Notas iniciais
Olá pessoal tudo bem? Aqui vai o segundo capítulo. Boa leitura

Depois de ouvir pela milésima vez as recomendações de Camus sobre Krest, Milo conversar com o menininho sobre ficar quieto e obedecer ao irmão mais velho, os garotos foram deixados na cobertura à espera de Kagaho. Camus ainda resistiu um bocado em deixar os dois, mas Hyoga o convenceu a sair e se distraírem para que quando voltassem, eles contassem sobre o perseguidor.

— Quero trabalhar também! – Krest quicou atrás do irmão enquanto ele voltava à cozinha para olhar o jantar que estava quase pronto, queria que tudo saísse perfeito àquela noite para impressionar o chefe.

— Não quer não, vai por mim. – mexeu nas panelas aspirando o cheiro delicioso – Já quer jantar?

— Quero sorvete. – Krest levou as mãozinhas para trás e começou a arrastar o pezinho no chão, sempre funcionava para conseguir o que queria usar aquela expressão doce e pidona...

— Está chantageando o loiro errado! Sorvete só depois do jantar. – Hyoga era tão disciplinado quanto Camus, a chantagem de Krest só funcionava com Milo – Mas se você se comportar pelas próximas duas horas, eu deixo você comer o camarão e não o frango grelhado que o papai deixou para você jantar.

— Uhuu!

Krest ficou muito feliz e então Hyoga lhe deu um cookie o despachando para o quarto onde o menino ficou com seus brinquedos, além dos animes. Confiava no comportamento do irmãozinho, ele não daria trabalho.

Kagaho chegou um pouco depois e Hyoga o recebeu levando-o para o escritório de Camus para trabalharem, o japonês observou a cobertura elegante e confortável que o seu jovem assistente morava. Os toques familiares estavam aqui e ali, com um brinquedo caído perto do sofá e as fotos nas paredes e no aparador da sala que davam um ar aconchegante ao lugar. O loiro russo estava vestido de forma despojada, de jeans e uma camisa de linho na cor salmão, sapatênis e à vontade assim parecia-lhe ainda mais jovem do que aparentava no escritório. Hyoga também percebera que Kagaho trocou o terno austero pelo blazer esporte com uma camisa de malha fria de gola alta. “perdidamente bonito”, constatou o russo para si mesmo ao vê-lo se instalar na poltrona de Camus que Hyoga lhe oferecera.

— Café? Alguma bebida?

— Uísque, afinal hoje é sábado! Prometo não levar muito tempo de você, parece que está ocupado. – Kagaho apontou além da porta, já que do escritório podia-se ver o quarto de Krest onde se podia ver o garotinho pulando e correndo lá dentro.

— Ele vai ficar lá até o jantar.

— Não me importo. – o olhar do advogado sênior era terno para o pequeno russo – Ele tem muita energia assim como você, mas confesso que esperava uma pequena cópia loira nórdica sua já que fala tanto dele! – os dois riram – Vamos tratar dos detalhes do processo logo porque você me prometeu o melhor jantar de Atenas lembra?

— Claro! Você não vai provar melhor! Eu também preciso da sua ajuda, na verdade é uma assessoria de como proceder num caso especifico, mas isso fica para depois do jantar. – Hyoga pediu sem jeito – É um assunto meio urgente.

— Vamos rever a defesa e depois conversamos.

Começaram a discutir os pontos da defesa, era um processo complicado que necessitava de muitos detalhes, até porque Kagaho lidaria com nada mais, nada menos que Kanon Laskaris. Tido como um dos melhores advogados corporativos do meio, rivalizava apenas com ele, Kagaho.

Li Ang Sing não admitiria perder para Laskaris, era uma rixa muito antiga.

Ficaram entretidos com o processo por horas até algo começar a intrigar Kagaho e ele desviar seus olhos das anotações para acompanhar o vai-e-vem em frente à porta do escritório.

— Krest! – Hyoga chamou enfim e o garotinho parou no meio da porta olhando para os dois com seu único olho fora da franja.

— Quero camarão. – pediu com voz baixa.

— Nossa é tarde, não é atoa que ele está ansioso. – Kagaho chamou o garotinho com um gesto que era tudo que Krest queria para entrar na sala, até se sentiu muito à vontade para subir no braço da poltrona e que Kagaho estava – Olá mocinho.

