Amargo Lar
7 Capítulo Seis — Passado
Notas iniciais

Edward Masen
Ter Jasper por perto significava rir, eu conseguia imaginar como ele e Emmett juntos iriam ser uma boa dupla, mas faria com que se encontrassem algum dia, eu precisava de mais risadas. O almoço foi tão divertido e maravilhoso — tia Esme realmente caprichou aquele dia —, que por aquele tempo consegui manter minha mente longe do trabalho e da pequena Ariel, em algum canto da cidade, enterrando o corpo do pai morto.
— Você não pretende cortar o cabelo? — tia Esme perguntou ao filho enquanto comiamos seu pudim de chocolate, Carlisle revirou os olhos, servindo-se com mais um pouco do doce. Ele já tinha desistido de entender as roupas e estilo de Jasper tinha muito tempo, não era muito contente com nada daquilo, mas ficava de boca calada. Mas, tia Esme não conseguia, ficar quieta não era de sua natureza.
— Não — Jasper respondeu, sem perder o sorriso em seu rosto, tia Esme bufou, seus dedos batucando sobre a superfície da mesa, enquanto encarava o coque do filho. — Mamãe, calma, parece que estou com um galo na cabeça, meu cabelo está apenas grande.
— Eu poderia cortá-lo — ela o ignorou, continuando a falar. — Podemos fazer isso agora mesmo.
Lancei um olhar de pena a Jasper, ele teria de aturar a insistência de Esme sobre seu cabelo durante todo o tempo que ficasse na cidade.
— Quanto tempo vai ficar aqui? — perguntei, percebendo que ninguém tinha tocado naquele assunto.
— Ah, não faço ideia. — Jasper deu de ombros, lá estava o motivo de ninguém ter perguntado nada antes, ele nunca tinha precisão com seu tempo de permanência em qualquer lugar que fosse. — Talvez uma semana.
— Você está de brincadeira? Isso é pouco tempo! — Esme exclamou.
— É que eu estava pensando em seguir caminho para...
— Não estou nem ai quanto seu próximo destino, você não vai, irá ficar pelo menos por um mês em Forks — Esme ordenou e o sorriso de Jasper morreu, mas não por irritação, ele só estava sendo obediente e mantendo-se em postura de respeito. Até mesmo ele, ocasionalmente, sabia que obedecer Esme era mais seguro. Talvez ele estivesse com medo da mãe invadir seu quarto durante a madrugada e cortar seu cabelo, era algo que eu podia imaginá-la fazendo.
— E ai, compôs algo novo ultimamente? — Carlisle perguntou a Jasper.
— Não muito, estou sem inspiração para música. — Suspirou. — Preciso de uma garota nova que me inspire, Eddye, alguém para me apresentar?
Eu ri, a última vez que estive com uma garota foi três meses antes e, eu precisei de Emmett e Rosalie arrumarem um encontro para que eu pudesse estar com ela. E, duas semanas depois do nosso breve romance, ela disse que sentia muito, mas acompanhar meu ritmo era impossível. Pelo menos eu tive sexo e, foi bom. Rose ganhou uma cesta de café da manhã e Emm uma gravata — que ele odiou —, como agradecimento pela grande ajuda deles.
— Não — respondi baixinho, remexendo meu pudim, foi a vez de Esme suspirar.
— Deus, Edward precisa de uma garota e Jasper de um corte de cabelo, por que você não colabora um pouco comigo? Sei que eu sou totalmente irregular com a igreja, mas sou uma boa cristã — ela falou olhando para o alto, o que fez Carlisle gargalhar, segurar na mão da esposa e depositar um beijo ali.
Eles eram um casal exemplar, o tipo de pessoas que você realmente se espelharia para ter um romance.
Quando minha mãe entrou para a faculdade, ela conheceu tio Carlisle e algo nele fez Elizabeth perceber que seria o cara certo para a irmã mais nova. O aniversário de Esme chegou e, mamãe convidou Carlisle para a festa, apresentando um ao outro, foi amor à primeira vista, como tia Esme sempre gostava de dizer.
— Eu me apaixonei por ele no mesmo instante que o vi entrar na sala.
Eles estavam juntos desde então, passando de namorados para noivos rapidamente, então, para marido e mulher em uma velocidade igualmente rápida. Jasper veio alguns anos depois, enchendo a casa deles de alegria.
