Notas iniciais
Oiieee pessoal! Então, aqui vai o primeiro capítulo do segundo arco de Amor com amor se paga. Eu resolvi finalizar a primeira fic e iniciar essa porque como o foco aqui vai ficar mais no Hyoga e no Ikki, quem quiser acompanhar até lá pode ficar mais à vontade. Isso não significa que não terá poison ice aqui, na verdade tem e muito! Enfim, boa leitura ♥

Quatro anos depois.

Hyoga olhava para os números vermelhos no indicador digital dos andares batendo o pé de forma impaciente, estava atrasado e hoje era um dia muito importante.

— Pai? – atendeu a ligação pelo fone acoplado na orelha.

— Você esqueceu alguns livros sobrea bancada da cozinha. – Camus falou olhando a pilha de livros sobre o balcão que Krest tentava alcançar para puxar o livro que aparecia na ponta. Com cinco anos, ele era um garotinho curioso e menor que os garotos da sua idade, contudo já demostrava ser mais inteligente que eles também.

— Puta que pariu! – murmurou. Um homem parou ao lado de Hyoga à espera do elevador, mas o loiro não ligou e continuou a falar com o pai. – Vou ter que me virar sem eles hoje, com sorte os professores não precisarão dos livros. Não aguento mais esse curso, ainda bem que é só mais uma semana!

— Você queria fazer o específico para a vara de família, não entendo até agora porque decidiu se tornar advogado, mas você quis então não reclame. – Camus apoiou o telefone com o ombro e pegou os livros antes que eles caíssem como uma avalanche sobre Krest, que recebeu um olhar zangado do pai e por isso saiu correndo da cozinha – Porque estava correndo hoje?

— Dormi demais. Hoje eu precisava chegar cedo porque o Todo poderoso Kagaho vai escolher seus novos assistentes para o ano, com sorte posso estar entre eles.

— Boa sorte então petit. – disse Camus.

— Obrigado pai, preciso desligar agora o elevador chegou.

Hyoga entrou no elevador primeiro sem notar a hesitação do homem que o olhou a espera de algo, então o moreno entrou no elevador junto com o russo que estranhou o fato do outro ser o único a também entrar no veículo. Havia outras pessoas aguardando o elevador também, mas ele fechou e ninguém além do homem vestido num “Dolce e Gabbana” entrou, Hyoga estava de novo com aquela mania de reparar nas roupas alheias.

Hyoga se formara recentemente em Direito para surpresa de todos que o conheciam, até Milo que julgara conhecer o filho. Depois do rompimento com Ikki o russo começou a mudar gradativamente, deixando algumas características suas para trás e reformulando seus planos. Tirando o esforço redobrado para estudar o fato de se tornar mais caseiro e um tanto introspectivo preocupou aos pais, mas Hyoga não queria discutir sobre o assunto então Milo e Camus resolveram acompanhar de perto e não interferir até que vissem que seu novo jeito, estava interferindo negativamente na vida dele.

O fato é que o russo estava indo bem apesar das estranhezas. Formou-se como primeiro aluno no curso de Direito e passou sem problemas na prova para conseguir a licença, também havia conquistado há pouco tempo uma vaga de estágio na Elíseos, um dos principais escritórios de advocacia de Atenas. A vaidade se acentuara conforme ele se tornava mais adulto e graças à convivência com Camus, com vinte anos Hyoga era tão exigente de si mesmo e de sua aparência quanto o francês.

— Devia ter escolhido a gravata azul. – resmungou olhando-se no espelho atrás de si, ajeitando a gravata dando os últimos retoques na aparência.

— Essa vermelha é muito bonita, seu chefe vai gostar. – comentou o outro passageiro e só então Hyoga se dignou a dar-lhe atenção. O terno negro delineava com perfeição a constituição viril, dando uma ideia bem especifica do corpo por baixo, não que o rosto de traços fortes já não desse. Era uma beleza agressiva que não deixava de ser bela em todo caso, os olhos de madrugada lhe lembraram de Ikki a primeira vista. No entanto, eram mais incisivos e misteriosos, olhos de um caçador observando a presa.

— Você o conhece?

— Digamos que sim. – uma insinuação de sorriso entreabriu os lábios cheios e o homem virou-se para o espelho também observando o loiro russo – Está querendo impressioná-lo certo?

