Amnésia

7 Planos: Aliança, espionagem e fúria


Notas iniciais
Olá, meus queridos leitores!
Acho que eu estou um pouco atrasada em relação à essa história, mas para compensar, eu escrevi o maior capítulo até agora, e espero que agrade!
Gostaria de agradecer à vocês, leitores, a aos seus reviews maravilhosos, porque eles me deixam absolutamente inspirada para escrever mais e mais... Eu tenho grandes planos para essa fic!
Mas enquanto o futuro não chega, a Layla não reencontra o Natsu e o romance não aparece, vamos ao capítulo!

Depois da clara declaração transbordante de ódio que Layla fizera, o passeio entre ela e Gerard correu bem. Conversando sobre amenidades, como algumas missões notáveis, novos poderes conseguidos e sobre alguns feitos malévolos que ele tinha feito no passado. Ao contrário do que Gerard poderia esperar, Layla não parecia se importar com o fato de ele ter tentado reviver Zeref, traído Erza e quase matado seus amigos. Tampouco o julgou por aceitar novamente Ultear como sua aliada, mesmo depois de conhecer o fato de que tinha sido manipulado por ela.

_Todos merecem sua segunda chance._ disse ela, simplesmente, como se não fosse nada. _Além do mais, ela não me parece o tipo de pessoa que faria esse tipo de maldade. Verdadeiramente, ela me soa muito arrependida._

_E ela é._ replicou Gerard, surpreso. _Todos nós temos nossos arrependimentos. É por isso que somos a Crime Sorciére._

_Com todo aquele papo de redenção e blá-blá-blá._ Layla se aproximou dele, ficando a apenas centímetros de seu rosto, e deu um sorriso zombeteiro. _Sinceramente, Gerard, eu acho que você deve curtir um pouco mais a sua vida. Você é bonito, sexy e solteiro. Surpreende-me que não tenha enlouquecido depois de um regime sexual tão rigoroso._

Gerard avermelhou-se, envergonhado pelo modo descontraído como ela colocou a questão (e também pela proximidade; mas não é algo no qual valha a pena se aprofundar), e sorrindo com satisfação, Layla se afastou, voltando a falar sobre suas missões, como se aquele assunto nunca tivesse existido.

Mais ou menos meia hora depois, decidiram voltar para o casarão e desfrutar do desjejum que Fleur provavelmente terminara de preparar. Chegando ao jardim, Layla rapidamente vestiu novamente o macacão preto, parecendo mortalmente aliviada por se livrar daquelas roupas absurdamente femininas, e prendeu novamente a capa sob os ombros, alisando-a como se fosse uma velha amiga. Com maestria comedida, passou a maquiagem pesada de sempre, com destaque para os olhos, e jogou as roupas anteriores num canto, como se transmitissem alguma doença contagiosa. Depois, impaciente, arrastou Gerard para dentro da casa, sem muito ânimo para ser delicada.

_Vocês estão atrasados._ disse Fleur, a guisa de cumprimento, assim que os dois entraram. _Começamos o café faz algum tempo._

Todos os magos presentes estavam sentados na mesa, comendo o farto banquete disposto nas travessas. Tinha carne, pães, frutas, geléias e todo tipo de comida, para as quais Gerard olhou sentido a boca salivar. Ignorando a advertência da mestra, Layla se sentou e começou a comer, lançando para o Fernandez um olhar que claramente o obrigava a se sentar e comer também.

_Vamos tratar de negócios._ disse Ultear, direta, assim que Gerard se sentou. _Você disse que tinha informações sobre os roubos dos artefatos. Diga-nos o que sabe._

_São ao todo sete artefatos, e não cinco, como o Conselho quer acreditar. Cinco deles foram roubados nos últimos dois anos, e os outros dois sumiram há dez e nove anos atrás. Todos os roubos foram efetuados por uma guilda das trevas da qual praticamente ninguém tem conhecimento em Fiore, chamada Black Lance Rose. Eles têm uma base voadora, tal como a Grimoire Heart, e seguem praticamente o mesmo ideal: um mundo onde só os melhores magos têm vez. Os artefatos, no total, podem despertar um robô antigo, chamado Tenebris, antecedente à criação do Nirvana e com efeitos bem mais devastadores. Ele tem um canhão, que pode disparar uma rajada de Ethernano tão forte que superaria até mesmo a Etherion, ou o rugido do Acnologia._

Todos ficaram em silêncio por alguns segundos, digerindo a informação horrível. Fleur, fria e impassível, juntou as mãos numa espécie de oratória, e, quando as separou, surgiram no ar imagens de sete objetos: uma jóia vermelha, semelhante a um rubi, uma espada, duas esferas de prata unidas por uma corrente, uma maça, uma pedra adornada por linhas brilhantes de rosa, uma corda comprida e uma chave, com círculos de runas nas extremidades.

_O nome do robô é ocidental, mas nossos podemos traduzir para alguma coisa como Chiaroscuro._ continuou ela, indiferente ao choque dos outros. _ A jóia vermelha é a Joia da Alma, a espada é a Espada da Esperança, as esferas de prata são os Olhos da Escuridão, a maça é a Maça da Força, a pedra é o Coração do Livre Arbítrio, a corda é a Espinha Dorsal da Sustentação e a chave é o mais importante deles, chamada de Círculo de Runas. Os cinco primeiros foram os roubos registrados, e eu tive que ir fundo nos documentos do conselho para conseguir encontrar as datas dos roubos dos outros dois._

_E quais seriam?_

_A Espinha Dorsal da Sustentação foi roubada há nove anos. Já o Círculo de Runas foi furtado à exatamente dez anos. A Fairy Tail foi enviada em missão para protegê-la, mas não foram pálio para o mestre e seu lugar-tenente. Se não me engano, eles também perderam um membro, do qual eu sinceramente não me recordo o nome._ Fleur suspirou. _Mas, voltando ao principal: a Black Rose, além de ter poderosíssimos magos, é uma guilda de existência tão furtiva que o Conselho nem sonha da sua existência. Havia três guildas que sabiam dos seus planos: Frozen Wings, Sweet Revenge e a nossa. Convenientemente, Frozen Wings foi exterminada à algumas horas pela Raven Tail, e Sweet Revenge foi carbonizada justamente por vocês, Crime Sorciére, o que significa que eles só tem um alvo prioritário com o qual se preocupar em exterminar agora: nós._

