Elisa, vestida com um manto azul celeste, caminhava pelas ruas de Drakoj ao lado de Anne. Elas passavam despercebidas pelos cidadãos, ouvindo as conversas nas esquinas, observando o comércio e o cotidiano das pessoas. Era assim que Elisa acreditava que poderia ser uma boa rainha — estando próxima de seu povo, tal como sua mãe fizera em seus dias de glória. Mas, apesar dos esforços, um vazio persistia em seu coração.

— Eu a vejo em cada detalhe deste reino, Anne. Minha mãe... tão presente e ao mesmo tempo tão distante — Elisa confessou com a voz suave, enquanto seus olhos seguiam uma criança correndo pelas ruas de pedra. — Ela é parte de Calasir e de Deragona…não de Saphiral.

— Ela está onde deve estar, majestade…sua mãe é a rainha de Saphiral agora, tal como foi de Calasir…

Mas as palavras de Anne, por mais reconfortantes que fossem, não conseguiam dissipar a saudade que Elisa sentia. As memórias de sua mãe eram vivas em cada gesto que tentava imitar, mas também eram como sombras que a perseguiam. Governar ao lado de Eilon trazia desafios constantes, e muitas vezes ela sentia que o reino dependia deles mais do que o próprio sangue. Os dois compartilhavam uma ligação profunda, mas mesmo naqueles momentos de tranquilidade, Elisa sabia que algo os separava — o rancor que Eilon guardava pela mãe deles e o quanto isso afetava toda a dinâmica familiar.

Elisa tentava voar ao lado de Eilon, mas algo em seu peito crescia, um medo primal que lhe era desconhecido, ela tinha receio de que algo aconteceria com ela enquanto voava, mas não sabia o que. No entanto, voar ainda era algo que aliviava seu peito.

Quando voltava à terra, a saudade da mãe, o fardo de ser rainha e a responsabilidade de manter o reino em ordem retornavam. Ela só esperava ser tão boa quanto sua mãe fora, e, mais do que isso, esperava que um dia pudesse vê-la novamente — mas sabia que esse desejo era mais complicado do que parecia.

— Será que um dia ele irá perdoá-la? — Elisa perguntou quando chegaram à carruagem que as esperava para retornar ao castelo.

— Espero que sim, majestade — Anne sorriu. Elisa retribuiu o gesto.

Na sala do grande conselho, o ar era denso com a tensão de inúmeras vozes, todas sobrepondo-se umas às outras. Eilon, sentado na cadeira mais elevada e mais imponente, sentia o peso da coroa pressionando sua cabeça mais que o habitual, como uma âncora que o prendia.. Seus olhos moviam-se de lorde a lorde, absorvendo cada reclamação que parecia interminável. Alguns falavam de invasões que pareciam inevitáveis, outros lamentavam a proliferação de ladrões que assolavam as estradas. Era como ouvir o eco de problemas que nunca cessavam, que nunca encontravam solução. Cada palavra, cada demanda, soava como uma flecha disparada diretamente contra sua paciência. Uns falavam de invasões iminentes, suas vozes carregadas de ansiedade; outros reclamavam dos ladrões, comparando-os a uma praga que se alastrava sem controle, como ervas daninhas durante o verão. Cada palavra parecia perfurar o ar, como uma acusação velada à fragilidade da coroa desde a morte de seu pai, o rei Estevão, a quem todos reverenciam como um deus.

O rei observou seus conselheiros. Mandrik mantinha a mandíbula travada, os músculos do rosto tensos como cordas prestes a arrebentar. Algo o incomodava profundamente, e Eilon sabia que a irritação não era apenas pelos problemas apresentados, talvez a impertinência de alguns lordes mais velhos, sempre exigentes e cada vez mais audaciosos desde que Estevão caiu.

E então, Eilon não pôde mais suportar.

