Eilon permaneceu imóvel por alguns instantes, encarando Ronar. O dragão vermelho, imponente e feroz, abaixou a cabeça devagar, tocando a barriga de seu cavaleiro com o focinho, um gesto que parecia tão cheio de significado quanto de peso. O toque era breve, mas cheio de uma cumplicidade silenciosa que apenas os dois compartilhavam. Jaspe, o gigantesco dragão verde de sua mãe, estava perto dali, deitado na grama úmida. Ele soltou um ronronar baixo, um som que soava quase como um lamento, seus olhos amarelos brilhando com algo que parecia pesar mais do que o próprio corpo.


— Sinto muito, Jaspe, — Eilon disse, sua voz carregada de melancolia enquanto seus olhos pousavam no dragão, que parecia vazio sem sua cavaleira. — Eu também sinto saudades dela. Também a queria aqui.


Houve um momento de silêncio, apenas o som do vento acariciando as folhas e o leve farfalhar das asas de Jaspe se movendo de maneira inquieta. O coração de Eilon pesava como uma âncora. Ele sabia que aquele vazio não seria preenchido, não por ele, nem por Ronar.


Com um movimento fluido, Eilon subiu em Ronar. O dragão balançou levemente as asas, um movimento que parecia preparar o corpo massivo para o salto que viria. Ele não rugiu, não gritou — apenas caminhou até a beira do penhasco, onde as ondas quebravam lá embaixo, e saltou.


O mundo ao redor desapareceu por um breve momento enquanto eles mergulhavam no vazio, até que Ronar abriu suas asas imensas, cortando o ar com precisão e graça. Eilon se inclinou sobre a sela, segurando-se firme, o vento chicoteando contra seu rosto e fazendo seu coração bater mais rápido, não de medo, mas de algo que ele não conseguia descrever — talvez liberdade, talvez lembrança.


Seus olhos varreram o horizonte. Lá embaixo estava o reino que ele agora governava. A capital brilhava como uma joia incrustada na vasta terra, suas torres prateadas refletindo a luz do sol poente. Era um reino vasto, tão poderoso que poucos ousavam desafiá-lo. Eilon sabia que aquela grandeza não era obra sua; não ainda.


Era o legado de seus pais. Seu pai, um estrategista e um rei inflexível, construíra Calasir com mãos de ferro e uma visão que poucos possuíam. Sua mãe, com sua força sutil e inteligência afiada, o transformara em algo ainda maior, um reino onde o ouro fluía e a glória era palpável. Eles haviam deixado um império inigualável.


E agora, era dele. Tudo aquilo era dele — ouro, força, poder. Mas enquanto observava as terras abaixo de si, Eilon não sentia o peso do orgulho, apenas o peso da ausência. O que significava herdar um legado tão vasto quando as vozes que o moldaram haviam silenciado para sempre?


Elisa estava inclinada sobre o baú de madeira escura, o perfume suave de lavanda pairando no ar enquanto retirava cuidadosamente os vestidos. Anne estava ao seu lado, dobrando uma peça de tecido fino com mãos ágeis, embora seus olhos cansados traíssem o peso que parecia carregar. As cortinas do aposento balançavam levemente com a brisa que vinha da varanda, trazendo o cheiro do mar distante e o leve som das ondas quebrando nas rochas.


— Está tudo bem? — Elisa perguntou, sua voz tingida de uma gentileza palpável, enquanto os dedos longos deslizavam pelo bordado de um dos vestidos.


Anne hesitou por um momento antes de soltar uma risadinha abafada, quase como se risse de si mesma. — Sim... — murmurou, franzindo levemente a testa. — Só... a vida de casada.


A frase pairou no ar, carregada de um significado que parecia maior do que as palavras que a formaram. Elisa parou, sentindo as bochechas esquentarem com o súbito duplo sentido.


— Oh — ela corou, desviando os olhos para os vestidos espalhados. — A vida de casada está sendo... divertida para vocês?


Anne ergueu a sobrancelha, lançando-lhe um olhar curioso antes de responder, num tom que oscilava entre a provocação e a sinceridade:


— E para a senhora não foi, majestade?


Elisa engoliu em seco, e por um instante seus olhos vaguearam até a janela. Lá fora, ao longe, ela avistou o dragão vermelho de Eilon, repousando numa clareira além dos muros do castelo. O coração dela apertou-se como se uma mão invisível o envolvesse, não porque Eilon fosse um marido ruim — longe disso. Ele a amava com uma intensidade que ela nunca questionaria. Mas as condições de seu casamento... oh, aquelas eram lembranças complicadas de revisitar.


— Foi... — Elisa respondeu, sua voz soando quase como um sussurro. — Eilon é ótimo. Ele me ama mais do que tudo no mundo. — Um suspiro profundo escapou de seus lábios, carregado de emoções conflitantes. — Mas eu senti tanto medo quando fugimos para Drakoj para nos casar. Papai... — Ela parou, os olhos nublados de memórias. — Papai parecia tão furioso.