— Claro, hoje é um dia importante e talvez eu consiga trabalhar em um caso importante.

— Verdade, é de animar qualquer um. – Hyoga riu da expressão de pouco caso do outro, ao que parece só ele estava muito animado para trabalhar com Kagaho Li Ang Sing.

— Olha, as pessoas podem não ter uma ideia muito boa do senhor Li Ang Sing, mas ele não seria um dos principais advogados de Atenas por qualquer coisa. Qualquer pessoa que preze a profissão deveria se sentir lisonjeado em trabalhar com ele.

— Vai fazer esse discurso a ele na entrevista? – o moreno debochou. Hyoga o julgava ser japonês apenas pelos olhos puxados, mesmo que tivesse aquela dor incomum – Não acha que puxar o saco dele vai adiantar muito, certo?

— Eu não preciso puxar o saco dele, eu me garanto. – o elevador abriu no andar de que Hyoga escolhera e o russo saiu do veículo, antes que ele fechasse ainda fez uma ultima pergunta aquele homem arrogante que o achava um bajulador – Como se chama?

— Todo poderoso, mas pode me chamar de Kagaho Li Ang Sing. – o japonês deu uma piscadela antes de o elevador fechar e Hyoga arregalou os olhos ao constatar com quem estava falando.

***

Ikki afastou mais as coxas delineadas de Esmeralda para alcançar o vértice entre elas, a jovem pesquisadora se arqueou na cama ao sentir a língua do marido lhe provar tão intimamente, soltando um gemido languido. Arrastou as unhas no couro cabeludo de Ikki sentindo os primeiros tremores do orgasmo.

O japonês se ergueu deslizando a boca pelo corpo da esposa beijando e sugando os seios pequenos antes de tomar os lábios de Esmeralda em um beijo profundo, se posicionando entre as pernas dela iniciando a penetração. Os gemidos se misturando e as unhas de Esmeralda correram as costas suadas do pediatra que já se movimentava indo e vindo dentro dela, sentindo o interior aveludado se comprimir em volta de si.

Durante esses quatro anos Esmeralda e Ikki viajavam pelo mundo, sugestão da loira que era fascinada pelo oriente e queria conhecer o mundo. Por dois anos tudo que Ikki viveu foi essa experiência no auge e se deliciando com a sensação de liberdade, porém, em algum momento ele já sentia que lhe faltava algo e depois de passar alguns meses na missão voluntária na África o moreno decidiu que queria tornar-se pediatra. Dessa forma estavam em um dilema sobre voltar à Grécia, Aiolos mantinha contato sempre e além de Shun e o próprio Milo, de forma que ele já tinha uma vaga no hospital universitário da Fundação para fazer residência se quisesse voltar.

Ikki sempre estava atento à vida que deixou na Grécia, aos amigos que permaneceram lá e principalmente Hyoga. Quando partiu não via o loiro há meses, só ficou sabendo por intermédio de Shun que o russo decidira ir para a Rússia com a tia por um tempo, agora que Milo e Camus estavam juntos não teria a preocupação de deixar o pai sozinho. Aquela decisão do loiro deixou Ikki ainda mais culpado, pensar que ele era a causa do afastamento do russo acabou fazendo-o aceitar a proposta de Esmeralda de viajarem pelo mundo.

Terminaram com um arquejo da loira e Ikki afundando o rosto na curva delicada do pescoço, se derramando na camisinha no mesmo momento em que Esmeralda arqueava o corpo por conta do orgasmo.

— Odeio esse troço. – resmungou Ikki que rápido já se retirava de dentro da mulher para se livrar do preservativo.

— É só por mais alguns dias, eu preciso ter certeza que o novo anticoncepcional está fazendo efeito.

— Se você aceitasse a minha ideia de ter um filho, nós não precisaríamos disso.

— Amamiya, nós não podemos ter um filho agora. Eu vou fazer o mestrado em Atenas já que você teve a brilhante ideia de voltar para fazer residência lá. – Esmeralda se remexeu na cama se cobrindo um pouco com o lençol – Já percebeu que suas ideias estão sendo muito conflituosas amor?

— Só porque você não concorda com a maioria delas. – retrucou o japonês se erguendo para ir ao banheiro.