Enquanto meus tios se apaixonavam ao primeiro olhar, com todo o romantismo possível, meus pais seguiram por um caminho bem diferente. Papai era dois anos mais velho que mamãe e, eles se conheceram ainda na escola. Ela era uma caloura que queria muito aproveitar cada momento do colegial e, ele era o cara nerd e tinha um cargo de aluno inspetor, que estava disposto a manter os mais novos na linha.
Mamãe estava namorando, com um cara que tia Esme dizia que tinha um topete do Elvis Presley e, um dia beijou o namorado na frente de papai e de outros alunos. Aquilo naquela época era totalmente proibido em território da escola, então meu pai como bom seguidor de regras deu advertências à mamãe e a seu namorado.
E, papai ganhou uma inimiga mortal ao colocar mamãe em maus lençóis. Ninguém deveria enfrentar Elizabeth, era uma grande verdade. Eles tinham se desentendido pelo resto do tempo de papai no colegial, mamãe fazia de tudo para aborrecê-lo e, papai sempre cedia as provocações dela.
Até que no baile de formatura dele, mamãe que estava presente, lhe pediu uma dança. Mesmo assustado com o pedido da garota de cabelos acobreados que ele pensava que o odiava, papai aceitou e mamãe o beijou na frente de todos que estavam ali.
Desde então eles não se separaram mais e, mamãe finalmente teve notas melhores em literatura inglesa graças à ajuda do namorado. Eu vim pouco tempo depois, um pequeno desvio de rota dos planos deles de primeiro se estabelecerem financeiramente e de terem carreiras sólidas, mamãe nem tinha terminado a faculdade, mas eles nunca demonstraram que eu era mal vindo, nem nada do tipo. Sabia que meus pais me amavam, eu os amava muito e, era todo esse amor interrompido bruscamente que me deixava tão mal.
— Edward? — Carlisle me chamou, enquanto Esme e Jasper riam de mais uma história de estrada dele. — Tudo bem? — perguntou olhando em meus olhos.
Concordei com um aceno de cabeça, pensar em meus pais nem sempre era algo muito fácil, eu sempre corria o risco de terminar melancólico.
— Você tem certeza?
— Só cansado — menti, largando o resto do pudim sobre a mesa. — Acho que vou para casa dormir um pouco.
— Ei, não, ainda é cedo — tia Esme falou ao ouvir minha conversa com o marido. — Você pode subir e dormir lá em cima, sabe que minha casa e de Carlisle sempre será sua também, querido.
— Eu sei. — Forcei um sorriso para ela. — Só preciso mesmo ir para casa, tia. Não posso deixar vovô tanto tempo só, de qualquer forma. — Levantei. — Vejo você depois, cara, é bom tê-lo por perto — falei para Jasper.
— Cheque sua agenda, doutor Masen — ele disse. — Iremos atrás de garotas em breve.
— Jasper, garotas não são mercadorias para você falar delas desse jeito. — Tia Esme deu um tapa em sua cabeça.
— Desculpe-me, mamãe. — Ele depositou um beijo na bochecha dela, enquanto Carlisle lançava um doce sorriso a eles e, eu me senti um invasor, como uma hora ou outra eu acabava me sentindo entre os três.
— Eu realmente preciso ir. — Tirei as chaves do carro de Esme do bolso da calça, colocando sobre a mesa.
— Você pode levar meu carro, Edward — Esme disse. — Posso pegar uma carona com Carlisle outra hora e buscá-lo.
— Acho que preciso de uma caminhada.
Despedi-me apressadamente deles, antes que eu cedesse ali mesmo. A casa de Carlisle e Esme era praticamente dentro da floresta que cercava a cidade, então eu teria um bom tempo andando até minha própria casa, o que me faria pensar demais.
A chuva em Forks era algo bem comum, então não me surpreendi quando a garoa começou, forçando-me a puxar o capuz do moletom cinza que eu usava para cima da cabeça. Eu não odiava Forks, mas estar ali era como se não tivesse mais lugar algum no mundo fora aquela cidade.
Mas que escolhas eu tinha? Era um médico novo, eu precisava de um emprego e Carlisle fez muito por mim conseguindo um no mesmo lugar que ele. Carlisle e Esme quiseram fugir da agitação de Chicago alguns anos antes e, ele conseguiu um bom lugar na equipe do hospital em Forks.
