Among Other Kingdoms - Quinta Temporada
10 Capítulo X
Eilon mantinha os olhos fixos em Navi, seus pensamentos mergulhados em um turbilhão que mal podia ser contido. O jovem dragão, como estavam o chamando pelas ruas de Drakoj, não era apenas o rei de Calasir; ele era a chama ardente do reino, e aquele olhar de esmeralda cintilante refletia muito mais do que simples frustração. Era o ódio, vivo e pulsante, um fogo que corria pelas veias, aquecido pela traição, pela desonra. O tipo de raiva que só um dragão, em sua fúria, poderia compreender. Ele cerrava os punhos, mas era evidente que o combate mais feroz que travava era contra seus próprios demônios.
E então, o nome. Evan. A simples menção parecia incendiar ainda mais o que já ardia.Sua mãe havia realmente ficado no outro lado, naquele maldito lado, e o pior: tinha devolvido Evan como se ele fosse um objeto. Eilon sentia seu corpo enrijecer.
— Evan não quis ficar em Saphiral — disse Navi, com uma indiferença que parecia atravessar o peito de Eilon como uma lança gélida.
— Ah é? —Eilon sibilou, a voz carregada de um desprezo denso como fumaça negra. Uma pergunta retórica, uma armadilha verbal, onde qualquer resposta seria esmagada pelo escárnio que crescia em seu coração.
— Sua irmã foi coroada princesa herdeira — Navi continuou, talvez na esperança de que a formalidade da notícia trouxesse alguma calmaria.
— Aham... — Eilon respondeu, o olhar finalmente se afastando de Navi, enquanto observava o irmão caçula já sendo levado pela babá, pedindo para ir até Aurys. — Imagino que ela deva estar radiante. Afinal, foi o sonho dela. Inclusive tentou me matar para isso...
Navi se mexeu desconfortavelmente, a voz tingida de uma tentativa frustrada de reconciliação.
— Eilon, eu acreditei que isso tinha ficado no passado. Artemisa está mudada. Ela será uma boa princesa e, um dia, uma boa rainha…
— Não tenho dúvidas — retrucou Eilon, o tom impregnado de uma ironia afiada como uma lâmina. — Mandrik fará o inventário contigo. Espero o relatório amanhã.
O rei deu as costas, seus passos ecoando pelo salão como um prenúncio de tempestade. Navi e Mandrik trocaram um olhar furtivo. A mágoa e a fúria estavam gravadas em cada sílaba que Eilon proferia, uma tempestade que se abatia sem dó. Se alguém ousasse acusá-lo de carregar mágoa, ele negaria veementemente. Raiva, sim. Desprezo, talvez. Mas mágoa? Não. Mágoa era um sentimento profundo demais, e ninguém do outro lado merecia esse tipo de consideração.
Caminhando pelo corredor de pedra fria, as paredes adornadas com tapeçarias que contavam a história de seu reino, Eilon se sentia cada vez mais imerso em um vazio sombrio. Ele adentrou a sala do trono, o coração do poder de Calasir. O teto abobadado e o grande vitral do dragão o observavam silenciosamente, como testemunhas de seu tormento. Ali, naquele espaço vasto e ecoante, ele sentia o peso do legado. O poder que seu pai ostentara com tanta intensidade, e facilidade, o mesmo poder que agora ardia em suas veias, mas, às vezes, ele não se sentia capaz de honrar a memória de seu pai.
Eilon parou diante do vitral, observando o sol atravessar os tons verdes e dourados que formavam o dragão majestoso. Ele pensava em seu pai, no quanto o rei amara Estela, sua mãe. Sabia que aquele amor não era perfeito, que havia sido marcado por explosões de ira, por uma volubilidade feroz. Mas ainda assim, o amor existira. O que não existira, no fim, fora a lealdade de Estela. Nem todo o amor do mundo, os presentes, joias, ilhas inteiras, nada fora suficiente para mantê-la fiel ao seu pai. Fidelidade. Era isso que Eilon desejava, mais que qualquer coisa. Que sua mãe tivesse sido fiel. Que ela tivesse permanecido. Rainha-mãe de Calasir. Mas ela escolhera partir, e aquela escolha ecoava nas ruínas de seu coração.
Cada pensamento sobre Estela trazia uma nova onda de ressentimento. Ela não era apenas a mulher que traíra o pai, traíra o reino. Ela havia traído a ele, Eilon, ao escolher outro reino, outra vida, outro filho, como se Calasir não fosse o suficiente. O reino em que ele governava com tanto sacrifício e dor não fora o bastante para ela. Nada seria.