_Resumidamente: vocês estão sendo caçados._ resmungou Meredy. _Mas porquê?_

_O mestre da guilda, Keitarou, é meu primo. Eu acompanhei o nascimento da Black Rose desde o início, e até cogitei em me tornar um deles, mas não consegui suportar a idéia de ser subordinada ao meu primo, então desapareci. Faz anos que não nos falamos, mas ele sabe que as três guildas que conheciam a Black Rose desconfiaram de seu dedo nos roubos, e está tentando eliminar rastros. Na verdade, a única vantagem real que a Black Rose tem sobre as outras guildas ilegais é a discrição, e se eu por acaso der a língua nos dentes, tudo estará perdido._ Fleur sorriu de modo malicioso. _E isso é exatamente o que eu pretendo fazer._

_Por isso o bilhete para Mirajane Dreyar._ desvendou Layla, segundos depois._Você pretende nos aliar aos membros das guildas legais?_

_Sua capacidade de dedução é notável._ comentou Ultear, tomando a palavra para si. _Mas eu e Fleur concordamos que isso não será exatamente uma aliança, e sim uma negociação: nós daremos para eles o que eles querem, e, em troca, vamos pedir a nossa paz. Nenhum de nós está em posição de entrar em guerra contra as três mais poderosas guildas do Conselho, mas temos tudo o que eles querem para terminar essa disputa. No fim, todos saem ganhando._

_Não estamos em posição para ser diplomáticos, isso sim._ argumentou Layla, começando a se irritar._Que garantia temos de que não seremos traídos?_

_Nenhuma._ concordou a mestra, pensativa. _Mas eu estou apostando minhas fichas nisso, e Ultear também. Agora, em termos sinceros, nós somos uma guilda muito poderosa, e juntamente à Crime Sorciére, nós empatamos força com a Fairy Tail._ o tom se tornou mais feroz. _Eles não vão tentar nada conosco a não ser que queiram morrer. Eu não ligo para eles. Ligo para o bem-estar de minha guilda, e Ultear concorda com isso. Vamos tentar a parte simpática. Senão, apelaremos. Mas, por enquanto, eu quero espreitá-los e investigar uma melhor forma de nos apresentarmos; o bilhete para Mirajane vai assustá-los, mas não vai mobilizá-los a nos ajudar._

_E o que você pretende fazer?_ Kenji franziu o cenho. _Ficar nas sombras, sendo perseguida tanto por magos do conselho tanto pelos magos da Black Rose?_

_Em parte, sim. Mas eu também tenho missões para vocês. Kenji, eu quero que você, Yue, Aoki e Arima vão para a sede do conselho e vigiem as coisas por lá. Arashi, Shirou, Akane e Jun vão ficar aqui para defender e retaliar em caso de possíveis ataques. E você, Layla, eu gostaria que você fosse para Jibrille e observasse as investigações da aliança do Conselho na cidade. Fica a critério de Ultear quais magos ela mandará para qual missão._

_Bem... Meredy pode ir com Kenji. Eu ficarei aqui para discutir estratégias com Fleur, e Gerard pode ir com Layla, eles me parecem bem amigos._

Gerard concordou, seus olhos se movendo suavemente para a esquerda, observando cuidadosamente a reação de Layla. Ela tinha os lábios crispados, uma linha branca e fina, mas no momento em que ela notou o olhar de Gerard, eles inconfundivelmente se moveram para os lados, num pequeno sorriso aprovativo.

_Por mim, tudo bem._ disse ele. _Quando partimos?_

_Eu recomendaria agora. Os magos da aliança se movem rápido, e supondo que eles vão cortar caminho pelas Death Hills, estarão lá antes do meio dia. Se tudo der certo, quero que me tragam um pequeno relatório do que viram logo à noite._

_Tudo bem, se esse é o desejo._ Layla se levantou. _Eu não levo bagagem comigo, então podemos ir nesse exato momento. Sinto que meu poder mágico já está completamente recuperado, então, venha Gerard. Vou abrir um portal._

_Tomem cuidado._ advertiu Fleur. _São trinta olhos contra apenas quatro._

_Quatro olhos serão mais do que suficiente._ Layla sorriu confiante. _Estaremos de volta ao anoitecer._

Fleur observou Layla sair pela porta com olhos cerrados. Sabia que a maga estava absolutamente insatisfeita com as ordens dadas, e que tudo o que ela gostaria era de gritar e brigar; e também sabia que Layla tinha suprimido aquilo tudo, preferindo por guardar seu ódio pelas guildas legais e acatar sem reclamar as ordens da mestra.

Era aquilo que a preocupava. Tal como Gerard, Fleur sabia que tinha uma bomba relógio em mãos, pronta para explodir. A cada insatisfação que ela suprimia, Layla enchia um receptáculo interno de amarguras e ódio, que não suportaria mais tanto volume. Estava pensando em alguma forma de fazê-la descarregar aquilo tudo, mas Layla era tão emocionalmente controlada que a Mestra já tinha esgotado praticamente todo o estoque de alternativas.

Logo após a saída de Layla, Kenji e a equipe determinada por Fleur, mais Meredy, também partiram, em direção a cidade do Conselho. Os magos escolhidos para protegerem a guilda também se dispersaram, cada um para seu quarto, depois de darem sua refeição por encerrada. Sentadas à mesa ficaram Ultear e a figura pensativa de Fleur, olhando sem focalizar o lugar por onde Layla saíra minutos antes.

_O que foi, Fleur?_Ultear perguntou. _Você parece preocupada._

_Quando você percebe que um dos seus magos está com problemas, a reação é se preocupar, não acha?_

_Você está falando de Layla, pressuponho._ Fleur concordou vagamente, e Ultear apoiou a cabeça numa das mãos, pensativa. _Uma maga poderosíssima, de longe uma das mais poderosas que conheci. Estrategista admirável. Lutadora ágil. Não vejo motivos pelos quais você ficaria preocupada._

_O que me preocupa em Layla é o ódio que ela carrega. Quero dizer, ela é tão controlada, e não me parece saudável guardar tudo para dentro de si._

_Você tem medo de que ela exploda, então._

_É. Algo assim._

_Eu não acho que isso seja ruim._ Ultear deu um sorriso cúmplice. _Você está é com medo de ser superada, Fleur. Se Layla explodir, vai se tornar tão ou mais poderosa que você. Nada com o que se preocupar além de ter uma concorrente à altura._

A Milkovitch se levantou e saiu do cômodo deixando a outra só, num silencioso torpor pensativo. Por fim, decidiu ser otimista, como Ultear, e se preocupar apenas com a hipótese de ser superada.