Tia Esme tinha se apaixonado pelo lugar com muita facilidade, era um lugar tranquilo, familiar e que ela e o marido poderiam ficar na paz que tanto queriam. Enquanto o marido estava no hospital, ela fazia um milhão de coisas, pois assim como Jasper, Esme era cheia de especialidades. Ela sabia pintar e desenhar — foi quem ensinou isso ao filho —, cozinhar e várias outras coisas, em Forks encontrou seu lugar podendo fazer um pouco de tudo, tendo encontros de clube do livro na biblioteca, pintando e desenhando, ela era feliz ali ao se modo.
Eu não sabia se sairia de Forks um dia, não era minha intenção permanecer ali pelo resto da minha vida quando consegui o emprego, mas, era próximo aos meus tios e vovô tinha um local realmente tranquilo para estar. Mas, eu sentia saudade da Califórnia, de San Diego.
Eu morei ali com meus pais por anos, então foi o local para onde voltei para a faculdade. Eu gostava do calor, eu gostava de estar no lugar onde passei a maior parte do meu curto tempo com meus pais, era como se eles estivessem naquelas ruas, como se eu fosse voltar para casa e eles surgiriam. Papai querendo me mostrar algum livro de algum autor inglês e, mamãe querendo pentear meu cabelo.
Parei de andar quando um carro em alta velocidade passou por mim, o barulho de rodas sobre a pista molhada fazendo com que eu fosse transportado para anos atrás. Quando o acidente aconteceu, quando eu só conseguia pensar que morreria, então, horas depois quando acordei e tudo que quis era realmente ter morrido naquele acidente.
Puxei o capuz para longe da minha cabeça, deixando com que a chuva já forte, molhasse minha cabeça e rosto. Então, eu corri, querendo tirar a tensão do corpo. Querendo tirar meus pais da minha mente por um minuto, mesmo sabendo que eles sempre estariam ali e que nem sempre eu me lembraria deles com um sorriso no rosto.
Eu fui um babaca mentiroso com Ariel no dia anterior quando disse que seria sincero, eu não tinha sido tão forte quanto disse a ela que fui. Todo aquele tempo depois e, eu ainda me sentia fraco em muitos momentos.
Mas eu tinha uma corrida para aquele dia e, talvez ela me fizesse sentir melhor.
***
Eu fui convidado — e com convidado quero dizer intimado — a ir jantar na casa dos McCarty aquela noite. Quando cheguei em casa molhado da cabeça aos pés no meio da tarde, Emmett que voltava do trabalho mandou eu descansar e deixar o jantar por conta deles e, ele falou aquilo no mesmo tom que usava quando queria ser sério com o filho, então eu me vi concordando ir jantar com ele e a família.
Vovô tinha ido dormir cedo, então apenas certifiquei-me que ele estava bem e fui para a casa ao lado. Já estava melhor, eu me sentia melhor, apenas com as pernas absurdamente cansadas depois de ter corrido tanto.
— Ah, olha quem chegou Jane, seu queridinho! — Rosalie exclamou quando abriu a porta com a filha no colo. Jane sorriu para mim, com seus dentinhos aparecendo, então começou a estender os braços para mim, rapidamente a peguei, entrando na casa. — Você está bem? — Rose perguntou, avaliando meu rosto.
— Sim. — Ela revirou os olhos para minha resposta. — Estou bem agora — refiz minha resposta. — Só estava com a mente no passado. — Rosalie assentiu, ela sabia o que aquilo queria dizer. Eu tinha jogado tudo sobre ela e Emmett quando eles mesmos me contaram sobre suas verdades, foi quando nós três percebemos que éramos mais do que vizinhos, sim amigos.
— Se quiser conversar...
— Não, não quero — a interrompi. — Eu não quero trazer tudo à tona de novo.
— Sei como é — ela disse, conduzindo-me para o interior da casa até a sala.
Emmett e o filho estavam ali, jogando vídeo-game, tão ocupados que apenas disseram um oi rápido, quando eu segui com Rose até a cozinha, com Jane brincando com meu cabelo.
— Como foi o dia no zoológico, Jane? — perguntei a ela, enquanto Rose cuidava do jantar. — Qual animal mais gostou? — Meu monologo não atraia a atenção dela, Jane gostava mesmo de bagunçar meu cabelo.
Ouvi Rose rir, então me virei para ela.
— O quê?
— Alec, ele quis entrar na jaula do Urso, para descobrir porque Emm e eu nos chamamos como ursos. Ele pensou que éramos parentes ou algo assim, Deus, eu ri tanto quando ele falou isso.
