Amor Marginal
10 Capítulo X
Notas iniciais
EMMA SWAN
"I was as pure as a river
Eu era tão pura como um rio
But now I think I'm possessed
Mas agora eu acho que estou possuída
You put a fever inside me
Você coloca uma febre dentro de mim
And I've been cold since you left
E eu estou fria desde que você partiu
I've got a boyfriend now and he's made of gold
Eu tenho um namorado agora, e ele é feito de ouro
You moved past your own mistakes in a bed at home
Você superou seus erros em uma cama em casa
I'm hoping you could save me now but you break and fold
Eu esperei que você me salvasse, mas você se destrói
You've got a fire inside but your heart's so cold
Você tem um fogo, mas seu coração é congelado."
Minhas pálpebras se fecharam suavemente quando um lenço cobriu minha visão. Um dos lenços de minha esposa. Seu cheiro inundou meu olfato. Minhas mãos foram atadas a cama com algemas, o que eu particularmente não apreciava tanto. Regina costumava sempre me amarrar com cordas, lenços ou gravatas. As vezes usava braçadeiras, mas nunca algemas, especialmente algemas policiais. Elas não eram confortáveis, mas levando em conta minha situação atual, havia algo de irônico na coisa toda.
Minhas pernas ficaram soltas. Eu estava nua e sentia frio. O ar condicionado estava ligado e eu desconfiava que era proposital. Meus pelos arqueados, meus mamilos rígidos, meu queixo quase batendo de frio.
Sem a visão, eu não poderia ver o que acontecia, mas meus outros sentidos se aguçaram. Eu ouvia cada passo de minha irmã, ouvia na verdade cada movimento dela, atenta. A tira de couro dos chicotes começou a deslizar pelas minhas coxas e eu não resisti em mexê-las, esfregando meus pés em meu lençol de seda, o lençol que Regina adorava.
Quando eu menos esperava, recebi uma chicotada. As várias tiras de couro acertando partes diferentes do meu corpo, fazendo-me gemer e quase pular na cama. Outra chicotada mais forte e no escuro da minha visão, a imagem de Regina se fixou em minha mente.
De repente, não era mais Elsa que estava ali, mas sim Regina.
Minha esposa sentava sobre meu quadril, suas mãos apertavam meus seios, meus braços, meu rosto. Seus dedos deslizavam pela minha cara, ela contornava meus lábios com o indicador e então me beijava suavemente, deixando sua saliva escorregar para os meus lábios até que sua língua envolvia a minha com desespero.
Fiquei tão empolgada durante o beijo, a expectativa de estar novamente com Regina, naquele tipo de entrega. Mordi com tamanha força o lábio inferior de Elsa — desejando que fosse aquele lábio carnudo — que a fiz resmungar em protesto.
— Comporte-se! — falou irritada, e mesmo assim sua voz era bem mais suave do que a voz grave e aveludada de Regina.
Fiquei desesperada. Desesperada porque meu corpo todo estava implorando por mais toques, implorando por alívio, qualquer alívio. Mas minha mente dizia o contrário. Minha mente me sinalizava que eu não me contentaria com qualquer alívio, que eu não desejava qualquer toque. Minha mente insana me fazia questão de lembrar que ninguém era igual a Regina, nem mesmo Elsa.
'Cause I've done some things that I can't speak
Porque eu fiz algumas coisas que eu não posso falar
And I've tried to wash away but you just won't leave
Tentei te lavar de mim, mas você não sai
So won't you take a breath and dive in deep
Então por que você não respira fundo e mergulha
'Cause I came here so you'd come for me
Pois eu vim até aqui para que você viesse até mim."
Levei várias chicotadas e todas me faziam gritar e me contorcer. Aquela sensação de estar presa, de não poder escapar, de ser submissa era a melhor do mundo. Nenhuma outra atividade me proporcionava tanto prazer, fazia eu me sentir tão plena quanto aquela. E ainda com os olhos vendados, eu só enxergava Regina e realmente acreditava em alguns momentos que estava com ela.
As chicotadas cessaram. Senti um objeto gélido e roliço passeando pelo meu sexo. As pernas de Regina encostando nas minhas, forçando-me a abri-las ainda mais. Seu corpo se impulsionou, quase debruçado no meu e então nesse momento senti o cheiro doce de minha irmã, seu sorriso veio à minha cabeça, seus olhos verdes, a forma carinhosa e diferente que nós nos amamos nos dias anteriores aquele.
Balancei a cabeça com força, sentindo-me atordoada com aquela confusão.