E, é claro, torcer para que suas preocupações estivessem erradas.

_***_

Sob o calor delirante daquele meio-dia, o sol crepitando como um incêndio gigante no céu e derramando sobre a terra ondas estonteantes de calor, quinze magos cruzavam uma planície, num desconfortável e tenso silêncio. Estavam cobertos de ferimentos dos pés a cabeça, andando em ritmo rápido sem dizer uma só palavra. O barulho da respiração e o farfalhar de seus passos no chão desértico das montanhas eram os únicos sons a serem ouvidos, enquanto todos os magos presentes lembravam-se do vergonhoso acontecimento nas Death Hills.

Algumas horas antes, depois de Wendy curar todos os feridos do incêndio na vila das trevas e fazê-los acordar, a recepção que os magos do conselho tiveram não foi sido nada agradável. Assim que todos os magos acordaram, pensaram que tinham sido os magos da aliança responsáveis pela carbonização da vila, e caíram com tudo para cima deles. A aliança Fairy-Lamia-Pegasus foi expulsa do vilarejo a pedradas e pauladas, além de ataques mágicos inesperadamente poderosos. Natsu, em seu comportamento explosivo, tinha sugerido um confronto, mas os outros magos acabaram por convencê-lo a nada fazer; eles iriam perder valiosas horas numa batalha inútil, que de nada ajudaria a aliança.

E assim, amuados, eles tinha retomado caminho, arrependendo-se amargamente de terem ajudado a vila. Natsu, ainda sedento por briga, resmungava o quanto deveria ter deixado o lugar virar uma pilha de cinzas, sendo ocasionalmente calado por um ou outro mago. Todos eles, sem nenhuma excessão, estavam com um humor simplesmente péssimo pela humilhação, e o tempo excessivamente quente em nada ajudava com a situação.

_Mas essa merda de Jibrille não aparece mais não?_ resmungou Gray, todo enrolado em ataduras (Wendy estava demasiado cansada para curar a todos), de mãos dadas com a esposa. _Parece que estamos andando a dias e nada!_

_Segundo meus cálculos, mais quinze minutos ou meia hora._ respondeu Hibiki, sempre cordial, ativando a arquivo. _Jibrille fica um quilômetro à frente, então paciência, Gray._

_Mas eu quero logo chegar e descansar!_

Erza, que estava à frente, parou e virou-se para ele. A franja curta cobria-lhe uma luz negra nos olhos, e ela tinha uma expressão tão sadicamente mal humorada que Gray imediatamente se calou. De todo o grupo de magos, Erza era de longe a mais afetada pela situação; tinha sido idéia dela cortar caminho pelas Death Hills, o que significava que era para ela que caía a culpa de toda aquela situação.

_Você tinha dito alguma coisa, Gray Fullbuster?_ ela perguntou, o tom sinistro.

_Ju-Juvia tem total certeza de que ninguém disse nada._ a outra gaguejou, preocupada com a saúde do marido. _Juvia acha que devemos continuar andando calmamente, como antes!_

_Não é que ela vá fazer alguma coisa com a gente, Juvia._ resmungou Gajeel, que tinha finalmente começado a chamar todo mundo pelo nome. _Ela só está se sentindo culpada pela vergonha que a gente passou em Death Hills._

_Você disse alguma coisa, Gajeel Redfox?_

_Claro que disse, Erza, e você ouviu muito bem._ Gajeel se aproximou da maga, com um sorriso despreocupado nos lábios e abraçou-a casualmente pelos ombros. Todos olharam para ele, mortificados; que tipo de pessoa teria coragem de brincar com a morte daquele jeito? _ Agora, eu tenho certeza que eu tinha uma coisa aqui para você..._ ele remexeu na mochila, ignorando o ranger furioso de dentes da maga e todos os olhares cautelosos dos outros, que se preparavam para separar uma briga. _Olha só o que nós temos aqui: Cheesecake! Você gosta?_

A transformação da maga foi impressionante, e, se não fosse a uma situação tão tensa, todos teriam rido: no momento em que Gajeel proferiu a palavra “cheesecake”, a sombra dos olhos dela subitamente sumiu, e seu rosto se contorceu num sorriso tão grande que quase rasgou as bochechas. Encarando com olhos compridos a mochila de Gajeel, Erza assumiu uma postura sedutora, sem reparar que era fuzilada pelas costas pela maga mais baixa do grupo.

_Cheesecake?_ ela perguntou, o tom subitamente doce e persuasivo. _Você poderia me dar esse bolo, Gajeel querido? Ou será que pretendia comê-lo?_

_Oh, não, eu não gosto de cheesecake, guardei esse aqui por engano na mochila. Aqui está._ ele entregou para ela o embrulho com o bolo. _Tenha um ótimo apetite!_

Ela olhou o embrulho com olhos brilhantes e o abriu, encarando o pedaço de cheesecake como se ele fosse alguma pedra preciosa. Na primeira mordida, ela gemeu longamente de prazer, e todos os magos presentes olharam para Gajeel como se ele fosse uma espécie de rei (menos Levy; essa lhe encarou com uma expressão irritada), parabenizando-o com os olhos; ninguém se atrevia a falar, temendo que o mau humor da Titânia retornasse.

Suavemente, o Dragon Slayer deslizou para longe da maga, assumindo novamente o seu lugar ao lado de Levy.

_Precisava de todo esse teatro?_ sussurrou ela, para ele, entre dentes. _Quer dizer, você quase a comeu com os olhos!_

_Situações desesperadoras, medidas desesperadas, oras._ retrucou ele, de volta. _Veja só ela: não está mais de mau humor, e nós não vamos precisar nos preocupar com ela e sua áurea negra. Tudo bem que eu perdi meu cheesecake, mas vale o sacrifício._

_Um pouco demais._ resmugou Levy, cruzando os braços. _Absolutamente desnecessário._

_Com ciúmes, Levy?_ ele sorriu e abraçou-a pela cintura. _Não precisa se preocupar._

Ela deslizou para longe dele.