— Viu? Eu falei que esses apelidos iam deixar marcas irreversíveis na cabeça dele. Peça a sua mamãe para parar de usar esses apelidos antes que eles te atinjam também, Jane — falei com a garotinha, ganhando um olhar maligno de Rose, mas logo ela estava rindo de novo.
Enquanto ela voltava a preparação do jantar, eu fiquei pela cozinha que era acoplada a sala de jantar, conversando com Jane, que tinha um vocabulário bem limitado, mas era bem esperta no quesito bagunçar cabelo e apertar nariz.
— Você precisa de filhos — Rose disse enquanto arrumava a mesa.
— Está pensando em me dar Jane? Podemos tratar disso agora mesmo — brinquei.
— Não, seus próprios filhos — ela falou, dando um beijo na bochecha da filha. — Eu arrancaria a cabeça de quem tentasse levar os meus para longe de mim e, você é um vizinho que não faz barulho como os anteriores, odiaria ter que matá-lo.
— E me enterrar no cemitério de peixes que você tem em seu quintal? O que acha que a polícia pensaria se fosse até lá e visse que você tem vários ossinhos, será que eles pensariam que você é algum tipo de bruxa?
— Não me distraia, eu disse que você precisa de filhos. — Voltou ao assunto inicial.
— Por que estamos falando sobre isso?
— Porque para ter filhos, você antes precisa de uma garota...
— Rose...
—...E, eu acho que você realmente precisa de uma...
— Rosalie...
—...Tem a nova professora de Alec, Ângela, ela é filha do pastor Weber. Edward, ela é um doce! — afirmou, sorrindo para mim em expectativa. — E simpática, você irá adorá-la e, sendo professora é obviamente inteligente.
— E você já pensou em tudo, não é?
— Não, ainda não — Rose afirmou. — Mas você poderia ir buscar Alec na escola qualquer dia, então poderia conversar com ela e ver o que acha.
— Eu acho que você está querendo me usar para ser o motorista do seu filho.
Rosalie gargalhou, terminando de arrumar a mesa.
— Bom, isso não é uma má ideia. Você pode fazer os dois, dar carona a Alec e conseguir um encontro.
— Vamos deixar a ideia em pausa, okay?
Rose estava pronta para continuar falando sobre Ângela, mas acabou concordando com meu pedido. Ela chamou por Alec e o marido, então logo nós quatro estávamos sentados à mesa, enquanto Jane estava em sua cadeirinha, ao lado da mãe, apenas nos observando jantar uma vez que tinha sua refeição primeiro do que todos, uma garota de sorte.
Alec, sentado ao meu lado, decidiu narrar todo o passeio ao zoológico ao pai e consecutivamente para mim. Não foi preciso de muito para saber que ele tinha adorado, uma vez que falava de tudo com muita animação, o que por tabela o fez comer sem criar problemas como estava acontecendo nos últimos tempos.
Distração era a palavra.
— Eu posso ter uma girafa de estimação, papai? — ele perguntou a Emmett, que riu.
— Sua mãe não teria espaço para enterrar uma no quintal, Alec. — Rose encarou o marido de forma mortal, mas não disse nada, deixando a brincadeira passar.
Quando Alec acabou o jantar, o que fez Rose dar um sorriso orgulhoso, ele ganhou permissão para voltar ao vídeo-game e, ela foi colocar Jane para dormir. Deixando a mim e Emmett repetindo o jantar pelo que parecia ser a terceira vez.
— Eu tenho a manhã livre amanhã, podemos ensinar Alec com o lance do basquete — falei.
— Ah, não vai dar, eu tenho trabalho.
— Em um domingo? Pensei que o louco dos horários era eu.
Rose estava de volta, recolhendo a louça suja até a cozinha.
— É um caso complicado — Emm falou. — E Mike me largou aqui com esse belo problema. — Bufou, Rose na cozinha fazia muito barulho com as louças, então supus que ela devia estar raivosa pelo fato do marido estar saindo para trabalhar em um domingo. — Um cara morreu e, eu tenho que tratar da guarda da filha dele — continuou a falar, então o encarei, enquanto Rose parecia prestes a quebrar algo na cozinha.
Quantos caras tinham morrido recentemente, deixado uma filha que precisava de sua guarda sendo cuidada por um advogado, em Forks?