Perdido nesses pensamentos, ele não notou a aproximação de Elisa. Como um pássaro delicado, ela surgiu ao seu lado, entrelaçando os dedos nos dele. Seu toque o trouxe de volta ao presente, e ele se virou para encará-la. Nos olhos verde-água de sua irmã-esposa, ele via algo além do dever e do laço matrimonial. Havia uma compreensão profunda, uma aceitação silenciosa. Ela era sua, tanto quanto ele era dela. Eilon sorriu, embora o sorriso fosse carregado de uma tristeza melancólica. Juntos, eram mais do que rei e rainha, mais do que irmãos. Eles se completavam, e naquele momento, ela era a única âncora que o impedia de se afogar em sua própria fúria.
Joice atravessava os corredores como uma tempestade prestes a desabar, seus passos ecoando furiosos no chão de pedra enquanto resmungava entre dentes. Sua fúria era palpável, uma chama viva que parecia irradiar de seu corpo. Mandada embora de Ruphira. Como ousaram? Ela, a avó dos filhos deles, a mãe amorosa e zelosa que sempre esteve lá para proteger a família! Era impensável. O sangue fervia em suas veias, um vulcão de raiva que ameaçava explodir a qualquer instante.
Seus pensamentos vagavam entre amargura e incredulidade. Ela se recordava de Auterpe, aquela ingrata, desafiadora. Como a jovem havia ousado falar com ela daquele jeito, como se fosse sua igual? Repugnante. Estela jamais teria se rebaixado a isso, nunca ousaria confrontá-la naquele nível. Estevão sim, ele era diferente, sempre havia sido, mas isso era outra história. Estela sabia o lugar dela. Por um breve e traiçoeiro instante, Joice sentiu a amargura subir pela garganta, queimando como fel. Ela havia defendido Auterpe e William, dado tudo de si, acreditado neles, e essa foi a retribuição? Mandada embora como se fosse uma peça descartável. O gosto da traição era familiar — Estevão já havia feito algo parecido, mas ele nunca recebera dela nem um décimo da atenção que ela dedicara a Auterpe.
Ela parou por um momento no corredor, inspirando profundamente, tentando, em vão, dissipar o peso esmagador que pairava sobre seus ombros. Mas a raiva era persistente, colada à sua pele como um manto de escuridão, e parecia impossível livrar-se dela.
— Você vai para o castelo de verão — a voz de Connor ecoou atrás dela, cortando o silêncio. — Lincan ficará aqui, em Drakoj, e eu preciso voltar para o refúgio da águia. Ethan precisará de mim.
A menção a Ethan apenas alimentou o fogo em Joice, e ela lançou um olhar venenoso sobre o marido, suas palavras cuspidas como lâminas afiadas:
— Ah, vá adular o filhote de cabelos brancos.
Havia uma crueldade gélida em seu tom, como se cada palavra fosse dita apenas para infligir dor. Connor se endireitou, a postura rígida, mas sua voz manteve a calma que Joice tanto desprezava.
— Joice — ele começou, sua voz firme —, quero que saiba que não é mais do meu interesse dividir o teto com você. Pode ficar em Interlok, mas não quero vê-la a menos que seja em eventos oficiais.
Os olhos de Joice brilharam com uma mistura de ódio e desafio, as palavras de Connor como faíscas que atiçavam sua fúria.
— Você sempre foi fraco, sabia? — seu tom era predatório, cada palavra gotejando veneno. — Achei isso desde o primeiro momento que te vi.
Ela deu um passo em direção a ele, seu rosto iluminado por um sorriso cruel.
— Eu odiei cada vez que dividi a cama com você. Mas fiquei feliz quando engravidei de Estevão, não porque o queria, não. Definitivamente, não. Mas porque você me deixaria em paz, não precisaria aguentar seus toques nojentos, sua calma idiota.
Joice deu outro passo à frente, agora a poucos centímetros de Connor, a intensidade de suas palavras sendo sentida em cada batida do coração dele.
— Então aquela praga começou a crescer dentro de mim — ela continuou, a voz repleta de desprezo —, como uma erva daninha. Ele chutava minhas entranhas como se soubesse o quanto eu o odiava. Quando ele nasceu... Céus! Foi horrível. Vê-lo foi nojento.
Havia lágrimas em seus olhos, mas Connor sabia que não eram de tristeza. Eram de pura, destilada raiva, um ódio antigo e profundo que havia enraizado em seu coração.
— Mas William — o nome saiu como um sussurro diferente, quase reverente —, eu o amei desde o instante em que descobri sua existência fraca e insignificante. Sabe por que o amei? Porque ele não era seu.