Quatro anos e o mar de flores havia passado, as viagens deixavam o clima de lua de mel durar até mais do que o imaginado, mas a rotina começava a estabelecer as diferenças no casal. Amava Esmeralda ainda, mas agora o que tanto amava nela parecia uma barreira entre eles, seu espirito livre causava algumas discussões entre eles. Viveram momentos maravilhosos, o sexo ainda era fantástico e Esmeralda ainda o encantava como quando a conheceu e tudo parecia bem...

Mas faltava algo. Faltava a sensação de estar em casa naquela pequena cozinha de Milo comendo amontoados rindo de algo que o grego dizia, faltava aquele aconchego do quarto de Shun quando todos os amigos estavam lá no espaço pequeno jogando alguma coisa ou apenas conversando. Faltava o som de risos de Shun e Hyoga enquanto estavam juntos apenas assistindo a TV velha da casa deles.

Soube por Shun que Hyoga havia se formado em Direito e que agora era advogado aspirante a uma vaga de associado em um grande escritório em Atenas, era-lhe curioso que ele tenha se formado médico e o russo não. Hyoga ser pediatra era um dos muitos planos que eles fizeram juntos e o loiro parecia tão decidido a tornar-se médico que Ikki pensou que ele de fato seguiria pelo menos esse plano. Não tinham planos ambiciosos, eles só se casariam e morariam na casa ao pé do monte Pireu com Ikki trabalhando na oficina e Hyoga na Fundação ajudando as criancinhas.

Eram bons planos em todo caso, pelo menos Ikki se formou em Medicina.

— Você anda muito pensativo desde que decidiu voltar. – Esmeralda tirou Ikki da sua introspecção à frente do espelho do banheiro, estavam no Marrocos naquele momento, depois voltariam direto para a Grécia – Está arrependido?

— De ter saído de lá. Estou com receio de como serei recebido, de ver como está tudo que deixei para trás.

— Seus amigos ainda são seus amigos, independente da distância e se eles forem mesmo seus amigos quero dizer. É só isso ou é a expectativa de rever Hyoga que lhe incomoda? – a loira tinha o lençol cobrindo o corpo e havia apoiado-se à porta para conversar com o marido.

— Não acho que ele queria me ver de novo.

— Acredita que ele ainda te odeie por todo esse tempo?

— Não sei... – Ikki deu de ombros, mas na verdade era sua maior preocupação – Hyoga ficou muito magoado e eu sei que ele me ama muito.

— Você acredita que ele ainda te ame?! É muita pretensão da sua parte ainda acreditar nisso Ikki, – Esmeralda riu sarcástica – pretensão sua e idiotice dele se você estiver certo. Ninguém pode ficar plantado esperando alguém voltar assim, ele não seria tão burro.

***

— E se ele voltasse hoje e quisesse reatar dizendo que cometeu um erro tremendo e que ele ainda ama você?

— Não sei e me assusta não saber Pan, eu só sei que de alguma forma ele ainda está aqui dentro. – Hyoga colocou o copo de saquê de volta à mesa – Vocês todos tem alguém que amam, devem saber o que estou dizendo. O fato de ele ter ido embora, não mudou muita coisa do que eu sinto e é horrível admitir isso, mas é a verdade.

— Mas voltar para ele seria idiotice Hyoga! – indignou-se Hilda e houve murmúrios e gestos de concordância em volta. Era sexta-feira à noite, dia da reunião dos veteranos da Fundação Kido e eles escolheram um restaurante japonês para a ocasião. Todos os amigos do Projeto Medalha de Ouro estavam reunidos, até Shun que voltara a Grécia depois de uma competição e agora curtia sua precoce aposentadoria da ginástica olímpica, havia se machucado e rompera os ligamentos do joelho, forçá-los seria inapropriado. O jovem decidiu voltar para casa e casar, Shiryu há muito decidira jogar a esgrima para o alto e voltar para casa. Os únicos que ainda competiam era Hilda e Pandora, Seiya e os outros rapazes da equipe de luta.

— Acho que vocês nem deviam pensar nessas coisas, ele está casado agora e feliz pelo que eu sei e o Shun faz questão de me contar. – o loiro fez uma careta – Então bola pra frente!

— O Ikki vai fazer mesmo residência no hospital da Fundação, Shun?

— É sim, ele deve estar chegando na semana que vem. – Shun pegou os hashi e deu de ombros – Arrumei um apartamento pra eles no nosso prédio.

