Amor Celestial
30 Encontros
Notas iniciais
POV. Narrador
A dor por mais uma perda, era isso que assolava a família Cullen naquele final de tarde. O corpo, já sem vida, de Esme estava nos braços dos seus dois filhos, os únicos que ainda restam.
– Não aguento mais mortes! – Indagou Anthony, chorando pela morte de sua avó, a mulher que sempre o confortou.
– Você não é o único. – Jacob respeitava a partida da Sra. Cullen, mas estava ciente de que o pior estava por vim. Olhou para sua ex. mulher, Rose, e sentiu a dor que emanava de seus olhos. Tentava consolar o marido, mas nada tirava a dor dele. E não tinha como tirar. Letícia, sua única filha, seu bem mais precioso, estava abalada. Tinha Esme como uma segunda mãe, a respeitava como avó e sentia sua morte tanto quanto Emmett.
Andou delicadamente até ela e a abraçou forte. Letícia se deixou envolver pelo pai e devolveu o aperto. Chorando intensamente em seu peito. Seus irmãos mais novos também eram aparados pela mãe. Emmett se agarrava a única coisa que restava de sua família inicial. Sua irmã Alice.
– Nossa família está sendo destruída aos poucos, minha irmã. – Ela não conseguia responder, as lágrimas a impediam de fazer tal ato. Mal enterrou o irmão e teve a morte do pai como uma bomba anunciando que algo estava para acontecer. Mal sua alma subiu para o paraíso e sua mãe não mais vivia no mesmo plano que eles. Morreu, sendo ela o estopim da grande guerra que se aproximava.
– A morte de Esme é a ultima gota. – Arcanjo Miguel apareceu ao lado do corpo da Sra. Cullen. Todos o olharam assustado. – Gabriel, precisamos de você. O céu está agitado e Deus ordena sua volta imediata. Heniel também é convocado. – Sua magnitude e poder eram enormes. Todos sentiam que sua áurea era poderosa e emanava respeito. Até mesmo Gabriel, também Arcanjo, não era páreo para Miguel.
– Do que se trata, irmão? Há muitas coisas acontecendo aqui, essa família precisa de nossa orientação. – Falou com respeito.
– Está questionando uma ordem em plena guerra, irmão? – Perguntou severo. Negou rapidamente e logo se ergueu.
– Apenas gostaria de saber como ficará essa família. – Miguel assentiu e o chamou com um dedo. Obediente à soberania do irmão, Gabriel foi ao seu encontro e ouviu um leve sussurrar.
– Uma guerra se iniciou, o céu entrou em um Caos. Nosso Pai não nos recebe mais. Não sabemos como será de agora para frente. – Gabriel se assustou. – Aquela humana, a que está com os olhos arregalados e coração acelerado.
– Isabella. – Pronunciou seu nome com certo orgulho. Fora ele que a enviara para a missão.
– Isabella... Somente essa humana que Ele se comunica. – Miguel desaprovava essa atitude do seu Pai. Não compreendia como uma humana poderia ser mais útil que um Arcanjo, feito por Ele com toda perfeição.
– Ela é a sua escolhida para salvar a humanidade, Miguel. Lembre-se, um dia a terra teve um Salvador. – A conversa dos Arcanjos era observada por Anthony, mas nada compreendia.
– Está querendo comparar o filho do nosso Senhor com uma simples humana? – Esbravejou Miguel. Uma fúria era visível em seus olhos.
– Não, meu irmão. Longe disso. – Esclareceu o Arcanjo mais fraco. – Estou apenas querendo lhe dizer que, há muito tempo, a terra já foi salva por um humano. – Seu sorriso doce e inocente não acalmava a ira do irmão.
– Não sei o que ela fará por esses mortais, se terão mesmo alguma salvação. – Lamentou. Apesar de parecer perverso, Miguel amava todas as criaturas de Deus e prezava por sua preservação. – Mas se Ele tem um plano, creio que hoje nos dará ordens para executa-la.
– Um pré-apocalipse? – Arriscou o Arcanjo Gabriel.
– Não diria isso, mas um quase julgamento final. A humanidade verá de perto sua destruição, e pelo que parece, caberá só a ela sua existência ou extinção. – Miguel era firme em suas palavras.
– Mas apenas poucos estão envolvidos na luta pela soberania do bem. O Arcanjo caído exibe um belo exercito, capaz de acabar com a raça humana em poucas horas. – Lamentou o pobre Gabriel.