— Chega! — sua voz ecoou pela sala, cortando o tumulto como uma lâmina afiada, o silêncio que se seguiu foi imediato e absoluto. — Vocês são os lordes de suas terras, resolvam os ladrões por conta própria, possuem poderes para tal — ele deixou seus olhos frios recaírem sobre cada um dos homens mais velhos, suas palavras soando como uma reprimenda. — E quanto às invasões... — Eilon ergueu o queixo, sua postura imperiosa, tentando passar o mesmo poder que seu pai passava. — Temos seis dragões adultos que destruirão qualquer navio que ouse ameaçar Calasir.

Houve um murmúrio de aprovação, mas, como sempre, havia uma voz que destoava.

— Seis, Vossa Majestade? — A voz de Morgan, lorde de Starhaven, soou com um tom insidioso, um tom que Eilon sabia ser a pura personificação do deboche. Aquele mesmo tom que, outrora, fazia seu pai, Estevão, cerrar os punhos de raiva. — Pelo que lembro, e me corrija se estiver errado, temos quatro cavaleiros: Vossa Majestade, a rainha, os príncipes... A rainha-mãe, no entanto, está longe, em Saphiral...

— Eu sei exatamente onde minha mãe está, meu lorde. — Eilon o fitou, seus olhos faiscando de fúria contida. Dentro dele, um desejo primitivo se erguia, cada fibra de seu ser vibrando com o desejo de incinerar Morgan ali mesmo

Morgan, no entanto, parecia inabalável, seu sorriso cínico nunca deixando seus lábios, aquele mesmo sorriso que irritava qualquer um que o visse por tempo demais.

— Creio que seria prudente trazermos a Rainha-Mãe de volta a Calasir — continuou, como se desferisse golpes sutis. — Afinal, o casamento dela com o rei de Saphiral foi, digamos, uma grande perda para o nosso reino. Todos sabemos, Majestade, que a segurança de Calasir ficou... fragilizada com a partida dela.

Eilon rangeu os dentes, seu sangue fervendo. Antes que pudesse responder, Mandrik interveio, com uma voz gélida.

— O reino está seguro, Lorde Morgan. — Mandrik sustentou o olhar do lorde insolente, sem ceder um milímetro.

— Ah, claro, não tenho dúvidas — Morgan sorriu com aquele mesmo sorriso que nunca deixava de provocar o ódio de todos à sua volta. — Mas devemos reconhecer que um casamento da Rainha-mãe com um lorde de Calasir teria sido muito mais... vantajoso. — Sua voz gotejava veneno, e ele olhou para os demais lordes, buscando aprovação, a qual recebeu em olhares sutis. — Ela poderia ter dado mais pequenos dragões para Calasir, ao invés de dar filhos, herdeiros, para um reino que mal conhecemos e que, por ventura, pode um dia se virar contra nós.

A sala ficou densa com a tensão, a respiração de Eilon ficou mais pesada. Ele estava à beira de explodir, seus olhos fixos em Morgan como brasas ardentes prestes a consumir tudo ao redor. E então, sua voz, baixa e perigosa, ressoou pela sala:

— Saiam. Todos. — Seu tom não admitia qualquer contestação.

Os lordes se levantaram em um movimento rápido, reverenciando o rei antes de se retirarem. Quando a porta finalmente se fechou atrás do último deles, Eilon deixou escapar um suspiro pesado, como se o peso de todo o reino caísse sobre seus ombros naquele instante. Ele retirou a coroa da cabeça com uma lentidão reverente, colocando-a sobre a mesa de madeira maciça. Seus dedos, trêmulos de exaustão e raiva, entrelaçaram-se, e ele apoiou a testa neles.

O vazio da sala ecoava em sua alma. Ele não podia ceder às lágrimas. Não agora. Não depois de tudo.

— Meu pai jamais teria permitido que Morgan falasse assim com ele... — murmurou, com a voz fraca e amarga.

Mandrik, sempre atento, aproximou-se. Seu olhar era de compaixão, mas também de dureza.

— Morgan é corajoso... até demais — ele falou com um meio sorriso, antes de deixar escapar uma risada seca. — Lembre-se, ele cortejou sua mãe diante de seu pai e saiu vivo. — O conselheiro então fechou o rosto novamente, seus olhos ficando sombrios. — Ele só quer te atingir, Eilon. Seu pai teria dito para ignorá-lo.