— Qual o nome do cara? — indaguei.
— Charlie Swan — Emmett respondeu.
— Você o conheceu? — Rosalie estava de volta à sala de jantar, o rosto vermelho, ela definitivamente estava com raiva.
— Não, ele era paciente de Carlisle — respondi. — Mas, eu conheci a filha dele.
— Isabella? — Emmett questionou.
— Não — neguei. — Renesmee.
— Você a conheceu? — Rose perguntou em um tom gentil, seus olhos brilhando com lágrimas, ela se sentou, olhando diretamente para mim.
— Você a conhece?
— Sim, ela é minha aluna — contou, Rose era professora de balé, logo Ariel também era uma bailarina, o que por um segundo me fez sorrir. — Eu estou tão revoltada com o que está acontecendo com ela, bem depois de perder o pai. — Emmett afagou o braço da esposa querendo acalmá-la.
— O que está acontecendo? — perguntei, mesmo suspeitando o que era.
— A irmã mais velha dela, a única parente que poderia ficar com Renesmee, não vai aceitar ser a tutora — Emmett contou. — Ela vai até o escritório amanhã assinar alguns papeis para abrir mão da guarda, então Renesmee vai ser responsabilidade do estado.
— Ela vai para um orfanato? — Emmett assentiu, eu senti-me enjoado, passando a mão pelos cabelos e os puxando de leve como se aquilo fosse o suficiente para colocar meus pensamentos em ordem. Quando meus pais morreram, enquanto eu estava sozinho no hospital esperando para saber o que seria da minha vida, eu pensei que iria para um orfanato. Não esperava que meus tios, ou vovô Samuel fossem se importar o suficiente comigo para me levar para outro lugar, então ir para um abrigo era o que eu pensei que aconteceria.
E, a ideia de ir para um não era nada agradável, era terrível e eu me sentia disposto a fugir se aquilo realmente ocorresse.
— Ela é só uma menina, como a irmã dela pode ser tão má deixando-a ir para um orfanato? — indaguei irritado. Se eu tivesse um irmão mais novo nas mesmas condições de Ariel eu não teria pensado duas vezes em ficar com ele, o mundo poderia ser uma droga, mas uma criança sempre mereceria carinho e amor.
— Eu sei, é horrível — Emm disse.
— Horrível não é a palavra certa, isso é uma...Nem quero usar palavrões. — Rose cruzou os braços. — Eu queria ter ido ao enterro para vê-la, mas só fiquei sabendo da morte do pai dela essa tarde quando Emmett me contou a situação. Renesmee é uma menina maravilhosa, ela não merece ir parar em um orfanato. — Olhei para Rose, eu sabia como o assunto adoção e abandono eram delicados para ela, a mente dela devia estar tão confusa quanto a minha com tudo aquilo. — Como a conheceu?
— Ela estava chorando na pediatria, depois de receber a noticia da morte do pai — respondi. — Você está certa, Rose, é uma menina maravilhosa. — Ela assentiu, com lágrimas em seus olhos. — Não há nada que possamos fazer? — questionei Emmett.
— Não podemos obrigar a irmã a ficar com ela, Edward.
Engoli em seco, pensando que era definitivo, Ariel estava indo para um orfanato e, eu não podia impedir aquilo. E, me senti um inútil.
***
Voltar para casa e dormir depois daquilo não foi nada fácil, eu estava pilhado com toda a história de Ariel e fazer minha mente parar de pensar nela parecia impossível. Eu não tinha ideia de como poder ajudá-la, não era como simplesmente pudesse adotá-la ou algo do tipo.
Eu tinha trinta anos, uma rotina de trabalho que mal me deixava dormir, era solteiro e vovô dependia de mim. Ninguém daria a guarda dela para mim só porque eu fui um cara bonzinho com ela durante alguns minutos, as coisas não funcionavam dessa forma. Além do mais, não era como se eu estivesse pronto para ser um pai, principalmente sem uma mulher ao meu lado que pudesse ser a mãe.
— Hey garoto! — Vovô entrou na cozinha na manhã seguinte, o som de sua bengala contra o chão despertando-me dos meus pensamentos.
— Ei, bom dia vovô. — Coloquei mais café em minha xícara, era a única coisa decente que eu sabia fazer na cozinha. Quando deixei Chicago para me mudar para San Diego novamente, daquela vez para a faculdade, tia Esme tentou me ensinar a cozinhar para que eu sobrevivesse sem precisar de comida congelada, mas não deu muito certo.