— Fique quieta, Emma! — ordenou Elsa, dando um tapinha em meu rosto. E então me lembrei dos tapas impiedosos que Regina dava na minha cara, tanto durante o sexo quanto em momentos nada legais, como quando brigávamos.
Obedeci. Ela prosseguiu.
Elsa empurrou o dildo grosso para dentro de mim e senti o negócio quase me rasgando por dentro, o que me fez gritar mais uma vez. Meu corpo ficou rígido e sem querer puxei os braços, sentindo a dor nos pulsos por causa das algemas.
Suas mãos deslizaram sobre meu estômago que se revirava e logo alcançavam meus seios e quando elas o apertou com tanta firmeza, já não era mais Elsa ali. Era Regina. Quente. Forte. Possessiva.
Suas mãos deslizavam pelo meu corpo em apertos firmes, logo estava segurando minha cintura ao mesmo tempo que metia dentro de mim. Regina metia com força, fazendo-me choramingar de prazer e dor enquanto o seu pau me invadia até o fundo, abrindo-me toda para ela.
— Você fica tão gostosa assim — ouvi alguém sussurrar, mas não sabia mais de quem era a voz.
Dentro da minha cabeça, algumas vozes se misturavam. Vozes femininas, sacanas. Vozes que eu reconhecia como pertencentes à Ruby, Elsa, Cruella, outras mulheres que transei ao longo da vida. Mas a que predominava era de Regina. A voz mais forte, aguda, que parecia estar dentro da minha cabeça. A voz dela não vinha de fora para dentro, mas parecia morar dentro de mim e simplesmente explodia em meus tímpanos, espalhando-se por todos os cantos...
"Minha escrava", "Você é a minha escrava, só minha", "Eu vou fodê-la até você implorar para que eu pare, mas você não vai implorar, não é?"
Mais rápido, os movimentos continuavam incansáveis. Para dentro e para fora. Fundo, mais e mais fundo, como se eu fosse um oceano e ela se afogasse em mim, querendo penetrar não mais em meu corpo, mas sim em minha alma.
Regina havia levado minha alma.
"I'm begging you to keep on haunting
Eu estou te implorando para continuar assombrando
I'm begging you to keep on haunting me
Eu estou te implorando para continuar me assombrando
I'm begging you to keep on haunting
Eu estou te implorando para continuar assombrando
I'm begging you to keep on haunting me
Eu estou te implorando para continuar me assombrando."
De repente o lenço foi puxado de meus olhos e quando eu os abri tomei quase um choque ao deparar-me com minha doce irmã totalmente nua, descabelada, os olhos brilhando de malícia, suas mãos em meu corpo. Elsa me fodia loucamente, como um animal e era delicioso, mas não parecia real. Aquela cena toda parecia uma mentira. Porque minha irmã não era daquele jeito, ou não deveria ser.
Naquele momento Elsa nada mais era do que uma cópia de Regina.
Com nossos olhares fincados, de joelhos, ela continuava metendo. Então Elsa ergueu minhas pernas abertas, abraçando-as e assim podia me comer mais facilmente. Seu quadril se movia de forma incansável e me impressionei com suas habilidades.
Fechei os olhos por um instante, não suportando tanto prazer, pois meu corpo queimava, meu sexo ardia de dor, de desejo e eu estava perto...
Quando os abri novamente, o corpo bronzeado estava lá. Cabelos castanhos, olhos avelãs, lábios carnudos pintados de carmim. Regina me olhava profundamente, como se visse cada pedaço de mim por dentro, como se pudesse devorar minhas vísceras.
Regina soltou minhas pernas e lentamente deitou sobre mim, colando nossos corpos. Roçou nossos narizes e me beijou profundamente enquanto suas mãos soltavam as algemas de meus pulsos. Ela mal me soltou e eu já lhe agarrava, deslizando as mãos por suas costas, apertando, apalpando, precisando senti-la comigo, precisando confirmar sua existência.
Abracei Regina com muita força e agora ela se movia devagar dentro de mim. Enterrava seu pau bem lá dentro e ficava parada por alguns instantes. Sua língua deliciosa encantando a minha, me seduzindo como só uma medusa saberia. Ela mordiscou meu lábio, puxando-o devagarinho e então riu, riu na minha cara, riu da minha tolice, riu porque eu não era nada perto dela, não era nada além do seu objeto de prazer.