— Com um amigo como Shun, quem precisa de inimigos? – debochou June rindo com os outros.

— A sorte dele é que eu vou estar tão ocupado na Elíseos que não vou ter tempo de ver a felicidade de quem quer que seja para me sentir infeliz, daqui há um tempo nem Krest mais vai lembrar de mim.

— Você conseguiu! – gritou Pandora extasiada – Não acredito que conseguiu a maldita vaga de assistente.

— Claro chéri! Você acha que eu não conseguiria? – Hyoga abusou do tom sarcástico, mas a verdade era que ele tinha certeza que nunca conseguiria. Não depois do furo enorme no episódio do elevador! Achava que acabaria como auxiliar da repartição, mas acabou sendo chamado para assistente de Kagaho Li Ang Sing. – O outro é o Thanatos, você conhece alguém mais boçal? E ele ainda se acha porque é sobrinho do Kagaho, filho do juiz Hades! Minha vida vai ser um inferno na terra.

Apesar de reclamar Hyoga estava mais do que feliz em conseguir uma das duas vagas de assistente de Kagaho, era um passo muito importante na sua carreira como advogado. Fora um mistério como ele conseguira a vaga, mas agarraria a oportunidade com unhas e dentes!

— Um brinde ao trabalho escravo do Hyoga que vai dar um up na vida! – gritou Seiya levantando o seu copo de saquê e os outros fizeram o mesmo, rindo e falando ao mesmo tempo em uma pequena algazarra.

Não era um trabalho escravo naturalmente, mas Hyoga sentia como se fosse. Sua primeira semana sobre a “batuta” de mestre Kagaho foi extenuante e o russo sentiu como se todo o trabalho de repartição pública de Atenas fosse ali. Thanatos estava tendo tanto ou mais trabalho que ele já que era lento com os relatórios.

— Já terminou os autos do processo Acrísios vrs Kratos Corporation? – Kagaho voltou-se para o segundo assistente ao vê-lo mexer nos laudos técnicos em sua mesa, já estavam interagindo há semanas e ele notava algumas peculiaridades no garoto russo que lhe deixavam intrigado.

Percebera que Hyoga apenas passava os olhos pelos relatórios e fazia uma série de anotações, passava de um processo para o outro com muita rapidez e ele e Thanatos estavam se desentendendo constantemente. Thanatos gostava de deixar boa parte do trabalho para o jovem advogado russo, que apesar de pestanejar acabava fazendo e o mais surpreendente, dando conta. Nenhum dos dois percebia que eram analisados por Li Ang Sing, que só queria os melhores ao seu lado. Ambos os assistentes foram indicações de seus outros sócios, o jovem russo foi defendido veemente por Aiacos e estava fazendo jus a fama que tinha naqueles anos no escritório. No inicio apenas levara em conta o advogado mais velho, Thanatos era experiente em tribunais apesar de não ter nenhum caso importante, mas já trabalhava há anos no ramo enquanto Hyoga recém se formara.

Além de tudo, o jovem loiro era atraente e tinha aquele “jeito”. Ele seria assim tão submisso quanto aparentava?

— Já terminei os autos, vamos poder falar com os técnicos da construtora? – Hyoga fitou o chefe por cima de sua pilha de papéis, desviando o olhar assim que percebeu os olhos de Kagaho sobre ele porque achava o olhar do japonês intimidante demais. Principalmente agora com aquele ceticismo, ficava ainda pior – Ei eu li os altos!

— Duvido. – Thanatos riu debochado – Eu nem terminei o parecer do juiz como pode ter lido todo o processo pirralho?

— Acontece meu caro colega, que eu não preciso soletrar como você faz.

— Então vamos, conte-nos tudo sobre o que leu nos altos. – Kagaho deixou-se apoiar na poltrona segurando os braços de couro dela e fitando o mais novo, apesar de não olhá-lo, Hyoga não se intimidou com as dúvidas dos outros dois. Permitiu-se inclusive um meio sorriso antes de começar a falar por quase uma hora.

Explicou o processo em detalhes e suas impressões dos depoimentos e parecer do juiz, citou até alguns trechos dos documentos que Kagaho levara dias lendo! Kagaho e Thanatos o olhavam, boquiabertos, o segundo tinha tal incredulidade que pensava que aquele moleque russo só poderia estar inventando tudo aquilo.

