finalmente olhou para o amante, os olhos escuros analisavam detidamente toda a postura retraída do loiro — O modo como você está angustiado agora…
— Eu só estou preocupado com o Camus, ele não é de perder a cabeça assim. — tentou desconversar Hyoga. Kagaho se aproximou dele acariciando-lhe os ombros por cima do roupão — E o Saga de volta, ameaçando todo mundo...
— Você pode me contar se quiser. — a expressão do japonês era doce, mas o tom tinha um "quê" de enérgico que incitava sua necessidade em saber o que afligia o outro.
— Não há nada...
— Nada tão terrível a ponto de deixá-lo assustado assim? — as mãos de Kagaho deslizaram pelo roupão até a cintura de Hyoga, puxando o russo mais para si que se deixou aninhar no peito largo sentindo o calor da pele do moreno.
Hyoga odiava-se por ser tão transparente, por não conseguir controlar suas emoções como Camus fazia! Não queria ter que contar à Kagaho sobre seus traumas e inseguranças, também porque não gostava mais de remexer naquela história.
— Meu primeiro namorado me colocou na mira de uma arma, ele era violento e quando eu tentei terminar, ele tentou me matar. — Hyoga erguera o rosto para olhar o mais velho que sentia o corpo alvo tremer em seus braços — Duas vezes. Eu disse que tinha dedo podre para relacionamentos.
A tentativa de gracejo não encontrou eco no japonês que mantinha uma expressão indecifrável. Sabia que aquele resumo escondia todo o terror da coisa, os detalhes podem ser mais obscuros que tudo. Ver-se na mira de uma arma não é uma experiência boa, ainda mais quando quem aponta é alguém que você acredita amar.
— Você passou por situações difíceis, isso me faz entender suas atitudes. — Kagaho acariciou o rosto do loiro — Você não precisa ter medo de mim e eu não vou deixar que ninguém mais machuque você.
— Ele dizia que me amava, que eu era lindo! Tenma estava descontrolado, ele não conseguia parar de me perseguir e eu me afastei, mas ele apareceu na escola e disse que ia me matar se eu não voltasse pra ele! — Hyoga fungou, tentando controlar a comoção mas era tarde demais — Depois que o Ikki me deixou eu queria de verdade morrer! Eu fui atrás do Tenma no sanatório da primeira vez porque eu queria ver a unica pessoa que já tinha dito que me amava...A única pessoa que me amava era um desequilibrado e eu mais ainda por ir atrás dele. — Hyoga mordeu o lábio — E hoje o Camus foi atrás do Saga e eu não pude deixar de pensar que foi como se ele tivesse ido atrás do Laskaris como eu fui atrás do Tenma... E se ele foi mesmo matar o Saga?! Se ele na verdade só queria acabar com a vida dele porque pensa que a culpa é sua como eu pensei, por ter deixado o Saga louco por amá-lo assim como eu deixei o Tenma?! Será que é por isso que todos vão...
— Chega! A culpa não é sua Hyoga, não pode pensar assim! — Kagaho o sacudiu pelos ombros, segurando o rosto alvo entre suas mãos vendo a face transtornada de Hyoga que apenas deixava-se desabafar todas aquelas coisas sem conseguir refreá-las mais.
Kagaho já passara por muitas experiências, a situação de amigo no caso de Radamanthys lhe dera um vislumbre do que relacionamentos destrutivos podem causar. Seu casamento fracassado lhe mostrou como um relacionamento sem amor pode ferir alguém. Contudo, via ali o que relacionamentos abusivos causavam em um jovem frágil e sonhador. Era a primeira vez que ouvia o nome "Ikki", aquele cujo o amor rejeitado havia feito feridas profundas em Hyoga. O nome também lhe parecia curiosamente familiar.
Tomou os lábios dele nos seus em um beijo instintivo, exigindo a boca de Hyoga com ardor. Sentia que demonstrar com gestos seria mais efetivo do que com palavras. Kagaho era aquele advogado capaz de derrubar a melhor argumentação em um tribunal, mas não era capaz de falar sobre seus sentimentos.