— Vai trabalhar hoje?
— Vou, mas meu plantão só começa no meio da tarde — respondi. — E você? Algum plano para o dia?
— Não, isso é o prazer de ser velho, eu não tenho responsabilidades. — Vovô se serviu de um pouco de café.
— Que inveja! — exclamei, vendo-o sorrir.
— Podemos jogar xadrez quando eu voltar, Rosalie vai ao supermercado e vou aproveitar para fazer compras para cá também — falei, levantando e deixando a xícara suja na pia.
— Vá lá. — Vovô já não prestava atenção em mim, concentrado no jornal.
Toquei em seu ombro, então segui para fora, Rosalie já colocava Jane em sua cadeirinha no banco de trás do carro.
— Será apenas nós três na missão de ir fazer compras, Alec foi passar o dia na casa dos Biers com Riley, se lembra dele? O garotinho que enfiou a tapa de uma caneta na orelha?
— Sim. — Eu ri. — Emmett já saiu?
— Já, Isabella Swan ligou meia hora atrás e ele foi encontrar com ela no escritório — Rose respondeu, o rosto preso em uma expressão dura. — Eu quis ir junto, mas ele não deixou.
— É, você seria capaz de bater nela — comentei, Jane ouviu minha voz e quis vir para meu colo. Ela me amava, eu a amava também, era como se fosse da minha própria família.
Rose era como uma irmã para mim, mesmo sendo dois anos mais nova, parecia a irmã mais velha que eu nunca tinha tido, sempre me ajudando em tudo e, sendo como uma mãe, mas ao mesmo tempo me tratando como um amigo. O modelo de irmã que eu tinha em mente, o mesmo jeito que mamãe tratava Esme sendo sua caçula. Dando broncas, cuidando, mas também a tratando como uma amiga. O tipo de irmã que Isabella Swan nunca seria para Ariel.
— Eu queria poder ajudá-la — desabafei, fazendo Rose me olhar.
— Sim, queria poder ficar com ela — Rose disse, enquanto ia para o banco do motorista e eu ia para o do carona. Ligou o carro, o motor da minivan rugindo silenciosamente enquanto ela seguia pelas ruas tranquilas na manhã de domingo em Forks. — Mas não é como se eu pudesse, não é? — Retomou o assunto. — Quero dizer, eu tenho dois filhos. Alec já tem dez anos, mas ainda é dependente de mim e, Jane é apenas uma garotinha de um ano. Eu me sinto péssima por não ter como cuidar dela, a menina me conquistou no mesmo instante que a vi.
— Não se sinta, você não tem culpa pelo que está acontecendo com ela. — Olhei pela janela, vendo as casas passarem como um borrão por mim.
— Ela vai para um orfanato, Deus, eu não consigo imaginá-la caindo de paraquedas em um lugar tão diferente.
— Quem sabe a irmã mude de ideia — falei, mesmo tendo quase cem por cento de certeza de que aquilo seria impossível.
— Não, ela não vai. Emm disse que ela estava bem decidida e, que quer vender a casa, pegar o dinheiro e se mandar.
— Ela é tão...Eu nem tenho palavras para isso.
Rose apenas assentiu, entendendo como eu me sentia.
Nós logo chegamos ao supermercado, que estava praticamente vazio. Rose pegou um grande carrinho para suas compras, enquanto eu ficava com um menor para as minhas, tinha tempo que eu não abastecia a casa, então ela precisava de todo tipo de coisa.
A comida de vovô, que devia seguir uma dieta, era feita por mim em grandes quantidades e congeladas para que ele pudesse apenas esquentá-la e comer enquanto eu estivesse fora. E, o bom de não ser um profissional na cozinha era que a comida sempre saia com a medida exata de sal que ele podia comer, ou seja, nenhum.
Ele ficava só em casa enquanto eu estava no trabalho, mas de segunda-feira a sexta-feira recebia todas as tardes a visita de sua fisioterapeuta. Rose, quando conseguia um tempo entre os filhos, sua própria casa e o trabalho, ia checar vovô para mim. Era como funcionávamos, eu ajudava ela e Emmett como podia com Alec e Jane, enquanto eles me ajudava com vovô.