— Como... Você só pode estar inventando tudo isso. — Thanatos balbuciou.

— Eu tenho memória fotográfica, é uma característica da hiperatividade e nem todo mundo possui. Meu irmão tem também. – respondeu dando de ombros

— É impressionante! – e Kagaho parecia mesmo impressionado.

— Obrigado. – Hyoga fez uma mesura à tradição dos orientais, deboche emanava dele, mas não se importou porque as caras de Kagaho e Thanatos eram prêmio mais que suficiente – Eu gostaria de falar com os técnicos da construtora pelos motivos que já mencionei aqui.

— Ok então vai falar. Se você conseguir as confissões deles a respeito das falhas técnicas dos projetos das balsas, vamos acabar com a Kratos Corporation no tribunal!

Hyoga sentiu-se orgulhoso e útil pela primeira vez em várias semanas.

Era como se tivesse passado por um teste muito difícil, a percepção disso ficou nítida depois desse dia e ao longo daquela semana. Kagaho estava menos distante e mais receptivo, sempre fazia questão de discutir com eles a respeito das nuances dos casos em que trabalhavam. Houve até o momento em que delegou funções importantes para ambos os assistentes e os deixou trabalhar sozinhos, cada um a seu modo.

Também havia outra coisa.

Kagaho estava mais próximo e isso intimidava e intrigava Hyoga, Kagaho era muito sutil, mas o loiro sempre capitava as segundas intenções em suas palavras. Às vezes jogadas de forma estudada para ver a sua reação, por seu turno Hyoga se fazia de desentendido e mantinha-se frio. Era comentado longe dos ouvidos de Li Ang Sing, que ele era um predador e escolhia suas presas de uma ou duas noites ali mesmo pelo escritório. A maioria das assistentes e não poucos, os assistentes, também almejavam ter uma noite com Kagaho. Mas, Hyoga não queria saber de uma noite ou a vida inteira, já tinha sua cota de decepções e traumas na vida. Visitava Tenma sempre que podia e Ikki estava prestes a esfregar a felicidade em sua cara, um andar abaixo dele, todos os dias. Então se envolver com um homem que por acaso era seu chefe, estava fora de cogitação. Mesmo que fosse por uma noite!

***

— A audiência dos Borbas, vai ser na segunda então precisamos rever a defesa esse fim de semana. De vocês quero apenas uma assistência no sábado, no domingo eu vou preparar a abordagem das testemunhas com o que discutirmos. – Kagaho disse aos dois assistentes naquela sexta depois de uma semana de trabalho intenso – O que acham? Pode ser na minha casa.

— Nem pensar! O fim de semana é a nossa folga. – chiou Thanatos indignado.

— Eu só não posso porque sábado é dia de eu cuidar do meu irmão, a não ser que vocês possam ir para a minha casa, não vejo problema nenhum. – Hyoga arrumava sua mochila com os processos que estudaria no fim de semana e seu notebook – Ele vai ficar quieto, só precisa da supervisão de um adulto porque meus pais não estarão em casa.

— Era só o que me faltava, agora ser babá! – Thanatos revirou os olhos e saiu sem se despedir dos outros dois, não ia virar um viciado em trabalho como o tio.

— Quer um conselho? Nunca contrate alguém da sua família para trabalhar com você. – Kagaho resmungou para Hyoga que riu de lado concordando, Camus e Milo às vezes se matavam por causa de algo na oficina, mas no geral a parceria dos dois estava dando certo – Tudo bem pra você se formos para sua casa mesmo? Vai demorar umas duas horas apenas, eu só quero revisar o parecer da construtora.

— Não tem problema, podemos jantar a melhor comida da Grécia depois. – Hyoga ajuntou satisfeito – Passo depois o meu endereço por mensagem!

— Ok então, eu vou cobrar o jantar. – Kagaho sorriu e mirou Hyoga sugestivamente, o loiro apenas deu de ombros e acenou, saindo em seguida mais uma vez deixando o chefe no vácuo.

Percebera que ele não fazia de propósito, fazia parte dele naturalmente. Para seu azar Kagaho Li Ang Sing era o deus do charme e seduzia tão naturalmente quanto respirar, era difícil para Hyoga resistir, mas ele estava firme nesse propósito. Não se deixaria apanhar como um patinho nas garras daquele lobo! Até porque nada sobraria no final, acreditava-se um tolo por natureza, então cria fortemente que se apaixonaria por Kagaho assim que o beijasse. Não arriscaria todo o controle que conseguira na sua vida por nada.