Hyoga se deixou beijar e ser levado para a cama apesar de que com aquela atitude,Kagaho apenas reforçava a ideia do russo de que ele era pedante e que seus traumas eram bobagens. Era a imagem que Hyoga tinha de si próprio e ver que Kagaho prefiria fazer sexo à ouvir suas lamúrias lhe fazia sentir-se usado.
Mas aproveitaria para "aliviar a tensão", como o pai lhe sugeriu, pelo menos isso.
***
Enquanto isso Milo já se sentia arrependido de ter mandado o filho ficar com "seja lá o que for aquele advogado" dele. Também estava arrependido de ter explodido com Camus, mas ainda estava furioso e decepcionado então talvez ambos precisassem de um tempo. Já era o meio da madrugada e o grego não conseguira pregar o olho, também não falara com ninguém além de Aiolos. Apenas fora para o escritório do irmão com uma garrafa de uísque.
Não era uma atitude muito madura, mas ele pouco ligava. Ninguém naquela noite tinha moral para falar-lhe qualquer coisa, ele não estava disposto a ouvir sermões também.
Olhou para a garrafa já vazia, racionalmente era hora de parar e ir dormir para reorganizar os pensamentos. Tinha muitas coisas com que lidar, tinha que ver a oficina, dar um jeito de manter Camus sob vigilância e procurar Saga... Descobri sobre a agente loira que os ajudou no terreno baldio, ela estava com a sua arma porque a polícia não a encontrou. Aquela mulher devia ter sido contratada por Kanon!
— Tente dormir Milo. — disse a si mesmo se erguendo da poltrona e saindo do escritório, com um pouco de dificuldade, pois a visão estava comprometida. Outro indício de que já não era tão jovem! Costumava ser resistente à bebida, uma garrafa de uísque era um aperitivo.
Estava alcançando a escada quando notou a porta para a área externa aberta, isso o deixou cismado e com cuidado foi chegando perto. A segurança fora reforçada, mas eles estavam lidando com um lunático esperto então todo cuidado era pouco. Assim que chegou à porta, relaxou ao ver que era apenas Camus sentado na borda da piscina, que iluminada por baixo, emoldurava o ruivo com uma luz azulada e trêmula por conta do movimento da água.
Camus. O nome ecoou pela mente bêbada de Milo que sentiu o peito apertar ao ver o marido ali sozinho e com o olhar distante, tão isolado como quando se conheceram. Se tudo continuasse daquele jeito Camus se isolaria novamente, o casamento deles estava ameaçado.
De onde estava e mesmo com a parca iluminação em volta, Camus podia ver o marido o fitando da porta, mas não fez qualquer gesto para mostrar que o tinha visto. Milo não viera lhe procurar ou saber de Krest, mandara Hyoga para ficar com Kagaho mesmo sabendo de como o russo poderia estar assustado com tudo que ocorrera. Relegara à família por uma garrafa de uísque e seus traumas sobre Natassia. Quem era o egoísta mesmo? Pensava magoado!
— Papa... — o choramingar de Krest cortou o silêncio e logo o menininho surgiu envolto em seu edredon saindo pela área da piscina para ir até o pai ruivo. Milo notou que o filho saía da casa da piscina, então provavelmente fora lá que Aiolos instalara o francês e não no quarto onde eles costumavam ficar.
Camus podia dizer que era Milo quem era dado a guardar mágoas, mas o francês o fazia muito bem e com maestria.
Camus se ergueu e pegou o filho no colo, voltando para a casa da piscina. A pequena moradia consistia em um pequeno flat que Aiolos mandara construir na área livre da piscina e que era muito conveniente quando a casa estava cheia ou certo casal resolvia brigar e dormir separado.
Milo teve de correr para chegar antes que Camus fechasse a porta, mas não adiantou muito porque assim que ele alcançou o degrau ouviu a porta bater. Na cara dele!