No começo de tudo aquilo, eu fiquei morrendo de medo de Emmett pensar que eu estava dando em cima de Rosalie por a ajudar e pedir sua ajuda. Ele era um cara grande e, que saberia quebrar minha cara. Mas, ele não tinha ciúmes de mim e, deve ter percebido que eu não estava tentando roubar sua esposa, não que Rose não fosse bonita, ela era, mas realmente não a enxergava como uma mulher que eu fosse querer ter comigo.
Eu estava com Jane em meu colo, enquanto Rose escolhia frutas, determinada a fazer o filho mais velho passar a ter uma alimentação melhor. Jane e eu estávamos tendo um bom tempo, com ela rindo para cada careta que eu fazia, enquanto seus cabelo loiro balançava no rabo de cavalo que usava.
— Eu odeio maças, será que Alec pode ter herdado isso de mim? — Rose me indagou, enquanto avaliava uma maça verde.
— Não me lembro de ter estudado isso em genética, mas se você sábia acha que é possível, eu formado em medicina não discutirei — comentei, ganhando uma cotovelada dela. — Ai, para uma bailarina você é bem agressiva.
— Vá buscar fraldas para Jane — mandou.
— Não sou seu escravo, Rosalie McCarty, mas sou seu Jane. — Beijei a bochecha da loirinha. — Vamos buscar fraldas para cobrir seu bumbum.
— E suportar o cocô fedido dela.
— Que blasfêmia, Jane não tem cocô fedido.
— Aham, continue pensando assim — Rose falou, passando a atenção para as maças vermelhas. — Eu realmente acho que Alec odeia maças como eu. — Ela continuava em seu dilema quando me afastei com Jane até o corredor onde ficavam as fraldas e demais produtos infantis e para bebês.
— Então, Jane, qual fralda você deseja? Bom, qualquer uma que segure seu cocô fedido deve servir, né?
Uma garota, parada próxima a gôndola ao lado, onde ficavam sabonetes e shampoos, riu. A risada dela era linda e, eu nunca achei a risada de um adulto bonita antes. Olhei para ela, que estava com o cabelo castanho avermelhado tapando o lado do seu rosto esquerdo que estava voltado para mim, impedindo que eu visse sua face. Mas, ela era bem mais baixa do que eu, magra e parecia frágil, os ombros curvados a faziam parecer mais vulnerável ainda.
Voltei minha atenção para as fraldas, arrependido de não ter perguntado a Rose quais eram as que Jane usava. Estava tentando decidir, quando ouvi uma voz praticamente cantar no corredor.
— Bells, eu não sei qual escolher.
Levantei na hora, estava agachado vendo as prateleiras mais baixas com as fraldas, quando reconheci a voz. E, lá estava ela, usando um vestido cinza, com um casaco por cima, o cabelo tão cacheado quanto eu me lembrava e segurando um pacote de biscoitos em cada mão.
— Edward! — ela exclamou surpresa a me ver, a garota da risada virou para mim e por estarmos apenas nós três ali soube que era com ela que Ariel estava falando antes, além do grande fato que os olhos dela eram idênticos aos da garotinha em pé ali com duvida sobre qual biscoito escolher. Na verdade, o rosto de uma era muito parecido com a da outra, mas a mais velha tinha uma palidez que lhe deixava parecendo doente.
Aquela era a irmã de Ariel, eu tinha certeza.
— Ariel! — Sorri, indo até ela e lhe dando um abraço desajeitado por eu estar com Jane em meu colo.
Ariel abraçou-me com força, seu perfume de baunilha sendo um grande agrado para aquela manhã.
— Renesmee! — Ouvi a garota da risada.
Ariel me soltou, virando para ela.
— Bells, esse é o Edward — contou empolgada. — Edward, Bells é minha irmã mais velha!
É, a irmã mais velha que estava prestes a mandá-la para um orfanato!
— Renesmee, nós precisamos ir. — Ela segurou no braço da irmã, então segurei em seu ombro, detendo-a de sair, eu precisava falar com ela, pedir que pensasse melhor sobre abrir mão da guarda. — Me solte! — ela gritou alarmada, tirando minha mão dela, colocando Ariel atrás do seu corpo.
— Me desculpe — pedi confuso.
— Eu não te conheço, então não me toque! — exclamou, os olhos cor de chocolate me encarando com raiva. — E não toque na minha irmã também, entendeu?
— Bells, Edward é legal, eu juro — Ariel murmurou.
A mais velha não deu importância, me encarando uma última vez antes de levar Ariel para longe de mim.
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