– Não perca a fé, meu irmão. – Miguel, já mais calmo e condescendente, acariciou as costas do irmão e ergueu sua cabeça. – Vamos de encontro ao nosso Pai, ele saberá o que fazer. Sempre soube. – Assentiu. Virou-se e encarou sua amiga. Isabella tinha um olhar perdido. Algo a afligia e Gabriel sentia que precisava ficar ao seu lado. – Depois terá tempo para cuidar da humana, vamos Gabriel. – Uma luz envolveu o corpo do Arcanjo superior. Gabriel, sem saída ou escolha, cedeu às ordens e vontade de seu irmão. Mas algo, no seu singelo coração, o alertava que algo estava errado. Sua intuição nunca falhara.
[...]
A cabeça da jovem Isabella estava estourando. As palavras duras que ouvirá a pouco, do Arcanjo maligno, a atormentava. Não conseguia digerir tamanha atrocidade, mas não conseguia distinguir a verdade da mentira. Do que de fato era real.
Filha do Anjo Negro, do Diabo, o Arcanjo que foi expulso para sempre do céu e jogado ao porão do mundo. Não, isso não poderia ser verdade! Seu coração era puro demais para ter sangue de aquele maligno ser das trevas.
Perturbada por essa hipótese, não conseguia sentir a dor da morte de sua sogra. Ergueu-se e ignorou todos ali presentes. Subiu as escadas e alcançou o lugar mais alto da residência antes de ultrapassar o telhado. O sótão.
O sótão da mansão era espaçoso e bem iluminado, mas não havia nenhum móvel lá, exceto por uma pequena mesa ao centro. Naquela mesa continha uma manta que cobria sua madeira, já castiga pelo tempo. Encima dela havia uma bíblia, um terço e a imagem de Nossa Senhora com o menino Jesus no colo.
Virgem Maria, a mãe de Jesus, a escolhida de Deus para trazer ao mundo o seu Salvador. Aquela santa mulher, que fez de tudo pelo seu filho e sofreu, sem sair de seu lado, até o ultimo suspiro de vida do filho de Deus. O cordeiro de Deus, aquele que veio para tirar o pecado do mundo.
Se aquele menino, tão iluminado, filho do Senhor, era a chave para a salvação, quem era Isabella? Filha de um demônio e a chave para o caos do mundo? Era isso? Era para isso que foi gerada? Foi com esse propósito que ganhou a vida? Para acabar com a de todo o ser humano da face da terra?
A dor em sua cabeça aumentava e sua visão ficava embaçada. Sentia algo possuir seu corpo, mas sabia que Lúcifer não tinha poderes para entrar em si... Agora já imaginava o por que.
A escuridão a cegou por completo e sentiu o mundo girar. Sua cabeça, não suportando tamanha dor, se apagou por completo.
#
Era como se fosse um sonho, mas Isabella sabia que nada bom aconteceria de agora em diante. Sonhos seria a ultima coisa que teria na vida.
Olhou em volta e viu apenas o horizonte. O branco do céu fazia um belo contraste com a grama escura do solo. Não entendia onde estava. Mas, pelo pouco que lhe era confessado e compartilhado pelo Arcanjo Gabriel, pelas características do local, se parecia com o Plano Quietum.
Quietum, uma parava que deriva do latim e significa Tranquilidade, neutralidade, serenidade. Era um lugar parecido com o Campos. Mas as almas perdidas não vinham para cá, mas sim almas que ainda precisam cumprir com sua missão. Algumas vagam centenas de anos por esse caminho até conseguir o que lhe foi traçado. Já outros... Nem todos tem a mesma sorte e conseguem cumprir seus objetivos. Quem não alcança seu destino é levado a vagar solitário, sem a compaixão dos anjos ou a malicia dos Demônios.
Quietum também pode ser considerado um campo neutro. Onde demônios e anjos se cruzam para desafiar uns aos outros. Não como levante de guerra, mas sim para demonstrar quem é mais forte. Essas batalhas são intensas e nenhum dos lados aceita perder para o outro. A rivalidade entre o céu e o inferno vai muito além do que qualquer humano imagina.
– O que faço aqui? – Perguntei ao vento. Nenhuma alma, por incrível que pareça, andava por aqui. Algo estranho estava acontecendo...
– O mundo a beira de um colapso, não acha suficiente para as almas se espantarem e sumirem do Quietum? – Uma voz grossa respondeu aos meus pensamentos. – E respondendo sua pergunta. Precisava conversar com você. – Me virei e dei de cara com ele. Lúcifer. Meu sangue gelou e o coração acelerou demasiado.