— Então é assim?! — gritou tão alto quanto pode.
— Volte para a sua garrafa de uísque. — ouviu o outro retrucar de lá, isso o fez praguejar e ainda bater na porta, mas ela permaneceu fechada. Acabou indo para o quarto de costume e sozinho, praguejando contra tudo e todos.
No dia seguinte Camus apareceu para tomar café com Krest já arrumado para a escola. Quando chegou do hospital, Shun e Shiryu já haviam trago tudo que podia precisar para passar uns dias na casa de Aiolos.
— Já pronto Krest! — Aiolia mexeu nos cabelos do sobrinho quando ele foi sentar ao lado de Lifía. Camus sentou ao lado de Shura no outro lado da mesa. À cabeceira estava Aiolos, Aiolia à esquerda com a mulher e a filha — Não se preocupe ruivo, eu levo as crianças para a Fundação e você pode descansar mais um pouco.
— Descansar?! Tem mim coisas na oficina pra arrumar, em casa! Eu já falei com o Hyoga e ele já está indo para casa, vou passar na oficina e depois fazer compras com ele.
— Porque não espera Milo acordar? Ele pode ir para a oficina e você… — Marin disse hesitante olhando o cunhado.
— Quando Milo resolver acordar, nós já teremos que fechar. — Camus serviu-se apenas de café — Shura você vai para o centro? Pode me dar uma carona porque meu carro está na perícia!
— Papai está bêbado! — Krest fez uma careta e Lifía soltou um risinho — Ele nunca acorda.
— Camus você devia mesmo ficar aqui e descansar. — Aiolos suspirou vendo que o cunhado parecia irredutível.
— Bem, é o seguinte. — Camus olhou para cada um dos adultos na mesa — Sei que vocês estão todos preocupados, eu mesmo me preocupei ontem em ter perdido o rumo daquele jeito. Mas isso não vai mais acontecer, não vou mais me deixar levar pelo desespero como fiz ontem. O Milo me chamou de egoísta e em parte ele está certo. Me sacrificar não ia salvar a minha família, Saga nunca vai parar mesmo que eu me entregue por isso foi uma péssima idéia! Por isso já estou em mim, voltei ao meu centro e vou seguir com todos os conselhos dos advogados e da polícia e esperar que Saga seja preso. Então eu peço, por favor, não me tratem como um desequilibrado!
Shura em seu jeito silencioso apenas ergueu a mão e colocou no ombro de Camus, apertando-o sob a camisa passando conforto e certeza. Sabia que Camus era forte, que já passara por muita coisa para desistir a essa altura da vida. Os Argenkland apenas assentiram, Marin puxou a mão de Camus para segurar com a sua, para incentivar esse "levante"! Ela acreditava na força de carater do cunhado. Só Aiolos ainda permanecia taciturno porque ele acreditava que só teriam paz quando Saga estivesse preso novamente.
— Não quero mais atrapalhar ninguém então por favor, não deixem suas vidas para cuidar de mim. Eu já sinto culpado o suficiente depois de ontem.
— Mas nós vamos estar sempre aqui Camus, somos sua família também. — Aiolia disse para passar apoio também — Você e os nossos garotos. — o grego bagunçou os cabelos de Krest que riu contente pelo carinho. Para Camus saber que os Argenkland amavam Krest tanto quanto amavam Hyoga lhe enchia de emoção.
— Já que você não quer mudar de ideia, vou deixá-lo em casa. — Aiolos interveio — Aiolia vai deixar as crianças na escola enquanto tentamos arrancar do Hyoga alguma coisa dessa história dele e desse advogado! Como o Milo está deixando o filho dele namorar um cara que tem idade para ser pai dele é um mistério.
— Também ainda não entendi nada, mas quem sabe você tem mais sorte que eu. — Camus se ergueu, todo mundo começou a se erguer para sair.
