Amargo Lar
4 Capítulo Três — Irmã
Notas iniciais

Isabella Swan
Eu queria vomitar, mas não sabia se aquilo era por conta das bebidas da noite passada, ou pela noticia que tinha acabado de receber. Ainda em choque com tudo aquilo, com o corpo inteiro tremendo, fui ao chão procurando pelo celular, como esperado ele tinha uma nova rachadura na tela e a ligação tinha caído.
Disquei para Billy, na esperança de que ele não tivesse desistido de falar comigo, por sorte ele atendeu no segundo toque.
— Oi Isabella! — falou impaciente, toda a cordialidade de antes sendo jogada diretamente no lixo. — Você vai terminar a conversa agora, ou eu devo esperar você desligar na minha cara novamente?
— Ele está morto? — minha voz saiu rouca, eu sentia um nó na garganta.
— Sim — Billy afirmou. — Há uma hora mais ou menos, ele teve um infarto ontem durante o jantar, então outro hoje. Ficou em coma durante o dia inteiro.
Senti a vontade de vomitar maior ainda, mas segurei por mais uns instantes.
— Jacob conseguiu seu número na internet, ou algo assim, tanto faz. — Billy bufou. — Só achei que seria certo avisá-la sobre o que aconteceu, você sabe, tem alguns problemas que você precisa resolver aqui como filha, ainda que tenha caído fora anos atrás.
Renesmee, ela era um dos problemas ditos por Billy, sem Renée, sem Charlie, Renesmee estava só.
— Você vem ou não? — perguntou irritado.
— Eu vou, eu vou — cedi, desligando, joguei o celular sobre o balcão e corri até a pia para vomitar. Apenas liquido, eu nem me lembrava de ter me alimentado no dia passado, apenas bebido.
Ainda estava curvada sobre a pia, com toda minha moral desaparecida, quando ouvi James entrar na cozinha.
— Passando mal, Baby? — ele perguntou afagando minhas costas, relaxei um pouco em suas mãos, eu precisava dele naquele maldito momento.
— Charlie morreu — falei, virando-me para James, ele não parecia surpreso, nem nada do tipo.
— Bom, isso não é anormal, não é? Pessoas morrem. — Deu de ombros, pegando uma garrafa de água na geladeira. — Laurent me convidou para uma luta, então você pode se recuperar desse seu enjoo e relaxar um pouco, vou conseguir a grana para a droga do aluguel.
Aquilo me fez respirar mais aliviada, pelo menos um problema resolvido.
— Eu preciso ir até lá, James — murmurei, ainda sentindo meu corpo absurdamente fraco.
— Não, você não precisa! — ele exclamou, depois de beber sua água. — Você por acaso conseguiu se esquecer da merda de pai que Charlie era, Isabella?
— Não, eu não estou indo por ele — deixei bem claro. — Não estou triste, nem nada disso por Charlie, mas ela está lá — sussurrei.
— Está me falando que você quer voltar para aquela cidade ridícula por conta da pentelha da sua irmã? Escute a si mesma, Isabella, quer voltar para aquela droga de casa e brincar de casinha com a órfã?
— Eu...Não, claro que não — gaguejei. — Mas eu devo conseguir algo na venda da casa. — Os olhos de James brilharam ao ouvir aquilo.
— Sim, você é uma herdeira do local! — ele exclamou. — Okay, você está certa. Vá até Forks, venda sua parte na casa, livre-se da órfã e volte para mim, Baby!
Ele veio ate mim, colocando-me em suas mãos fortes.
— Mas não demore tanto, okay? — Seus olhos encontraram-se com os meus. — Eu não quero suspeitar que você esteja planejando me deixar para trás, Baby.
— Eu nunca faria isso. — Toquei em seu rosto. — Amo você, James.
— Amo você mais, Baby.
***
Três horas separavam Seattle de Forks, então, foram três horas presa em um ônibus, sentindo-me absurdamente sufocada. Eu chegaria lá, cuidaria do assunto da casa e voltaria para James, até segunda de tarde, que era o prazo estipulado por ele.
