Among Other Kingdoms - Quinta Temporada
11 Sentimentos do Abismo
Notas iniciais
Superar como aguentar a queimadura de um raio, um raio que causa perfuração nos tímpanos, lesões internas e externas, paralisia, fraqueza e falta de ar. Superar como uma coisa dessas? Por que as coisas estalaram dessa maneira? Por que seu irmão tinha que ter mudado a lua por uma mulher que provavelmente nunca deveria ter sido sua? Porque, não era… E nesse desespero, ele a arrastou, a um pesadelo que ela não conseguia acordar. Auterpe tentava, mas estava submersa, apenas com aqueles malditos cabelos brancos e olhos verdes para fora.
Quase como se estivesse sufocando, perdendo o ar, ela se sentou na cama no meio da noite. Passando a mão sobre o outro lado da cama. Em seguida, conteve o grito de frustração, havia mandado William dormir no quarto ao lado. Porque aquela calma e paciência dele estavam a irritando, porque, claro: “não houve nada de errado. Não estávamos casados. Está com raiva sem motivo, eu amo você, nada mudou.” Tudo havia mudado.
Ela não estava conseguindo viver o seu sonho, sobreviver com sua felicidade. Infelizmente, a Rainha de Ruphira fez de um Mortal, o seu mundo, e muito mais que isso, por ele ela facilmente trocaria seus valores, as vertigens e a dor eram internas, e agora ela girava no vazio, no vazio de si própria, do que ela era, do que foi; agora ela estava frágil, a mulher que antes inspirava temor e respeito agora parecia apenas uma sombra de si mesma. Ela olhou para a janela de seu quarto, estava amanhecendo. Respirando fundo, ela atravessou o espelho, indo para o quarto do marido para não perturbar seu sono. Também não queria acordar ele, queria apenas o observar, no seu momento mais vulnerável. O cheiro do perfume de William era sua fraqueza, assim como os cabelos, os olhos, a voz, eram o que a fazia manter-se basicamente fiel á um William que voltava todos os anos, de maneira cautelosa começou a passar os dedos pelos cabelos negros dele. Enquanto o fazia relembrava da descoberta sobre William, Estela e Ethan, aquilo a enojava, não apenas por seu marido, mas, também por sua cunhada, pelos deuses, a mulher era uma adultera e ainda era Rainha. Foi quando sentiu uma pontada no lado esquerdo da cabeça.
Mate ele. É só matar... Acabar com a dor, é só matar! Em um golpe só.
A frase que ecoava em sua mente a fez dar alguns passos para trás e por um segundo quase considerou a ideia, já fizera isso outras vezes, com perfeição; seria fácil, rápido, mas, não faria suas preocupações e desconfianças sumirem. Sua dor, o pânico de não ter sido escolhida por quem ela era, e sim por quem ela poderia ser. O choramingo travou em sua garganta.
-O que houve? – A voz sonolenta de William a assustou, Auterpe abaixou a mão e encarou-o por um tempo sem dizer nada. Ele passou a mão nos próprios cabelos e suspirou exausto da situação, os cabelos dela estavam presos em uma trança longa e bagunçada, a aparência dela era de assustada. – Está tudo bem? – Ela segurou uma mão na outra sem saber o que falar, não queria exatamente falar com ele. William esticou o braço na direção da mão dela. – Vem aqui...
-(...) – Auterpe olhou para o lado estreitando os olhos, seu corpo mostrava sinais de hesitação em se aproximar. Ela segurou os braços por um segundo como se estivesse protegendo o seu corpo do esposo. Ele respirou de forma paciente, e não abaixou a mão até que ela se aproximou e segurou na sua mão com força moderada.
-O que faz acordada essa hora? – Ela passou a mão sobre a garganta, estava seca, então olhou nos olhos azuis de William, clareados pela luz do candelabro sobre a parede em cima da cama.
-Você é um fardo! – Ela elevou a voz, como um trovão, o que fez tentar soltar sua mão rapidamente, o que foi impossível tamanha a força que lhe foi aplicada. – Um Mortal que invadiu o meu emocional! Porque demônios você quis casar comigo? Por dó? Por pena? Por que, eu me recordo e ouvido, você era um conquistador e sedutor... – Auterpe aproximou o rosto do seu com raiva. – Com quantas mulheres você dormiu? Quantos prováveis filhos você tem ou teve? Pelos deuses qual é o seu problema? Nunca vai me amar como amou Estela!
Auterpe pegou o candelabro e o aproximou de William que se encolheu instintivamente, porém, se mantinha em defesa de um jeito.