– Por que me trouxe aqui? – Controlei minha raiva.
– Não acreditou em minhas palavras, não tive tempo o suficiente para contar-lhe tudo. – Um banco surgiu do nada e logo se sentou, como um nobre cavalheiro. – Sente-se. – Fez uma poltrona surgir ao meu lado. Sente-me com cautela, sem retirar meus olhos dele.
– Lúcifer, o Diabo, Anjo caído. Arcanjo sombrio. Quantas facetas para um só demônio! – Repudiei o seu ser. Sorriu de lado, um sorriso malicioso.
– Deus tem tanto quanto eu. – Relaxou no banco, que era acolchoado, e voltou a falar. – Acho que te devo desculpas pela morte da mamãezinha Cullen, não? – Rosnei de raiva e seu sorriso aumentou. – Eu precisava te ver, conversar com você em forma humana. Não iria gostar de me ver como demônio. – Se endireitou. – Afinal, tenho que causar boa impressão para minha filha. – Sorriu e fiz careta.
– Poupe-me de seus jogos, Lúcifer. O que quer de mim? Minha família precisa de minha presença nesse momento. – Negou.
– Não tem nem um pouco de curiosidade para saber da sua linhagem, Filha? – Me arrepiei com tal palavra sendo desferida de sua boca.
– Não confunda as coisas, Lúcifer. – Minha vez de sorrir. – nunca serei sua filha.
– Quando seu filho foi morto pela a humanidade e o perdão se instalou por ela, eu não consegui engolir meu fracasso. Estava cansado de perder tudo para Ele. – Respirou. Ignorou minha fala e contou-me o que queria. – Alguns anos depois resolvi copiar sua ideia, mas de uma forma diferente. Não queria que meu filho saísse por ai espalhando o amor. – Riu de lado.
– Como sempre, o demônio plagiando a obra do Altíssimo... Coisa feia, Lúcifer. – Ironizei, precisava esquecer que estava na presença de um Arcanjo caído, um ser maléfico, e me concentrar no agora. — Filho do demônio, a discórdia, o ódio, a ira, o ciúmes, todos os pecados possíveis você espalharia pela terra. – Ele assentiu.
– Meu primeiro filho, Kakía era seu nome. – Sorriu orgulhoso. – Ele era forte. A maldade era gritante em seus olhos. Alto, um excelente guerreiro. Nasceu 100 anos d.C. Comandou tropas e mais tropas pela terra da Grécia. Conquistou reinos e trouxe a desgraça por onde passava. Ele só em enchia de orgulho e felicidade. – Sorriu de lado. – Mas ele era feito de carne e não era um deus. Perdi meu primeiro filho para uma guerra a qual ele mesmo proclamara. – Fez cara de decepção. — Mas Kakía deixou um primogênito, o qual depositei toda minha confiança.
– Pelo visto você também foi vovô. – Ironizei.
– Esmeralda. Esse era seu nome. Envolvente, sedutora e dona de um encanto que qualquer homem mataria por ela. A luxuria exalava do seu ser. Casou-se com o rei de Roma e o tinha em suas mãos. E o legado de seu pai passou a ela. A morte a acompanhava junto com a desgraça.
– Um carma um tanto que difícil para sua linhagem. – Ele rosnou pela minha ironia.
– Esmeralda não pôde ter filhos. Então os espíritos de meus dois únicos descendentes vagaram em busca de um novo avatar. – Suspirou. – Ele viu o que eu almejava, Deus nunca interferiu em meus planos e na humanidade. Mas ele não queria perder seus doces e fieis humanos. Decidiu acabar com todos meus descendentes. Não importava se homem ou mulher. – Murmurou lamentando. – Por séculos eu aguardei o momento certo, vendo minhas crias sendo mortas por anjos e impedidas de cumprirem com meu mandato.
– Só lamento. – Se ergueu.
– Decidi transformar Esmeralda e Kakía em demônios, os meus príncipes. Decidi colocar no mundo um ser mais forte. Mas astuto. Inteligente. Rápido e com sagacidade de fazer o que lhe fora mandando. Mas não queria que Ele descobrisse meus planos. Fiquei longe, aguardando o momento certo para que estive maduro o suficiente para que eu o guiasse para a destruição da humanidade. Mas, mais uma vez, ele me tirou aquilo que eu mais prezava! – Sua ira era enorme.
– Já amou alguma coisa, Lúcifer? – Ignorou minha fala.