Ao passar pela placa de boas vindas da cidade, já perto das dez da noite, notei que o número de moradores tinha crescido consideravelmente. Aparentemente a cidadezinha estava evoluindo como o resto do mundo.
Quando desci na rodoviária, apenas com uma mochila contendo poucas roupas, senti mais uma vez a sensação de estar sem ar, sufocada. Eu detestava aquele maldito lugar, com aquele maldito frio e suas malditas pessoas.
Reconheci dois rostos na rodoviária, mas ninguém que deve ter me reconhecido, uma vez que nenhum veio até mim. Ou, estavam apenas me ignorando como eu estava.
Já sem grana para mais nenhum transporte, além da que eu precisaria para me manter ali até segunda e voltar para Seattle, segui a pé até a antiga casa que eu morava. Billy Black tinha me mandado ir até lá, dispensando minha presença no hospital, não que muito fosse necessário ali, Charlie já estava morto.
As ruas silenciosas pelo horário me sugaram em uma sensação de morbidez, eu caminhava de cabeça baixa, tentando soar despercebida para qualquer um. Então, eu cheguei até meu destino, não era mais o mesmo, mas isso não queria dizer que as mudanças eram positivas.
A casa branca de dois andares parecia mais velha do que nunca, com a fachada completamente mal cuidada, o que deveria ser grama estava seco e amarelado, mas a árvore da frente ainda se mantinha ali, completando o cenário de terror. Do lado de fora estava o carro que pertencia a Charlie, uma picape vermelha e uma preta, que provavelmente era a de Billy.
Uma luz fraca e amarelada vinha da janela do segundo andar, onde antes era meu quarto. Respirei, ainda que aquilo fosse complicado, então caminhei até a porta, subindo a escada que levava a varanda rapidamente sem cair.
Tinha uma campainha ali, mas a não ser que Charlie tivesse a mandado consertar, ela continuava quebrada como quando eu tinha onze anos e parou de funcionar, o que me levou a bater diretamente na porta. Três batidas apressadas e até mesmo baixas, no meu âmago esperava que ninguém me deixasse entrar, para que eu pudesse voltar correndo para Seattle.
Mas, alguém abriu, Jacob Black, o filho mais novo de Billy. Ele era mais novo do que eu, então ali era um adolescente cheio de espinhas na cara e, um cabelo comprido. Os traços indígenas estavam mais destacados do que nunca.
— Oi Bella! — Deixou com que eu entrasse, sem falar mais nada.
— Oi — cuspi a palavra nele, indo direto até a sala, onde Billy e uma mulher estavam. Mas não era a esposa dele, Sarah e, Billy estava em uma cadeira de rodas, o que me fez estancar no lugar.
— Ah, ela veio mesmo! — a mulher exclamou, enquanto bebia uma cerveja. — Deus Billy, você está certo, ela é a cara de Charlie.
Billy apenas assentiu, voltando-se para mim.
— Olá Isabella — mexeu-se em sua cadeira até mim.
— O que aconteceu com você? — As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse as deter.
— Um acidente de carro — Billy respondeu rapidamente.
— Onde está Sarah? Lá em cima com Renesmee? — Eu já me guiava até as escadas, depois de jogar minha mochila no chão, restringindo minha mente de observar os detalhes da sala, quando sua nova resposta me paralisou novamente.
— Não, Sarah morreu no mesmo acidente.
Jacob era a pessoa mais próxima, então vi seu rosto se contrair em uma careta de dor.
— Quanto tempo? — indaguei a Billy.
— Menos de um ano depois que você foi embora. Escute, eu já cuidei de tudo para o funeral, será amanhã pelas nove da manhã, tem um advogado vindo conversar com você depois disso e...
— Renesmee? Onde está Renesmee? — o interrompi, eu cuidaria daquelas merdas depois.