— Oi quem é você? – Krest perguntou faceiro.

— É o meu chefe, já expliquei a você. – Hyoga começou a recolher suas coisas, já era tão tarde! Camus ia chegar e querer o seu escalpo porque já passara e muito da hora de Krest jantar – Anda vamos jantar! O Camus vai me matar.

— Camus? – Kagaho ainda parecia entretido com o garotinho – O nome do seu padrasto é Camus?

— É sim, Camus Chevalier. Você deve conhecer porque ele é ex-patinador olímpico.

— Ah eu conheço sim, mas não é por isso que o conheço. Já ouviu falar de Saga Laskaris?

— Já, inclusive é justamente sobre ele que eu quero falar com você.

***

— Porque mesmo estamos encurtando nossa noite? – Camus afivelou o cinto do carro um tanto chateado, esperava persuadir Milo de ficar mais tempo fora de casa como uma forma de adiar a temível conversa que teriam quando chegassem.

— Quero pegar aquele advogado em casa ainda, olhar na cara do chefe do Hyoga porque nunca se sabe... – o grego pegou na coxa do marido e piscou sacana – A gente se contenta com um papai e papai hoje ok?

— Meu deus você muda! – Camus revirou os olhos se jogando no banco bufando, agora mais irritado ainda.

Não era porque Hyoga tinha vinte anos que não deixaria de se preocupar com o filho, até porque não confiava no dedo podre para relacionamentos do loirinho. Tenma e depois Ikki, agora aquele celibato forçado. Camus e ele discutiam muito sobre isso, o francês achava que Hyoga precisava tentar de novo e ser feliz já Milo queria o filho ficasse sozinho para sempre. Só queria que ele nãos e afogasse em trabalho.

Apesar de ainda estar no campo jurídico, o trabalho ficou de lado durante o jantar e Kagaho e Hyoga discutiam agora sobre as suspeitas do mais novo. Kagaho elogiou efusivamente o jantar, Krest nem tanto por julgar-se tapeado. Acabou tendo que comer seu bife grelhado e a comida leve que Camus deixara para ele, assim não sobrou espaço para o camarão ou então ele ficaria sem a sobremesa. Sem citar nomes, por conta do irmão que estava à mesa, Hyoga contou sobre o caso de Camus até servir o sorvete.

— Pode ir comer na sala, menos no tapete. Ouse manchar aquele tapete e você vai ver a fúria ruiva. – advertiu o irmão ao lhe entregar a vasilha com o doce gelado.

— Não é tão surpreendente o seu relato, Savalas. – Kagaho disse após a saída de Krest – Conheço os Laskaris desde a adolescência, cheguei até a conhecer seu pai enquanto ele já andava com Kanon... Mundo pequeno. – o japonês balançou o vinho em sua taça – Não sei se sabe, mas há uma estranha relação entre os gêmeos e por anos Wyvern esteve no meio dela assim como Camus estava, passou por coisas semelhantes acredito.

— Camus passou por tortura psicológica por anos na mão do Saga, ele nunca se deu conta, só quando nós o conhecemos e ele se envolveu com o meu pai foi que descobriu. – Hyoga remexeu no sorvete pensativo – Ele quase morreu por causa desse escroto! Ele voltou para atormentar meu pai de novo, preciso parar ele de alguma forma.

— A primeira coisa que vocês devem fazer é abrir a ocorrência na policia, vou indicar o caso para Radamanthys. Não é só pelo passado em comum, ele é advogado da vara da família também e tem mais conhecimento nesses casos.

— Então preciso conversar com ele?

— Deixe que eu mesmo faça isso, provavelmente ele aceitará assim que ouvir o nome “Saga”. – Kagaho sorriu lembrando como Wyvern deseja há tempos massacrar o antigo amante – Convença Camus de ir à polícia, precisaremos do boletim de ocorrência para a medida restritiva de qualquer forma.

— Certo... Mais vinho? – Hyoga perguntou já estendendo a garrafa para encher a taça de Kagaho. Serviu a ambos mais uma taça.