-Auterpe, o que você está fazendo? – Perguntou confuso. – Estou desarmado, ei! – Ele aguentava os raios dela, mas, fogo? Não que algumas velas fossem o machucar, mas em contato com os lençóis causaria um acidente. – Do que diabos você está falando?
-Nunca amará Orion como você ama Ethan. E Rigel... Pelos deuses, meu querido Rigel eu tiraria a sua audição para o meu filho ouvir seus gritos de pavor! – Ele segurou no pulso dela com a outra mão a fazendo afastar um pouco o candelabro do seu corpo.
-Auterpe! Auterpe Interlok! – Ele elevou a voz, o que a fez piscar, como se recobrasse a consciência, se afastar deixando o fogo do candelabro pegar em sua veste. – Querida? – William saltou da cama apagando as chamas da roupa. O que a fez recuar. – O que você está fazendo? Ei... Estou falando com você!
O corpo da Rainha de Ruphira se enrijeceu, e ela tocou no rosto do marido como se tentasse compreender o que aconteceu, ela olhou em volta, respirou fundo e abaixou o olhar. Levantando as mãos em sinal de rendição William deu dois passos para trás, ela fechou a mão e colocou sobre o seu peito, e em seguida colocou a mão na cabeça passando sobre os olhos, que tinha uma coloração diferente. Houve um longo silêncio enquanto ambos se olhavam confusos.
-Eu te acordei... – Auterpe falou olhando para William e depois para o espelho. – E eu nem sei por quê. – Ela se aproximou do espelho para atravessar quando ele colocou as mãos sobre os ombros dela; estava confuso e um pouco desconfortável, porém, precisava e mostrar útil.
-Você nunca me contou que atravessava espelhos... – Era uma verdade, ela nunca disse nada, ele viu com os próprios olhos. – Nem iria me contar, não é? – Ela o olhou por cima do ombro.
-Não era relevante. Um dom e uma maldição, todos temos. – William arriscou dar um beijo em sua nuca, mas, acabou tocando a superfície do espelho.
Auterpe estava o tratando como um inimigo. Ele suspirou sentando- se na cama, pensando, não fez nada de errado, em algum momento Estela deveria ter mencionado como ele era antes; ela perceberia; a Rainha de Ruphira não era uma marionete, compreendia. O que corroia William por dentro fora a atitude; era algo que ele já tinha visto em algum lugar, ouvido a voz, era como regressar a um lugar distante.
~ Sobre as folhas alternadas, no terceiro dia após o equinócio do outono, durante uma imensa tempestade de relâmpagos e chamas fulminantes, dois gêmeos nasceram da Rainha Maligna. Os cabelos brancos eram destacados como alvos para toda Pardóx, contrastando com o de sua progenitora, preto como a noite, sumindo na escuridão. Mas, logo o preto regressava no alvo branco, seja em Saphiral ou em Ruphira, o preto atingia o branco com sua fúria; no começo da estação de anos. Mas, tudo isso era um segredo. ~
Naquela manhã de outono, em Ruphira era como se estivessem pisando em cacos de vidro, o castelo estava silencioso, antes os corredores ecoantes de risadas, piadas e passos apressados, agora pareciam sepulcros que não deveriam ser incomodados. Cada passo ecoava como um trovão nos ouvidos da Rainha Auterpe, o que resultava nos súditos saírem do castelo para lugares mais afastados, como os jardins, as arenas, até mesmo nos templos, o clima no castelo estava fragilizado. A Rainha Auterpe estava brava e não era o Rei William, tornando a uma sensação de estar lá dentro esmagadora.
No templo de Quetzalcoatl, a Olho dos deuses estava sozinha e concentrada, apreciando o silêncio e tentando buscar uma explicação para a raiva da Rainha, que acordou quebrando quadros e espelhos, gritando com todos a sua volta; o Rei não interveio, deixou-a ter o seu momento de raiva mesmo que todos estivessem surpresos e um pouco assustados. Lanassa tentava se concentrar, mas, algo a impedia, interferia.
“Correndo rápido, vencendo o vento, nada neste mundo impedirá o caos dos seus raios. Ela quebrará a jaula, jogará fora a chave, venderá a sua Alma depois de montar a fera do gelo, quebrando a corrente e no final deixará dor.”
Ela se levantou quando a imagem dos templos de Tlaloc, Mictlantecuhtli e Zacatzitli sendo destruídos por raios vermelhos e roxos. Uma parte dos habitantes de Ruphira habitava aqueles templos, ela só precisava avisar, entretanto quando se levantou viu Auterpe a encarar com um sorriso sádico, pequenas olheiras quase roxas e algo em sua mão. Lanassa cobriu o rosto quando uma nuvem de cor cinza prateada invadiu o templo em seguida ouviu as portas sendo trancadas. Por um momento ela ficou imóvel, mas, ao sentir a pele queimar e aos poucos teve coceira na garganta tossindo. A Olho dos Deuses se arrastou até a porta tentando abrir, empurrar, bater, tudo era inútil.