— Lá em cima dormindo — A mulher desconhecida respondeu.
— Quem é você? — questionei a ela.
— Sue Clearwater.
— Esposa do Harry, amigo do Charlie? Ele trabalhava na oficina também, não? — perguntei a Billy, que confirmou com um aceno de cabeça.
— Ex, livrei-me daquele traste. — Sue revirou os olhos. — Na verdade, eu sou meio que viúva do seu pai, querida — falou debochadamente.
— O quê? — gritei.
— Nós estávamos namorando, tudo bem que era algo de alguns meses, mas sentirei falta dele. Bem mais do que você que foi embora, não é?
— Sim, você pode chorar sobre o caixão dele, eu não me importo. — A encarei com fúria.
— Renesmee não comeu nada, tem alguns sanduíches na cozinha, talvez queira levar para ela — Jacob propôs.
— É, pode ser. — Eu mal tinha terminado de falar e ele já tinha saído da sala, voltando logo depois com dois sanduíches em um prato. — Valeu — agradeci o adolescente, indo de vez até as escadas atrás de Renesmee no segundo andar.
Entrei no quarto o mais silenciosamente que pude, ainda que eu pudesse jurar que meu coração batia tão alto que qualquer pessoa a um quilômetro de distância poderia ouvi-lo. Eu encarava meus próprios pés quando finalmente a porta se abriu por completo, com um rangido alto e irritante.
A garota deitada na cama não se mexeu com o barulho, permaneceu imóvel, apenas sua respiração fazia seu corpo mexer discretamente. Ela estava de costas para mim, seu cabelo era uma confusão de cachos, um tom ruivo parecido com o de Renée.
Coloquei o prato com os sanduíches sobre a escrivaninha ali, era a que eu usava cinco anos atrás para empilhar os livros da escola, agora estava milimetricamente arrumada com os pertences de outra garota.
Ainda sentindo um nó em minha garganta e, um embrulho em meu estômago, continuei o percurso até a cama de solteiro. Também era a minha, parecia que tudo que era meu tinha sido devidamente repassado a menina de cabelos cacheados.
Quando parei ao lado da cama, para minha surpresa, vi que ela estava acordada, encarando a própria mão que segurava com força o edredom que a cobria. A garota também foi surpreendida ao notar que era eu ali, ela sentou na cama em um rompante, arregalando os olhos.
Castanhos. Cor de chocolate. Herança do nosso pai morto.
— Isabella? — perguntou desconfiada, a voz não era mais a da menina que ficou choramingando enquanto eu arrumava minhas malas e partia daquela casa. Renesmee não era mais a garotinha que vivia agarrada ao seu leãozinho de pelúcia, era a menina do balé, como as sapatilhas penduradas no espelho da cama indicavam.
— Você precisa comer — falei, ouvindo minha voz sair mais rouca do que eu esperava. Eu mal conseguia olhar para o rosto inchado e vermelho dela, marca do choro que devia a ter perturbado por um dia inteiro.
— Não estou com fome — murmurou, olhando para baixo, mais lágrimas surgindo em seu rosto.
— Tudo bem, não coma — Bufei.
— O que está fazendo aqui? — Renesmee perguntou.
— É o que estou me perguntando — sussurrei, olhando ao redor. O quarto parecia o mesmo, com poucas mudanças. A cama pequena, que eu considerava ser de boneca que antes Renesmee dormia tinha sido despachada, dando mais espaço para a circulação no quarto, mas ele continuava contando apenas com minha antiga cama.
Encarei a mochila da Ariel pendurada em uma cadeira, era minha, um dos últimos presentes antes de Renée dar o fora.
— Você precisa comer! — teimei, indo até a o prato com sanduíches, o levando até a cama. Sentei no canto, ela hesitou, mas sentou também, ainda olhando para mim como se eu fosse uma assombração. — Vamos, coma. — Coloquei um sanduíche em sua mão.