Anne inclinou a cabeça, o semblante suavizado pela compreensão. — Mas deu tudo certo no final, não é? — ofereceu, um sorriso caloroso tocando seus lábios.


Elisa soltou uma risada nervosa, uma mão indo instintivamente ao pescoço, como se quisesse aliviar a tensão. — Deu... mas poderia ter sido diferente. Eilon poderia ter sido obrigado a casar com Artemisa... Céus, seria péssimo! — Ela riu, mas o som carregava um nervosismo que não passava despercebido.


Anne, no entanto, não parecia convencida. — Sua graça, a rainha-mãe, nunca permitiria isso.


O sorriso de Elisa vacilou, e algo mais profundo apareceu em seus olhos. Uma dor antiga, uma mágoa que ela raramente confessava.

— Minha mãe nos deixou para trás, Anne... — As palavras saíram como um desabafo, a voz embargada. — Decidiu seguir aquele maluco do Perseu e a doida da Artemisa. Mamãe escolheu uma família... e não foi a nossa.


Ela respirou fundo, tão profundamente que seu corpo inteiro tremeu com o esforço.


— Sinto falta do meu pai... — Elisa continuou, e suas pernas cederam enquanto ela se sentava na beira da cama, os dedos trêmulos se entrelaçando no colo. — Se mamãe não tivesse ficado grávida de Perseu... se Artemisa nunca tivesse vindo ao mundo... — Ela parou, a voz falhando. — Meus pais estariam juntos, felizes. Talvez eu tivesse mais um ou dois irmãos. Isso seria tão bom.


Anne aproximou-se, a expressão solidária e cheia de ternura.

— Eu sinto muito, majestade, de verdade.


Elisa ergueu os olhos, forçando um sorriso que não alcançava o coração.

— Quero ficar sozinha, Anne. Creio que Max esteja livre. Vá, aproveite seu marido. — O sorriso dela ficou ali, triste, enquanto Anne hesitava, mas acabou assentindo.


Anne hesitou por um momento, seus olhos analisando a expressão cansada da rainha. Ela parecia querer dizer algo, mas sabia que não havia palavras capazes de amenizar aquela dor que Elisa guardava no peito. Então, com uma reverência leve, ela assentiu.

— Como desejar, majestade. — Anne curvou-se, ajustando a saia do vestido, e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si com um cuidado extremo, como se temesse quebrar algo frágil demais para suportar qualquer barulho.

Assim que ficou sozinha, Elisa sentiu o peso de suas palavras recaírem sobre ela. "Minha mãe nos deixou para trás..." A frase ecoava em sua mente, como uma ferida reaberta que ela insistia em ignorar, mas que agora latejava, exigindo atenção. Seus olhos vagaram até a janela novamente. Lá estava ele, o imenso dragão vermelho de Eilon, repousando nas colinas próximas, como um guardião implacável, imerso em sua vigilância silenciosa.

Elisa pressionou as mãos sobre os joelhos, buscando alguma estabilidade no meio daquela turbulência interna. Ela amava Eilon, disso não tinha dúvidas. Ele era um marido dedicado, um rei justo, alguém que sempre a colocava acima de tudo. Mas o casamento deles não tinha nascido de um conto de fadas. Fora uma fuga, uma rebelião contra expectativas e alianças arranjadas que poderiam ter destruído o que eles haviam construído juntos. E, por mais que o presente fosse seguro, o passado continuava a lançar sombras longas.

Lágrimas que ela se recusava a derramar ardiam em seus olhos. Elisa apertou o colar que trazia ao pescoço, um presente de seu pai, uma das poucas coisas que ela ainda tinha dele. "Se mamãe não tivesse ficado grávida de Perseu... se Artemisa nunca tivesse vindo ao mundo..." Essas palavras voltaram a machucar, a lembrança de um lar desfeito, de um pai que tentara proteger uma filha e de uma mãe que escolhera outro caminho.

— Por que tudo precisava ser tão complicado? — murmurou para si mesma, sua voz abafada pelo vazio do quarto.

Ela pensou em sua mãe, a rainha que outrora fora uma força inabalável, mas que agora parecia um fantasma distante em sua memória. Perseu, com sua presença esmagadora e sua obsessão por Estela, havia destruído tudo. Artemisa, nascida daquele caos, era um lembrete constante do que poderia ter sido, mas nunca seria.

Elisa levantou-se e caminhou até a janela, seus dedos tocando o vidro frio. Lá fora, o vento agitava as folhas das árvores, carregando o cheiro de liberdade e melancolia. Por um instante, ela desejou poder sair voando com Ronar, o dragão azul de Eilon, para longe daquele peso que carregava.

Mas ela era uma rainha. E rainhas não fugiam.

A porta do quarto abriu com um rangido discreto, revelando a figura alta e imponente de Eilon. Seu cabelo escuro estava desalinhado pelo vento, e sua capa de couro ainda exalava o cheiro fresco de céu e dragão. Ele parou na entrada, os olhos imediatamente captando a silhueta delicada de Elisa à luz dourada do entardecer. Ela estava sentada na beirada da cama, as mãos pequenas apertadas contra o rosto, os ombros tremendo com o esforço de conter as lágrimas.