Só por volta do meio dia que Milo acordou e desceu para ver a família, na verdade estava desesperado por uma xícara de café.
— Cadê todo mundo? — perguntou a Marin depois que foi a cozinha conseguir algo para comer e chá, para a ressaca. A cunhada estava na estufa mexendo nas suas mudas como todos os dias. Ela agora trabalhava meio período na Fundação. — Cadê o Krest? — Milo viu que Lifia estava com a mãe e estranhou que ela não estivesse com o primo.
— Se está perguntando do Camus e do Krest, a essa hora já devem estar na cobertura. Foi o Hyoga que pegou ele na escola, Lifia me disse — respondeu Marin.
— Na cobertura? Mas eu pensei que eles iam ficar aqui, não é seguro eles ficarem sozinhos e eu...
— E você acho bom ficar um pouco aqui e longe das vistas do francês, pelo menos por hoje ou talvez ele resolva pedir o divórcio! — Marin limpou a terra das roupas e fez sinal para a filha fazer o mesmo.
— Divórcio! Olha eu sei que nosso momento não é dos melhores, mas enquanto o Saga não for preso nada vai ficar bem.
— Eu sei que a situação é delicada, mas você nervoso e estressado só fala besteira. Que tal você pelo menos colocar a cabeça no lugar e se acalmar antes de voltar pra sua casa? — a ruiva tirou as luvinhas da filha e a empurrou de leve em direção a casa, a a menina saiu saltitando para dentro e a pedagoga voltou-se para o cunhado — Caramba Milo! Você disse coisas horríveis ao Camus, você se afogou em uísque e dormiu a manhã inteira deixando o ruivo com o pepino da oficina e os filhos pra tomar conta. Hyoga você largou lá na mão daquele advogado, sabe que o menino é traumatizado por causa do que aconteceu com ele. O Camye tá sofrendo, a beira de um colapso e o que você faz?! VOCÊ SURTA!! Isso não é sobre você apenas Milo!
— Mas o que ele fez foi a pior merda que ele podia ter feito! — Milo bateu os braços ao lado do corpo, indignado por ainda estar levando sermão sobre sua atitude — Ele quase se matou! Porra ele não pensou na gente em nenhum momento.
— É justamente por pensar em vocês que ele fez aquilo Milo, por desespero! Mas você nunca vai entender porque é um egoísta de merda. — revidou Marin com uma expressão irritada — Por isso que o Camus não quer te ver.
— Mas ele deve ir, Milo precisa ficar junto da família nesse momento se quiser salvar o casamento dessa crise. Não é hora de se acovardar, é hora de agir como um homem, você é ou não um homem adulto?! — Aiolos voltara para almoçar em casa e nesse momento passava pelo jardim encontrando o irmão e a cunhada.
— Não é questão de maturidade aqui! — Milo retrucou baixo, ofendido pelo tom e pelas palavras do irmão. Parecia quando descobriram na época em que ele se reaproximou dos irmãos para ajudar o filho que precisava de tratamento. Aiolos na época também o chamara de imaturo por ele cogitar enfrentar tudo aquilo sozinho.
— Ah não? — Aiolos cruzou os braços, no olhar esmeraldino o desafio e rigidez da conduta do sagitariano — Nós vamos voltar a mesma conversa de dezessete anos atrás?! Em como você só sabe fugir dos problemas e praguejar, mas não fazer nada para mudá-los com esse seu orgulho enorme lhe impedindo de ver as coisas como realmente são? Camus por acaso é culpado de ter um psicopata atrás dele dessa maneira? Hyoga teve culpa por ter uma arma apontada para a própria cabeça? MILO ACORDA! Eles não têm culpa assim como Natassia não teve culpa de morrer, enterre logo esse fantasma na sua vida ou Camus vai se afastar de vocês por achar que ele só te faz mal.
— Ou você acaba com o casamento de vocês se acha que não pode suportar tudo. — Marin interveio em um tom monocórdio — Camus merece alguém que o apoie, não que dê mais trabalho para ele.