-Rainha Auterpe, por favor, não me deixe aqui! (...) Pelos... Deuses. – Não havia outra saída, Lanassa estava presa enquanto a Rainha ouvia do outro lado da porta, colocando uma mão sobre o ouvido mesmo que estivesse ouvindo muito bem as suplicas da garota.
-Implore para eu poupar a sua vida... Implore... Será uma morte dolorosa. – Auterpe gargalhou antes de jogar a chave do templo sobre a relva e caminhou de volta ao castelo com um semblante suave, cabeça erguida e um leve sorriso. – Eu detesto que mandem em mim; eu odeio estar em Ruphira... Eu odeio o Perseu... – Ela olhava para as suas mãos enquanto murmurava. – Ele arranca tudo de todos, tão fraco e tão poderoso... Meu gêmeo é um inútil.
-Minha Majestade... – Ao se aproximar do castelo viu Lennus vindo em sua direção, pela expressão suave e o cheiro de William, eles tinham conversado. Ela revirou os olhos quando o Conselheiro fez uma reverência. – Posso compartilhar o quão desagradável é teu marido? – Auterpe rangeu os dentes e o observou com desprezo. – Aquele ar debochado e. (...) – Ela levantou a mão o fazendo se silenciar, o que o Conselheiro achou estranho, ela sempre ouvia as opiniões controvérsias e irritadas que ele tinha sobre William.
-Você é um Conselheiro do Reino e já foi meu amante á décadas atrás. – Lennus se sobressaltou com o comentário frio. – Me admira que, você pegou o ódio que tinha por Perseu e jogou em William. Sendo que o culpado sempre foi o Perseu... – Auterpe deu um longo sorriso sombrio que fez o Conselheiro se arrepiar. – Ele é um Rei das Safiras, um dos mais fracos que tive que conviver. E você? Foi fraco o suficiente para acatar as ordens dele! – Ela disse com raiva caminhando para dentro do castelo empurrando Lennus.
-Majestade Aut. – Ela se virou devagar, era possível ver raios em suas íris verdes.
-Não ouse dizer o meu nome com sua boca pervertida. Estou casada agora. Mantenha sua raiva silenciosa para a minha paz...
William caminhava pelo labirinto dentro do castelo, havia poucos lugares que ele conhecia, além do pátio, do claustro ao lado da sala dos espelhos, a sala do trono, os quartos dos Guardiões e a sala das Taças; enquanto passava pelos quartos dos Guardiões, ouviu um choro reprimido no quarto secundário de Orion, ao se aproximar da porta entreaberta viu Massipinoa sobre os lençóis agarrada a alguma coisa. Ele hesitou por alguns segundos, mas, era bom ouvir algum som naquele lugar, se ocupar com o problema dos outros talvez aliviasse o seu próprio.
-Está tudo bem? – Assim que entrou no quarto a garota se virou com tudo se recompondo e limpando rapidamente o rosto e se curvando.
-Perdão Rei William, eu... – Ele riu e negou se aproximando.
-Não precisa me chamar de Rei, eu nem sou Rei oficial e.
-Você se casou com a Rainha, o que te torna Rei, mesmo que nem todos concordem. – Ela colocou a mão no peito e sorriu com empatia. – Eu já ouvi a história do amor mortal e impossível da Rainha para não chamar meu sogro de Rei. – William puxou uma cadeira e se sentou rindo para a garota.
-Certo. Porque está chorando? – Massipinoa olhou em volta e suspirou um pouco tímida, ela se encolheu e ele estreitou os olhos analisando ela. – Aan.
-Erh... – Ela olhou para o lado, estava apreensiva. – Vossa Alteza será avô. – A voz saiu trêmula, incerta, assustada o que fez William ficar surpreso.
-(...) De. Verdade?! – Ele levou a mão á boca e respirou fundo, não ia fazer contas, Auterpe também engravidou rápido, no entanto, ela não parecia feliz em afirmar. – Você já contou ao...
-Galateia aquela maldita não deixa! – Ela exclamou com a voz triste. – Ela não deixa eu enviar mensagens para ele e...
-Por quê?