Connor virou o rosto, enojado. Cada palavra que saía da boca de Joice era como uma punhalada, mas ele manteve-se firme. No entanto, ela não havia terminado.
— Mas sabe o que mais me surpreendeu? Estevão se rebelar contra a coroa. — A ironia em sua voz era cortante. — Nossa! Isso sim me pegou desprevenida. Seu filho, carregando o lixo do seu sangue, se tornou rei!
Ela inclinou a cabeça ligeiramente, o deboche estampado em cada músculo de seu rosto.
— Foi a única coisa que ele fez certo. Teria sido melhor se fosse William? Sim, claro que seria. Mas foi o que deu para fazer. Estevão era um idiota, tal como o pai.
O tapa que Connor desferiu ecoou pelos corredores, um som seco e brutal. Joice recuou ligeiramente, mas o sorriso de escárnio ainda permanecia em seus lábios.
— Nunca mais fale de Estevão — a voz de Connor tremeu, mas não de raiva. Era dor. O lábio inferior dele vacilou ao lembrar do filho perdido. — Estevão era meu orgulho. Sangue do meu sangue.
Os dois ficaram em silêncio por um momento, o ódio e a tristeza pairando pesadamente entre eles como um espectro indestrutível.
— Era um frouxo! — Joice retrucou, o ódio escorrendo de suas palavras, mas desta vez não havia escárnio, apenas veneno.
— Cale a boca! — A voz de Connor ressoou pelo corredor como um trovão, um tom que jamais usara com Joice antes. Ele avançou sobre ela, seu rosto endurecido pela raiva que transbordava em seus olhos, e a intensidade de sua presença encheu o ar ao redor deles. — Esse casamento deu errado por sua culpa! — A acusação saiu com um peso que se acumulava há anos. — Porque eu tentei, Joice, os deuses sabem o quanto eu tentei te fazer feliz! — A dor em sua voz era tão clara quanto a ira. — Mas você me repelia como se eu fosse um inseto indesejado!
Ele deu mais um passo à frente, e Joice, pela primeira vez, sentiu a fúria dele como uma entidade, uma força que parecia quase palpável, sufocante. Havia uma tensão no ar que não se dissiparia facilmente.
— Eu nunca falei sobre as atrocidades que você fazia no porão — a voz de Connor era grave, controlada pela raiva — porque, de algum jeito absurdo, eu acreditei que você teria alguma gratidão. — Seu maxilar se apertou, os dentes cerrados com tanta força que era possível ver os músculos em sua mandíbula pulsarem. — Mas não.
Joice abriu a boca para responder, mas Connor não deu espaço. Ele estava imerso na tempestade das verdades que jamais tivera coragem de dizer.
— E eu me lembro tão bem quando Estevão nasceu. — A voz dele falhou ligeiramente, e por um instante, a tristeza obscureceu a raiva. — Você nem quis olhá-lo. Nem os animais fazem isso, Joice! — Ele gritou, sua voz ecoando pelas paredes, reverberando na alma dela. Joice estremeceu com o impacto, mas não recuou. Estevão. O nome de seu filho ainda era uma ferida aberta em ambos, mais nele do que nela.
— E quando William nasceu... — Ele riu, mas o som foi vazio, como um eco distante de algo quebrado há muito tempo. — Eu soube que ele não era meu desde o primeiro momento. Desde que você o segurou nos braços como se fosse um troféu, como se quisesse me esfregar na cara que ele não era meu. — Seus olhos perfuraram os dela com uma acusação silenciosa, mas poderosa. — Mas eu o aceitei, porque eu era jovem e acreditei que seria uma vergonha para minha família, para toda minha linhagem, se deixasse público que minha esposa me traiu.
Havia um silêncio mortal após essa confissão, como se o próprio ar ao redor deles tivesse sido drenado de toda a vida. Joice olhava para Connor com uma expressão de gelo, mas por dentro, algo se contorcia, apertava, algo que ela não permitiria que ele visse.
Connor respirou fundo, e ao soltar o ar, pareceu expurgar parte de sua raiva, sentindo uma calma sombria tomar conta de seu corpo.
— Não vá para o Refúgio da Águia — ele disse, a voz mais baixa agora, mas cheia de autoridade. — Você não é bem-vinda lá.
Joice riu, uma risada curta e fria, tentando retomar o controle da situação, mas havia algo no olhar de Connor que a fez hesitar.
— Você não é mais o conde de Interlok — ela retrucou, tentando se reerguer com uma arrogância fabricada — não pode me dizer onde posso ou não ir.