Eilon suspirou profundamente, endireitando-se na cadeira.

— E atacá-lo no momento mais oportuno. — As palavras saíram como uma lição bem aprendida, e o jovem rei fechou os olhos vagarosamente, recuperando o controle de suas emoções. Seus olhos então pousaram em Max, que estava sentado próximo, ainda concentrado em ler as anotações da reunião. Eilon permitiu-se um pequeno sorriso, um esforço forçado para se afastar da tensão que o dominava. — Pronto para o casamento, Max? — A voz de Eilon tentou soar leve, mas havia um peso ali que ele não conseguia esconder completamente.

Max ergueu o olhar, forçando um sorriso igualmente pesado. O peso em seu peito era insuportável, e ele sabia que deveria ter lutado por Artemisa, deveria ter quebrado as regras, mas agora já era tarde demais.

— Estou — respondeu, com uma voz que mal mascarava o arrependimento que corroía seu coração.

A sala, antes cheia de tensões e intrigas, agora estava tomada por um silêncio pesado, onde as palavras não ditas ressoavam com mais força do que qualquer grito poderia alcançar.

Elisa subiu os degraus de pedra que levavam ao covil dos dragões, sentindo o frio do chão sob seus pés, como se cada degrau a afastasse um pouco mais da segurança do castelo e a lançasse em direção a algo antigo, poderoso e, de certa forma, assustador. Com um aceno breve e distraído, dispensou Anne, sua dama de companhia, pedindo-lhe que cuidasse dos detalhes do casamento. No entanto, o pensamento do matrimônio não a tranquilizava; pelo contrário, ela não sabia se Anne estava verdadeiramente feliz com o casamento com Max.

A cada passo, o ar se tornava mais rarefeito, como se a respiração lhe fosse tirada lentamente, sufocada não pela altitude, mas pelo peso das ausências. Um sentimento apertava seu peito, tão gelado quanto os degraus sob seus pés: a saudade de sua mãe, Estela, que estava em Saphiral, longe demais. Estela, agora grávida de Perseu, seu meio-irmão ainda por nascer. Elisa ansiava pela presença serena da mãe, pelo abraço caloroso que, por anos, fora seu refúgio. A memória da voz suave de Estela, seus conselhos gentis e firmes, parecia ainda ecoar em seus ouvidos, e cada lembrança era uma punhalada de saudade. Ela não podia evitar o pensamento de que, com sua mãe em outra terra, ela estava mais sozinha do que nunca. Havia um vazio ali, entre ela e os dragões, entre ela e o próprio destino, como se algo essencial tivesse sido arrancado de sua alma.

Quando finalmente chegou à caverna onde Tyrax a esperava, o ar era mais denso e carregado, impregnado pelo cheiro de pedra úmida e do calor escaldante que emanava dos dragões. Tyrax, sua fiel companheira, se aproximou de imediato, com os olhos grandes e brilhantes fixos em Elisa, como se pudesse sentir a turbulência interior da rainha. A grande dragão tocou sua barriga com o focinho, como se pedisse atenção, um carinho que acalmaria não só a fera, mas também a jovem rainha. Elisa afagou o focinho de Tyrax com gestos lentos, quase automáticos, como se seus pensamentos estivessem a milhas de distância, vagando por terras desconhecidas ao lado de sua mãe.

De repente, Tyrax soltou um pequeno rugido, baixo e rouco, um som que mais parecia um convite. Curiosa e um pouco confusa, Elisa seguiu a dragão até o canto mais profundo da caverna. Lá, em um ninho de galhos e folhas ressequidas, dois ovos repousavam, um tão negro quanto a noite mais densa, sem estrelas, e outro branco como o leite fresco. Elisa sentiu o coração acelerar no peito, perplexa com a visão diante de si.

Ela olhou para Tyrax, que se abaixou mais uma vez, seus olhos refletindo a luz fraca da caverna, pedindo o carinho habitual de sua cavaleira. Mas havia algo mais ali, uma espécie de mensagem silenciosa, um segredo antigo que apenas Tyrax parecia entender.