-(...) – Massipinoa cruzou os braços. – “Orion não gosta tanto de você, quanto gosta de mim.” – Ele riu sem jeito, não acreditava que a Bruxa diria algo assim; mas, não estava em posição de dizer nada. Ele respirou fundo e colocou a mão no ombro da garota.
-Eu não acho que... – Ele começou a pensar em uma frase que a reconfortasse, a acalmasse, mas, ele não era bom nisso. – Claro que Orion gosta de você, senão ele teria se casado com outra. – A frase simplesmente saiu. A garota o observou. – Ele escolheu você, provavelmente algo em você chamou a atenção dele. Só converse com Galateia, tenho certeza que juntando a única coisa que une vocês ambas podem se entender... – A garota inclinou a cabeça confusa. – Orion! – Ele resumiu suavemente com um leve sorriso que a outra acompanhou.
Foi quando um ruído alto parecia ter atingido o quarto de Auterpe. Foi quando uma Guardiã de cabelos azul turquesa e olhos vermelhos, Tulipe entrou no quarto estava procurando Massipinoa, mas, ficou surpresa ao ver William.
-Sir William... – Ela fez uma rápida reverência e segurou no pulso de Massipinoa. – A Rainha estava procurando vós. – Ele jogou a cabeça para trás e respirou fundo o que seria agora? Do que ele a acusaria agora? Ele se levantou da cadeira e viu a Guardiã falando sobre a garota se esconder.
-(...) Para onde vai leva-la? – William ergueu a sobrancelha. Tulipe olhou para ele com um olhar amedrontado.
-Para um lugar seguro... – Ela sussurrou enquanto o Rei honorário de Ruphira se dirigia ao quarto da esposa, com uma expressão de cansaço e ao mesmo tempo despreocupado.
Talvez Auterpe teve um surto pela gravidez de Massipinoa, era um sério problema se fosse isso. O quarto estava não apenas vazio, estava bagunçado, destruído, vasos e quadro quebrado, parecia as fúrias de Estevão. Ele pegou uma pequena espada com a curvatura como a de uma foice com o cabo de escamas grossas havia sangue por toda a lâmina o que fez correr até a sala do trono. Se deparando com Auterpe jogando o antebraço inteiro de Lennus pelo salão berrando com ele, parecia uma guerra. Todos estavam em alerta, posições de luta foi quando ela se virou para William que torceu o nariz.
-O que você está fazendo Auterpe? – Ele perguntou já irritado franzindo a testa. – Eu não gosto de Lennus, mas, não cortaria o braço dele por isso. – Ele esticou os braços dando de ombros e um meio sorriso tentando amenizar o clima. O Conselheiro o fuzilou o com olhar enquanto segurava o ombro sangrando. – Tsk, tsk; você não gosta do cheiro de sangue não é, meu amor? – Auterpe o encarou e se aproximou dele, porém, Emil, o Guardião mais velho se colocou na frente dele. – Que isso Emil, é minha esposa e...
Ela levantou seu machado de dois lados em direção á ele sem hesitar.
-Seu humano defeituoso e doentio! – Ela berrou fazendo Emil avançar contra ela para proteger William nem que fosse a contra gosto. Porém, o contra ataque foi mais rápido, ela acertou na perna dele e pulou em cima do marido os jogando dentro de um espelho.
-O que... Significa isso?! Auterpe! – Eles caíram em um andar que ele nunca esteve, era amplo parecia um salão de dança, porém com poucas janelas e um ar sombrio. – O que você está fazendo?
-Eu era tão poderosa! – Auterpe encarou William como se tivesse vendo ele pela primeira vez, o olhar escuro, a voz cheia de magoa e ódio. – Você é meu William? Você é realmente o homem que demonstrou interesse em mim?
-Sim. – Ele arfou quando ela encostou a espada que ele segurava no pescoço dele. Não fazia sentido. – Sou eu, eu ainda me interesso por você, eu casei com você. – Auterpe pesou a mão no pulso de William que estava com a lâmina da foice na garganta, mas, se manteve calmo, se fosse para machuca-lo ela já teria o feito. – Não precisa agir assim meu amor...
-Amor. – Ele sentiu a lâmina na pele e fechou os olhos. – Pare! Chega disso tudo! Está me irritando! – O grito saiu de dentro de seus pulmões, ele não era forte como Estevão era, mas, também não estava disposto a se submeter á um surto desses, ele colocou Auterpe contra o chão, colocando os braços ao redor da cabeça dela e prendendo suas mãos acima da cabeça e as suas pernas prenderam as dela.
-Saía de cima de mim mortal repugnante! – William riu com o grito.