Eu a odiava. Eu a odiava porque ela fazia com que eu me sentisse um nada. Porque Regina fazia questão de me lembrar o tempo todo o quão insignificante eu era perto dela, perto da Regina Exemplar. Eu a odiava por ser infeliz e por me culpar pela sua infelicidade. Eu a odiava por nunca ter me dado os filhos que eu tanto desejei. Eu a odiava por amá-la mais do que tudo. Por não conseguir respirar sem ela.
Com raiva, agarrei fortemente os cabelos platinados de Elsa, passei a morder seu pescoço todo com brutalidade, minhas mãos apertando sua bunda e fazendo com que ela se movesse mais rápido.
— Me fode, me fode, me fode!
Elsa me virou com força na cama e me pôs de quatro. Montou em mim como se eu fosse uma cadela e afundou o dildo no meu interior, estocadas rápidas e profundas. Agarrou meus cabelos soltos e os puxou para trás, fazendo com que eu me inclinasse.
Logo eu não conseguia mais aguentar. Meu corpo estava cedendo. Explodi em um orgasmo tão intenso que eu urrava de prazer. Meu corpo caiu, mas mantive meu quadril inclinado. Elsa se jogou sobre mim, enterrando o dildo em mim, ofegando em minha orelha.
— Eu amo você — sussurrou.
Naquele momento eu soube que por mais que eu a amasse também, ela nunca seria a Regina.
REGINA MILLS SWAN
Anotação em Diário
Junho 2015
Nunca me senti mais viva em toda minha existência. É um dia radiante de céu azul, os pássaros estão alucinados com o calor, o rio do lado de fora está correndo e eu estou completamente viva. Assustada, animada, mas viva.
Quando acordei esta manhã, Emma havia saído. Sentei-me na cama olhando para o teto, vendo o sol deixá-lo dourado pedacinho por pedacinho, os azulões cantando do lado de fora de nossa janela, e quis vomitar. Minha garganta estava se contraindo e relaxando como um coração. Disse a mim mesma que não iria vomitar, depois corri para o banheiro e vomitei: bile, água quente e uma pequena ervilha boiando. Enquanto meu estômago se contraía, meus olhos se enchiam de lágrimas e eu ofegava, comecei a fazer a única conta que uma mulher faz encolhida junto ao vaso.
Mesmo com meu marido se negando a querer ter filhos nesse momento, estou tão desesperada e insana que fiz mais uma loucura: logo após nossa discussão, eu fui a clínica de fertilização em Boston, quando Emma disse que iria viajar com amigos em um final de semana.
Quando nós ainda parecíamos um casal, na época em que morávamos em Boston, falávamos muito de ter filhos, por isso um dia decidimos ir até uma clínica conhecer o lugar, conversar com os profissionais. Ficamos empolgadas e eu tentei engravidar de um óvulo fecundado de Emma, mas a tentativa foi fracassada, o que deixou-a tão desanimada que simplesmente Emma desistiu de ser mãe naquele momento.
Mas Emma havia congelado alguns óvulos na clínica naquela época, e lembrando-me disso, eu não medi esforços em ir até a clínica, ludibriar minha médica dizendo que eu estava lá sozinha porque minha esposa precisava trabalhar e em algumas consultas secretas eu fiz o procedimento, e esperava estar grávida. Além de grávida, eu esperava que minha gravidez pudesse realmente fazer Emma voltar ao normal.
Comprei alguns testes na farmácia, voltei para casa e li as instruções três vezes, segurei o palito no ângulo certo e pelo número certo de segundos, depos o coloquei na beirada da pia e saí correndo como se fosse uma bomba. Três minutos, então eu liguei o rádio, e claro, era uma música de Tom Petty — será que há um momento em que você liga o rádio e não ouve uma musica de Tom Petty? Cantei a letra inteira de "American Girl", depois andei na ponta dos pés de volta ao banheiro como se o teste fosse algo que eu tivesse de surpreender, meu coração batendo mais freneticamente do que deveria, e eu estava grávida.
De repente estava correndo pelo gramado de verão e pela rua, batendo na porta de Belle, e quando ela abriu caí em prantos, mostrei o teste a ela (a única que sabia do meu ato de loucura romântica) e gritei: Estou grávida!
E então alguém além de mim sabia, e daí fiquei com medo.
Quando voltei para casa, pensei duas coisas.
Primeira: nosso aniversário de casamento é na semana que vem. Usarei as pistas como cartas de amor, um belo berço antigo de madeira esperando no fim. Irei convencê-la de que devemos ficar juntas. Como uma família.
Segunda: gostaria de ter conseguido aquela arma.