Connor a encarou por um longo momento, seus olhos brilhando com uma fúria controlada, mas havia algo mais ali agora — algo perigoso, algo definitivo.
— Se depender de Ethan, você será morta. — Ele pronunciou as palavras com uma calma gélida que fez o coração de Joice bater mais forte, um aviso que ela sabia que não deveria ignorar. — Agradeça minha bondade por ainda te conceder o castelo de verão.
Ele a fitou por um momento mais, deixando que as palavras ecoassem no espaço entre eles como um veredito final, antes de se virar para ir em direção ao quarto. Mas, antes de desaparecer completamente pelo corredor, ele parou e virou ligeiramente a cabeça para trás.
— E faça um favor para todos nós: fique lá.
Joice ficou sozinha no corredor, a respiração pesada, o peso das palavras de Connor pendendo no ar como uma guilhotina pronta para cair. Havia uma raiva ardente queimando em seus olhos, mas também uma sombra, um pressentimento amargo de que o fim estava se aproximando. E, pela primeira vez, Joice não tinha como vencer aquela batalha.
Os dias que se seguiram à chegada do navio foram um fôlego de vida para os comerciantes de Calasir. O porto fervilhava de atividade, e as ruas da cidade se encheram de risos, passos apressados e vozes animadas. Mercadorias raras, especiarias exóticas e tecidos luxuosos estavam agora em abundância nas lojas e bancas, e essa prosperidade alimentava o espírito da cidade. Era mais do que uma simples troca de bens; era o sinal de que a aliança que sustentava o reino estava firme, sólida como o aço forjado pelos artesãos de Drakoj.
Evan, ainda encantado com suas aventuras além-mar, não parava de falar sobre as criaturas mágicas e as maravilhas que vira do outro lado, em Saphiral. Suas descrições eram vívidas, recheadas de um entusiasmo contagiante, como se as terras distantes fossem mais uma fábula do que realidade. Eilon, por sua vez, escutava pacientemente, um sorriso suave pintado nos lábios, fingindo interesse, embora sua mente estivesse longe. Ele sabia que Evan não carregava culpa alguma por tudo o que havia acontecido, mas as palavras do irmão pequeno sempre o levavam de volta à dor silenciosa que queimava em seu coração.
Nos dias que se seguiram, Eilon era frequentemente tomado por uma melancolia que parecia envolvê-lo como uma névoa invisível. Durante as reuniões com seus conselheiros, sua mente frequentemente vagava para longe, as vozes dos homens à sua volta se tornavam ruído enquanto ele se perguntava sobre sua mãe, Estela. Ele a via em seus pensamentos, ao lado de Perseu, o homem que ela havia escolhido. Será que ela estava feliz? Será que ela pensava nele, em Calasir? A dúvida corroía seu espírito.
À mesa de jantar, enquanto Elisa e os demais riam e compartilhavam histórias, Eilon mastigava sua comida mecanicamente, seus olhos fixos na chama bruxuleante das velas, perdido em devaneios. À noite, mesmo quando deitava com Elisa, sentia uma distância intransponível, uma sombra que se interpunha entre eles. Ela, como sempre, tentava trazê-lo de volta, suas palavras doces como bálsamo, mas a ferida aberta pela traição de sua mãe era profunda demais.
Mas naquele dia, tudo parecia diferente. Drakoj exalava alegria. As ruas estavam decoradas com bandeiras e flores, a cidade respirava um ar de celebração. O casamento de Max e Anne, embora de menor proporção, havia se tornado um evento significativo. A corte estava agitada, e Elisa, sempre tão atenta aos detalhes, fizera questão de tornar o dia especial.
Ela estava linda, vestindo um vestido azul cobalto com bordados em fios de prata que refletiam a luz como estrelas no céu noturno. Os detalhes em renda branca pareciam frágeis como teias de aranha, e seus cabelos brancos, arrumados num penteado delicado, exibiam uma leveza que contrastava com a coroa dourada de rainha. Elisa sorria diante do espelho, e ao ver que Eilon a observava, seus olhos brilharam com uma doçura que só ela sabia transmitir.
— Você fica bem de vermelho — disse ela com um sorriso tímido, os olhos de Eilon seguindo para suas próprias vestes de um vermelho profundo, com bordados dourados que pareciam chamas de um dragão. O contraste com o azul sereno de Elisa era gritante, como se ele fosse a tempestade e ela a calma. Ele sequer notou quando Elisa se aproximou e, com delicadeza, segurou seu rosto, forçando-o a encará-la nos olhos.
— Mamãe está bem — A voz de Elisa era firme, mas gentil. — Ela é adulta e pode decidir o que fazer da sua vida.