-O mortal repugnante que casou com você... – Havia fúria em seus olhos. – Consegui tolerar seus ataques de ciúmes sem fundamentos, da sua frustração por Rigel ser surdo, dos casamentos de Orion, do que você achava repugnante em mim, só que agora chega! – Ele elevou a voz na última palavra. – Eu não suporto mais você estar assim só por você ter descoberto que Ethan tem meu sangue.
A raiva escalou pelo corpo da Rainha que começou a emitir raios pelo seu corpo, mas, ele não a soltou, apenas fechou os olhos, aguentou.
-(...) Eu já acostumei... – Ele inclinou a cabeça sentindo a pele queimar. – Gastar sua energia assim é um desperdício.
-O que eu sou para você? – Ela berrou de volta. – Sou apenas a Rainha que governa um Reino macabro, na qual você é meu cônjuge e progenitor dos herdeiros de Ruphira? E, além disso, você só pensou em mim porque achou que nunca dormiria com aquela cadela? Porque quando você conseguiu não se afastou com dignidade de um pobre mortal? – William abriu a boca, as palavras que saiam da boca de sua esposa duram e cruéis, ele se desconcentrou e Auterpe se colocou em cima dele com agilidade. – Você já tinha o que queria e poderia ter mais; mais mulheres, mais moleza, mais tempo ocupando a cama de Estela! Já que aquela parideira te excita tanto. Você não se excitada comigo quando eu sou má, não é?
Um acidente seria eu jogar um raio em uma árvore e ela cair em cima de você, deitar com a minha cunhada não é acidente! Por isso Orion está descontrolado assim, por sua vulnerabilidade, Rigel nasceu surdo, por sua falta de consideração perdemos quatro filhos! Você é tão egoísta!
William arfou frustrado. Não parecia que ia acabar, principalmente quando ele sentiu o coração acelerar, porque ela estava falando aquilo? Porque ela estava sendo assim?
-Está me culpando pela surdez de Rigel? – Ele perguntou indignado. – O que isso tem a ver?! Você quem foi para o campo de batalha grávida, talvez a culpa foi sua! Ou dos deuses! Rigel será tão forte quanto qualquer outro! Rigel não é frágil, ele é esperto e.
-Inútil. Isso o torna inútil como Ethan!
-Não... – Ele c
-Aargh! – Ela gritou. – Você acha que poderia ficar em paz depois de toda essa bagunça? Eu queria tanto fazer você rolar em uma fogueira até eu ficar satisfeita com a sua dor. Mortais tem um cheiro depreciativamente ruim, mas, não você. Você conseguia disfarçar o seu cheiro. Não faço ideia como... Mas, eu penso, como penso... Ethan não seria o suficiente para você não é?!
-(...) Quer me matar? Quer me torturar? Está tão focada em outra coisa, me culpando por tudo. Somos um casal, eu te amo, e amo meus filhos! Eu não sou um progenitor, sou o pai de Orion e Rigel! Pai! Não chame Estela de cadela, ela também é sua cunhada agora! Porque eu iria me afastar?! Eu já disse que amo você! Independente de eu ser um pobre mortal ou não!
-Seu sangue mortal faz meus filhos serem mais fracos! Isso causa uma ruptura! – Ela fez uma lâmina fina com raios, o que fez William a encarar. – Não há como você continuar me amando!
-O que é a sua definição de ato de amor?! Ah, verdade; dizem que crianças algema um casal; e você quer saber? Teria sido muito melhor se você não tivesse ficado grávida de Orion, dos outros ou de Rigel! (...) Eles não seriam meus, eu não estaria preso a você, eu ainda teria o meu irmão, teria a minha cunhada para eu irritar, teria Ethan para ensinar as coisas. Eu nunca quis ser pai! Nunca quis ter filhos, eu só queria estar satisfeito com você, você era intoxicante. Agora está perturbada!
Auterpe caiu, William a empurrou com jeito saindo de baixo dela.
-Foi um maldito acaso, porque você não se cuidou?! Seria muito mais fácil se não tivessem crianças envolvidas, você reclamava que Estela tinha tantos filhos; mas, quantos filhos nós teríamos hoje? Hun. Sendo sincero, eu não sou mais o Rei; nunca mais serei oficialmente, foi tudo o que você me permitiu ser. Eu estava satisfeito com o papel de pai responsável, tendo uma companhia bonita e encantadora. Quando casamos virou uma sensação de sucesso, me fez sentir bem. Mas, agora, ficou insustentável...