– Você ainda era pura, eu não havia interferido em sua vida ainda. Mas não tinha como negar que seria a mais perfeita guerreira! – Olhou-me dos pés a cabeça. – Sua teimosia, sua força de vontade, sua inteligência... Tudo que eu criei estava em você. Minha “esperança” de vencê-lo! Eu iria conseguir!
– Mas, supondo que isso tudo seja verdade, Ele me tirou de você. Ele me deu aquilo que você nunca daria. Amor. – Sua cara estava mudando. A aparência angelical estava sumindo. – Deus meu deu a chance que eu nunca teria, me levou para o seu lado e tirou o mal que havia em mim. Se é que algum dia já o tive.
– Estou lhe contando que seu adorável “pai” fez, matando minhas criações, e você não se comove. Mas quando tiro a vida de um humano... – Me ergui e o encarei.
– Meu PAI sabe o que faz, você só visa a ganância, o poder, a luxuria. Não existe o mal sem a luz. Como pretende derrotar-nos? – Indaguei com um sorriso de canto.
– Não quero destruir os celestes. – Sorriu de lado. – Quero destruir os humanos! Tirar Dele tudo o que tirou de mim! – Arregalei os olhos.
– Vingança baixa, até mesmo para você, Lúcifer! – Arregalei os olhos.
– Moro no inferno, meu lar é considerado o porão do Universo. Tenho que agir de acordo com a minha natureza. – Se manteve em pé, com sua cara voltando ao “normal”. – Já lhe contei um pouco sobre sua origem, Isabella.
– E pode ter certeza que isso não me abalou em nada. – Desdenhei.
– Pense um pouco. Se ELE é tão santo e puro, por que nunca lhe contou sobre sua verdadeira história? – Indagou. Fiquei muda. – Seu Deus te enganou todos esses anos. Te iludiu. Bom, Creio que perdi meu posto de mentiroso!
– Minha família precisa de mim e vou defendê-la com unhas e dentes. Suas palavras de nada me afetarão! – Ele riu.
– Estava disposto a poupar sua “família”, queria você no comando do meu exercito para aniquilar toda a espécie humana.
– Não sou muito fã do calor. – Pisquei e logo me virou as costas.
– Você está jogando fora um reinado. Preste atenção no que está perdendo! A vida de quem “ama” poderia ser poupada!
– Não cairei em tentação, Lúcifer. Sua palavra de nada me vale. Não confio no Diabo e nunca confiarei. Da minha família, cuido eu! – Rosnei.
– Seu fim então está próximo. Lamento ter que destruir uma criação tão perfeita! – Ri.
– Somente a criação Dele é perfeita! – Rosnou com ira e voou para o meu pescoço. Mas algo o impediu de encostar-se a mim.
– Saia Satanás! – Essa voz era firme. Poderosa. Angelical.
– Irmão! – Sorriu malicioso. – O que faz aqui? Pensei que estaria ocupado. – Se recompôs.
– Saia e vá para o seu lugar! – Uma força me puxou e logo senti uma presença celestial próxima a mim.
– O que é seu está guardado, Rafael! – Rosnou e, assim como apareceu, sumiu. Do nada.
– Está bem, pequena Isabella? – Perguntou olhando em meus olhos. Estava hipnotizada por tamanha beleza. Arcanjo Rafael. O mais fiel e justo Arcanjo. O coração de Deus.
– Você... Mas... – Ele sorriu sereno.
– Muitas tentações, pequena? Lúcifer sabe muito bem como manipular alguém. – acariciou meu ombro.
– Muitos que confiaram em Lúcifer hoje ardem no fogo do inferno. – Ele sorriu concordando. – Suas palavras podem ser verídicas, mas prefiro morrer contra meu destino, a aceitar tal condenação. – Suspirou e apertou minha mão. Sua áurea era tão forte, tão intensa, que sua tranquilidade transpassava para mim. Era relaxante.
– Precisamos conversar minha pequena protegida. – O olhei sem entender. – Não questione, sei que em sua mente há milhares de perguntas. Seu coração está dividido e sua mente uma bagunça. Só peço que confie em mim. Logo suas dúvidas serão sanadas e terá o direito de escolha.
– A dádiva mais importante que Ele nos deu. – Concordou.
– O livro arbítrio.
Aceitei sua outra mão, que era esticada a mim, e logo a luz nos envolveu. O arcanjo mais sereno estava me levando ao encontro da verdade. E eu só conheço uma verdade.
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