— O que significa isso, Tyrax? — murmurou Elisa, como se a grande dragão pudesse de fato responder.

Havia um mistério no ar, algo que a rainha não podia compreender por completo. Ao mesmo tempo, o vazio deixado pela ausência de Estela parecia ainda mais intenso. Se sua mãe estivesse ali, talvez pudesse guiá-la, ajudá-la a decifrar os segredos que os dragões guardavam, e a dar sentido à solidão que agora a cercava, como um manto invisível.

Longe das muralhas imponentes de Drakoj, em Interlok, Elora fugia. Não fisicamente, talvez, mas em espírito, buscando se distanciar da presença sufocante de Ethan. Ela o amava, isso era inegável; um amor profundo, complexo e confuso. Sua mãe a ensinara a amar Ethan não apenas como irmão, mas como sua alma gêmea, o complemento de sua existência. Ainda assim, o sentimento que florescera ao longo dos anos parecia agora turvo, manchado pelo medo que ele começara a despertar nela. Algo escuro surgia nele, algo que a deixava em constante estado de alerta, e esse amor que antes a confortava se tornava, aos poucos, uma corrente pesada, que a prendia e a feria.

No início, eram pequenos gestos — toques gentis, piques minúsculos nos dedos dela, quase inocentes, que faziam brotar gotas de sangue. Ethan lambera aquelas gotas com delicadeza, quase em adoração, como se cada gota fosse sagrada. Mas os piques começaram a crescer, a profundidade dos furos se tornava maior a cada vez, e o prazer dele em ver o sangue dela fluir se intensificava. Agora, cada encontro trazia o temor de que Ethan quisesse ir ainda mais longe, de que ele estivesse prestes a cruzar um limite invisível e sombrio.

Sentada na clareira onde, anos atrás, sua mãe encontrara paz, Elora tentava respirar com serenidade, ainda que seu coração estivesse tumultuado. As folhas das árvores dançavam ao sabor do vento, e o suave sussurrar das copas trazia-lhe um alívio passageiro. O livro em seu colo estava aberto, as páginas expostas, mas seus olhos não viam as palavras. Ele estava ali apenas como um álibi, um pretexto para justificar sua fuga silenciosa para a floresta. Seus pensamentos, no entanto, não estavam nas páginas. Eles giravam, confusos, entre o amor e o medo de Ethan. Ela ainda o amava? Ou aquilo que sentia agora era apenas a sombra de um amor que deveria ter sido? O que era mais forte: a paixão ou o terror?

Enquanto essas perguntas a sufocavam, Elora ouviu passos leves se aproximando, como o de um predador se esgueirando entre as sombras. Seu coração vacilou, errando a batida, e o medo cresceu em seu peito. Por um instante, ela temeu que fosse Ethan, que ele a encontrasse ali, sozinha, e desejasse continuar o estranho ritual de feri-la, de penetrar a carne de seus dedos mais uma vez, talvez mais profundamente. Mas, ao se virar, seus olhos se depararam com um par de olhos muito diferentes dos de Ethan — os de Archie. Havia algo de suave na presença dele, uma gentileza que a acalmou de imediato. Ela exalou um suspiro que nem percebera estar prendendo.

— Atrapalho minha senhora? — a voz de Archie era tão delicada quanto a brisa que balançava as folhas, uma gentileza que ela reconhecia de longos anos.

Elora sorriu, e, pela primeira vez desde que deixara Drakoj, o sorriso foi sincero, livre do peso das expectativas e do medo.

— Não, claro que não — respondeu ela, sua voz mais leve do que esperava. — Posso ajudá-lo com algo?

Archie, por um momento, ficou apenas a observá-la, seus olhos a percorrendo com uma curiosidade discreta, mas afetuosa. Ele a conhecia há tempo suficiente para perceber as nuances de seu comportamento, e agora via algo que o intrigava — ela era muito parecida com Elisa, sua irmã, mas havia nela uma pureza, uma inocência que Elisa já não possuía.