_Você gostaria que eu saísse abraçando qualquer cara por aí? Não. Então não fique de agarração perto de mim._

_Nós não estamos num relacionamento. Ou estamos e eu deixei de saber?_

_Não, não é, é só que..._ Levy bufou, irritada. _Esquece. Veja só! Jibrille fica logo à frente._

Era uma meia-verdade. Para ver a cidade, eles teriam de escalar mais uma montanha, razoavelmente alta, que ficava logo à frente, e que mesmo com os degraus que Jura providenciava, demorou mais de meia hora para ser escalada. Quando chegaram ao cume liso e plano, todos os magos estavam suados da cabeça aos pés, castigados pelo sol que não dava trégua. Primeiro, sentaram-se para descansar alguns minutos, e depois, andando até a extremidade do cume, puderam ver Jibrille, na planície logo abaixo.

Por muitas décadas, Jibrille era apenas uma vila agrícola, dominada por uma guilda das trevas controladora e de reputação temida até mesmo pelas menores legais. Mas após a derrota dessa mesma guilda por um misterioso grupo de magos, seis anos antes, a vila prosperou e se tornou uma pequena cidade. Logo além dos limites do vilarejo, corria um grande e largo rio, que separava Fiore de um país vizinho. E, na entrada, uma grande placa estava cravada no chão, com os seguintes dizeres:

Magos de qualquer espécie não serão bem-vindos.

_Bem, isso vai ser um problema._ disse Erza, reparando na placa. _Mas nós não podemos culpá-los por ter medo de nós._

_Talvez devamos nos aproximar como magos pacíficos. Provar nossa integridade._ sugeriu Hibiki. _E fazer algumas negociações._

_Não acho que seja uma boa idéia._ ponderou Sherry. _Eles são assustadiços, podem nos retaliar, assim como fizeram nas Death Hills._ o rosto dela se contorceu com a lembrança. _Temos que pensar numa abordagem pacífica._

_Então que nos aproximemos sem dizer que somos magos._ decidiu Jura. _Teremos de improvisar. Aqui dentro ninguém usa magia; não podemos assustá-los._

Todos concordaram.

_Você vai continuar fazendo degraus, Jura?_ perguntou Lyon. _Isso aqui é bem alto._

_Acho que é a única opção._ ele respondeu, e com um selo de mão, uma nova cascata de degraus surgiram magicamente do solo. _Não é que eles gastem muito poder mágico. É que eu tenho medo de estragar a paisagem._

_Não é algo com o que você tenha que se preocupar._ tranqüilizou-o Ichiya. _O perfume disso aqui é medonho. Ninguém vai se preocupar se você estragar a paisagem._

Jura sorriu com a simpatia, e ninguém disse mais nada enquanto eles desciam os degraus. À medida que eles se aproximavam do sopé, o chão desértico ia dando lugar a uma relva verde e brilhante, com arbustos cheirosos e grandes carvalhos que se abriam aos céus com seus braços estendidos. O cheiro de vida flutuava no ar como um calmante, e todos, sem perceber, relaxaram a guarda.

Ninguém viu um portal se abrindo atrás do maior dos carvalhos. Nem viram os dois vultos que dele saíram, deslizando furtivamente para trás do grosso tronco, observando cada movimento que o grupo fazia.

Os degraus terminaram, e, assim que passaram pelo arco que determinava a entrada da cidade, um homem apareceu, de braços cruzados e expressão severa. Tinha quase dois metros de altura e um corpo maciço, semelhante a um armário.

_Forasteiros._ cumprimentou, frigidamente. _São magos? O que os trás aqui?_

_Somos jornalistas._ assumiu Levy. _De um jornal de natureza anti-maga. Soubemos deu um incidente trágico aqui faz seis anos, causado por magos, e também soubemos que vocês ficaram décadas sobre o terror de magos das trevas. Viemos aqui por que estamos recolhendo informações para uma matéria, provas para provar o quão perigoso podem ser os magos._

O homem analisou-a por um segundo, e sua postura relaxou visivelmente.

_Perdoe a grosseria._ pediu, educadamente, arriscando um sorriso. _Meu nome é Koichi._ ele se apresentou, estendendo a mão. _Você deve compreender o terror que passamos e a nossa aversão a estranhos._

_Nós não o culpamos._ Levy sorriu também, enquanto apertava a mão que lhe foi estendida. _Isso é o legado que os magos deixam para nós. Eles deveriam sinceramente serem banidos do mundo._

_Que bom encontrar um estrangeiro que pensa assim!_ suspirou ele, de maneira conspiratória. _É bom saber que não somos os únicos a conhecer o terror que domina o mundo lá fora. Vocês dizem que querem fazer uma matéria? Sejam bem vindos! Se quiserem, eu posso ser seu guia por essas bandas. Conheço a cidade como a palma da minha mão._

Levy fez um aceno simpático.

_Ora, eu não dispenso! Leve-nos onde ficava a malévola guilda das trevas que dominava a cidade, por favor?_

_É claro. Me sigam!_

Koichi virou-se em direção à cidade, e Levy viu o sorriso de felicitação de seus amigos ao seu raciocínio rápido. Erza deu tapinhas em suas costas, Natsu sorriu e Hibiki até bateu palmas silenciosas. Gajeel não disse nada nos primeiros momentos, o que a deixou meio decepcionada. No entanto, alguns minutos depois, quando eles passavam por uma ruela escura, Levy sentiu que alguém a abraçava por trás. Em primeiro momento se sobressaltou, mas relaxou imediatamente ao sentir a textura áspera dos cabelos e o cheiro característico de metal que ele emanava.

_Essa é a minha Levy._disse Gajeel, com enfoque especial no “minha”. _Fantástica como sempre._

A respiração dela parou. Elogios como aquele, vindos de Gajeel eram raros, muito raros, e quando eles vinham, Levy se sentia novamente uma adolescente, morta de vontade de pular nele e enchê-lo de beijos. Mas, mesmo fazendo missões juntos há tantos anos, ele nunca tentara nada íntimo com ela, o que a irritava e a desanimava. E justamente nos momentos em que ela pensava em jogar a toalha e desistir, ele vinha com um elogio daqueles, reacendo uma esperança já perdida.

Respirando fundo, Levy virou a cabeça, mas ele não estava mais lá. Tinha se afastado, com a mesma expressão de antes, como se nunca tivesse dito nada.

Cruel, muito cruel.

Mas a McGarden não podia evitar certos impulsos, então sentiu o sorriso vindo espontaneamente, junto com um formigamento gostoso no lugar onde ela a tocara.

O dia estava ganho.