Uma hora ele ia desistir, pensava confiante enquanto dirigia sua moto para casa.

Lá chegando serviu a novidade de que iria se reunir ao chefe no sábado junto com o filé a parmegiana de Camus, com o pai e o padrasto à mesa e o irmãozinho.

— Deveríamos cancelar o jantar e ficar para deixar Hyoga livre, não é tão importante quanto o trabalho dele. – Camus disse cortando o filé de Krest que aguardava ansioso para poder comer.

— Na verdade, eu nem acredito que está trazendo trabalho para casa e se é uma boa ideia você ficar sozinho aqui com esse cara. – resmungou Milo.

— Pai é o meu chefe e nós vamos trabalhar! – o loiro russo revirou os olhos – E vocês não precisam se preocupar com o Krest porque ele vai ficar quieto, também nem é por muito tempo! Só umas duas horas e depois vamos jantar aqui mesmo.

— Melhor tirar um vinho da adega e preparar algo decente. Quer camarão ou anchovas?

— Camarões Camus, aquele com molho branco que você faz e fica demais! – Hyoga virou-se para o pai de olhos brilhantes – Preciso impressioná-lo afinal ele é o meu chefe.

— Hyoga você ‘tá ficando obcecado por trabalho! Pensei que depois que você finalmente conseguisse esse emprego ia ficar mais de boas com isso, mas há semanas eu te vejo enfurnado em casa, cheio de papéis e chegando tarde.

Camus lambeu os lábios e dessa vez não se intrometeu, às vezes freava Milo sobre as cobranças com Hyoga. No entanto, aquilo já passava dos limites do aceitável e não queria que o enteado se transformasse num ‘workaholic. Também via que Hyoga não estava feliz e achava que ele não podia fugir da vida para sempre.

— Quando você decidiu largar a patinação profissional nós o apoiamos, foi assim quando decidiu pelo direito ao invés da pediatria como vivia falando. Mas agora eu estou vendo você se afundar em trabalho, se isolar dos seus amigos e não aproveitar sua juventude! Isso me deixa louco Hyoga! Antes quando você não tinha idade para fazer as coisas você fazia um inferno, agora que tem simplesmente desistiu delas, por que meu filho? – Milo largou os talheres na mesa e no rosto estampado estava todo o seu descontentamento pelas atitudes do filho.

— Nós queremos o seu bem mon ange, talvez seja hora de repensar o que está fazendo. Você tem trabalhado demais, quase não vê seus amigos ou patina como costumava fazer. – Camus interveio em um tom mais ameno que de Milo.

— Oga trabalha muito não é papai? – Krest também não deixou de falar. Era muito precoce, cada vez mais se parecia com Hyoga quando criança com toda a hiperatividade e inteligência acima da média.

Hyoga ouviu em silêncio as repreensões da família. Sabia que suas atitudes estavam preocupando a todos, mas afogar-se em trabalho fora a única forma que encontrou de se proteger de relacionamentos. Ainda pensava muito em Ikki, o medo de ter outro Tenma em sua vida era presente. Já tentara dar-se uma chance! Mas, quando sentia alguém se aproximar demais o repelia com unhas e dentes! Não estava preparado ainda para ter outra pessoa, sentia-se um ímã de confusão.

— Eu sei o que estou fazendo, já disse que não precisam se preocupar. – retrucou apenas, se erguendo em seguida deixando a comida pela metade a indignação de Milo para trás.

— Não adianta! Só abrindo a cabeça dele com uma chave de fenda. – Milo crispou os punhos.

— Forçá-lo não vai adiantar. Ele ainda ama o Amamiya, também tem suas limitações e precisa superar elas. – Camus estalou a língua – Tudo tende a ficar pior com Ikki e Esmeralda, vindo morar aqui ou talvez se resolva de uma vez, como um tratamento de choque.

— Não gosto do Ikki, ele fez o Oga chorar! – Krest cruzou os braços e fez bico, sua expressão raivosa fez os pais gargalharem.

— Ele guarda rancor e é ciumento, pra quem será que ele puxou? – Milo riu tirando o filho da cadeira para colocar no colo.