Eilon, por um momento, pareceu uma criança perdida. Sua resposta veio com o mesmo tom amargurado que o acompanhava desde o dia em que sua mãe os deixara:
— Você não entende, Elisa. O lugar de mamãe era aqui, em Calasir, como rainha-mãe! — Ele falou com um fervor quase desesperado. — Eu aceitei o fato de que ela traiu nosso pai com Perseu e trouxe ao mundo aquela garota, mas não consigo aceitar que ela abandonou tudo para segui-lo!
Elisa não vacilou. Seu olhar permaneceu firme, quase desafiador.
— Deixe mamãe onde está— ela respondeu com a tranquilidade de quem conhece as correntes profundas da vida. — Ela cumpriu seu dever com Calasir, deu ao reino herdeiros, dragões e toda a glória que podia. Deixe-a seguir seu caminho. Mais cedo ou mais tarde, ela vai voltar.
Eilon soltou uma risada seca, o som ressoando no quarto como uma rajada de vento frio.
— Você está falando como ela — ele disse, sorrindo tristemente antes de beijá-la suavemente nos lábios. — Vamos, precisamos casar nossos amigos.
Elisa retribuiu o sorriso, e com um gesto gracioso, pegou a coroa do rei e a depositou na cabeça de Eilon, ajeitando-a com cuidado.
— Eu estou aqui com você — ela sussurrou enquanto ajeitava a coroa. Eilon, sentindo o peso do metal e do simbolismo da coroa, beijou demoradamente a testa da esposa antes de entrelaçar os braços com ela, preparando-se para enfrentar o dia.
O casamento de Max e Anne foi celebrado nos jardins do castelo, sob a luz suave do sol poente. As flores de primavera estavam em plena floração, tingindo o cenário com cores vibrantes. Os convidados se reuniam ao redor de um altar de pedra coberto por vinhas e rosas brancas, e o som suave de harpas preenchia o ar, criando uma atmosfera de paz.
Max estava ao lado de Anne, seus olhos brilhando com um amor que não poderia ser contido. Ele vestia trajes simples, mas elegantes, o azul escuro de seu casaco complementando o branco puro do vestido de Anne. Ela, por sua vez, parecia uma visão etérea, sua face iluminada por um sorriso de felicidade absoluta. As mãos deles estavam entrelaçadas, e no momento em que os votos foram trocados, era como se o próprio universo tivesse parado por um segundo para testemunhar aquele laço.
Eilon observava a cena com uma mistura de alegria e melancolia. Embora o sorriso estivesse em seus lábios, seu coração ainda carregava o peso de tudo o que perdera. Mas por agora, ao lado de Elisa, ele permitiu que o momento o envolvesse, deixando que o amor e a união de Max e Anne fossem um breve alívio para sua alma atormentada.
Em Ruphira, a tensão entre William e Auterpe pairava no ar, quase palpável como a umidade fria que envolvia o castelo. Viviam em um estado constante de alerta, os dias marcados por silêncios carregados e olhares fulminantes. Auterpe, sempre devastada pela perda de seus filhos, olhava para William com um ódio profundo e silencioso, como se cada gesto dele fosse um lembrete cruel de sua própria dor. Ela não conseguia aceitar a ideia de que ele havia gerado um filho com Estela, enquanto ela, pela ausência dele, perdera a quatro vezes a oportunidade de ser mãe. Para ela, isso era uma traição incompreensível e insuportável, um golpe que a ferira de uma forma que ela não sabia como superar.
O que mais a corroía era a crença de que William só estava com ela porque ela lembrava Estela. Auterpe se perguntava, em cada olhar furtivo, em cada toque hesitante, se William via nela a sombra de outra mulher, a mulher que ele jamais poderia ter por completo, mas que tinha escolhido outra vez através de Auterpe. As semelhanças físicas entre ela e Estela a atormentavam, transformando cada momento com William em uma reafirmação cruel de que ela era apenas uma substituta. E isso, essa ideia de ser um reflexo, queimava-a por dentro.
William, no entanto, permanecia paciente, como se esperasse que sua raiva se dissipasse por si só. Mas a verdade é que ele estava exausto. Sentado no banco de pedra no claustro do castelo, o peso dos dias o esmagava, o silêncio ao seu redor era um alívio momentâneo, mas mesmo a ausência das crianças não trazia descanso. Ele suspirou, tentando buscar refúgio em memórias antigas, quando a vida era mais simples. Havia sido tão fácil antes, quando sua maior preocupação era irritar o irmão, Estevão, ou provocar sua jovem cunhada, e depois, mergulhar nos prazeres fugazes dos braços de uma prostituta qualquer.