_***_

_E então? Você consegue ver tudo?_ perguntou Layla. _Eu tenho uma bela vista da cidade._

_Eu não. Corte mais à direita. Nossos ângulos não são iguais._

Layla, da Light Dragon, e Gerard, da Crime Sorciére, bufaram, esttavam sentados no galho mais alto do maior carvalho que eles tinham conseguido encontrar no sopé da montanha próxima de Jibrille. Depois de quinze minutos de escalada árdua (tanto Layla quanto Gerard tinham as mãos esfoladas e cheias de farpas), os dois finalmente tinham parado, e, com um facão, Layla tentava abrir, entre as folhas, uma abertura grande o suficiente para dar a eles uma visão de toda a cidade.

Não estava sendo fácil, no entanto. Além do sangue que escorria preguiçosamente pelas mãos brancas da mulher, havia também a altura e a grossura dos galhos da árvore, que estavam sendo um óbvio problema para a garota.

_Porque você não usa magia?_ perguntou Gerard, auxiliando-a com um pequeno canivete. _Eu soube que você pode fazer lâminas de poder mágico comprimido._

_E posso. Mas não vou. Estamos aqui numa missão de espionagem, e não podemos nos dar ao luxo de chamar atenção._

_Isso vai demorar bastante._ observou o Fernandez. _Porque você não energiza a faca? Ela vai ficar afiada._

_Um pouco afiada demais, não acha? Mas não é uma má idéia._ disse Layla, sorrindo com o canto da boca, enquanto deslizava suavemente o dedo pela lâmina. O sangue escorreu, e a faca toda começou a brilhar numa nuvem de poder mágico. _Só observe._

Ela levantou a lâmina, e com um movimento fluido, desceu-a sobre um galho de meio metro de diâmetro. O facão atravessou-o como se ele fosse feito de gelatina, e se não fosse a extrema atenção de Gerard na mão de Layla, nem mesmo ele teria notado o movimento; ao ver o galho desabar cinco metros abaixo, ele só pode arregalar os olhos.

_Isso é..._

_Estranho._ Layla completou para ele. _Eu sei. Minha magia me permite energizar instrumentos e torná-los extremamente afiados. Só que eu não gosto de usá-la._ ela guardou a faca no cinto. _Não gosto de lutar com armas. Sou uma das únicas da minha guilda que não sabe manejar uma arma sequer._

_E porquê?_

_Não me agrada. Eu gosto de combate corpo a corpo._ ela pegou a bolsa que levava consigo, e começou a remexer nela. _Posso concentrar o poder mágico nas mãos e pés, para potencializar os golpes. Mas manejar uma arma nunca fez meu estilo. Lembra-se de como destruímos aquela guilda das trevas, aqui mesmo, seis anos atrás?_

_É claro que me lembro._ Gerard sorriu numa lembrança feliz. _Você cortou todos os alicerces da guilda e nós a implodimos. Foi divertido. Ultear queria voltar tudo para um replay, lembra-se?_

Ele pensou ter visto a sombra de um sorriso no rosto dela.

_Mas é claro que sim. Mulher idiota._

_Ah... É, um pouco. Mas ela só estava entediada. Fizemos todo o serviço para ela._ ele riu. _A cidade não mudou nada. Mas como vamos focalizar os magos daqui e ouvir o que dizem?_

_Com isso._ Layla tirou algo da bolsa, e estendeu para ele. Eram oito robôs, em formato de aranhas, com pedras de lacrima na parte de cima. _São robôs auditivos, que rastreiam poder mágico e podem transmitir conversas a longas distâncias. E há também uns óculos, que eu não estou conseguindo encontrar, que aumentam a visão de quem os usa._

Ele pegou um dos robôs, e o rolou entre as mãos.

_Eu nunca tinha visto esse tipo de robô. _

_É claro que não. Eles foram banidos faz muito tempo. Provavelmente, esses são os últimos existentes. Fleur os encontrou numa missão nos seus tempos de maga legal, e acabou por guardá-los._

_É difícil imaginar Fleur como um membro de guilda legal._

_Mas ela já foi._ Layla tirou dois pares de óculos da bolsa, e estendeu um deles para Gerard. _Era uma prodígio. Queridinha de Jose Porla em seus tempos de Phantom Lord. Mas isso faz muito tempo. Coloque os óculos, Gerard, e não se surpreenda se conseguir ver as folhas fazendo fotossíntese na árvore. Os óculos são como um telescópio._

E era mesmo. No momento em que Gerard colocou os óculos, a cidade pareceu tão próxima quanto se ele estivesse logo em cima, numa poderosa panorâmica. Ele viu os magos da aliança se dividirem em duplas pela cidade, e, focalizando Erza em especial, sentiu uma pontada de nostalgia e tristeza. Os cabelos estavam cortados curtos, mas ela continuava linda, muito mais linda do que fora há dez anos.

_Não mergulhe em nostalgias, Gerard._ Layla advertiu, ao seu lado. _E tire os óculos para conversar comigo._

Ele obedeceu.

_E agora?_

_Fiz bem em trazer oito robôs, e preciso atirar cada um deles em uma dupla para ouvirmos suas conversas._

_E como faremos?_

_Para sua sorte, Gerard querido, minha mira é excelente._ ela pegou um pequeno estilingue. _Que tal apostarmos? Se eu conseguir, você fará o que eu quiser. Se não, estarei às suas ordens._

_Acho uma boa idéia._ ele sinceramente duvidava de que ela fosse conseguir, e o instinto competitivo o instigou a ir em frente. _Não valerá usar os óculos._

_Esses são os seus termos?_

_Sim._

_Nesse caso..._ ela colocou o robô no estilingue, e mirou, puxando o elástico cuidadosamente. Logo, o estilingue brilhou em poder mágico, da mesma forma que o facão brilhara segundos antes. _Eu vou acertar a lança espada que Erza Scarlet está carregando. Coloque seus óculos para não haver dúvidas. E fique tranqüilo, não haverá nenhum barulho._

Gerard confirmou, e colocou novamente os óculos, voltando seus olhos para Erza e se forçando a focalizar a espada que ela levava consigo. Um segundo depois, ele ouviu um estalo, e pode ver com precisão o robô, cobrindo o espaço entre o carvalho e o alvo como um pequeno foguete, e indo cravar-se na espada de Erza, o pequeno lacrima passando de branco para vermelho enquanto havia o armazenamento de poder mágico. Gerard esperava que Erza olhasse para o lado, mas ao que parecia, Layla estava certa ao fato de não haver nenhum barulho.