Agora às vezes fico assustada quando Emma chega em casa. Há algumas semanas ela me convidou para sair de jangada com ela, flutuar na corrente sob um céu azul. Cheguei a passar as mãos em volta do corrimão da escada quando ela perguntou isso, me aferrei a ele. Porque vi uma imagem de Emma balançando a jangada — inicialmente provocando, rindo do meu pânico, depois o rosto dele ficando rígido, determinado, e eu caindo na água, aquela água marrom enlameada, cheia de gravetos e areia, e Emma acima de mim, me mantendo sob a superfície com um braço forte até que eu parasse de lutar.
Não consigo evitar. Emma se casou comigo quando eu era uma mulher jovem, rica e bonita, e agora sou pobre, desempregada, mais perto do quarenta do que dos trinta; não sou mais só bonita, sou bonita para minha idade. É a verdade: meu valor diminuiu. Posso dizer pelo modo como Emma olha para mim. Mas não é o olhar de uma pessoa que se deu mal em uma aposta honesta. É o olhar de uma pessoa que se sente enganada. Talvez Emma pudesse se divorciar de mim antes do bebê. Mas ela nunca fará isso agora, não a Emma Boa Sujeita. Preferia ficar e sofrer comigo. Sofrer, se ressentir e ter raiva.
Não vou fazer um aborto. O bebê faz seis semanas dentro da minha barriga hoje, do tamanho de uma lentinha, está criando olhos, pulmões e orelhas. Há algumas horas fui à cozinha e encontrei um pote de grãos secos que Cruella me dera para a sopa preferida de Emma, tirei uma lentinha e a coloquei no balcão. Era menor que a unha do meu mindinho, mínima. Não consegui deixá-la no balcão frio, então a peguei, coloquei na palma da mão e acariciei com a pontinhazinha do dedo. Agora está no bolso da minha camiseta, onde posso mantê-la perto de mim.
Não vou fazer um aborto e não vou me divorciar de Emma, não ainda, porque me lembro de como ela mergulhava no oceano em um dia de verão e plantava bananeira, as pernas balançando para fora da água, e voltava com a melhor concha para mim, e eu deixava que meus olhos ficassem ofuscados pelo sol, fechava-os e via cores piscando como gotas de chuva do lado de dentro das minhas pálpebras enquanto Emma me beijava com lábios salgados, e eu pensava: Tenho muita sorte, este é meu marido, esta mulher será a mãe dos meus filhos. Todos seremos muito felizes.
Mas posso estar enganada, posso estar muito enganada. Porque algumas vezes o modo como ela olha para mim... Aquela garota doce da praia, a mulher dos meus sonhos, mãe do meu filho... Eu a flagro olhando para mim com aqueles olhos atentos, os olhos de um inseto, puro, cálculo e penso: minha mulher pode me matar.
Então, se você achar isso aqui e eu estiver morta, bem...
Desculpe, não tem graça.
EMMA SWAN
Seis dias sumida
As primeiras quarenta e oito horas são cruciais em qualquer investigação. Agora Regina já está sumida há quase uma semana. Uma vigília à luz de velas acontecerá esta noite no Storybrooke Park, que, segundo a imprensa, era um dos lugares preferidos de Regina Mills Swan. (Nunca soube que Regina tivesse colocado os pés no parque; a despeito, o lugar não é nem remotamente charmoso. Genérico, sem árvores, com uma caixa de areia que está sempre cheia de fezes de animais). Nas últimas vinte e quatro horas, a história se tornara nacional — estava em toda parte, assim, de repente.
Deus abençoe os fiéis Mills!
A imprensa (minha antiga turma, meu pessoal!) estava moldando a história, e adorava a faceta Regina Exemplar e o longo casamento dos Mmills. Nenhum comentário sarcástico sobre o fim da série ou a quase falência dos autores — no momento eram apenas gentilezas para com os Mills. A imprensa os adorava.
A mim, nem tanto. A imprensa já estava apresentando motivos de preocupação. Não apenas as coisas que haviam vazado — minha falta de álibi, a cena do crime possivelmente "forjada" -, mas traços de personalidade reais. Contavam que no ensino médio eu nunca namorara nenhuma garota por mais que alguns meses e que, portanto, eu era claramente uma mulherenga. Descobriram que havíamos internado meu pai na Comfort Hill e que eu raramente o visitava, portanto eu era uma ingrata que abandonara o pai.
— Isso é um problema: eles não gostam de você — dizia Elsa após cada nova matéria. — É um problema muito real.