Ele não precisou perguntar. Algo na vulnerabilidade dela, naquele momento, lhe contou tudo. Fechando a porta com cuidado, Eilon deu alguns passos até ela, seus passos leves apesar de sua presença sempre marcante. Quando chegou perto, ajoelhou-se na frente dela, repousando as mãos grandes e calejadas nos joelhos dela.


— Elisa... — A voz dele saiu baixa, cheia de uma preocupação quase palpável.


Ela não respondeu imediatamente, mas os soluços abafados diminuíram. Elisa abaixou as mãos do rosto, revelando olhos brilhantes de lágrimas. As bochechas estavam manchadas, o nariz ligeiramente avermelhado. Ela desviou o olhar, sentindo-se exposta e frágil diante dele.


— Eu estou bem — mentiu, a voz rouca.


Eilon inclinou a cabeça, os olhos fixos no rosto dela com uma intensidade que parecia enxergar através das palavras. Ele não pressionou. Em vez disso, pegou uma das mãos dela, envolvendo-a na sua, como se quisesse compartilhar o peso da dor que ela carregava.


— Não precisa fingir comigo, Elisa. — A gentileza na voz dele contrastava com sua habitual postura firme. — O que aconteceu?


Elisa respirou fundo, os olhos fixos nas mãos entrelaçadas. As palavras vieram baixas, quase como um desabafo:


— Estava pensando nela. Em como tudo poderia ter sido diferente... se ela tivesse ficado.


Eilon franziu o cenho, um misto de dor e resignação passando por seu rosto. Ele sabia exatamente a quem ela se referia.


— Nossa mãe está bem, Elisa. — Ele tentou sorrir, mas o gesto saiu mais como uma sombra de um sorriso. — Ela só escolheu casar com outro homem.


Os olhos dela, cheios de mágoa, encontraram os dele.

— Mas ela nos deixou, Eilon. Ela escolheu outra família. Escolheu outra vida. E nós... nós ficamos aqui, sozinhos, com papai tentando fingir que nada disso importava.


Ele engoliu em seco, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela com dedos delicados.

— Sei que dói. Também sinto falta dela. Mas... foi a escolha dela. Não há nada que possamos fazer para mudar isso.


— Não entendo. — A voz de Elisa tremeu. — Por que ela não nos escolheu? Por que Artemisa foi mais importante do que nós?


Eilon abaixou o olhar, respirando fundo. Não tinha respostas fáceis, e odiava isso. Como irmão mais velho, sentia que deveria sempre ter as palavras certas, deveria proteger Elisa de qualquer tristeza.


— Às vezes, as pessoas seguem caminhos que nós não entendemos. — Ele a olhou novamente, com uma expressão suave. — Isso não significa que você ou eu fomos menos importantes. Apenas que... ela era humana. E humanos erram.


Elisa deixou escapar um riso sem humor, os olhos brilhando novamente.

— Você sempre tenta justificar tudo, não é?


— Só tento proteger você. — Eilon sorriu, desta vez com mais convicção. — Não posso mudar o passado, mas posso prometer que sempre estarei aqui para você, Elisa. Sempre.


Ela balançou a cabeça, mordendo o lábio para segurar outro soluço. Então, sem aviso, jogou os braços em volta dele, enterrando o rosto em seu ombro largo.


Eilon a segurou firmemente, como se o ato de abraçá-la pudesse protegê-la de todas as dores que o mundo já lhe causara. E enquanto o crepúsculo pintava o céu com tons de ouro e púrpura, ele se permitiu acreditar, por um breve momento, que aquele abraço era suficiente.

Eilon a ajudou a se levantar e guiou-a até a cama, deitando-se ao lado dela com cuidado, como se ela fosse feita de vidro. Elisa fechou os olhos por um momento, sentindo o calor do corpo dele tão próximo, uma segurança que ela sempre encontrava em seu toque. Ele acariciou seu rosto, os dedos grandes traçando a linha delicada de sua mandíbula, antes de enroscar os dedos nos cabelos dourados de Elisa, penteando-os com uma paciência que parecia infinita.


— Você está tão parecido com papai... — Ela sussurrou, sem abrir os olhos.


Eilon arqueou uma sobrancelha, a sombra de um sorriso curvando os lábios.

— É mesmo?


— Sim — Elisa abriu os olhos e olhou para ele, a ponta dos dedos tocando levemente a barba que sombreava seu maxilar. — Mesmo com os cabelos brancos de nossa mãe...


Ele riu baixo, inclinando a cabeça até os lábios roçarem na testa dela.

— Bom, acho que isso faz de mim uma mistura justa.


Ela sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos. Eilon notou imediatamente e deslizou a mão para o ombro dela, acariciando-a de maneira tranquilizadora.


— O que há, meu amor?


Elisa suspirou profundamente, o peito subindo e descendo sob o vestido fino.

— Não sei explicar... só me sinto cansada. Como se o peso de tudo estivesse sobre mim.