— Não, não... — ele suspirou, como se estivesse ponderando suas próximas palavras. — Só percebi que está muito solitária ultimamente, alteza. — Ele se sentou ao lado dela, sua presença firme, porém suave, como uma âncora em meio à tempestade que rugia dentro de Elora.

Elora mordeu o lábio inferior, incerta. O comentário de Archie trouxe à tona algo que ela vinha tentando evitar: a solidão. Mas seria realmente solidão ou apenas um escape do terror que Ethan começava a incutir nela?

— Eu... acho que ando fugindo de muitas coisas. — Ela respondeu com sinceridade, surpreendendo-se com o tom de sua própria voz, como se as palavras tivessem vida própria.

Archie a olhou com mais atenção, seus olhos refletindo uma mistura de preocupação e algo mais. Ele se inclinou um pouco para mais perto, o que fez o coração de Elora acelerar, mas de uma forma diferente do medo que Ethan despertava.

— Fugindo, minha senhora? — Ele falou com suavidade, sua voz como seda deslizando sobre a pele. — É uma pena que alguém como você precise fugir. Não deveria temer nada... certamente não o seu futuro. — O tom dele era levemente sugestivo, e seus olhos brilhavam com uma intensidade nova.

Elora sabia que Archie sempre fora gentil, mas nunca esperara ouvir palavras tão... galantes. Era errado, ela sabia, porque estava prometida a Ethan, seu irmão. Mas como poderia ignorar o medo crescente que Ethan lhe causava? Como poderia não comparar o frio gélido que Ethan provocava com a suavidade calorosa que Archie trazia consigo?

— Às vezes... — começou ela, hesitante. — O que parece certo se torna assustador, Archie.

Archie inclinou a cabeça, seus olhos não desviavam dos dela.

— Quem, ou o quê, a está assustando, Elora? — A pergunta veio baixa, quase num sussurro, mas carregada de um peso imenso. Havia uma preocupação genuína nas palavras dele, um cuidado que ela não sentia há tempos.

Elora desviou o olhar, incerta se deveria confessar o medo que Ethan provocava nela, o noivo que deveria proteger e amar, mas que agora parecia querer possuí-la de formas que ela não conseguia entender.

O momento de paz entre Elora e Archie foi interrompido pelo som de passos rápidos demais para ser a leveza cuidadosa que Archie havia demonstrado. O som inconfundível de folhas sendo pisoteadas, passos mais pesados e determinados do que os de Archie preenchia os ouvidos da princesa com tambores de guerra. O ar na clareira pareceu mudar, tornando-se mais denso, como se as próprias árvores sentissem a aproximação de algo perigoso. Antes que Elora pudesse responder à pergunta de Archie, Ethan apareceu entre as sombras das árvores, seu olhar intenso e perturbador fixo neles. Ela não precisou olhar para saber quem era. A tensão que já havia se dissipado no peito de Elora retornou com força total, o medo inundando seu corpo como um veneno.

Ethan surgiu das sombras como um predador, seus olhos fixos em Archie, que, percebendo a presença do príncipe, se levantou de imediato. O ar entre os dois homens ficou tenso, carregado de algo perigoso e possessivo.

— Archie — A voz de Ethan era baixa, mas carregada de uma autoridade sombria, bem diferente de quando Eilon falava, que era autoritário, mas não sombrio. — Acho que já se demorou o suficiente — a voz de Ethan cortou o ar com uma firmeza fria, quase desumana. Não era um pedido, tampouco uma observação vaga, era uma ordem inegociável, como o rugido de um predador reivindicando seu território.

Archie hesitou por um breve segundo, seus olhos movendo-se rapidamente de Ethan para Elora, como se quisesse dizer algo, mas o olhar de Ethan não permitia isso. Elora se contraiu, sentindo a tensão aumentar. Archie assentiu devagar, recuando.