Ele suspirou.

_Acho que vou perder a aposta._

_É. Você vai. Mas não fique tão triste._ Layla pegou o segundo robô, e mirou a parte de trás do xale de Juvia Fullbuster. _Eu não pretendo ser muito cruel no pagamento._

Ele ficou em silêncio, enquanto ela mirava cada uma das duplas e acertava com precisão os alvos escolhidos. Por fim, ao acertar o chapéu de Jura, Layla suspirou, e se recostou entediada no galho da árvore. Ficaram assim por alguns minutos, enquanto havia a memorização dos robôs, sem dizerem uma palavra.

_Estou com a impressão de que você não está achando isso nada divertido._ replicou Gerard, por fim. Com a cabeça, ele indicou Hibiki, que, nos destroços da guilda destruída, ativava a Arquivo, com Levy curiosamente posta ao seu lado. _Parece uma magia divertida. Eu me lembro dele, no tempo em que destruímos o Nirvana. Um galinha._

_Um gatinho._ Layla replicou. _Que tal ouvirmos? Eu realmente preciso de um pouco de diversão._

_E como você pretende ouvir? Os robôs estão lá, nós estamos aqui._

_Com isso._ Layla lhe estendeu um par de abafadores de ouvido. _Vão nos ajudar a ouvir. Escolha um dos lacrimas dos robôs para ouvir, girando um pequeno botão perto do ouvido. O lacrima escolhido vai brilhar em luz verde;_

Gerard colocou os abafadores, e, com os óculos, viu o lacrima situado na espada de Erza brilhar de vermelho para verde, quase ao mesmo tempo em que a voz dela soava em seus ouvidos, num eco distante, como um pensamento.

“Você não pode usar magia por aqui, Natsu.” Ela disse. “Tente ficar calmo. Eu sei que fomos chutados de Death Hills, mas esqueça um pouco o orgulho, ok?”

_Ela continua a mesma._ disse Gerard, se deliciando com o som que saía dos abafadores. _Não mudou nada._

_Sintonizou o lacrima da Erzinha?_ ironizou Layla. _Mude a conversa para Hibiki e Levy McGarden. Acho que vai interessar mais para nós, agora._

_Você é chata._ ele resmungou, girando o pequeno botão, vendo todos os lacrimas brilharem, até chegarem ao de Hibiki. _E irritante._

_Poxa, isso me deixou mortalmente magoada._ Layla se curvou para frente e o encarou com desdém. _Agora preste atenção. É uma conversa interessante._

Contrariado, ele fechou os olhos e se concentrou, enquanto uma voz feminina suave invadia seus ouvidos.

“Achou alguma informação, Hibiki?”

“Nenhuma que valha a pena. Só informações sobre a guilda das trevas que dominava isso aqui.” Respondeu a voz masculina. “Ela foi destruída seis anos atrás, por dois magos desconhecidos.”

“Mas Crime Sorciére e Light Dragon não foram vistos aqui mais ou menos na mesma época? Talvez os dois incidentes estejam interligados.”

_Menina esperta._ ele ouviu Layla aprovar, ao seu lado. _Eu pensaria do mesmo modo._

“A Crime Sorciére é uma guilda com uma notável reputação de ter destruído várias outras guildas das trevas.” Continuou Levy. “Porque não pensar que eles destruíram essa daqui?_

“A Crime Sorciére é uma hipótese bem plausível. Mas e a Light Dragon? Não sabemos quais seriam os objetivos dessa guilda, nem um provável motivo para ela estar aqui. Na verdade, nem mesmo o conselho tem certeza se foi mesmo algum mago da Light Dragon que estava aqui.”

“O que temos sobre a Light Dragon?”

“Praticamente nada. Participou da Batalha das Independentes, exterminou oito guildas menores. Se não fosse por isso, jamais saberíamos de sua existência. Não se sabe onde é a sua base, nem quem é o mestre, ou quantos magos ela possui, nem há quanto tempo ela existe. Na verdade, além da aparição na Batalha das Independentes, eles só foram vistos garantidamente mais uma vez, quando enviaram um mago para os acordos. Ele não disse nome, nem mostrou o rosto. Só mostrou uma marca de um L e um D espelhados, circundados por um dragão.” Hibiki digitou mais alguma coisa na Arquivo. “Em base de depoimentos de testemunhas, há provas que colocam a Light Dragon na destruição daquela guilda das trevas. Mas são só indícios.”

Levy mexeu nos cabelos, e Gerard ouviu Layla emitir um engasgo que se parecia muito com uma risada.

“Então não podemos rastrear a Light Dragon. Mas, já que vamos, inegavelmente, ter de começar por algum lugar, então que seja pela Crime Sorciére. Solid Magic Assinature!”

_Essa é uma magia rara._ comentou Gerard. _Pode rastrear resquícios mágicos de anos atrás. Brain tentou dominá-la, para identificar a assinatura mágica do Nirvana mais facilmente, mas não conseguiu._

_Bem, a escrita sólida dá para ela várias alternativas de palavras. É só uma questão de treino._ Layla deu um sorriso misterioso. _Você pode conseguir tudo o que você quiser, com um pouco de esforço. Eu consegui as doze chaves, o que parecia quase impossível, e não precisei matar nem derrotar ninguém para isso. No fim, é só uma questão de lealdade._

Gerard tirou o abafador, interessado na conversa, e ela acabou fazendo o mesmo.

_Seus espíritos te amam._ ele disse. _Foi por isso que eles te seguiram?_

_Na verdade, é justamente o oposto._ Layla tirou as doze chaves do cinto, e estendeu-as na mão, como um leque. _Sou eu que os ama. É algo que eu não posso explicar. Parece tão natural para mim amá-los, talvez algo que tenha vindo de antes, muito antes. Eu não sei._

_E a chave maior?_ ele apontou para a chave no cinto dela. _Não é um espírito? É ela quem abre os portais._

_Não. Ela é um presente do Rei dos Espíritos por minha conquista. Eu sou, talvez, a mais poderosa maga de espíritos estelares existente na história._ Layla explicou, mas não de modo envaidecido, e sim como um simples fato. _A única a reunir as doze chaves._

_Parece estranho para mim haver tão poucas chaves._

_Há também as de prata._ ela tirou outras três. _Mas eu não procurei pelas outras. Não posso comprá-las, se é que me entende._

_Mesmo assim. São poucos espíritos. Você só pode invocar os doze mais poderosos! Não dá para evoluir depois disso._

Layla deu um sorriso.