Eilon franziu o cenho, inclinando-se para beijar sua têmpora.

— Você não precisa carregar nada sozinha, Elisa. Estou aqui. Sempre estarei aqui.


Ela virou o rosto, os olhos úmidos encontrando os dele, e, por um momento, nada foi dito. Ele se aproximou ainda mais, beijando-a suavemente, um toque quase imperceptível nos lábios. Foi um beijo que começou como consolo, mas o calor cresceu entre eles, como brasas sendo lentamente alimentadas.


Os beijos tornaram-se mais profundos, mais lentos, enquanto Eilon a puxava para mais perto. Ele desceu os lábios pelo queixo dela, seguindo para o pescoço, os dedos deslizando pelo tecido leve, como se buscassem a pele que ele sabia estar por baixo. Elisa suspirou, as mãos agarrando os ombros dele, como se precisasse se segurar para não se perder completamente.


Quando os toques substituíram as palavras, a tristeza que antes pairava no quarto desapareceu, cedendo espaço a algo mais intenso. Cada carícia parecia apagar as mágoas recentes, cada gemido abafado era uma promessa de que, apesar de tudo, eles ainda tinham um ao outro.


O quarto ficou em silêncio novamente, mas desta vez não era o silêncio da melancolia, e sim o de dois corações que encontraram abrigo um no outro.

As nuvens densas pareciam se estender infinitamente, tingidas de dourado pelo sol que se punha no horizonte. Elora voava acima delas, sentindo o vento frio chicotear seu rosto, enquanto Cora, sua imensa dragão de escamas prateadas, cortava o céu com graça e força. O bater de suas asas era um ritmo constante e quase reconfortante, mas não o suficiente para silenciar a dor no peito de Elora.


Ela olhou para baixo, para o vasto território de Interlok, tão belo e vasto quanto desolador naquele momento. Seu coração pesava com a saudade de sua mãe, uma dor tão afiada que parecia cravar-se em sua alma. Era como se o abraço de sua mãe pudesse dissolver todo o frio e vazio que sentia, mas aquele abraço parecia tão distante quanto as estrelas que começavam a surgir no céu.


Cora, sentindo a angústia de sua cavaleira, inclinou levemente a cabeça, emitindo um ronronar baixo e profundo, como se tentasse confortá-la. Elora inclinou-se para frente, abraçando o pescoço quente de sua dragão.


— Eu sei, Cora... — ela murmurou, os olhos marejados. — Eu sei que você está aqui para mim, mas eu só queria... Queria tanto o colo dela.


De repente, um rugido distante chamou sua atenção. Elora virou-se a tempo de ver Vieno, o dragão negro de Ethan, emergir entre as nuvens como uma sombra imponente. Ele se aproximava rapidamente, com Ethan montado firmemente em sua sela, o semblante determinado.


Eles voaram lado a lado por alguns minutos antes que Ethan fizesse um gesto indicando uma colina próxima, onde o gramado parecia aceso pelo dourado do pôr do sol. Elora acenou em resposta, e juntos, os dois dragões desceram em espiral até pousarem suavemente no topo da colina.


Ethan foi o primeiro a desmontar, estendendo a mão para ajudá-la. Elora aceitou, deslizando da sela e caindo quase imediatamente nos braços dele. A muralha de contenção que ela havia construído para segurar as lágrimas finalmente desabou, e ela chorou, o som abafado pelo peito de Ethan enquanto ele a segurava com firmeza.


— Ela não devia ter ido embora... — Elora murmurou entre soluços, a voz cheia de dor. — Não devia ter nos deixado assim.


Ethan suspirou, o maxilar tenso enquanto olhava para o horizonte. — Você sabe por que ela fez isso, Elora. Ela escolheu seguir aquele... aquele homem. — Ele disse a última palavra com evidente desgosto, como se fosse um veneno na boca.


— Mas ela era nossa mãe antes de ser... qualquer coisa dele! — Elora afastou-se ligeiramente para encará-lo, os olhos vermelhos e úmidos.


— Eu sei. — Ethan apertou os ombros dela, a voz mais baixa, mas ainda carregada de irritação. — Mas ela fez uma escolha, e essa escolha não foi por nós.


O silêncio caiu entre eles, pesado e carregado de mágoa. Vieno e Cora observavam a cena à distância, seus olhos brilhantes refletindo o entendimento silencioso de criaturas que sabiam mais do que poderiam expressar.


Ethan puxou Elora para mais perto novamente, inclinando a testa contra a dela.

— Eu estou aqui, Elora. Sempre estarei. Ela pode ter partido, mas você não está sozinha.


Elora fechou os olhos, deixando-se afundar no calor da presença dele. As palavras dele eram como um bálsamo para sua dor, mas a ferida ainda estava aberta, ainda latejava.


— Obrigada, Ethan... — ela sussurrou, segurando-se nele como se fosse a última âncora que a mantinha firme. E, por enquanto, isso era o suficiente.