Ele se levantou passando os dedos sobre os lábios dela, o que a fez recuar, o chão tremeu e antes que William tivesse uma reação ouviu o som do castelo desmoronando, seu corpo foi puxado por alguma coisa saindo do local como o vento. Ele olhou assustado vendo as ruínas do castelo, fogo vindo de templos e gritos, quando ele olhou para baixo, os cabelos cinza escuros. Cepheus, o Guardião dos Rubis do ar, outro Guardião que não falava com ele, estava o salvando.
-Aan... Cepheus?!
-Está tudo sobre controle, você é bem irritante Sir. William.
-Meu irmão dizia isso também. – Eles caíram sobre os arbustos de amora, foi quando ele colocou a mão no rosto cansado. – Não me parece que as coisas estão sobre controle.
-Você tem um dom magnífico de irritar a Rainha. – Ele disse em tom sarcástico descendo da árvore. William olhou para Ruphira por um minuto e quando desceu da árvore, estralou as costas e colocou os braços para trás. – Acho que você pode ajudar com.
-Eu vou para Saphiral. Aqui está uma bagunça, e eu preciso descansar.
-Mas...
-Acredite em mim, será melhor se eu não estiver aqui. Diga á minha esposa que eu amo ela...
-Erh.
*ΦΦΦΦΦΦΦ*
Um caos que ela achava que conhecia. A mudança de Perseu era dolorida e estava estragando o que deveria ser na verdade o melhor momento da vida deles, Sísifo nasceria á qualquer momento e o pai dele estava agindo como uma tempestade de mudança de estações, cada palavra reveladora e surpreendente do Rei das Safiras era como sal na ferida no coração de Estela. Ela nem estava mais tão animada e nem tão radiante, o que ela começou a sentir começou a afetar a comunicação do casal, porque tinha certeza de que Estevão nunca faria isso; de todos os males nunca a deixaria sozinha em uma gestação, nunca. Ele poderia ter todos os defeitos do mundo, mas, isso ele não faria. Seus sonhos a lembravam desses momentos, o que sempre a fazia acordar chorando.
~ BOOOM!
Estela acordou sentindo a cama tremendo, na verdade, o quarto, toda a estrutura, era como se algo tivesse sido trombado contra o próprio castelo. Ela se levantou da cama e segurou sua barriga, seu ventre doía, não estava mais queimando, fazia dois dias, apenas machucava. Ela foi em direção á porta ainda com a longa camisola; assim que abriu a porta se deparou com Musphee, como se ele estivesse à espera dela.
-Ah! Musphee. – O garoto deu um meio sorriso quando ambos ouviram um rugido, era animalesco, e ecoava pelos corredores. Ela fez menção de sair, mas o Guardião impediu com uma expressão de proteção. – Que barulho é esse? – Logo em seguida estrondos de pilares sendo derrubados, o chão e as paredes tremiam, como se o castelo estivesse em um ataque, sua expressão foi de pavor. – Precisam.
-A Rainha precisa ficar aqui... – Ele olhou para corredor com um olhar atento e hesitante.
-Por quê? Onde está Perseu?
Antes que ele pudesse responder Heratho surgiu sendo jogado para o fundo do corredor com força, ele tentou agarrar Musphee, mas, hesitou quando viu Estela; o que o fez se desestabilizar e se chocar contra a parede. O que fez Musphee colocar a Rainha para dentro do quarto e tentar fechar a porta.
-Porque vocês estão me incomodando dessa forma?! – A voz sarcástica e assustadora de Perseu fez com que Sísifo queimasse o ventre de Estela a fazendo gemer de dor e se apoiar sobre a cama. O som da porta sendo aberta mostrou um olhar perturbador do marido, que sorriu com um desagradável de desprezo e de canto. – Ah! Estão aí...
-Perseu... – Sua voz soou trêmula, havia sangue na roupa dele, ela se endireitou. – O que está fazendo? Que barulheira é essa? O que está fazendo?! – Ele caminhou até ela a agarrando pelo braço com força. – O que... – Ela cambaleou para trás.
-Shh... Boa esposa. – Ele ordenou colocando a orelha na barriga dela, Sísifo se mexeu fugindo do pai, Estela tampou a boca. – (...) Meu filho é agitado, os filhos de Estevão nunca foram assim certo? – Perseu se levantou encarando Estela e agarrando nos seus cabelos da nuca para que ela olhasse em seus olhos. – Como ele aguentava os seus murmúrios? E porque você murmura tanto? Seus filhos são fracos, se eu atacar eles morrem.
-Pare! Não diga isso! – Estela gritou foi quando Aya entrou no quarto pela varanda tentando impedir Perseu, porém ela foi atingida com uma rajada de chamas caindo no chão. – Perseu! Aya? Está bem? – Ela tentou virar a cabeça, mas a mão de Perseu pesava.