— Estou intrigado com você Savalas, não consigo defini-lo em um padrão. Dos jovens que já conheci e que passaram pela Elíseos, você é sem dúvida o mais intrigante. – confessou Kagaho, era muito direto com suas impressões e objetivos. Quando queria não era de meias palavras e já havia muitos melindres entre ele e Hyoga – Vinte anos, jovem advogado e estudante que fica aos sábados em casa cuidando do irmão pequeno. Atraente e jovem como é, poderia estar fazendo um mundo de coisas além de ler processos e cuidando de uma criança.

— Me acha atraente? – Hyoga arregalou os olhos, ficando confuso com aquele comentário de Kagaho. Este esperava que o assistente aproveitasse a “deixa” e revidasse o flerte, era o que todos faziam para se dar bem com o chefe ou apenas para aproveitar a oportunidade de uma noite com Kagaho Li Ang Sing.

No entanto, mais uma vez Hyoga lhe surpreendia, fazendo justamente o contrário do que esperava e Kagaho começava a notar demais aquele jovem russo. Aquilo era perigoso!

Hyoga ergueu-se murmurando sobre a louça e começou a recolhê-la, desconcertado e confuso com aquele clima que de repente se instaurou, foi para a copa quase correndo. Kagaho acabou por sentir-se um tanto culpado por constranger Hyoga em sua própria casa, em meio aquele assunto sobre o padrasto.

Ergueu-se e foi procurá-lo na copa, encontrando-o à frente da pia fitando a louça suja.

— Melhor eu ir embora, queria pedir desculpas por qualquer coisa e agradecer de novo pelo jantar.

— N-não... Você não deve ir assim, eu só vim... – o russo respirou fundo e então fitou o chefe, melhor fingir que nada acontecera porque era melhor do que entender que Kagaho o achava “atraente”. – Vamos terminar o vinho e conversar sobre o caso do meu pai.

— Se estiver tudo bem para você,

— Está. – embora toda a sua postura fosse de retração e desmentia suas palavras. Kagaho era um homem muito intenso e intimidante também. Geralmente seus flertes eram correspondidos prontamente e não era a primeira vez que se direcionavam a alguém mais jovem. Acontece que seus amantes eventuais eram mais desenvoltos também, o que não era o caso de Hyoga e Kagaho não sabia o que fazer naquele caso. Era a primeira vez que suas habilidades de Dom, não funcionavam.

Estavam muito próximos e Hyoga sentia-se mexido com aquela proximidade, há meses que trabalhavam juntos e o russo sentia-se atraído pela personalidade poderosa de Kagaho, sua aura predadora. Há muito que não se permitia pensar em outros homens daquela maneira e seria justamente Kagaho Li Ang Sing que acabaria com aquilo?

— Melhor que eu vá antes de fazer algo de que me arrependa. – Kagaho ergueu o queixo de Hyoga olhando bem dentro dos olhos azuis do outro – Você me intriga Savalas, de diversas formas.

— Você também me intriga, mas é meu chefe o que só complica as coisas. – murmurou Hyoga observando como o olhar de Kagaho parecia devorá-lo. "Porque ele tem que fazer isso?", pensou o russo corando e o japonês notando seu embaraço, sorriu.

Foi o tilintar de um talher no balcão de mármore que os fez se afastar Hyoga só conseguiu ver parte do sapatinho do irmão correndo porta afora e a tigela de bichinhos no balcão.

"Era só o que me faltava".

— Krest! – gritou e saiu da cozinha. A campainha tocou e o pequeno já corria para a porta chamando os pais – Krest não abra a porta assim! Não é o papai...

— Vai embora! – gritou o garotinho fechando a porta com a chave, Hyoga e Kagaho chegaram nesse momento à sala e o mais novo foi até a porta que verificou estar trancada. Krest já corria em direção aos quartos.

— Quem é?

— Sou eu Hyoga, o Ikki.

A voz grave estava mais profunda, mas ainda era a mesma que fazia sua pele se arrepiar quando a ouvia. O russo apoiou-se na porta sentindo o coração acelerar, sempre pensou que estava pronto para rever Ikki Amamiya. Mas não estava.

— Algum problema? Ficou pálido de repente. – Kagaho se aproximou estranhando a comoção que via no russo.

— Não eu... Já vai Ikki, eu vou... – Hyoga tropeçou em seus próprios pés e foi amparado por Kagaho – Preciso pegar a chave e abrir a porta. Krest! – saiu pelos corredores atrás do menino.