Ele amava Auterpe, amava Orion e Rigel de seu jeito. Mas, ao refletir sobre tudo, não conseguia negar a verdade que lhe corroía: não era assim que imaginara sua vida. Não com tantas responsabilidades, não com tanto peso sobre seus ombros. Auterpe, com sua instabilidade e temperamento feroz, era um furacão que o consumia. No início, essa paixão desenfreada havia conquistado William. Ele adorava seu fogo, sua natureza indomável. Mas agora, tudo isso se tornava um fardo, um peso insuportável. Ele, que sempre havia sido livre, não estava acostumado a essa pressão constante, a essa expectativa de ser mais do que era.
Em sua mente, uma memória persistente de Estela lhe assombrava. A manhã em que ela anunciara sua gravidez, apenas dias depois do rei retornar. Para Estevão, esse tipo de notícia não era surpresa, era comemoravel — ele amava ter filhos, mas William, naquele momento, soube. Desde o primeiro olhar, ele sentiu, no fundo da alma, que aquela criança não era de seu irmão. Era sua. E o medo o atingiu como uma onda. Ele tentara argumentar com Estela sobre o perigo, sobre a possibilidade do menino nascer como Orion, com os traços reveladores de sua verdadeira linhagem, talvez os cabelos meio-a-meio. Mas Estela, com sua calma imperturbável, apenas acariciara o rosto dele, sorrindo com aquela suavidade que ela sabia usar para dissipar todas as suas preocupações. “Não se preocupe,” ela dissera, “ele nascerá como os irmãos, e será criado como filho de Estevão.” E William, tão aliviado quanto alarmado, aceitou. O filho não seria seu, pelo menos não oficialmente, e ele poderia seguir com sua vida.
Mas agora, sentado ali, lembrando-se daquela semana em que Estevão estivera fora e ele pôde estar mais perto de Estela, William sentiu uma pontada de culpa. Lembrava-se de tocar sua barriga inchada, de sentir o movimento do filho dentro dela. Havia uma conexão, um elo entre ele e aquela criança que ele jamais sentira com Orion ou Rigel. O dia do parto era um borrão em sua memória, mas ele ainda conseguia ouvir o grito irritadiço que ecoara pelo quarto. O menino nasceu cheio de fúria, emanando um tipo de raiva primal que, de alguma forma, William reconheceu em si mesmo. Naquele momento, uma conexão invisível, mas inquebrável, se formou entre ele e a criança. Uma conexão que nem mesmo o laço com Orion, tão especial, havia alcançado.
Ele pensou em Orion e Rigel. Orion, seu primogênito, era a melhor parte dele, mas seria mais fácil se o relacionamento com Auterpe não tivesse passado de uma noite de paixão. E Rigel, bom, ele ainda não sabia como seria o relacionamento com o caçula, era como se o próprio menino carregasse em si uma distância que o pai não sabia se teria como quebrar. Mas Ethan... Ethan era diferente. Ethan era seu reflexo, a melhor versão de si mesmo, uma versão melhorada e mais poderosa, e isso era inegável.
William suspirou profundamente, o céu acima de Ruphira estava cinzento, carregado de nuvens, e ele se perguntou se amava de verdade seus filhos, ou se aquele sentimento fora simplesmente imposto a ele pelas convenções sociais. Afinal, Ethan era o único que parecia uma extensão verdadeira de sua própria alma, o único com quem ele compartilhava mais do que apenas sangue. Orion, com sua natureza mais puxada para Auterpe, parecia cada vez mais distante de William, e Rigel... Rigel ainda era um mistério.
Ele olhou para o horizonte, se perguntando se algum dia conseguiria encontrar paz em meio a tantas responsabilidades, traições e segredos. Talvez o amor que ele sentia por Ethan fosse o único laço inquebrável que restava.
— Você magoou minha majestade — a voz de Lennus chamou atenção dele. William ergueu o olhar, acompanhando o outro, que sentou ao seu lado. —- Ela tem uma sala com os corpos dos antigos noivos…
—- Nojento — William disse, pensando em todo aquela podridão presa em uma única sala.
—- Se tudo der certo, sua cabeça irá adornar um pedestal daquela sala — o tom de Lennus era de deboche, quase uma vitória contida.
— Espero que ela escolha um pedestal bonito para que meus filhos possam olhar — William sorriu para ele.
— Você teve um filho com outra mulher além de minha majestade — Lennus disse entredentes.
—- Auterpe e eu tínhamos um acordo — William voltou a olhar para o horizonte.