— Com licença, alteza — Ele sussurrou para Elora antes de se afastar. — Estou à disposição para o que precisar…

Assim que Archie desapareceu entre as árvores, Ethan se aproximou de Elora, sem nunca tirar os olhos dela. Ele se sentou ao seu lado de maneira casual, como se não houvesse nenhum tipo de tensão no ar, mas havia algo no brilho de seus olhos que a fez sentir um frio na espinha. O silêncio era sufocante, e antes que ela pudesse se mover, ele agarrou seu pulso com firmeza, seus dedos longos envoltos na pele dela como garras suaves, mas inescapáveis.

— Você sempre tenta fugir, Elora, — murmurou ele, arrastando a ponta do dedo pela veia exposta no braço dela, como se seguisse o traçado de um mapa. — Será que falta muito para você florescer? — A voz dele era um sussurro baixo, carregado de expectativa. — Estou ansioso para que chegue o dia do nosso casamento.

Elora engoliu em seco, sua garganta se apertando. Ela não queria olhar nos olhos dele, mas também não podia se afastar. O toque de Ethan não era violento, mas havia uma frieza nele, uma pressão sutil que dizia a Elora que resistir seria inútil. Ela sentia seu coração pulsar sob a pele, e o medo tomou conta dela, tão palpável quanto o aperto no seu pulso.

— Ethan... — Ela tentou manter a voz firme, mas falhou. Seu corpo tremia levemente. — Você me assusta. — As palavras saíram antes que ela pudesse recuar, e, por um instante, o rosto de Ethan endureceu ouvindo aquela confissão frágil. — Você me machuca.

Ethan franziu o cenho, como se estivesse confuso com a acusação. Ele inclinou a cabeça levemente, como uma criança que não entende por que o brinquedo não funciona como esperado.

— Machuco? — Ele repetiu, quase num tom de incredulidade. — Eu achei... — Ele fez uma pausa, seus dedos ainda traçando a linha da veia dela, como se a estudasse. — ...que você gostava.

Elora sentiu uma pontada de pânico subir por sua espinha. O olhar de Ethan era de alguém que realmente não compreendia o impacto de suas ações. Não havia remorso ou maldade, apenas um desejo doentio de continuar, de ver até onde poderia ir com ela.

— Não, Ethan... — Ela balançou a cabeça, sua voz agora trêmula. — Eu não gosto. Estou com medo de você.

A expressão dele não mudou, mas os dedos de Ethan pararam de se mover. Ele ficou em silêncio por um momento, estudando o rosto dela com a mesma intensidade perturbadora que sempre carregava. Havia algo em seu olhar que parecia pesar sobre Elora, uma sombra que ele carregava e que, de alguma forma, agora envolvia a ambos.

— Você tem medo? — Ele perguntou, como se a ideia fosse uma novidade para ele. — Mas você é minha. Eu não quero que tenha medo... — Sua voz soava quase genuína, mas havia algo distorcido na forma como ele falava. Ele fez uma pausa — E se eu fizer isso com outra pessoa? Isso ajudaria? — perguntou num tom mais casual, quase desinteressado

A pergunta foi um choque para Elora, como uma adaga invisível fincada em sua alma. Seus olhos arregalaram, e ela tentou se afastar, mas o aperto de Ethan em seu pulso se tornou mais firme e inescapável.

— Você está me dizendo que vai me trair? — A voz dela vacilou, carregada de dor e confusão. Não era só o medo do ato, mas o medo do que aquilo significava para o que restava do amor que ela pensava existir entre eles.

Ethan riu, mas o som foi oco, sem verdadeira alegria.

— Trair? — Ele inclinou a cabeça novamente ao repetir a palavra como se estivesse provando algo exótico na boca, um sorriso brotou em seus lábios, mas que não alcançava os olhos, era um gesto tão pequeno e vazio de emoção que arrepiou a pele dela. — Não, Elora. Não seria traição. Não haveria consumação de nada físico além da dor — ele a olhou com certa devoção, seus olhos refletindo algo perigoso. — Eu prometo, meu amor, serei fiel à você, não tocarei nenhuma mulher de maneira que a desonre.