As chamas das tochas iluminavam os corredores de pedra de Saphiral, criando sombras dançantes que pareciam sussurrar segredos nas orelhas de Estela. O peso em seus passos não era apenas por causa do ventre volumoso que carregava Sisifo, mas também pelo tumulto que reverberava por todo o castelo. Ecos de gritos e objetos quebrando vinham das câmaras próximas, um lembrete do estado caótico em que Perseu, seu marido, havia mergulhado.


Ela caminhava devagar, os dedos trêmulos apertando o tecido macio de seu vestido. Seu coração estava dividido entre o medo e a exaustão. Perseu, que costumava ser a personificação do controle e do poder, agora era um vulcão em erupção, espalhando destruição indiscriminadamente.


Quando virou um corredor, Estela parou ao avistar William, o esposo de Auterpe, encostado na parede de pedra. Sua expressão era tão carregada quanto o ambiente: os olhos semicerrados e os lábios franzidos em uma linha amarga.


— William... — Estela chamou, a voz baixa, quase hesitante.


Ele ergueu o olhar, uma sobrancelha arqueando ligeiramente.

— Sua majestade — ele respondeu, inclinando a cabeça em um gesto que parecia mais cansado do que debochado.


Estela parou diante dele, os olhos buscando qualquer traço de compreensão.

— Ele está fora de controle, William. Eu nunca o vi assim.


William soltou um riso curto e seco, cruzando os braços.

— Ele é um espelho de sua irmã. Sabe o que Auterpe fez em Ruphira, Estela?


A rainha franziu o cenho, sentindo um frio percorrer sua espinha.

— Não... O que ela fez?


William descruzou os braços, dando um passo à frente, a voz baixa e carregada de veneno.

— Ela ordenou queimar aldeias inteiras por suspeita de traição, arrancou o braço daquele coisinha do Lennus. Ruphira não é mais um reino; é um cemitério fumegante.


Estela levou a mão à boca, o horror estampado em seu rosto.

— Isso é monstruoso...


— Monstruoso? — William repetiu, o tom quase zombeteiro. — Monstruoso é que Perseu parece seguir os mesmos passos. Ele não tem controle. Está destruindo qualquer senso de ordem que Saphiral ainda tem.


Estela desviou o olhar, as lágrimas ameaçando cair. Ela sabia que William estava certo. O comportamento de Perseu, sua raiva incessante, sua impaciência com qualquer obstáculo... Ele estava se tornando uma força destrutiva que não reconhecia aliados ou inimigos.


— Ele não é assim... — ela sussurrou, mas as palavras soaram vazias, até para si mesma.


William olhou para o ventre de Estela, seu olhar suavizando por um breve momento.

— E esse aí dentro? — Ele apontou para sua barriga. — Já sente a força dele, não é?

Estela assentiu lentamente.

— Sisifo... Cada movimento dele... parece que vai me rasgar por dentro.


William suspirou, passando a mão pelos cabelos.

— Então imagine o que ele será quando nascer. Se Perseu não for controlado agora, Sisifo será o herdeiro de uma ruína.


As palavras pairaram no ar, um presságio sombrio que fez o peso no coração de Estela aumentar ainda mais. Ela olhou para William, procurando por uma solução, uma saída.


— O que posso fazer? — ela perguntou, a voz trêmula.


William apertou os lábios, seus olhos escurecendo.

— Você é a rainha de Saphiral, Estela. Não apenas a esposa de Perseu. Lembre-se disso.


Antes que ela pudesse responder, um rugido ecoou pelo corredor, e ambos olharam na direção do som. Perseu. Estela sentiu o medo rastejar por sua espinha, mas também algo mais: uma centelha de determinação. Talvez fosse o sangue dos dragões que corria em suas veias ou o instinto protetor que crescia junto com Sisifo.

Estela respirou fundo, sentindo Sisifo se agitar violentamente em seu ventre, como se captasse a turbulência ao redor. Ela sabia que enfrentaria Perseu mais cedo ou mais tarde, mas precisava encontrar a força dentro de si para proteger não apenas seu filho, mas todo o reino que dependia dela.

As portas do quarto foram fechadas com um estalo pesado, e os guardiões posicionaram-se do lado de fora, suas expressões rígidas denunciando a tensão no ar. Estela se sentou na beira da cama, o corpo cansado e pesado pela gravidez avançada. William estava de pé, próximo à janela, observando o pátio abaixo. O caos se espalhava como uma doença, e a presença de Perseu, em fúria descontrolada, era a raiz de tudo.


Lá fora, o rugido de Perseu ecoava como o trovão antes de uma tempestade. Estela apertou as mãos no colo, o som reverberando em seus ouvidos e apertando seu coração como uma garra invisível. Cada objeto atirado, cada grito raivoso, fazia os guardas do lado de fora do quarto trocarem olhares nervosos.


William finalmente se virou, os olhos sombrios fixando-se em Estela.

— Ele perdeu completamente o controle. Até os mais fiéis estão temerosos. Você viu o olhar deles lá fora? Eles têm medo do próprio rei.


Estela assentiu, a voz fraca.