— Ele está morto — ela ignorou o sanduíche, mas o encarava.
— Eu sei — murmurei.
— Ele caiu no chão, começou a gritar de dor, eu não sabia o que fazer. — Os lábios dela tremeram e, mais lágrimas surgiram em seu rosto. Tirei o sanduíche de sua mão, colocando o prato na mesinha onde estava o abajur, ao lado da cama. — Eles prometeram que ele ficaria bem, o médico loiro disse que ele estaria bem ainda hoje, ele mentiu! — Renesmee passou a mão pelo rosto, mas o choro não parava. Ela abraçou a si mesma, colocando a cabeça sobre os joelhos, como eu mesma fazia.
— Sinto muito. — Toquei em seu cabelo. — Sinto muito por você ter perdido ele, Renesmee. — Minha mão estava parada ali, eu não conseguia continuar o afago, era demais para mim, então a retirei dela.
— Era seu pai, também! — Renesmee acusou, me olhando.
— Sim, ele era. — Foi tudo que falei, nos viramos nossos rostos em direção a porta com o barulho dela abrindo, Sue apareceu ali.
— Estamos indo embora, estejam na igreja no horário certo, ou faremos tudo sem vocês. Podem ir na picape dele. — Jogou uma chave na cama, então saiu do quarto batendo a porta.
Renesmee agarrou a chave, jogando-a contra a porta, o que me pegou de surpresa.
— Ela é uma babaca, não é? — perguntei a Renesmee, que apenas assentiu, voltando-se a deitar.
— Eu a odeio, a filha dela estuda comigo e me chama de fedida — murmurou.
Arregalei os olhos, curvando-me sobre Renesmee para sentir o cheiro de baunilha, ainda era o mesmo de quando fui embora. A filha de Sue era uma babaca como a mãe, Renesmee não era fedida, nunca foi.
— Okay, você precisa comer! — Segurei em seus braços, a colocando sentada, ela abriu a boca, mas a cortei. — Aqui! — Entreguei um sanduíche a ela, enquanto pegava outro para mim. Estava gostoso, se foi Sue que o fez, ao menos naquilo era boa.
— Cadê seu namorado? — Renesmee perguntou entre uma mordida e outra.
— Em Seattle.
— Você vai voltar para lá? — perguntou quando terminou de comer.
— Apenas durma. — Recolhi o prato, desliguei o abajur e sai do quarto antes de Renesmee voltar a falar.
Eu apenas andei pela casa, absorvendo o fato de que estava mesmo ali. Parecia um pesadelo, eu podia revir cada grito de Renée e Charlie, ela indo embora e ele sempre me tirando do caminho.
Liguei para James, querendo avisá-lo que eu estava bem e tudo mais, mas ele não atendeu e deveria estar na luta que tinha sido chamado a participar. Lhe enviei uma mensagem, então me encolhi no sofá da sala, sem saber o que fazer até o dia seguinte, sem saber o que fazer pelo resto da minha vida.
***
Acordei com alguém me sacudindo e, logo senti meu corpo inteiro dolorido. Abri os olhos, dando de cara com Renesmee, ela parecia mais descansada do que no dia anterior, mas seus olhos ainda estavam vermelhos.
— Você tem que acordar — ela falou, sentando em uma poltrona próxima ao sofá, olhando para os próprios pés.
Chequei o horário em meu celular, tínhamos de correr para chegar a tempo a igreja. Não tinha nenhuma mensagem ou ligação de James, então lhe passei um itinerário do dia, seguindo depois para o banheiro.
Eu não estava de luto por Charlie, então não me importei em vestir roupas pretas, optando por calça jeans, o par de all star em meus pés e uma camiseta cinza, com o casaco por cima. Renesmee usava algo parecido com o que eu estava, mas sua camiseta era bege.
Ela apenas me seguiu para fora da casa, entregando-me a chave da picape. Odiava aquele carro também, era barulhento e devia ser o responsável por oitenta por cento da poluição do mundo.
