Amargo Lar
6 Capítulo Cinco — Medo
Notas iniciais

Isabella Swan
Eu a mantive em meus braços, não queria soltá-la, não queria deixar o cheiro de baunilha ir para longe de mim. Era tão doce, fazia parecer que o mundo inteiro ao meu redor era assim, não cheio de amargura.
— Eu não quero que você vá, Bells — Nessie sussurrou, fazendo com que eu soluçasse em meio ao meu choro. — Não quero ficar sozinha, estou com medo.
Eu também estava, eu morria de medo, no momento que Renée foi embora em plena véspera de Natal soube que nunca mais saberia como era viver sem medo. Medo de Charlie ir para longe também, de James me largar, medo de ser abandonada, como fui por Renée, por todos que me cercavam.
Ergui o rosto de Nessie, vendo-o tomado por lágrimas e completamente vermelho. Ela era tão parecida comigo e tinha tanta dor em seus olhos, eu não podia deixá-la de novo, não conseguiria, não queria.
— Bells, por favor — implorou, chorando alto.
— Não chore, pequena, por favor. — Foi minha vez de implorar, passando minhas mãos por seu rosto, limpando-o das lágrimas. — Vai ficar tudo bem — prometi, mesmo com receio de não conseguir cumprir qualquer promessa.
— Você não vai embora? — Ela me encarou com os olhos brilhantes.
— Não, eu não vou. — Beijei sua testa, sabia as consequências das minhas palavras, o que aquilo causaria, James iria ficar maluco. Mas eu não podia deixar a única família que me restava para trás, Renesmee precisava de mim.
Peguei o collant e a agulha com a linha que ela tinha deixado de lado, vendo o olhar curioso de Renesmee sobre mim, mas ela se manteve em silêncio.
— Você está fazendo isso errado — murmurei, mostrando a costura na lateral da peça. — Os pontos devem ficar no lado avesso da roupa — expliquei, começando a desfazer a costura dela. — Ou eles vão aparecer, você não quer que apareça não é?
— Não — Renesmee respondeu baixinho, prestando atenção em minhas mãos abrindo os pontos. — É uma linha preta, isso tem problema? — perguntou preocupada por conta do collant ser rosa.
Nossos rostos ainda estavam molhados pelas recentes lágrimas, mas não falamos sobre aquilo.
— Não, eu vou dar um jeito de não deixar com que eles apareçam no tecido rosa. Quem te ensinou a costurar?
— Eu aprendi sozinha. — Deu de ombros. — Uma vez minha calça jeans de ir para a escola rasgou e, eu não tinha outra. Papai falou que ou eu dava um jeito naquilo, ou eu iria com o bumbum de fora.
Por pouco não espetei meu dedo com a agulha ao ouvir aquilo.
— Com quem você aprendeu? — Foi a vez dela de perguntar.
— Sozinha também. — Costurei rapidamente, era apenas um rasgo simples na costura anterior. — Então, você é uma bailarina? — perguntei, terminando de costurar. — Sabe dar todos aqueles saltos?
— Alguns — falou envergonhada. — Eu ainda estou aprendendo, não sou perfeita. — Assenti, então senti mais lágrimas em meus olhos e, foi impossível contê-las. — Bells, não chore, por favor — Renesmee pediu como eu tinha pedido a ela anteriormente.
— Me desculpe. — Ela segurou em minha mão, a sua era pequena e macia. — Eu não devia ter pensado em ir embora de novo, Renesmee, isso foi cruel. Também estou com medo, não sei o que fazer, não sei como cuidar de você. — Olhei para o chão, enquanto as lágrimas vinham sem parar, molhando o piso. Eu não tinha um emprego, não sabia como manter uma criança e ainda existia a divida do hospital, estava surtando.
— Eu não mordo — Renesmee falou, fazendo com que eu risse e a ouvi rir também.
Levantei o rosto, a observando olhando para mim em expectativa.
— Vou entender se você quiser ir embora...
— Não vou — a interrompi, limpei meu rosto com a manga da camisa, então fiquei de pé, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar. — Eu vou preparar algo para comermos, você pode ir tomar um banho enquanto isso.
Ela concordou com um aceno de cabeça, eu tinha dado o primeiro passo até a porta, quando ela se agarrou a mim novamente. Eu não era tão alta, mas Renesmee ainda era só uma criança, logo baixinha, o que fez com que ela se perdesse em meus braços, o rosto mal chegando ao meu busto.
— Obrigada por ficar, Bells — agradeceu, então me soltou e correu do seu próprio quarto até o banheiro.
Suspirei, saindo de lá até o andar inferior. Peguei meu celular com as mãos trêmulas, enquanto discava o número de James. Foram pelo menos dez ligações, mas ele não atendia nenhuma e, o celular estava desligado, eu estava apavorada com o que tinha acontecido que estava o mantendo impossibilitado de atender. Pensei em ligar para alguns de seus amigos, mas James era contra isso, ele odiava quando eu ligava para os outros atrás dele e, sempre me mandava ficar longe dos seus amigos homens.
Bella: James, eu preciso falar com você, por favor, me atenda.
Bella: Baby, você está bem?
Comecei a lhe enviar mensagens.
Como eu lidaria com aquilo? Como ele lidaria com aquilo?