Achou o irmão não só com a chave da porta como com as suas chaves também, sem acreditar que ele conseguira achá-la na bolsa. Começou a correr atrás do garotinho para tentar pegar as chaves, mas Krest era arisco e estava disposto a manter Ikki lá fora. Kagaho olhava tudo rindo de forma divertida.

Do lado de fora da cobertura dos Savalas Ikki estava ansioso e confuso, ouvira a voz do russo e de outra pessoa e isso o fez sentir-se desconfortável. Algo inexplicável estava lhe incomodando! Quem era aquele cara?

— Ikki? O que está fazendo aqui fora? – Camus perguntou, ele e Milo saiam naquele momento do elevador e ficaram curiosos ao ver o jovem pediatra parado na porta da cobertura fazendo aquela cara incrédula.

— Ah, eu vim... – Ikki coçou a nuca – Vim perguntar se você ainda tem aquele jogo de chaves pequenas, se você podia me emprestar para montar uma estante em casa. O Krest abriu a porta, mas fechou logo em seguida me mandando embora. Tem alguma coisa estranha acontecendo aí dentro.

De fato, podiam-se ouvir as vozes exaltadas de Krest e Hyoga lá de dentro. Camus abriu a porta com a sua chave pronto para resolver aquela balburdia, Milo e Ikki entraram logo atrás do francês.

— Me devolve essa chave agora sua peste!

— Não! Ele não vai entrar... – Krest viu os pais entrando e o moreno – Pai! Por que deixou esse aí, entrar aqui! – gritou o menino indignado, ele e Hyoga estavam vermelhos e ofegantes.

— Krest, me dê às chaves agora. – Camus adivinhou tudo assim que viu os filhos ali que pareciam prestes a se matar. Estendeu a mão em direção ao filho menor e esperou, seu tom era baixo, mas firme – Vá agora buscá-las e vá para o quarto, você está de castigo.

— O Ikki fez o Hyoga chorar pai!

— Krest!

Uma oitava mais alto que o normal e o menino sabia que estava encrencado quando Camus falava daquele jeito. Mesmo assim fez um bico enorme e cruzou os braços, muito emburrado indo para dentro e trazendo as chaves um minuto depois. Hyoga não sabia onde enfiar a cara, Ikki só tentava não olhar para ninguém e Kagaho apenas olhava de um para o outro achando interessante aquele clima que se instaurou entre eles.

— Não acredito que você estava brigando com Krest na frente do seu chefe. O que ele vai pensar de você, Hyoga? – Camus se virou para Kagaho, arregalando os olhos ao reconhecer o advogado – Eu deveria saber que não existem dois Li Ang Sing em Atenas. Como vai Kagaho?

— Muito tempo não é? – apertaram as mãos – Camus você é como o vinho, o tempo só melhora você. Não se preocupe com o que eu possa pensar do seu filho e da sua família, não há o que dizer sobre eles. Tem uma família linda Chevalier.

— Tenho que concordar com você. – Milo interveio erguendo a mão para apertar a de Kagaho, o olhando diretamente apenas como uma indicação que estava ali – Então vocês já se conhecem?

— Somos velhos conhecidos. – Camus que respondeu – Mon cher, Ikki está esperando as chaves, Hyoga e Kagaho precisam trabalhar acredito...

— Já estava indo embora, não se preocupe Camus. Garanto que nos vemos novamente, obrigado pelo jantar e pela noite. Apesar de ter nossa parcela de trabalho, a noite foi muito agradável não é Hyoga? – Kagaho olhou para o russo sorrindo – De novo, sua família é linda Chevalier, fico feliz em saber que você conseguiu superar todas as adversidades.

— Vou levar o Kagaho até o elevador pai. – Hyoga se adiantou e chamou Kagaho até o escritório para pegarem as coisas do advogado, querendo fugir o mais rápido possível do olhar avaliativo de ambos os pais. Ignorou Ikki porque nem tinha forças para fazer mais nada.

— Milo, as chaves de Ikki. – Camus despachou o marido – Krest, quarto agora! – só então se voltou para o japonês – Está precisando de ajuda na mudança Amamiya?

— Está tudo praticamente arrumado já, só uma coisa ou outra. – Ikki lambeu os lábios e enfim soltou o que tanto lhe incomodava – Krest me odeia não é?