Dirigi em silêncio com Renesmee ao meu lado, ela olhava pela janela, sentada sobre suas mãos, o rosto preso em uma expressão dura. A igreja não era muito longe, então logo chegamos ali, eu estava indo em direção aos bancos da frente, mas ela se enfiou no último, bem longe do altar e de onde estava o caixão.
— Você não quer ir mais para perto? — perguntei sentando ao lado dela, a igreja não estava lotada, mas tinha um número considerável de pessoas. Lá na frente eu podia ver Billy e Sue.
— Não — Renesmee respondeu, uma lágrima escapou por seus olhos, mas ela prontamente a limpou.
O padre começou a falar em sequência, mas eu desliguei minha mente, sem querer ouvir seu falatório. O cheiro de baunilha vindo de Renesmee era a única coisa que eu me permitia sentir naquele momento, então acabou.
As pessoas se levantaram e foram até o caixão, dando uma última olhada e saindo da igreja para seguirem para o cemitério. Renesmee levantou e, eu levantei também. Ela seguiu até o caixão e, eu fui atrás dela.
Lá estava meu pai morto. De olhos fechados, o corpo inchado e, completamente distante. Engoli em seco, eu não conseguia sentir nada. Lá no fundo esperava uma lágrima, ou algo do tipo, mas nada vinha. Era apenas um vazio.
Renesmee o encarava, chorando silenciosamente, então saiu correndo da igreja. A encontrei perto da picape, os olhos cheios de lágrimas. Ela apenas entrou no carro quando cheguei ali e, passou o caminho até o cemitério chorando baixinho.
Sue era escandalosa, seu choro no cemitério me deu dor de cabeça, ela estava perto demais de mim e de Renesmee, o que só aumentava o desconforto. Coloquei as mãos sobre os ombros de Renesmee, a puxando para mais perto de mim, enquanto víamos Sue muito dramática e exagerada chorando ajoelhada perto da cova.
Então, Charlie foi enterrado. Renesmee jogou uma flor que alguém entregou a ela sobre o caixão antes de jogarem a terra por cima, mas eu me recusei. Charlie não merecia flores, principalmente de mim.
Nós duas voltamos para a casa dele, depois de uma rodada de pessoas que eu queria que sumissem da minha frente nos encherem de condolências. Renesmee arrancou os sapatos, sujos de terra, ainda na varanda, os deixando lá, eu fiz o mesmo.
Ela seguiu para cozinha e ouvi barulhos de lá. Renesmee passou por mim na sala com um sanduíche e um copo de suco, ela foi para o segundo andar sem falar nada.
Eu estava quase indo até a cozinha para comer algo, quando ouvi alguém bater na porta, então fui até lá. Era um homem, absurdamente alto e forte. Os olhos castanhos claros e, o cabelo preto curto. Usava um terno e tinha uma maleta em mãos.
Era o advogado mencionado por Billy.
— Isabella Swan? — ele me perguntou.
— Sim — confirmei, deixando com que ele entrasse.
— Sou Emmett McCarty — falou, deixando uma covinha aparecer em sua bochecha. — Sinto muito por sua perda.
Assenti, o levando até a sala, ofereci algo para beber e comer, mesmo não sabendo o que tinha na dispensa, mas ele recusou.
— O meu colega de escritório, Michael Newton era o advogado que cuidava dos casos de seu pai, mas ele está fora da cidade e pediu que eu assumisse o caso — falou, sentando no sofá, eu fiquei com a poltrona.
— Tudo bem.
— Você e sua irmã, Renesmee Swan. — Ele leu o nome dela em um documento que retirou em sua pasta. — Com a morte de Charlie Swan passam a ser as donas legais dessa casa com a morte dele, com o valor da mesma dividido em cinquenta por cento para cada uma. — Ele pegou outro documento, entregando a mim. — Esse é o valor da conta do hospital.
Arregalei os olhos ao ver aquilo, era muito, muito dinheiro.