— Foi com sua cunhada! — Lennus completou, o sorriso de William aumentou, sentindo a raiva fervilhar dentro dele.
— Foi — ele virou para olhar o outro — , e você não imagina como esperei para foder com ela —- William inclinou a cabeça, debochado. —- Eu amo Auterpe, não duvide disso, mas foi ela que me expulsou daqui só porque quis defender meu filho de estranhos, de um rito que eu não conhecia — William levantou, espreguiçando-se. — Se você quer ir consolar Auterpe, seja lá como você acha que irá conseguir consolar ela, vá, boa sorte — William inclinou a cabeça, como uma reverência para Lennus e girou, sumindo pelos corredores. Lennus apertou a pedra, sentindo o frio, deixando esvair sua raiva.
Em Saphiral, Estela permanecia na sacada do quarto, envolta por uma brisa salgada que trazia o cheiro do mar sem fim à sua frente. O sol lançava um brilho suave nas ondas que iam e vinham, um contraste perfeito com o turbilhão de emoções que se aglomeravam dentro dela. Em suas mãos trêmulas, ela segurava um colar que parecia pesar mais do que deveria. O pequeno pingente em forma de dragão cintilava à luz do dia, e no verso, a inscrição delicada, "minha princesa dragão", era como um sussurro vindo de um passado que ela não sabia como enterrar.
Seus olhos percorreram o horizonte, mas sua mente estava muito longe dali. Estava com Estevão. Ela não entendia como podia sentir saudade de um homem que lhe causara tanta dor. Ele havia sido impiedoso, frio em seus momentos mais sombrios, mas também apaixonado, arrebatador como uma ventania. Cada vez que pensava em Estevão, seu coração se dividia. Ela lembrava do homem que a possuía com intensidade, como se ela fosse o centro de seu mundo, mas também do tirano que muitas vezes a deixara em pedaços. E agora, embora estivesse ao lado de Perseu, um homem gentil, paciente, que a tratava com todo o carinho que ela sempre desejara, era Estevão que invadia seus pensamentos, como uma tempestade que ela não podia evitar. Perseu era a brisa suave, mas Estevão... ele era o vento feroz que a havia moldado.
Estela odiava admitir, mas sentia falta dele. Sentia falta de sua presença devastadora, mesmo que soubesse o quanto ele a havia machucado. E, mais do que tudo, a culpa pela morte de Estevão a consumia. Ela sabia que a escolha de se entregar a Perseu, num momento de fraqueza e solidão, havia desencadeado uma série de eventos que culminaram na destruição de seu marido. Por mais que Perseu a amasse, aquele amor era uma sombra diante da devastação que ela carregava por dentro.
Subitamente, Sisifo, o filho que carregava em seu ventre, se mexeu violentamente, arrancando-a de seus pensamentos e quase derrubando-a de joelhos. A dor súbita a fez arfar, suas mãos instintivamente correndo para acalmar o ventre agitado. O medo tomou conta de Estela. Ela lembrava-se vividamente do parto de Artemisa, da dor indescritível, do terror de quase perder a própria vida enquanto trazia a filha ao mundo. O pensamento de passar por aquilo novamente a aterrorizava, mas ela jamais admitiria isso em voz alta. Era a rainha de Saphiral, precisava ser forte. Mas, por dentro, o medo a corroía lentamente.
Com um suspiro pesado, Estela se afastou da sacada, guardando o colar em uma caixa de joias como se estivesse tentando trancar também os sentimentos que ele trazia à tona. Seus passos eram lentos, cada movimento parecia pesar toneladas. Ela se dirigiu até a poltrona perto da lareira, sentando-se com alívio, como se carregar o próprio corpo fosse a tarefa mais exaustiva do dia. Suas mãos acariciaram o ventre inchado, enquanto ela respirava fundo, tentando encontrar um momento de paz. Pelo menos havia sido apresentada como rainha antes de ficar tão desconfortável, pensou, um pequeno consolo em meio a tanto tumulto.
A porta do quarto se abriu vagarosamente, e Perseu entrou. O semblante dele estava tenso, preocupado. Seus olhos varreram o ambiente, como se temesse não encontrá-la ali. Quando a viu sentada na poltrona, seu rosto relaxou, o alívio substituindo a apreensão. Estela o encarou, oferecendo um sorriso cansado, um gesto pequeno que escondia a tempestade de emoções que ela lutava para controlar.
Ela ignorava a tensão que parecia envolvê-los. Não sabia que algo pesava sobre os ombros de Perseu, algo que ele ainda não havia compartilhado com ela. Para ela, o peso era outro, mais antigo, mais profundo.