Milo ia retrucar quando seu celular vibrou com uma chamada e ele verificou que o número era desconhecido, Marin e Aiolos entraram na mansão deixando-o sozinho para atender a chamada.
— Savalas meu nome é Tethis, você me conheceu noite passada. Eu estou com a sua Glock e queria conversar com você."
— A guarda-costas do Kanon. — o grego deduziu surpreso.
— Preciso de algumas respostas, o Kanon desapareceu e acredito que isso seja coisa do Saga. — ela continuou na sua voz melodiosa.
— Sumiu? Mas ele me ligou hoje pela manhã, não falei com ele, mas vi suas chamadas não atendida. Pensei que ele queria conversar sobre ontem.
— Ele te ligou?! Estou tentando rastrear o celular dele sem sucesso! Os pais dele estão desesperados... — grega começou a praguejar — Onde você está Savalas? Sei que não está em casa porque meus homens estão vigiando a cobertura.
— Colocou seguranças na cobertura? — Milo arqueou a sobrancelha.
— Reforcei a segurança, Kanon deu ordens para manter seu ruivo seguro Savalas e eu vou cumpri-las.
— Aí garota, agora quem precisa de respostas sou eu. Onde posso te encontrar?!
— Me dê seu endereço que pego você em dez minutos. — Tethis não era mulher de preâmbulos.
***
Em casa Camus estava no escritório mexendo na contabilidade e vendo a possibilidade de comprar um novo carro. O seu estava na perícia e seria liberado em alguns dias, mas ele já colocara o sedan à venda e já tinha inclusive interessados. Já havia uma conversa sobre comprar um modelo mais atual porque Milo achava que ele precisava de um modelo melhor e toda uma conversa sobre mecânica que ele nunca ia entender.
Então tinham um dinheiro guardado para aquele fim e agora chegara a hora de usá-lo, apesar de achar que poderiam guardar o dinheiro para outra coisa. De qualquer forma não ia conseguir dirigir seu próprio carro então melhor comprar outro. Desviou o olhar do computador para ver os filhos no quarto de Krest, ambos jogados no tapete comendo sorvete e vendo anime. Durante a lavagem da louça do almoço conseguira fazer Hyoga lhe contar o que havia acontecido entre ele e Kagaho, aquilo o deixou apreensivo ao mesmo tempo orgulhoso pelo fato de Hyoga não ter se deixado dominar pelo outro advogado. Não queria o enteado passando por tudo que ele mesmo passara.
Contudo aquele episódio não o deixava feliz, precisava arrumar a vida de Hyoga mesmo em meio ao turbilhão. Que Milo não se preocupasse com o filho, isso era problema dele, pensava consigo mesmo. O russo lhe contara sobre o evento em Budapeste e em Camus acendeu uma esperança de que talvez o caminho de Hyoga estivesse em voltar a patinar, mesmo que não fosse profissionalmente. Mas ele ainda era jovem, tinha tempo para voltar!
Uma ideia começou a se esboçar em sua mente e o fez mandar algumas mensagens, que não demoraram a ser respondidas e deixar um sorriso triunfante em seus lábios vermelhos.
— Hyoga, vai se arrumar e eu vou arrumar o Krest. — disse se erguendo e arrumando suas coisas no escritório — Nós vamos para a Fundação.
— Não quero ir pra escola de novo! — gritou Krest indignado.
— Nós vamos patinar! Anda Krest, onde estão os seus patins? — Camus já estava no quarto remexendo nos armários — Aiolos disse que a pista tá fechada porque os alunos estão na confederação, então pedi para ele autorização para usar. Eu quero ver como você está Hyoga, saber se ainda lembra de tudo que a gente treinava. Podemos começar a esboçar algo para o seu campeonato daqui à dois meses!