Apesar dos estranhamentos entre eu e meus sogros, fomos juntos à vigília e Elsa também. Não era claro quanta informação os Mills estavam recebendo, quantas atualizações condenatórias sobre sua nora. Eu sabia que eles tinham informações sobre o local "forjado".
Nem todos sentiam repulsa por mim. Na última semana, os negócios no Black Swan estavam a toda: centenas de clientes se aglomeravam para tomar cerveja e beliscar pipoca no lugar de propriedade de Emma Swan, a talvez assassina. Elsa tivera de contratar quatro garotos novos para cuidar do bar. Elsa não suportava ficar lá, ver todas aquelas pessoas desconfiando de mim, chamava-os de malditos mórbidos. Era revoltante. Ainda assim, Elsa raciocinou, o dinheiro seria útil se...
Se. Regina havia sumido seis dias, e todos pensavam em ses.
Cora deu tapinhas nas costas de Henry enquanto caminhávamos para o parque, e pensei em quanto eu queria que alguém fizesse aquilo comigo, apenas um toque rápido, e de repente dei um suspiro-soluço, um rápido gemido choroso. Eu queria alguém, mas não sabia se era Ruby, Elsa ou Regina.
— Emma? — chamou Elsa.
Ela ergueu a mão na direção do meu ombro, mas eu me encolhi e a afastei.
— Desculpe. Nossa, desculpe por isso — falei. — Um surto estranho.
— Tudo bem, sem problema. Estamos ambos nos descaracterizando — disse Elsa, e desviou os olhos.
Desde que descobrira minha situação — que é como pássaros a chamar minha infidelidade -, Elsa se afastara um pouco. Mesmo depois da sessão de bdsm, estávamos estranhas. Seus olhos distantes, o rosto sempre sorumbático. Eu estava me esforçando muito para não ficar ressentida com isso.
Quando entramos no parque, as equipes de televisão estavam por toda parte, não só emissoras locais, mas as redes. Os Swan e os Mills caminharam pela periferia da multidão, Henry sorrindo e acenando com a cabeça como um dignitário em visita. Graham e Lily apareceram quase imediatamente, nos nossos calcanhares como cães de caças amistosos; estavam se tornando familiares, como uma mobília, o que claramente era a ideia.
Os Mills e eu subimos os degraus para um tablado instável e improvisado. Olhei para minha gêmea, ela acenou com a cabeça para mim e simulou respirar profundamente, e eu me lembrei de respirar. Centenas de rostos estavam voltados para nós, e também câmeras disparando e espocando. Não sorria, disse a mim mesma. Não sorria.
Da frente de dezenas de camisetas Encontre Regina, minha esposa me analisava.
Elsa disse que eu precisaria fazer um discurso, então foi o que fiz, caminhei até o microfone. Ele estava baixo demais, à altura da barriga, então briguei com ele por alguns segundos e ele subiu poucos centímetros, o tipo de defeito que normalmente iria me enfurecer, mas eu não podia mais ficar furiosa em público, então respirei fundo, me abaixei e li as palavras que minha irmã escrevera para mim:
— Minha esposa, Regina Mills, está desaparecida há quase uma semana. Não tenho como transmitir a angústia que nossa família sente, o grande vazio em nossas vidas deixado pelo desaparecimento de Regina. Regina é o amor da minha vida, o núcleo de sua família. Para aqueles que não a conhecem, ela é engraçada, encantadora e gentil. É inteligente e carinhosa. É minha companheira e parceira em todos os sentidos.
Ergui os olhos para a multidão e, como mágica, vi Ruby, com uma expressão de desgosto no rosto; rapidamente voltei os olhos para minhas anotações.
— Regina é a mulher com quem quero envelhecer, e sei que isso acontecerá.
PAUSA. RESPIRE. NÃO SORRIA. Elsa realmente havia escrito essas palavras em minha ficha. Acontecerá, acontecerá, acontecerá. Minha voz ecoou pelos alto-falantes, rolando na direção do rio.
— Pedimos que entrem em contato conosco com qualquer informação. Acendemos velas esta noite na esperança de que ela volte para casa logo e em segurança. Eu amo você, Regina.
Mantive meus olhos se movendo em todas as direções menos na de Ruby. O parque se acendeu com velas. Deveria haver um momento de silêncio, mas bebês choravam, e um sem-teto trôpego ficava perguntando em voz alta:
— Ei, o que é isso? Para que isso?