-Eu mandei você calar a boca! – Ele berrou no rosto dela. – Esquece esses inúteis...
-O que... – Perseu tampou a boca de Estela com força e a fez se chocar na parede, o que fez o corpo dela começar a tremer. – Hmff. – Ela tentou falar, mais apenas sentiu o calor do corpo dele, como se estivesse de frente para uma grande fogueira. Musphee tentou pular em cima dele para tentar salvar os dois, mas, com um reflexo apavorante, o garoto foi jogado para fora do quarto abrindo um enorme buraco.
-Perseu! Chega! – Merope rompeu no quarto com Nakumma ferida e com o rosto sangrando, Estela tentou ficar calma, não gritar, não se mexer, esperar. – Vamos conversar! Você fez uma bagunça em Saphiral! Escute-me Rei Perseu...
Ele deu uma risada maquiavélica e então tudo foi tomado pelas chamas, ambas, tudo ao redor, gritos foram ouvidos, as mãos dela tremiam, seu corpo tremia, as dores aumentavam, ela seria a próxima, tinha certeza. A garganta dela secou.
-Ah, essa Bruxa... E você; a mulher que Auterpe precisou substituir... – Ele se sorriu encarando Estela. – Quero te dizer uma coisa; aqueles restos de energúmeno de Estevão... – Perseu estava se revirando aos enteados quando deu um peteleco forte na barriga de Estela que se curvou de dor. Sísifo se remexeu o que fez Perseu erguer a cabeça e a olhar com certo desprezo. – Eu os vejo como um enorme aborrecimento... – Sua mão agarrou o rosto de Estela com violência, forçando a olhar em seus olhos em chamas.
-Você não é assim Perseu! – Ela exclamou querendo que fosse um pesadelo, mas, dessa vez o pesadelo era mais do que palpável, doía e queimava. Diferente, tudo estava nítido, os sons, os barulhos, o cheiro incomodo. – O que está acontecendo? Porque você está falando isso? – Sísifo estava quase a rasgando para fugir.
-Porque é a verdade. Eilon é um verdadeiro Rei covarde, eu devia ter transformado ele em um animal de caça como eu fiz com aquele; Archie. – Ele gargalhou de maneira sombria fazendo a Rainha arregalar os olhos em pânico.
-Você fez o que? – Perguntou assustada.
-Não faça essa cara de surpresa. – Ele disse com sarcasmo. – Era óbvio, eu invoco deuses, eu tenho poderes; meus filhos têm poderes e eu ainda fui tolo, Eilon machucou minha filha. O que deveria ser caçado e oferecido á sacrifício deveria ter sido o Rei. – Sua voz era fria. – Elisa é uma mortal fraca, pelos deuses; ela não tem nada de especial, Artemisa também foi uma fraca, devia ter matado todos quando teve a chance. Ainda bem que eu a impedi. – O tom era debochado. – Não devia... O receptáculo perfeito era Artemisa, primeiros sacrifícios, os Balaur.
-O que? Não diga isso Perseu!
-São verdades. Seus desregrados me odeiam, porque eu deveria gostar dos filhos que você teve com Estevão? – Ele estava irritado o que estava fazendo Estela suar de calor, bolhas estavam se formando em seu corpo e seus olhos já estavam marejados, empurrava Perseu para se afastar, mas, o contato com a roupa já queimava. – Eilon é um problema terrível, eu gostaria de arrancar a cabeça dele. – Ele sorriu para Estela que não conseguiu respirar. – Respire! – Ele ordenou. – Você nunca se cansa de choramingar? Os gritos dos mortais são irritantes! Por isso Estevão te traiu com a minha irmã, me surpreende que ele não tenha feito isso.
-Não. Diga o nome.
-Oh, verdade, você é uma bela adultera, como eu terei certeza que você não irá me trair? Eu não tenho... – Ele começou a rir e segurou no pescoço dela com força, queimando a pele. Ela não queria morrer, não era isso que ela queria, pareciam que seus pecados estavam a assombrando de uma forma terrível. – Eu também nem estava esperando que você engravidasse, que perda de tempo! (...) Ainda sente saudades daquele cadáver não é? Que depreciativo.
Perseu abaixou a outra mão até o umbigo da esposa e queimou o local com o dedo. O coração dela disparou e uma força surreal a fez reagir. Ela afastou o corpo com tudo depois de derrubar a coroa da cabeça dele. – Desgraçada!