— Você vai me treinar?! — a empolgação de Hyoga era gritante, ele já estava de pé e quase quicava enquanto Krest se arrastava para debaixo da cama atrás dos seus patins. O garotinho também adorava quando o pai o levava para patinar. Para Camus ver a empolgação dos filhos era contagiante.
— Vou, mas anda se arruma! — o francês começou a arrumar uma mochila para Krest, tirando as roupas do menino que já havia tomado banho mesmo — Vai no armário pegar biscoitos e na gaveta da geladeira tem maçãs, traga tudo e coloque na bolsa. Eu vou trocar de roupa.
— Certo! — Krest saiu correndo para fazer o que o pai mandara e Camus foi trocar de roupa.
Foi tudo bem rápido, em quinze minutos eles já estavam no corredor esperando o elevador.
— Vamos de metrô?— perguntou Hyoga pensativo, estava prestes a dizer que poderiam ir de moto, mas achou melhor não aborrecer o padrasto.
— ‘Tô tentando chamar um Uber. — Camus mexia no celular e nesse momento o elevador abriu e Shun e Shiryu estavam nele.
— Ah vocês vão sair? — Shun disse olhando os três e suas mochilas — Nós passamos rapidinho para vê-los, estávamos preocupados e por isso resolvemos vir te ver Camus. Mas é coisa rápida porque estamos voltando para a Fundação.
— Problema da carona resolvido. — Hyoga bateu nos ombros do melhor amigo e do marido dele — Nós estamos indo para a Fundação também.
— Vocês vão patinar? — Shiryu perguntou enquanto os outros entravam no elevador — Que bom que estão bem dispostos, mesmo depois de ontem.
— Fico aliviado de ver que vocês estão bem. Eu estava tão preocupado, principalmente com você flor da Sibéria. — Shun pulou nos ombros de Hyoga levando-o a praguejar e rir ao mesmo tempo, era uma antiga brincadeira que tinham entre si.
— Argh Shun! — Hyoga se curvou sob o peso do outro — Pare de me chamar assim.
— Vai ser legal ver vocês patinarem juntos de novo, já faz um tempo não? — Shiryu comentou vendo Shun e Hyoga trocando insultos.
— Ah! Eu ainda não tive oportunidade de contar que vou competir em Budapeste, daqui há dois meses. Não é uma competição oficial, é amadora, mas mesmo assim.– deu de ombros, o elevador chegou e eles saíram para o estacionamento.
— Opa vocês vão à um pic-nic? — a voz animada de Ikki Amamiya se sobressaiu das demais, fazendo os outros pararem no meio do caminho. Ikki vinha junto com Esmeralda do outro elevador — Ah Camus, que bom que está bem! Nós íamos visitá-los mais tarde para saber como está tudo.
— Agora está tudo bem Ikki, obrigado pela preocupação. — disse Camus colocando Krest no chão e o menino deu língua para Ikki — Krest!
— Ei cara qual é? — Ikki segurou o garotinho se agachando para olhá-lo no rosto — Porque não gosta de mim? Nós costumávamos ser amigos! Não conversou com ele Hyoga?
— Não tive chance! Aconteceu muita coisa ontem. — Hyoga deu de ombros trazendo o irmão para perto de si, o menino abraçou as pernas do irmão e mostrou a língua de novo para Ikki — Krest! Peça desculpas ao Ikki, nós somos amigos agora e mesmo assim é feio dar língua.
— É isso aí Krest, eu e o Hyoga voltamos a ser amigos e ele não tem mais raiva de mim. Você não precisa ter também! — aquela nova informação pegou Shun e Esmeralda de surpresa, Camus e Shiryu não porque fora o próprio japonês que propiciara o encontro e Camus porque Hyoga lhe contara tudo naquela mesma tarde — Ninguém vai precisar chorar aqui, nunca mais.
— Você promete? De mindinho? — o menino ergueu a mãozinha rechonchuda com o dedo em riste esperando o juramento que Ikki fez de novo, entrelaçando o seu próprio dedo ao da criança.