— Eu nunca o vi assim antes, William. É como se ele... como se algo o estivesse consumindo.


William cruzou os braços, se afastando da janela.

— Ele não é mais o homem que você conheceu, Estela. Ele está se afundando em sua própria raiva.


Ela olhou para ele, os olhos marejados.

— E o que eu faço? Ele é o pai do meu filho...


— E é por isso que você precisa proteger Sisifo. — William se aproximou, sua expressão severa. — Se Perseu continuar assim, ele será um perigo, não só para você, mas para o futuro dessa criança e de todo o reino.


Estela sentiu um movimento brusco em seu ventre, como se Sisifo também sentisse a intensidade do momento. Ela fechou os olhos, tentando acalmar os pensamentos.


— Ele não está assim porque quer... — ela começou, mas William a interrompeu com um olhar de incredulidade.


— Não importa o porquê, Estela! Ele está aterrorizando todos ao seu redor. E você sabe tão bem quanto eu que, se ele entrar por essa porta agora, ninguém vai impedi-lo de fazer o que quiser.


Um silêncio pesado pairou no quarto. O rugido de Perseu soou novamente, dessa vez acompanhado pelo som de algo sendo destruído.


— Ele é como uma tempestade — murmurou Estela, os olhos perdidos. — Imprevisível, perigoso... Mas eu... eu não posso simplesmente abandoná-lo.


— Ninguém está dizendo para abandoná-lo — William respondeu, a voz mais suave, mas ainda firme. — Mas você precisa se proteger, e ao seu filho.


Estela assentiu lentamente, sentindo o peso das palavras de William. Lá fora, o som de passos apressados ecoava, e os guardas do lado de fora murmuravam algo antes de silenciarem novamente.


— Ele está vindo para cá? — Estela perguntou, a voz tingida de pânico.


William foi até a porta e pressionou o ouvido contra ela. Após um momento, ele balançou a cabeça.

— Não. Mas não tenho dúvidas de que é apenas questão de tempo.


Estela respirou fundo, tentando reunir forças. Ela sabia que enfrentar Perseu em seu estado atual seria como enfrentar um dragão sem armadura. Mas, ao mesmo tempo, ela sabia que precisava ser forte, não apenas por si mesma, mas pelo filho que crescia dentro dela e pelo reino que dependia de sua coragem.


— Se ele vier... — começou William, mas Estela o interrompeu.


— Eu lidarei com ele. Deixe isso comigo.


William a observou por um momento antes de assentir. Apesar do caos lá fora, havia uma determinação nos olhos de Estela que ele não via há muito tempo. Se alguém pudesse enfrentar Perseu e sair ilesa, era ela.

O silêncio da madrugada foi quebrado pelo som suave dos passos de Estela, que ecoavam pelos corredores destruídos do castelo. As tochas nas paredes oscilavam fracamente, lançando sombras dançantes sobre os destroços espalhados. Ela parou diante das grandes portas da sala do trono, que estavam entreabertas, revelando a destruição além delas. Respirou fundo, tentando reunir coragem. Nunca, nem mesmo nos dias mais sombrios de Estevão, ela havia visto tamanha devastação.


O piso estava rachado em vários lugares, como se um terremoto tivesse passado por ali. Cacos de vidro cobriam o chão, reflexos das janelas estilhaçadas que deixavam o vento frio entrar. As tapeçarias estavam rasgadas, pendendo de forma miserável nas paredes. No centro de tudo, sentado no trono como um rei de um império arruinado, estava Perseu.


Ele parecia uma figura tirada de um pesadelo. O olhar era feroz, os olhos azuis brilhando com uma fúria quase inumana, os cabelos desalinhados caindo sobre o rosto tenso. Ele segurava uma garrafa de vinho quase vazia, e o líquido escorria lentamente pelos seus dedos, pingando no chão aos seus pés.


— Perseu, — ela chamou, a voz firme, embora seu coração estivesse disparado.


Ele levantou o olhar para ela, e o que viu quase a fez recuar. Seu olhar estava cheio de desprezo, uma raiva crua que parecia querer devorá-la.


— Veio reclamar do meu filho de novo? — Perseu perguntou, a voz grave e cortante. Ele se levantou, o corpo oscilando levemente. — Porque é só isso que você faz! Reclama que ele te machuca!


Estela fechou os olhos por um momento, tentando manter a calma.

— Isso não é sobre Sisifo, Perseu. É sobre você. A situação dentro deste castelo está insustentável. As pessoas estão com medo de você.


— Bom! — ele rugiu, abrindo os braços em um gesto teatral. — Que tenham medo! Um rei que não é temido não é nada!


Ela deu um passo à frente, encarando-o com coragem que mal sabia que tinha.

— Você quer ser lembrado como Efellya, Perseu? Como sua mãe é lembrada?


Ele congelou por um segundo, mas foi o suficiente para que a atmosfera na sala mudasse. O olhar dele endureceu ainda mais, e antes que ela pudesse reagir, ele pegou uma estátua de mármore pequeno e atirou em sua direção.