— Sei lá! Deve ser pra alguém que costumava seguir o marido para saber o que ele andava fazendo. – Camus tirou Krest do colo de Milo que o puxou e lhe deu um beijo suave antes de ele lhe entregar o menino.

— Eu cuido aqui, vai colocar o Krest pra dormir que uma orgia de boletos está esperando por nós! – disse o grego dispensando o ruivo que revirou os olhos. Sabia que todo o trabalho ficaria com ele e Milo ia dormir no meio do caminho, nem adiantava se empolgar com aquele súbito entusiasmo.

Camus foi tratar de dar banho em Krest e prepará-lo para dormir, os planos dele eram ler algo para o menino até que ele pegasse no sono, porém Krest assim que saiu do banho correu para o quarto do irmão o tirando do meio das suas apostilas e do notebook.

Hyoga ria ao tentar conter o avanço do menininho sobre suas coisas e com um gesto dispensou o pai para que ele deixasse o irmão ali, Camus foi então tomar seu próprio banho.

Quando saiu do banho pegou seu celular ao ouvir o sinal das mensagens chegando.

"Ele fica cada dia mais bonito, os dois na verdade." Em seguida havia duas fotos, uma era Hyoga chegando à sede da Elíseos e outra era de Krest no parquinho da escola.

— Pai você... – Camus deixou cair o celular que desmontou, se espalhando em várias partes. Hyoga o olhou percebendo a palidez acentuada e as mãos trêmulas – Camus o que aconteceu?!

***

Quem era aquele ruivo que estava conversando com seus pais e Kanon, o patriarca Laskaris tinha toda sua atenção para o jovem comedido de voz aveludada e grave. Era bonito, Saga tinha que admitir, talvez fosse o novo brinquedo do irmão. Só estava achando estranho o fato de ele ter apresentado o ruivo aos pais.

— Saga chegou, venha irmão! Esse é o Camus Chevalier, o amigo que lhe falei...

Foi a primeira vez que viu aquele brilho apaixonado no olhar de Kanon, nem quando eles estavam juntos ele o olhava tão apaixonado assim. E depois vendo o modo como o irmão agia com o francês tudo ficava mais evidente! Seus pais estavam esfuziantes com a crescente amizade, sua mãe deixou clara o quanto aprovava aquela amizade.

— Camus é perfeito para ser amigo de Kanon, já que ele parece ter esse "gosto", pelo menos o garoto francês é educado e elegante. – Agneta disse com um meio sorriso e então olhou para o filho dois minutos mais velho, com um semblante carregado – Pelo menos você pode deixá-lo em paz agora.

Deixar Kanon em paz! Logo ele que era o único que poderia cuidar do irmão. Quem aquele francês era para se meter entre eles?! Iria mostrar a Kanon que o ruivo não passava de um patife interesseiro, um vadio sem berço que só pensava no dinheiro deles.

Foi tão fácil seduzi-lo! Depois foi ainda mais fácil manipular a ele e ao irmão, até que o gêmeo cedeu e desistiu do francês e por um tempo foi assim até Saga descobrir que Kanon estava apenas tentando lhe ludibriar. Mas Camus estava apaixonado, era um inferno ter que aturá-lo e forçar Kanon a ficar consigo, até ir embora por um tempo o irmão foi e isso o deixou transtornado. E Camus ali, sempre apaixonado e a mercê das suas vontades! De qualquer forma foi um passatempo prazeroso fazer Camus sofrer e acreditar que merecia aquele sofrimento.

— Pensei que iríamos sair. – disse o ruivo quando entraram no quarto de Saga, acabara de chegar e o grego o arrastara para a alcova sem dizer nada.

Saímos depois. – Saga puxou o corpo do ruivo para junto do seu afastando os cabelos vermelhos dele para arrastar os dentes no pescoço alvo – Eu quero me divertir.

Saga... – Camus estremeceu ao sentir Saga raspar os dentes mais uma vez no seu pescoço, dessa vez com mais força. As mãos do moreno começavam a desfazer Camus das roupas, ele estava com pressa e o francês sabia que quando ele estava assim era doloroso – Amor... Nós podemos...

Shiu... – Saga levou a mão até a boca de Camus, guiando-o para a cama larga. – Calado! Você não precisa falar nada hoje.