— Ele é muito protetor, eu avisei. — Camus deu um meio sorriso pegando o filho pela mão.
— Logo eles serão amigos, Ikki tem um jeito incrível com crianças.— comentou Esmeralda para se fazer notar e impor sua presença, sentia-se à parte daquelas pessoas e não gostava disso — Não é à toa que é pediatra, pelo menos esse lado paterno dele é preenchido pelos pequenos pacientes por enquanto. Já que meus planos mais urgentes são o meu mestrado e a residência do Ikki acabe logo para viajarmos de novo!— ela sorriu olhando Ikki que revirou os olhos, mas riu também — Não faça essa cara que você adora nossas viagens!
— É bem legal você manter seus planos profissionais e ser independente assim Esmeralda. — Hyoga disse olhando para a mulher diretamente, mas não era um enfrentamento. Havia respeito no olhar celeste, a pesquisadora notou, o que a surpreendeu — Mas de qualquer forma espero que consigam conciliar tudo, afinal o sonho do Ikki era ser pai e construir uma família. Ele nunca teve o pai presente, então queria muito fazer diferente.
— Você sempre sonhou em ser pai? — Esmeralda o fitou surpresa, sentindo-se ainda mais estranha entre eles por ter aquilo atirado assim, na cara e ela sem saber de nada. Ikki e seu passado era uma incógnita para ela, ele jamais tocava no assunto. A não ser para falar da adolescência e de Hyoga e Shun.
Ouvira muito principalmente sobre o loiro russo que agora tinha a oportunidade de pôr os olhos. Esperava alguém frágil e sensível, ingênuo como Ikki costumava descrevê-lo, alguém traumatizado. Contudo, embora a nítida aura de melancolia que o envolvia, o jovem advogado parecia inabalável e forte. Ele estava ali, falando com ela naturalmente, a elogiando por ser independente enquanto desfiava sobre o passado deles e os planos que faziam quando eram adolescentes. Era como se ele lhe dissesse apenas com aquela atitude que ela nunca seria tão importante na vida de Ikki quanto ele. Era o que ela sentia.
Hyoga, no entanto, sentia-se estranhamente vingado e um tanto mesquinho por se sentir satisfeito por ver como Esme se portava. Também um pouco tolo já que via agora que pouco valera seu abandono de tudo para realizar os sonhos de Ikki, Esmeralda não ia abandonar os seus por Ikki e Hyoga pensava que ela estava absolutamente certa.
— Apareçam na Fundação mais tarde. — convidou o loiro sorrindo para ambos — Estou treinando para uma competição e Aiolos disponibilizou o ringue. Traga Esmeralda para patinar Amamiya, não seja um lunático por trabalho.
— Falou o escravo da Elíseos! — Shun caçoou cutucando o amigo com o cotovelo.
— “Ex”, sou um elfo livre agora.
— Dolby ganhou uma meia! — gritou Krest se animando no colo de Camus.
— Ah vamos logo, vocês estão começando a falar estranho. — Shiryu começou a chamar todos para o carro, fazendo os mais velhos rirem também. O administrador era tão calado que quase passava despercebido. Se despediram do casal que tomou o lado oposto e então entraram no carro de Shiryu.
— Não foi tão difícil, foi? — perguntou Camus ao filho mais velho depois de se acomodarem no banco de trás.
— Mais fácil do que imaginei e me fez entender muita coisa! — Hyoga deu de ombros — Explica porque Ikki parece tão saudosista.
— Também achei. — Shun se virou no banco da frente para olhar o loiro — Ele parece estar recuperando o tempo perdido e muito arrependido de ter casado, apesar de que eu acredito que ele ame a Esme. Eles são tão diferentes!
— Sim…, Mas eles casaram, sinal que se amam.
“Ele a ama ou a amava quando decidiu largar tudo para ficar com ela. Será que você se arrepende de largar tudo por ela, como eu me arrependo de ter largado tudo por você?”, pensou Hyoga consigo.
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