Estela desviou no último instante, o objeto passando tão perto de sua cabeça que ela sentiu o vento cortar seu rosto antes de ouvir o estrondo ao atingir a parede.


— Cuidado com o que diz! — ele gritou, avançando um passo na direção dela. — Não ouse comparar-me àquela mulher!


Ela ergueu o queixo, recusando-se a mostrar medo.

— Você está se tornando pior, Perseu. Sua mãe destruiu tudo o que tocou, e você está seguindo o mesmo caminho!


Ele avançou ainda mais, a fúria queimando em seus olhos.

— Talvez você prefira seu maridinho, Estevão, não é? Aposto que adoraria tê-lo de volta!


A dor atravessou o peito de Estela como uma faca, mas ela não vacilou.

— E talvez eu deveria ter aceitado sua proposta, Perseu, — ela disse, a voz carregada de ironia e mágoa. — Quando você se ofereceu para morrer para trazê-lo de volta. Talvez eu devesse ter dito sim.


O impacto das palavras foi como uma explosão. Perseu, que já parecia à beira da loucura, perdeu completamente o controle. Com um rugido animalesco, ele derrubou o trono, que caiu com um estrondo ensurdecedor.


Ele se tornou a personificação da violência, os olhos brilhando com uma raiva primitiva. Ele começou a destruir tudo ao seu redor, atirando mesas, quebrando o que restava das janelas, arrancando tapeçarias das paredes como se fossem meros pedaços de papel.


Estela deu um passo para trás, a respiração acelerada enquanto observava a tempestade que havia provocado. O homem que ela um dia conhecera estava agora perdido em sua própria fúria. E, naquele momento, ela soube que não havia mais volta. Perseu era um perigo não apenas para ela, mas para tudo e todos ao seu redor.

Estela sentiu o sangue ferver enquanto via Perseu perder o controle, reduzindo a sala do trono a uma pilha de escombros. Ele era como um furacão, destruindo tudo em seu caminho. A ira que borbulhava dentro dela ultrapassou o limite. Sem pensar, ela pegou um dos candelabros caídos e, com toda a força que conseguiu reunir, atirou-o contra ele.


O objeto voou em um arco perfeito, acertando Perseu na nuca com um som surdo. Ele parou no mesmo instante, como uma fera interrompida em sua caça. Lentamente, ele se virou para encará-la, os olhos faiscando com uma intensidade assassina.


Antes que ela pudesse recuar, Perseu praticamente voou em sua direção. Suas mãos fortes agarraram seu pescoço, erguendo-a do chão como se ela fosse feita de papel. Estela lutou para respirar, as mãos tentando inutilmente afrouxar o aperto mortal.


— Você tem coragem de me desafiar? — ele rosnou, o rosto a poucos centímetros do dela. Sua voz era um sussurro ameaçador, cada palavra carregada de veneno. — Talvez eu devesse arrancar esse filho de dentro de você. Tirar Sisifo de um ser tão frágil, tão indigno.


A mão dele desceu até a barriga dela, pressionando-a levemente, e o gesto fez Estela congelar de medo. Mas ela reuniu toda a sua força interior, ignorando o terror que percorria seu corpo.


— Você quis casar comigo, Perseu, — ela conseguiu dizer, a voz rouca e firme apesar do aperto em seu pescoço.


Perseu riu, uma risada amarga e cruel, enquanto a soltava abruptamente. Estela caiu no chão, tossindo e massageando o pescoço.


— E me arrependi amargamente, — ele disparou, os olhos fixos nela como um predador que observa sua presa.


Ela se levantou com dificuldade, a respiração ainda irregular, mas não permitiu que ele visse qualquer sinal de fraqueza.


— Ninguém se arrependeu mais que eu, — ela disse, sua voz cheia de rancor. — Larguei toda a minha vida em Calasir. Meus filhos estão lá, minha casa está lá. Lá eu sou amada. Idolatrada.


Perseu deu uma risada seca, o som ecoando pela sala destruída.

— É isso, não é? Você ama ser idolatrada, Estela. Você nunca quis ser uma esposa, uma mãe, nada disso. Só queria ser venerada.


Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela as segurou.

— Quando Sisifo nascer, eu voltarei para Calasir. Não há mais nada para mim aqui.


Os lábios de Perseu se curvaram em um sorriso perigoso, mas ele não disse nada. Em vez disso, ele se virou e, com um movimento brusco, empurrou uma das colunas da sala. Ela caiu com um estrondo ensurdecedor, levantando uma nuvem de poeira e destroços.


Estela não olhou para trás. Quando a coluna caiu, ela já havia passado pela porta, caminhando rapidamente pelos corredores escuros, o coração batendo descontroladamente. Ela sabia que estava lidando com um homem instável, uma força destrutiva. Mas também sabia que não podia permitir que Perseu destruísse o que restava de sua própria força e dignidade.

Estela entrou no quarto com passos cambaleantes, o rosto molhado de lágrimas e os olhos vermelhos como brasas. William estava sentado em uma cadeira próxima à janela, mas se levantou imediatamente ao vê-la naquele estado.