Aquela declaração a atingiu como um golpe. Ethan estava dizendo, sem rodeios, que ele podia tocar outras pessoas, causar dor a elas, sem qualquer emoção envolvida. Como se fosse apenas um jogo, uma forma de saciar seu desejo insaciável. E para Elora, isso tornava tudo ainda mais aterrador, porque significava que o homem a quem ela estava prometida, aquele que deveria ser seu protetor e amante, era incapaz de compreender as emoções humanas mais básicas — o medo, o amor, o respeito.

Ethan inclinou-se lentamente, seu olhar fixo no pulso de Elora, e com um gesto suave, começou a beijar a pele dela, demoradamente, como se estivesse absorvendo cada batimento que pulsava sob sua boca. O calor de sua respiração fazia o coração de Elora disparar, e a sensação era ao mesmo tempo doce e aterradora. Ela observava, paralisada, enquanto ele se deliciava com cada toque, suas lábios deixando marcas efêmeras, um contraste entre o amor e o medo que a dominava.

— Você não se importaria... — Ethan murmurou, interrompendo o silêncio com sua voz baixa e suave. — Se eu fizesse isso com outra, não é? — A pergunta flutuou no ar como um veneno, e o significado daquelas palavras a atingiu com uma brutalidade que fez suas lágrimas encherem os olhos.

— Você vai me trair! — O desespero escapuliu de seus lábios, e Elora sentiu a dor se apertar em seu peito, como uma pedra pesada. — Você não pode fazer isso!

Mas Ethan não pareceu afetado. Em vez disso, ele continuou a beijar seu pulso, os lábios quentes e ágeis em um ato que deveria ser carinhoso, mas que agora carregava uma carga de possessividade. Ele levantou os olhos, encarando-a com uma intensidade que a fez sentir como se estivesse sendo analisada, como se cada emoção fosse um enigma que ele desejava decifrar.

— Posso fazer algo diferente... — ele sugeriu, sua voz agora mais baixa, quase sedutora. — Posso continuar beijando sua pele, causando pequenos ferimentos, apenas para sentir o sangue... — Ele fez uma pausa, e a expressão no rosto de Elora se transformou em horror. — Mas qualquer ato mais violento... — Ele sorriu de um jeito que não alcançava os olhos. — ...será infligido em outra pessoa. Em um homem, se você preferir.

As palavras dele se entrelaçaram em sua mente, uma proposta perversa que a deixou paralisada. Elora lutou contra a sensação de náusea que subia por sua garganta. A ideia de ser uma mera ferramenta em um jogo sádico a horrorizava. Ele estava disposto a dividir sua crueldade, a alocar sua violência em outros, enquanto a mantinha sob seu controle.

— Ethan, isso não é amor! — A voz dela tremia, mas havia um fogo crescente em seu coração. — Você não pode tratar as pessoas assim!

O olhar dele era desafiador, como se desafiasse suas convicções. Para ele, tudo parecia uma extensão de sua vontade, um capricho a ser satisfeito.

— É exatamente isso que é, Elora. Amor é poder. Amor é controle. — Ele disse, com uma calma quase assustadora. — Se você não consegue entender isso, talvez seja melhor que eu tenha outra... — Ele hesitou, os olhos fixos nos dela. — ...outras que possam compreender o que significa realmente amar.

Elora sentiu uma onda de revolta e tristeza. A cada palavra, a cada toque, Ethan estava se afastando ainda mais do garoto que ela conhecera. E, no fundo, ela sabia que precisava decidir: permanecer submissa ao medo ou lutar pela liberdade que sentia em seu coração, mesmo que essa liberdade significasse romper com tudo o que conhecia.

Elora não conseguiu se conter. A indignação que a consumia explodiu em um movimento rápido e decidido. Com um impulso de raiva, ela socou o peito de Ethan, sentindo a resistência sólida de seu corpo sob o impacto. O ato foi instantâneo, um reflexo do desespero e da fúria que a dominavam.

Ethan a olhou surpreso, mas rapidamente recuperou a compostura, segurando os pulsos dela com firmeza, quase como se a estivesse dominando.

— Calma, Elora! — Ele disse, a voz soando calma e controlada, mesmo enquanto os olhos dele ardiam com intensidade. — Eu não farei nada que mancharia nosso matrimônio.