Jogou o ruivo na cama de bruços, que tentou se virar, mas Saga pegou seus braços e os cruzou nas costas amarrando-os. Camus cerrou os dentes se sentindo humilhado e impotente porque não tinha forças para se soltar seus músculos ainda não eram tão fortes os suficientes, logo ele ficaria trêmulo e paralisado, Saga poderia fazer o que quisesse.

Sabe Camus, seu melhor angulo é esse. – Saga estapeou as nádegas brancas deixando as marcas da sua mão nelas – Você devia andar sempre nu e de quatro, talvez mais alguém além de mim gostasse de você.

Saga olhou para a janela gradeada e pequena do seu quarto branco. Ainda com as imagens de suas lembranças lhe invadindo. Levantou a língua para retirar o remédio que fingira tomar, aquela noite era importante e precisava estar lúcido.

***

— Faz algumas semanas, eram telefonemas mudos que só me irritavam, depois as mensagens... Comecei a me sentir vigiado. – Camus estendeu o celular para Hyoga mostrando as mensagens do número desconhecido. Só depois de ter certeza que Milo e Krest dormiam, foi que resolveu compartilhar com o russo o que vinha lhe atormentando há semanas – Algumas são perturbadoras, falam de coisas pessoais que só alguém muito próximo saberia.

— Saga? – Hyoga repassava as mensagens e não gostava nada do que via no mínimo um maníaco perseguia Camus.

— Eu pensei nele, mas sondei Milo e descobri que ele está internado em uma clínica no Canadá. Seu pai mantém Kanon na rédea curta pra monitorar aquele louco! Mas...

— É ele sim, veja. – os dois olharam para o celular – "seu casamento é feliz Camus? Você sabe que Milo deve arrastar multidões para sua oficina, ainda mais agora que a maturidade está fazendo um bom trabalho com ele." O Saga conheceu meu pai na oficina, você imagina como certo? Agora como ele sabe que o papai tem uma oficina agora?! Ele está nos espionando!

— E está. – Camus pegou o celular de novo e mostrou a Hyoga – As recebi hoje na hora que você entrou no quarto.

Agora Hyoga entendeu porque Camus estava há dias uma pilha de tensão, que vivia mais introspectivo e vigilante. Outra vez estava sendo perseguido por um louco, o medo de Hyoga abriu uma garra em seu coração. Não era possível que teriam que passar por tudo aquilo de novo!

— Isso é muito grave, precisamos ir à polícia e dar queixa, para abrir um processo de medida restritiva. – o loiro puxou o lábio inferior com os dedos – Vou falar com Kagaho amanhã mesmo, ele pode me auxiliar a dar entrada ao processo. É uma forma também de saber se Saga ‘tá mesmo nessa tal clínica.

— Se o Milo descobrir isso Hyoga, eu nem sei o que esse grego louco é capaz de fazer. – os aquarianos se olharam cúmplices, Hyoga sabia que o pai seria capaz de matar Saga se o encontrasse – Achei que se ignorasse ele fosse parar, nem sei se é o Saga...

— Então está na hora de descobri, Saga é bem mais esperto que o Tenma e pode fazer coisa pior você sabe. – disse Hyoga de modo sombrio – Infelizmente nós vamos ter que contar para o papai sobre isso, mas não se preocupe. Primeiro me deixe falar com Kagaho e pegar orientação, talvez eu vá procurar o Kanon! Eles são irmãos e ele deve saber alguma coisa.

— Acho melhor deixar o Krest em casa semana que vem! Também posso deixar você na Elíseos e buscá-lo no fim do dia. Não quero você mais sozinho!

— Camus calma! Não vai acontecer nada. – Hyoga segurou as mãos trêmulas do francês, mais frias agora pelo nervosismo – Nós vamos conversar depois que eu falar com o Kagaho, não vamos nos intimidar por causa disso! Ele não pode aterrorizar a gente outra vez.

Ainda conversaram um pouco mais até Camus se recolher para dormir, um pouco mais aliviado por ter dividido seu fardo com Hyoga e encontrado um meio de contornar aquela situação. Mal deitou na cama e se viu abraçado pelo corpo forte de Milo.

— Vai ficar tudo bem amor. – e o grego afundou o rosto na curva do pescoço do francês, parecia ainda dormir, Camus não sabia. Só deixou-se envolver pelo calor aconchegante do marido e esperou o sono chegar para lhe dar descanso, porque há dias não sabia o que era isso.