— Estela, o que aconteceu? — ele perguntou, a voz grave carregada de preocupação.


Ela não respondeu. As palavras pareciam presas na garganta, sufocadas pela angústia. Com um soluço engasgado, Estela caminhou até ele e se lançou em seus braços, afundando o rosto em seu peito. William a segurou com firmeza, como se pudesse protegê-la do caos que os cercava, mas sabia que o que a atormentava vinha de dentro.


— Eu não consigo mais, William, — ela finalmente disse, as palavras saindo entrecortadas pelos soluços. — Eu queria tanto que Estevão estivesse aqui...


Ele fechou os olhos, segurando o rosto de Estela entre as mãos, tentando encontrar algo para dizer, algo que pudesse aliviar a dor dela.


— Eu sei, Estela, — ele sussurrou, com a voz pesada de tristeza. — Ele faria tudo ser diferente, faria tudo ficar bem.


— Ele não deixaria isso acontecer, — ela continuou, as palavras saindo como um lamento. — Estevão nunca me faria sentir como... como um farrapo. Nunca me trataria como algo descartável.


William engoliu em seco, sem saber como responder. Não havia mentira que pudesse ser dita, nenhuma promessa que ele pudesse fazer para substituir o vazio que a ausência de Estevão deixava.


— Perseu está me destruindo, William, — ela confessou, a voz embargada. — Ele está destruindo tudo à nossa volta.


— Você é mais forte do que isso, Estela, — ele tentou, a voz firme. — Você é a mulher mais forte que eu já conheci.


Ela balançou a cabeça, os ombros tremendo enquanto o choro continuava. — Não sou, William. Não sou forte. Eu era forte com Estevão. Com ele, eu era inteira... Agora, sinto que estou me despedaçando um pouco mais a cada dia.


William apertou-a contra si, mas sabia que não havia palavras que pudessem consertar o que estava quebrado. O vazio deixado por Estevão era um buraco negro que sugava todas as tentativas de consolo.


— Estela, — ele começou, a voz baixa. — Eu não sou Estevão, mas estou aqui. Sempre estarei aqui.


Ela levantou os olhos para ele, lágrimas escorrendo pelo rosto. — Mas você não pode trazê-lo de volta, William. Ninguém pode.


O silêncio que se seguiu foi carregado, denso, e William apenas a segurou mais forte, sabendo que, naquele momento, era tudo o que podia fazer.

A noite em Calasir era densa, o céu sem estrelas parecia um véu opressivo sobre o reino. As tochas iluminavam os corredores da fortaleza com uma luz trêmula, mas Eilon estava absorto em seus pensamentos enquanto seguia em direção aos aposentos. O peso do dia parecia estar cravado em seus ombros, mas o silêncio o acalmava. Pelo menos, era o que ele pensava até ouvir algo incomum.


Um som baixo, quase imperceptível, veio do jardim logo abaixo da sacada. Ele parou, franzindo o cenho. Seria o vento balançando as árvores? Ou algo mais? Contra o bom senso e qualquer instinto de precaução, Eilon desceu os degraus de pedra, ignorando o ar gelado que o envolvia conforme se aproximava do jardim.


O cheiro das flores noturnas era doce, quase enjoativo, mas não havia nenhum som agora, nada além do farfalhar das folhas sob a brisa. Ele deu um passo mais adiante, o olhar varrendo a escuridão, mas antes que pudesse reagir, algo aconteceu.


Um golpe seco atingiu sua cabeça por trás, não o suficiente para fazê-lo desmaiar, mas o bastante para aturdi-lo. Antes que pudesse girar para encarar o agressor, um saco áspero foi puxado sobre sua cabeça.


— O quê? Quem está aí? — Ele gritou, a voz abafada pelo tecido grosso que raspava contra sua pele.


Mãos firmes o agarraram pelos braços, apertando com uma força que ele não esperava encontrar. Eilon chutou o ar, tentando acertar seus sequestradores, mas eles eram muitos, e estavam bem preparados.


— Soltem-me! — Ele rugiu, lutando como um animal encurralado. Suas botas bateram contra o chão de pedra, e ele tentou se libertar, mas cada movimento parecia inútil.


As vozes ao seu redor murmuravam ordens rápidas, mas eram impossíveis de identificar. Uma corda foi enrolada em seus pulsos, amarrando-o com brutalidade. Ele sentiu as mãos o puxando, arrastando-o pelo chão frio, seus gritos abafados pelo saco e pelo som de passos apressados.


Seu coração martelava no peito. Ele, o rei de Calasir, um dos homens mais poderosos do reino, estava sendo levado como um prisioneiro comum, como uma peça de jogo que fora capturada sem esforço.


E então, tudo ficou ainda mais escuro quando ele foi empurrado para dentro de algo – um carro ou uma carruagem, talvez. O balanço irregular começou, e Eilon, impotente, sentiu o terror se misturar à raiva.


Quem ousaria sequestrá-lo? E, mais importante, o que planejavam fazer com ele?