_Não há como você saber disso, Gerard._ ela disse, vagamente. _Eu sou a única que pode provar se você está certo ou não._

_Porquê? Há como você abrir portais para espíritos que não tem chave?_

_Ora, quem sabe?_ Layla retrucou, novamente vaga. _Talvez._ ela deu um sorriso misterioso. _Mas que tal nós voltarmos nossa atenção para a missão? Vamos dividir as duplas para ouvirmos duas de cada vez, tudo bem?_

_Se é assim..._ ele ia voltar a perguntar sobre as chaves, mas tão abruptamente como o começou, Layla conseguiu fazer o assunto sumir, e ele não conseguiria novamente inserir um contexto; suspirando, ele resolveu deixar para lá e colocar novamente os abafadores. _Eu fico com Hibiki, Gray, Eve e Ren._

_Oras, achei que ia querer a Erzinha._ Layla deu um sorriso, e colocou os abafadores também. _Tudo bem, então. Eu fico com os outros. Não deixe escapar nada!_

Gerard concordou, mas logo depois voltou sua atenção para Levy. Ela o preocupava; sabendo usar uma magia daquelas, poderia ser um problema para seu anonimato. Apesar da preocupação, porém, ele percebeu que tinha outras prioridades naquele momento, e decidiu esperar para ver o que ela conseguia para depois tomar alguma decisão, em consenso com Ultear e Meredy.

Chega de Levy e Hibiki, decidiu.

Girando o botão, sintonizou em Gajeel e Gray Fullbuster, que andavam do outro lado da cidade, o primeiro quase esmagando o chão em cada pisada e o segundo praticamente seminu.

“Mas que merda de sorteio é esse! Eu queria ficar com a Levy, não com Gray nudista.”

“Eu não queria estar aqui tanto quanto você. Tem consciência de que a minha esposa está, neste exato momento, com um ex-namorado que ainda é louco por ela? Mas que inferno! Merda de sorteio!”

Gerard suspirou.

Aquele ia ser um dia comprido...

_***_

Aquela era a reunião diária do Conselho, que ocorria pontualmente uma hora antes do almoço. Apesar do calor forte daquele meio dia, todos os conselheiros usavam capas compridas, uma espécie de uniforme entre eles, e conversavam baixo entre si. O presidente, presença suprema, de grande respeito, e temido por quase todos os cidadãos de Fiore, mediava todas as discussões, que diziam principalmente em assuntos relacionados à guerra, e o que o Conselho deveria fazer em relação a ela.

Tudo estava seguindo o roteiro. Isso até fortes batidas serem ouvidas na porta, surpreendo todos os conselheiros, que pararam imediatamente as suas discussões. Era definitivamente proibido se aproximar daquela sala no período de uma hora antes do almoço. Quem teria tido a audácia de desobedecer ao comando supremo do Presidente?

Novas batidas foram ouvidas, com mais intensidade.

_O que é isso?_ perguntou o Presidente, num rugido. _Estamos sob ataque? Quem teria a audácia de vir nos importunar?_

_Vão derrubar a porta._ disse uma das conselheiras, horrorizada, ao ver a terceira onda de batidas. _Todos preparem-se para uma batalha!_

_Não será necessário._ replicou o outro. _Essa porta foi criada para suportar todo e qualquer tipo de..._

A porta explodiu, num estrondo, e voou dez metros à frente até se espatifar na parede oposta. Havia uma figura do outro lado, que deu vagarosos passos para dentro da sala parcialmente escura. Com sua entrada, toda a sala se iluminou, como se o estranho fosse uma lâmpada gigante.

Com isso, o estranho não se revelou nenhum estranho realmente. Era Luxus Dreyar, quarto mestre da Fairy Tail, envolvido por uma nuvem de raios que ocasionalmente se chocavam contra seu corpo, os braços cruzados e os ódios baços de ira.

O Presidente deu um passo à frente.

_O que significa isso, Luxus Dreyar?_ rugiu ele novamente. _Quer ser preso? Guardas! Levem-no daqui! Como tem a ousadia de interromper nosso encontro supremo?_

_Eu não estou nem aí para a sua porra de encontro supremo!_ rugiu Luxus, como um trovão, fazendo até mesmo o presidente dar um passo para trás. _E aqueles guardas? Ah, eles não tiveram a menor chance!_

_A Fairy Tail está declarando guerra contra nós? É disso que se trata? Traição?_

Luxus tirou uma faca da mão e enviou-a na direção do Presidente. Obviamente, não tinha a intenção de acertá-lo, pois foi enviada com a lâmina ao contrário, e o Presidente segurou-a com facilidade, reparando num bilhete pendurado em seu cabo.

_É disso que se trata!_ rugiu o quarto mestre, apontando para o bilhete. _Leia esta merda! Leia!_

O Presidente abriu o bilhete para lê-lo. Enquanto seus olhos percorriam as linhas, todos os conselheiros presentes perceberam a mudança de sua postura; antes, preparado como um felino para o ataque, o homem agora estava amuado, como se estivesse com uma espada a apertar-lhe o pescoço.

_Do que se trata isso?_ perguntou, a voz minguando.

_Eu que pergunto! Do que se trata isso?_ Luxus deu um passo à frente e socou um dos pilares de sustentação da sala, reduzindo-o a pó. _Você tem a consciência do risco que a minha mulher e meu filho correram?_ gritou. _Eu concordei com esse teatro estúpido, enviei meus melhores magos numa missão suicida por causa da porra do seu orgulho, e agora eu percebo que esse Conselho de merda não consegue nem manter seus hóspedes em segurança! É disso que se trata!_

_Eu... Não entendo._ disse o Presidente, passando o bilhete para que todos os conselheiros o lessem. _Mirajane e Tohru Dreyar estão bem?_

_ESTÃO, MAS NÃO GRAÇAS A VOCÊ, SEU DESGRAÇADO!_ ele berrou, parecendo atingir o ápice de sua fúria. _O que houve com todos os seguranças? As barreiras mágicas? Os detectores de presença? O que houve com a merda da segurança que você prometeu? Se minha mulher e meu filho estão vivos, foi por piedade de uma guilda que eu mal conheço, e não por causa desse fingimento de Conselho! Só por causa disso! Nunca fui com a sua cara, e sei que você nunca foi com a minha, Presidente, mas me abstive de discutir porque o respeito pela sua posição e honro o seu poder._ uma pausa. _MAS EU NÃO VOU ACEITAR QUE MINHA FAMÍLIA CORRA ESSE RISCO NOVAMENTE, VOCÊ COMPREENDE? N-U-N-C-A M-A-I-S! SE POR ACASO EU DESCOBRIR QUE ELES CORRERAM ESSE RISCO DE NOVO, EU PONHO ESSSA MERDA ABAIXO, NÃO DUVIDE!_

Todos os conselheiros se encolheram perante a última declaração, se sentindo subitamente envergonhados. Tinham menosprezado Luxus durante seis anos por considerarem-no fraco e não apto a liderar uma guilda como a Fairy Tail, mas diante de uma demonstração tão grande de poder, nenhum deles duvidava que ele realmente poderia colocar o conselho abaixo, se assim desejasse.