— É que ele é louco pelo irmão, mesmo que até o próprio Hyoga tenha tentado tirar essa ideia da cabeça dele... – Camus estalou a língua – Bem, digamos que há quatro anos não foi um bom momento em que ele viu o irmão. Curiosamente Krest é como Hyoga e tem uma memória excelente.

— Ah... Claro! Bem... – Ikki suspirou desanimado – Ele costumava me adorar, eu sinto muito por isso ter acontecido.

— Percebe-se. – o olhar afiado de Camus estava percebendo muitas outras coisas também.

— Aquele cara... Ele é...

— Chefe do Hyoga, um velho conhecido meu. Eles parecem se dar muito bem, é uma coincidência bem intrigante que Kagaho esteja deslumbrado por Hyoga, mas ele impressiona as pessoas à primeira vista não é mesmo?

— Aqui Ikki. – Milo voltou à sala com um pequeno estojo na mão que estendeu ao moreno e impedindo-o de responder – Perca uma delas e eu te mato! Quer ajuda lá na mudança Ikki?

— Tá tranquilo, de verdade. Quero convidar vocês para almoçar lá amanhã, vou fazer um almoço de inauguração da casa. – o japonês bateu no ombro de Milo de forma amigável – Apareçam lá, seria bem legal que todo mundo fosse.

— Todo mundo você já quer demais ou você não viu como Krest e Hyoga parecem ser os seus fãs? – Milo não deixaria de cutucar a ferida, mesmo que Camus o olhasse daquela maneira cheia de repreensão – Mas a gente vai lá sim, Ikki. Dá uma força!

Ikki não deixou de rir, embora a indireta tenha encontrado aquele seu ponto de culpa que ultimamente vinha latejando, como uma ferida mal cicatrizada. Esperava que as coisas voltassem a ser como antes, quando ainda eram amigos e tudo mais. Mesmo que a atitude de Milo e Camus fosse amistosa, Krest e Hyoga não lhe pareciam tão felizes com o seu retorno. Se eles estavam assim, agora temia os amigos.

Com esses pensamentos desanimadores ele saiu do apartamento dos Savalas e se encaminhou para o elevador para voltar ao seu andar...

***

Hyoga acompanhou Kagaho até o elevador em silêncio, na frente do veículo apertou os botões e ficou ali sem saber o que fazer. Pedir desculpas, correr de volta para o apartamento e falar com Ikki, beijar Kagaho...

— Ex-namorado?

— Quê? – piscou confuso para em seguida enrubescer de forma adorável – Como adivinhou?

— Não sou o melhor advogado da Grécia à toa. – sorriu muito senhor de si e Hyoga cerrou os olhos, odiando ser objeto de troça do chefe – Você está louco para voltar lá.

— Nem tanto assim! Não ache que sabe tudo sobre mim senhor Li Ang. – revirou os olhos, podia estar uma bagunça emocional, mas jamais daria o braço a torcer para Kagaho.

— Você está me desafiando? Deveria levar uma advertência por isso assistente.

— Posso processá-lo por assédio senhor advogado sênior. – retrucou Hyoga mordaz, erguendo o queixo de forma petulante – Quem estava flertando com quem?

— Ah então você percebeu. – Kagaho se inclinou na direção do russo que recuou um pouco e acabou encurralado contra a parede ao lado do elevador – E me fazendo de idiota o tempo todo. O que quer afinal?

— Se eu tiver algo com você, serei demitido no dia seguinte.

— Você não tem como saber. – sussurrou o mais velho junto aos lábios cheios do jovem russo e sem mais se conter selou eles com os seus.

Hyoga nem pensou em resistir, ainda mais quando Kagaho largou a pasta no chão e o imprensou na parede com o corpo forte, uma das pernas entre as do loiro e a boca devorando a dele. A língua do japonês exigiu passagem entre os lábios do outro que sentindo a boca de Kagaho levar seu controle para o limbo.

Li Ang Sing também perdeu seu controle, era muito diferente o desejo que sentia naquele momento. Não imaginava que estivesse tão sedento pelo assistente como estava! Deus, ele era apenas uma presa, mais um que partilharia sua cama por uma noite, talvez duas, então porque aquele desespero de tê-lo assim?!