Perseu se aproximou com passos hesitantes, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse quebrar o frágil equilíbrio que existia entre eles. Seus olhos azuis estavam enevoados, e Estela percebeu algo diferente no jeito como ele a encarava, um traço de incerteza que não costumava ver nele.
— Você está bem? — ele perguntou, com uma cautela que a fez franzir a testa. Havia algo em sua voz, uma leve tensão que ela não conseguia ignorar.
Estela suspirou e pousou a mão no alto da barriga, sentindo Sisifo se remexer com impaciência lá dentro, como se o próprio bebê compartilhasse da inquietação que preenchia o ambiente.
— Estou cansada — murmurou, seu tom revelando o peso que ela carregava. — Sisifo está…
— Você só reclama dele! — Perseu interrompeu, sua voz subindo de repente, com uma intensidade que a fez sobressaltar. Aquilo não era normal. Ele nunca a tratava assim.
Estela piscou, surpresa pela súbita explosão.
— Ele me machuca, Perseu, estou sendo sincera e…
— Sincera?! — ele passou as mãos pelos cabelos, visivelmente alterado. Sua respiração estava pesada, seu corpo tenso como se estivesse lutando contra uma tempestade interna. — Você está sempre reclamando dele, dizendo como o meu filho te machuca e tudo mais! — O tom em sua voz era amargo, cheio de algo que ela não conseguia identificar. Ele parou por um segundo, e o que veio em seguida a atingiu como um golpe no peito. — Aposto que você não reclamava das crias de Estevão, não é? Aquelas crias douradas, os herdeiros perfeitos. Aposto que passava seus dias feliz e contente, ostentando o ventre onde guardava as crias de ouro — Suas palavras eram carregadas de ironia, veneno escorrendo de cada sílaba.
— Por que está falando assim, Perseu? — A voz de Estela soou fraca, quase um sussurro. Ela não conseguia acreditar no que ouvia. Não era apenas o que ele dizia, mas o que estava implícito: uma raiva reprimida, um ciúme escondido, algo que ele normalmente não deixava subir à superfície. Ela buscou os olhos dele, mas Perseu desviou o olhar, como se lutasse para entender o próprio surto. Ele piscou, confuso, e balançou a cabeça.
— Desculpe, eu… eu não sei o que está acontecendo. — A voz dele tremia, como se estivesse se dando conta do que acabara de dizer. Ele se ajoelhou diante dela, suas mãos tremendo levemente enquanto acariciava o ventre de Estela, onde Sisifo se movia de forma inquieta, como se estivesse tentando sair à força. A intensidade dos chutes fazia Estela contrair o rosto, lutando para manter a compostura. A dor era constante, mas ela se recusava a demonstrar fraqueza depois de ouvir a acusação de Perseu.
— Perseu... — ela tentou falar, mas as palavras morriam em seus lábios. O contato dele, antes reconfortante, agora parecia trazer uma nova camada de incerteza.
Ele encostou a testa contra a barriga dela, os olhos fechados enquanto sentia o filho se mexer.
— Me perdoe — ele sussurrou, a voz quebrada, mas Estela não podia ignorar o que acabara de ouvir. A mágoa, o ciúme, a insegurança que Perseu havia mantido escondidos por tanto tempo, finalmente começavam a emergir.
— Aconteceu algo? — Estela forçou-se a perguntar, suas palavras saindo com dificuldade. Algo estava errado, e ela sabia disso. Ele sempre fora a brisa calma em sua vida, mas agora parecia estar à beira de uma tempestade interna.
Perseu deu de ombros, afastando-se dela e puxando um banco baixo para ela repousar os pés.
— Não, eu só estou… estranho. — Ele riu sem humor, tentando minimizar o ocorrido, mas Estela percebeu o desconforto em seus gestos. Ele estava tentando desesperadamente esconder o que sentia, mas o véu entre eles agora estava mais fino do que nunca. — Eu amo você — ele disse, sorrindo, mas o sorriso não alcançou os olhos.
Estela se forçou a sorrir de volta, mas o gesto parecia dolorosamente vazio. Ela não sabia mais o que pensar. As palavras dele ecoavam em sua mente, reverberando como um trovão distante.
Naquele momento, sentada ali com os pés apoiados no banco e o ventre em constante dor, ela se questionou se Perseu realmente era a calmaria que prometera ser. O homem que parecia ser tudo o que ela desejara estava se desfazendo diante de seus olhos, e Estela, pela primeira vez, se perguntou se tinha cometido um erro ao trocar o caos conhecido por algo que pensou conhecer.
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