— O quê? Eu, não...
— Charlie não tinha um seguro saúde — Emmett explicou. — Então as despesas hospitalares devem ser pagas, você tem um mês para quitar a divida, posso ajudá-la a fazer um empréstimo no banco se desejar.
Um banco nunca daria grana para mim, eu estava quebrada.
— Quanto a sua irmã.
Voltei meu olhar para Emmett.
— Como você é a parente mais próxima, uma vez que sua mãe cometeu abandono de lar alguns anos atrás. — Ele leu aquilo em um documento também para se certificar. — É você quem possui a tutela dela.
— E se eu não quiser? — indaguei, vendo surpresa passar pelo rosto do advogado.
— Você não quer? — ele não pode deixar de perguntar. — Bom, sendo assim ela iria para um orfanato, um em Port Angeles, já que não existe nenhum abrigo aqui em Forks. Você teria de assinar alguns papeis dispensando a guarda dela, então.
— E a casa? Eu posso pegar minha parte mesmo Renesmee tendo direito a venda também?
Emmett McCarty parecia realmente surpreso.
— Você pode vender a casa, ficar com a metade do dinheiro. A parte de Renesmee seria devidamente guardada em uma conta, onde ela poderia sacar o valor total ao alcançar a maior idade.
— Okay.
Eu esperava que minha metade do dinheiro da casa fosse o suficiente para pagar o hospital e sobrar um bom valor para mim e James.
— Você não quer mesmo ficar com a guarda da sua irmã? — Emmett indagou. — Ela completou dez anos cerca de duas semanas atrás. — Mais uma olhada em documentos. — Não é uma candidata forte para adoções.
— Isso não é da minha conta. — Coloquei o papel do hospital sobre a mesinha. — Eu posso assinar os papeis amanhã. Vou anunciar a venda da casa, tenho de voltar para Seattle, então pode cuidar da venda para mim?
— Claro, posso — ele concordou, ainda chocado com minhas palavras. — Você pode me procurar em meu escritório amanhã pela manhã. — Emmett entregou-me um cartão com seus números e endereços.
O levei até a porta, o deixando ir. Comi um sanduíche, com o resto do suco que tinha ali, então fui até o quarto de Renesmee, ela estava sentada no chão, costurando um collant rosa de balé.
— Quando você começou? — perguntei, ela olhou para mim por um momento, voltando o olhar para a peça em suas mãos.
— Eu tinha sete anos — respondeu.
— Você gosta?
— Eu amo. — Ela suspirou.
— E você também costura — falei abismada, Renesmee apenas deu de ombros, como se aquilo não fosse nada. — Soube que Sarah morreu, você se dava bem com ela, não é?
— Faz muito tempo, não me lembro dela. — Renesmee apertou os lábios, mas seus olhos denunciavam uma nova rodada de choro.
— Com quem você ficava depois que ela morreu?
— Charlie me deixava ficar na oficina, então eu comecei a fazer balé. Ia direto da escola para lá, então vinha para casa.
— Sozinha?
Renesmee me encarou, nós duas sabíamos que aquilo não era nada demais para os padrões de Charlie.
— Sim — confirmou. — Você vai embora de novo, não é? — ela perguntou antes que eu saísse de lá. — Vai embora como Renée foi.
O rosto dela estava mais uma vez tomado por lágrimas, mas ela parecia não ligar para nenhuma delas.
— Sim, eu vou embora.
— É, você sempre vai embora — Renesmee sussurrou.
Fui até ela, sentando-me ao seu lado.
— Você quer que eu fique? — consegui perguntar, sentindo minhas próprias lágrimas em meu rosto, mas eu sabia que não era um choro atrasado por Charlie.
Renesmee não respondeu, apenas largou o collant, a agulha e a linha de lado, encaixando sua cabeça em meu ombro, abraçando-me forte. Envolvi seu pequeno corpo em meus braços, agarrando-me a minha irmã caçula.
Fale com o autor