Além do mais, apesar de obviamente saber que era excluído das reuniões, Luxus nunca reagira, tomando para si uma postura calma e indiferente. Vê-lo tão furioso era assustador, mas também comprovava o que todos diziam: a verdadeira força da Fairy Tail era o amor que os unia, e não o poder mágico em si (embora esse também fosse espantoso).

O Presidente deu um passo à frente.

_Não vai acontecer novamente._ ele disse, pacifista. _Não vamos permitir que Mirajane e Tohru corram tal risco novamente, nem nenhum dos nossos hóspedes. Não será necessário apelas para medidas tão extremas como destruir nosso Conselho, embora eu não duvide de que você seja realmente capaz._

Luxus observou o Presidente em meio a uma névoa de ódio e diversão; ficava claro como ele se tornava subitamente humilde a se ver ameaçado.

Um diplomático, obviamente, pensou ele, divertido.

O Presidente ainda o observava temeroso de que quebrasse mais um pilar, mas ele não fez isso; na verdade, o que veio a seguir surpreendeu mais o supremo do que se Luxus o tivesse atacado e iniciasse uma guerra: aos poucos, os raios que emanavam dele fizeram o caminho inverso, voltando ao corpo alto e musculoso. A luz da sala começou a diminuir, enquanto a expressão de Luxus passava, em questão de segundos, da raiva demente ao semblante normal, uma máscara perfeita de controle e indiferença. Seus olhos voltaram a transmitir tédio, e ele era novamente o Luxus Dreyar de sempre, aquele que parecia não se importar com nada.

Só parecia, como já tinha se percebido.

E o que veio a seguir foi ainda mais surpreendente para o Presidente, que ainda esperava ter de lutar com um mago poderoso enraivecido: o quarto mestre olhou em volta, avaliando os estragos, e se curvou, num gesto ao mesmo tempo respeitoso e envergonhado.

_Perdoe-me._ ele disse, ainda curvado, sem ver o choque de todos os presentes. _Não há dúvidas de que me descontrolei. Perdoe-me as blasfêmias que disse, e também os estragos que fiz. Pagarei por todos eles._

_É bom que pague, Luxus Dreyar!_ rugiu o Presidente. _E também é bom que você não se descontrole dessa maneira novamente._

O quarto mestre da Fairy Tail sorriu de canto, e o Presidente soube que tudo tinha acabado. O lapso de raiva tinha esvaziado e agora ele era só mais um mestre, que não teria a menor capacidade de incomodar o supremo. Sua postura rapidamente voltou a ser a altiva de sempre, e sua expressão moldou-se para os habituais padrões de despeito e superioridade.

_Oh, senhor Presidente, peço que compreenda._ disse o mago, sem se incomodar com a ameaça implícita. _Alguém entrou no quarto da minha esposa enquanto ela dormia e entregou ao meu filho uma faca. Se assim a Light Dragon desejasse, eles poderiam estar mortos, mas eles não quiseram. É a eles que devo a vida da minha família, e é isso que me irrita._

_Sua família está bem, não está? Então não há motivo para preocupações. Nenhum ferimento, nenhum dano. Vamos concentrar nossas buscas na Light Dragon, e exterminá-la._

_Não acho que isso seja o correto._ disse Luxus. _Ou o melhor a ser feito._

_Como assim?_

_Eles tinham uma intenção desde o começo, Presidente: Eles queriam se garantir. Provaram que podem entrar aqui dentro e implantar uma arma. E também mostraram que tem a informação que queremos._ ele suspirou. _Como eles mesmos disseram, estão nos estendendo a mão para uma aliança. Mas nós não podemos recusar, porque sabemos que, se eles forem para o outro lado, estaremos vulneráveis a qualquer invasão. Eles não estão nos dando opção._

_Claro que estão._ o Presidente disse. _É só matá-los._

_Mas é aí que está o xis da questão, Presidente._ riu Luxus. _Eu não poderia exterminá-los agora._

_Por quê?_

_Porque eu tenho uma dívida com eles._ ele replicou precipitando-se para a porta. Ao passar pelo arco e entrada, no entanto, ele parou, e virou a cabeça para trás. _E eu pretendo pagá-la. Sou um homem muito justo, se é que me entende._

_Não me falte respeito, Luxus Dreyar!_

_Não estou falando de respeito. Estou falando a verdade._ ele abandonou o tom divertido. _E,da próxima vez que eu descobrir que qualquer pessoa da minha família correu um risco grande como esse, não vou ameaçar, entende? Eu posso suportar qualquer coisa que não envolva a minha família. Porque quando se tratar da segurança deles, não vai existir nenhuma hierarquia que me pare, tudo bem?_

O Presidente não gostou do tom usado, mas louvando seus sentimentos, que eram bem nobres, resolveu não discutir.

_Tudo bem._

_Ótimo._ Luxus aprovou e saiu andando, deixando restos de uma porta “indestrutível” e um conselho pasmo para trás, com o pensamento único de que, quem quer que fosse o mestre da Light Dragon, o cara era incrivelmente esperto.

Notas finais
E aí? Elogios? Pedradas? Reviews?
Esse capítulo foi um dos mais difíceis até agora, mas espero que tenha agradado!
Em relação à alguns problemas pessoais, o próximo vai demorar um pouquinho, mas até lá, fiquem com o preview de sempre...
No próximo capítulo: Mais momentos Gajeevy (amo), os dois lado se movem, o Conselho decide se vai ou não aceitar a aliança e outra presença misteriosa aparece...
Beijos, até o próximo!