O ar se fez necessário e eles partiram o beijo, as mãos grandes de Kagaho estavam no rosto alvo, Hyoga segurava os pulsos do outro com força para se firmar. Os olhares se encontraram e havia demais ali, pela primeira vez em quatro anos o russo desejou ardentemente que ele o possuísse.

Ikki sentiu um misto de desconforto e vergonha ao estar ali presenciando aquele momento entre Hyoga e o outro, desviou o olhar e se preparava para descer as escadas quando ouviu o sinal do elevador que chegava. O veículo se abriu quando o Kagaho e Hyoga se afastaram.

— Não pense que está livre de terminar essa conversa Savalas. – Kagaho percorreu a linha do queixo delineado do russo com o polegar – Terminamos depois da audiência, tirarei o domingo para me concentrar.

Deixando um selinho nos lábios do russo, Kagaho pegou a pasta e entrou no elevador. Hyoga ainda estava ofegante e aturdido com a loucura que acabara de fazer, tinha se controlado tanto e na primeira oportunidade Kagaho esmagara toda a sua resolução! Passou a mão nos cabelos e no rosto se afastando da parede quando viu Ikki pela visão periférica, agora sim queria se jogar pela janela.

— Se o Milo vê isso ele tem um infarto. – Ikki mordeu o lábio e riu, um tanto sem graça e por isso resolveu brincar para quebrar aquele clima constrangedor – Tem que avisar para o seu...

— Amante. – Hyoga respondeu de pronto. O que ganhava negando? Ikki não precisava saber que passara os últimos quatro anos fugindo de relacionamentos, enquanto ele era casado e feliz – Bem, preciso ir agora.

Era mais seguro assumir Kagaho como amante do que algo mais sério, talvez a impressão disso fosse que ele agora colecionava casos ocasionais. Que Ikki pensasse assim era melhor do que descobrir que ele não passava de um fracassado.

Antes que Hyoga se afastasse o suficiente Ikki tocou em seu ombro, o russo se virou e o encarou com a expressão dura, mesmo que não fosse a sua intenção. Hostilidade era a palavra que vinha na mente de Ikki ao fitar os olhos de céu do ex-namorado.

— Eu queria que você viesse no almoço em casa amanhã, seria importante ter você lá.

— Tenho muito trabalho, não posso aceitar o seu convite. – respondeu Hyoga a meia voz. Quase riu da ironia daquilo! Ir num almoço de boas-vindas para Ikki e sua bela esposa, como se tudo fosse águas passadas e eles fossem se tornar amigos e vizinhos...

Porque não podia ser assim? Ele mesmo se perguntou. Porque não ir em frente e esquecer Ikki Amamiya de vez, tentar ser feliz com outra pessoa já que Ikki parecia estar fazendo isso. Era o que as pessoas normais faziam, porque ele não conseguia fazer?!

— E-eu realmente queria poder conversar com você. Sinto falta da nossa amizade, nós três juntos como era antes. Eu, você e Shun. – Ikki disse ameno e deixou a mão escorregar pelo braço de Hyoga que se retesou com o toque, se afastando. O moreno suspirou vendo o quão ressentido Hyoga ainda estava, não queria aquilo de verdade. Ao que parece ter retornado só fizera tudo se revolver, seus sentimentos de culpa, o ressentimento de Hyoga.

Ele podia dizer que estava arrependido? E estava? Mas de quê? De ter terminado o namoro deles e casado com Esmeralda ou de ter namorado Hyoga?

Hyoga apenas sorriu de maneira irônica e dolorida e foi em direção ao seu apartamento deixando Ikki para trás. Era tudo que queria para aquele fim de noite desastroso, Amamiya todo saudoso da amizade deles enquanto Hyoga só queria gritar por ter que conviver agora com a felicidade dele. Porque agora sabia que tudo sempre foi apenas do seu lado, na verdade só ele amou na relação deles, Ikki nunca e por isso fora tão fácil para o moreno deixá-lo.

“Por que você voltou? Porque não podia ter sumido para sempre?!” Hyoga pensou respirando fundo e tentando se controlar antes de abrir a porta de casa e enfrentar os pais, sabia que não ficaria livre das perguntas, mas isso era o menor dos seus problemas agora.