Estela segurou a barriga e começou a correr pelos corredores, reparando os pontos de destruição, rachaduras, sangue, seu corpo tremia, ela não sabia para onde ir, as lágrimas começaram a escorrer pelos seus olhos dificultando a visão, foi quando ela sentiu o chão tremer e a esquentar, em um movimento urgente algo a pegou pelo colo e a conduziu até o salão dos quadros. A parada foi desequilibrada e ela tropeçou caindo em cima de algo.
-Por Hermes! – O grito era de Rigel, o mensageiro do Rei, á quanto tempo ela não o vira. Estela tentou se levantar e quando viu que ele estava completamente machucado e queimado ela hesitou. – Fica aqui Rainha, por favor. Eu estou procurando Mérope. – Sua voz era agitada, seu olhar atento. Estela fechou os olhos com dor. – Ah não, não é hora de dar a luz... – Ele se levantou e empurrou uma parede que dava á uma sala verde turquesa, como jade, era ampla, gigante, com alguns chaises e água. Parecia um lugar impenetrável. – Está segura aqui...
-Mas... E vocês? – Ela perguntou segurando a barriga enquanto ouvia mais baques e coisas sendo desmoronadas. – Mérope e Nakumma, Aya, Heratho... Rigel, o que está acontecendo com Perseu? – Estela começou a soluçar quando abaixando os ombros Rigel a sentou e lhe esticou uma bandeja com o café da manhã.
-Vamos ficar bem. – O mensageiro sorriu ouvindo o tremor se aproximar. – Você precisa se proteger. Eu volto quando tudo estiver bem.
-Eu... – O mensageiro sentiu o calor se aproximando então começou a fechar o local.
-Ah... – Ele apontou para o fundo do lugar. – Tem um parente seu ali...
-Parente? – Estela se virou e estreitou os olhos vendo alguém deitado sobre tecidos, ela segurou a barriga fazendo com que o bebê relaxasse. Ao se aproximar mais, quem estava deitado levantou a cabeça. – (...)
-Cunhadinha! – William deu um sorriso de alivio se apoiando com os cotovelos. – Eu achei que aqui estaria tudo bem, mais, está igualmente um caos. – William suspirou frustrado. Estela fechou os olhos se sentando devagar sobre algumas almofadas, houve um longo suspiro e as lágrimas voltaram. – Não foi nossa culpa. – Ele tentou tranquiliza-la.
-Ele disse coisas tão... Doloridas. Verdades. Mas.
-Auterpe também disse para mim... – Ele disse deitando nos lençóis com uma voz entristecida e incomodada.
-E o que você fez? – Estava difícil se acomodar, havia marcas de queimaduras e hematomas em suas bochechas, pescoço, na barriga, á vista de todos. William deu um meio sorriso e passo a mão no rosto dela.
-Ele nem tentou esconder... – Estela riu, sabia que ele mencionou isso porque Estevão nunca fazia isso para deixar marcas. Mas, William também estava ferido, não como ela. – Eu precisei me afastar um pouco de Auterpe. Independe de tudo, meus filhos precisam de mim.
-Sim... Foi uma escolha inteligente. – Estela suspirou, sabia que Artemisa e Elia estavam seguras no Refúgio, sentia isso. – Eles têm sorte de ter você. – Sua voz saiu com um grande peso sobre o peito.
-Éh. – Ele deu de ombros sorrindo. – Não se preocupe com Eilon e os outros, eles estão bem. Eles estão seguros, tem os dragões, tem uns aos outros e... São fortes e inteligentes. E o mais importante... Não tem magia nas veias. – Estela concordou sentindo Sísifo se acalmar, estava se sentindo seguro naquele lugar.
Saphiral e Ruphira estavam em ruínas, em uma batalha de força e brutalidade causada por aqueles que deviam proteger, governar e cuidar do seu povo. Pardóx tinha um vislumbre de segurança, mas, na verdade, sempre tinha um fio de insegurança e destruição por qualquer Subimortal que se descontrolasse.
Em Calasir as coisas iam prosperas, Drakoj estava sobre novas tonalidades: azul cobalto e vermelho profundo, não havia mais a infinidade de tons verdes porque agora era o reinado de Eilon e Elisa, o que na verdade deixava tudo mais vivo e expansivo.
Em algumas manhãs quando a inquietação sobre o que sua mãe poderia estar fazendo, se ela realmente estava feliz, se ela realmente voltaria para o Reino que a acolheu, que ela cuidou ou que ela ficaria para sempre do outro lado, com um homem que apareceu e estragou tudo de todas as maneiras para a sua família. Naquela primavera, Eilon subiu ao covil para ver Ronar.
Á contragosto, acordar cedo e ver o Reino que ele deveria proteger enquanto todos dormiam era o ensinamento mais útil que Perseu deu para ele.
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