Belle Gold começou a avançar, saindo do meio da multidão, os trigêmeos anexados a ela, um no quadril, os outros dois agarrados à sua saia, todos parecendo ridiculamente pequenos para mim. Belle obrigou a multidão a abrir passagem para ela e os filhos, marchando diretamente para a beirada do tablado, de onde ergueu os olhos para mim. Encarei-a — a mulher que havia me difamado -, então percebi pela primeira vez o volume em sua barriga e me dei conta de que estava grávida de novo. Fiquei boquiaberta por um segundo — quatro filhos em menos de quatro anos, Deus do céu — e depois aquele olhar seria analisado e debatido, a maioria das pessoas acreditando que era uma sequência de raiva e medo.
— Oi, Emma.
A voz dela foi captada pelo microfone baixo e ribombou para o público.
Comecei a mexer no microfone, mas não consegui achar o botão de desligar.
— Só queria ver seu rosto — disse ela, e caiu em prantos. Um soluço molhado percorreu a plateia, todos hipnotizados. — Onde ela está? O que você fez com Regina? O que você fez com sua esposa?
Esposa, esposa, a voz dela ecoou.
Belle não conseguiu falar por um segundo de tanto que chorava. Ela estava louca, furiosa, e agarrou o suporte do microfone e puxou a coisa toda para si. Pensei em pegá-lo de volta, mas sabia que não podia fazer nada com aquela mulher com vestido de grávida e três crianças pequenas. Belle se virou para se dirigir à multidão.
— Regina é minha melhor amiga!
Amiga, amiga, amiga. As palavras ecoavam em todo o parque, assim como o lamento dos filhos.
— Apesar dos meus esforços, a polícia parece não estar me levando a sério. Então vou apresentar a questão a esta cidade, esta cidade que Regina amava e que a amava! Essa mulher, Emma Swan, precisa responder certas perguntas. Ela precisa nos dizer o que fez com a esposa dela!
Graham disparou da lateral do palco para alcançá-la, Belle se virou e os dois se encararam. Graham fez um gesto frenético simulando cortar a própria garganta: Pare de falar!
— A esposa grávida dela!
E ninguém mais conseguiu ver as velas, porque os flashes estavam alucinados. Perto de mim, Henry fez um ruído como um balão esvaziando. Abaixo de mim, Graham colocou os dedos entre as sobrancelhas como se contendo uma dor de cabeça. Eu via todos sob uma frenética luz estroboscópica que correspondia à minha pulsação.
Olhei para a multidão em busca de Ruby, a vi me encarando, o rosto rosado e retorcido, as bochechas úmidas, e quando nossos olhos se encontraram, ela fez "babaca!" com a boca e saiu cambaleando em meio à multidão.
— Melhor irmos embora.
Era minha irmã, de repente ao meu lado, sussurrando em meu ouvido, puxando meu braço. As câmeras disparavam sobre mim enquanto eu ficava parada como uma espécie de monstro de Frankenstein, com medo e perturbado pelas tochas dos aldeões. Flash, flash. Começamos a nos mover, dividindo-nos em dois grupos: minha irmã e eu fugindo na direção do carro de Elsa, os Mills ali, de boca aberta no tablado, deixados para trás, salve-se quem puder. Os repórteres repetiam a pergunta para mim. Emma, Regina estava grávida? Emma, você estava aborrecida por sua esposa estar grávida? Eu, saindo do parque, encolhida como se sob uma chuva de granizo: grávida, grávda, a palavra pulsando na noite de verão ao ritmo de cigarras.
Fui para minha casa e dormi sozinha. No dia seguinte Graham foi até lá, enfrentando os papazzari, para me contar. Ele fez isso gentilmente, com uma voz mansa de pontinha do dedo.
Regina estava grávida.
Minha esposa desaparecera com um bebê meu dentro dela. Eu tinha certeza que era meu. Regina não iria me trair, mesmo sendo louca. E para confirmar, eu liguei na clínica onde fomos uma vez há anos atrás tentar ter um bebê, mas que Regina simplesmente desistiu no meio do caminho. Havia deixado uns óvulos congelados lá, e Regina simplesmente pegou um deles e decidiu engravidar de mim agora, sem me consultar.
Graham me observou, esperando pela minha reação — para incluir isso no relatório policial -, então eu disse a mim mesma, aja da forma certa, não estrague tudo, aja do como como uma mulher age ao receber essa notícia. Enfiei a cabeça nas mãos e murmurei Meu Deus, meu Deus, e enquanto fazia isso, vi minha esposa no chão de nossa cozinha, as mãos na barriga e a cabeça esmagada.
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