As palavras dele ecoaram, mas a forma como ele as pronunciava carregava um tom quase possessivo. Ela sentiu um frio na espinha ao perceber que ele considerava esses “cortes” em homens aleatórios como algo aceitável, como se fosse um simples jogo.

— Só alguns cortes, em homens aleatórios... — ele continuou, seus olhos fixos nos dela, como se buscasse convencê-la de que isso era, de alguma forma, aceitável.

A fúria de Elora começou a se esvair, substituída por um silêncio inquietante. Ela sabia que não podia mudar a mente de Ethan, que qualquer resistência agora poderia acabar em algo muito pior. A ideia de perder sua própria identidade a aterrorizava mais do que o pensamento de se submeter às vontades dele. Assim, num gesto quase involuntário, ela aceitou em silêncio, permitindo que a apatia tomasse conta, como uma névoa sufocante.

Ethan, percebendo a mudança em sua expressão, soltou os pulsos dela, e, em um movimento quase ritualístico, tirou uma pequena adaga de sua cintura. O brilho do metal refletia a luz filtrada pelas árvores, e ele a segurou com um olhar satisfeito.

— Estenda seu pulso — ele pediu, a voz suave, como se estivesse oferecendo a ela um presente. — Prometo que não vai doer.

Elora hesitou, o coração acelerado, mas a pressão da situação a forçou a obedecer. Ela estendeu o pulso, a pele pálida exposta à lâmina reluzente. A adaga parecia pequena e inofensiva, mas a promessa de dor se ocultava em cada centímetro.

— Confie em mim — disse Ethan, seus olhos penetrantes fixos nos dela, buscando alguma forma de conexão. — Isso é só uma parte do que somos.

Aquelas palavras a atravessaram, uma mistura de amor e temor, e enquanto ela olhava para a adaga, uma parte dela se perguntava até onde Ethan a levaria, e se haveria um retorno.

Ethan posicionou a lâmina sobre o pulso de Elora, o metal frio tocando a pele macia. Com um movimento preciso, ele fez um pequeno corte, e um fio de sangue começou a brotar. Sem hesitar, ele levou o pulso dela aos lábios, bebendo com um deleite sombrio, como se estivesse absorvendo não apenas o sangue, mas a essência dela.

O coração de Elora batia descompassado, o terror e a confusão lutando dentro dela. Ele então fez um corte similar em seu próprio pulso, estendendo-o para que ela também pudesse beber.

— Só um pouco — ele disse, a voz suave e persuasiva, como um encantamento. Ela hesitou, o medo pulsando em seu interior, mas, em um impulso de submissão, ela obedeceu. Com os lábios tremendo, levou o pulso dele até a boca, o gosto metálico do sangue a surpreendendo. Era uma mistura de repulsa e algo que ela não queria reconhecer como atração.

Ethan, então, fez um pequeno corte em seu lábio, e com um gesto ardente, aproximou-se para beijá-la. A conexão entre eles foi intensa, e quando ele pressionou os lábios contra os dela, Elora sentiu a fusão de seus sangues, uma ligação que parecia mais poderosa do que qualquer promessa de amor.

Ele se afastou, um sorriso satisfeito iluminando seu rosto, os olhos brilhando com uma fervorosa possessão.

— Agora somos casados por sangue — proclamou Ethan, a voz carregada de um orgulho sombrio. — Como Eilon e Elisa. Isso é para sempre.

Elora sentiu um frio na espinha. A palavra "para sempre" reverberou em sua mente, e o peso do compromisso a sufocou.

— Lembre-se desse momento — ele continuou, a voz carregando um tom ameaçador. — Quando você se sentir atraída por Archie.

As palavras dele pairaram no ar, como um aviso. O toque do beijo ainda queimava em seus lábios, e a ideia de sua liberdade sendo cerceada a fazia se sentir presa em uma teia de sombras. O que havia começado como um ato de amor transformara-se em algo sombrio, e Elora percebeu que, ao aceitar aquele momento, estava também aceitando as correntes invisíveis que o acompanhavam.