James poderia ser compreensível se eu explicasse a situação, não é? Ele poderia entender que eu não podia deixar Renesmee em um orfanato, que ela estava aterrorizada de medo, que precisava de ajuda e que eu era a única pessoa que podia ajudá-la.
Nós poderíamos entregar o apartamento em Seattle e nos mudar para Forks com Renesmee, era uma droga de cidade que eu odiava, mas a gente podia conseguir empregos, depois nós três poderíamos dar o fora dali. Ele me amava, ele podia fazer aquilo por mim, não é?
Bella: Baby, eu preciso de você!
Liguei mais algumas vezes, mas ele continuava sem atender, muito menos a responder as mensagens.
— Bells? — Renesmee entrou na sala, já de banho tomado e roupas trocadas, mostrando que eu estava ali tinha bastante tempo tentando me comunicar com meu namorado. Ela sempre me chamou de Bells, era na verdade estranho quando ela me chamava de Isabella, ou até mesmo Bella. Quando pequena era complicado demais para ela conseguir dizer meu nome, então me chamava daquele jeito em sua voz fina e que sempre soava como se ela estivesse cantando.
— Sim?
— Você disse que ia fazer algo para comermos.
— Ah merda, claro! — Sai do sofá, indo para a cozinha, com Renesmee me seguindo. — O que você quer comer? — perguntei enquanto abria os armários, o local precisava ser imediatamente reabastecido.
— Tanto faz — ela respondeu, apoiando os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos. — Você ainda sabe cozinhar macarrão com queijo? — perguntou, arqueei uma sobrancelha. — Lembro que o seu era mais gostoso do que o da Sarah.
Ela lembrava que eu estava sempre fazendo macarrão com queijo para o jantar? Ela era só uma garotinha quando eu fui embora, como ela podia lembrar?
— Sei sim — respondi, pegando um pacote de macarrão no armário e um pedaço de queijo na geladeira. Charlie tinha deixado para trás um local praticamente sem comida nenhuma, mas devidamente abastecido com caixas de cerveja.
Comecei a me movimentar pelo local para cozinhar, sentindo o olhar de Renesmee sobre mim. Antes de eu ir embora e, depois de Renée partir, naquele meio tempo, eu estava praticamente sempre só em casa. Ia à escola, então ficava ali o resto do dia deixando tudo em ordem para que Charlie não tivesse motivos para reclamar, cozinhar era uma das tarefas. Ele ficava uma fera se chegasse e não encontrasse comida feita, então eu sempre priorizava isso, deixando deveres de casa e as leituras dos livros que eu pegava na biblioteca municipal sempre como últimas opções.
Assim como costurar, cozinhar foi algo que tive de aprender sozinha. Quando Renée ainda fazia parte da minha vida, ela não era uma boa cozinheira, logo um péssimo exemplo a ser seguido. Nós sempre tínhamos algo queimado, sem sal ou duro quando ela cozinhava.
— Sue cozinhava para vocês? — perguntei a Renesmee, enquanto o macarrão já estava na água.
— Ela tem um restaurante, papai trazia comida de lá — contou.
— Ela tem um restaurante? — indaguei. — E quem se sujeita a comer lá com aquela cara de rata azeda dela? — Renesmee riu, suas bochechas ficando vermelhas, mas daquela vez não por conta de choro.
— A comida é boa, mas ela é uma chata mesmo — Renesmee declarou depois do riso. — Eu não suporto a filha dela.
— Ah sim, você falou sobre ela. — Nossos olhos se encontraram. — Não ligue para ela, Renesmee — falei. — Você não fede, na verdade você tem cheiro de baunilha que é uma das fragrâncias mais legais do mundo.
Ela sorriu, desviando o olhar para a superfície da mesa.
— Sue jogou fora meu leãozinho, você se lembra dele? — perguntou baixinho.
Claro que eu lembrava, Renesmee andava para baixo e para cima com ele. Na verdade, tinha sido um presente meu para ela, antes de Renée ir embora, eu tinha a acompanhado até uma loja que vendia roupas para bebês enquanto ela estava grávida e vi o leãozinho, insisti que ela o levasse para a minha irmã que nasceria em um mês. Renée não foi facilmente convencida, mas comprou o bichinho de pelúcia depois de ameaçar me bater na frente da dona da loja, que não tinha parecido nada contente com a ameaça.
Renée não se importava em me bater, ela não ligava mesmo. Quando estava furiosa demais e eu cruzava seu caminho, sua raiva sempre era descontada em mim.
— Ela jogou fora? — perguntei desacreditada a Renesmee.
— Sim, ela veio até aqui uma vez arrumar a casa e fez uma faxina geral. Encontrou o leãozinho no meu quarto e o jogou fora, dizendo que ele estava velho e sujo.
Minhas mãos se fecharam, com uma faca na direita. Sue era uma grande filha da puta, eu estava certa disso. Era fácil ver Charlie com ela.
— Então, balé — mudei de assunto. — Como isso aconteceu?
— O restaurante da Sue é ao lado do estúdio, na época ela ainda não estava com papai, mas ele sempre ia lá e uma vez me levou. Eu vi as meninas dançando e achei o máximo, a professora me chamou para entrar e ver melhor.
— Charlie?
— Ele odiou — sussurrou. — Não queria deixar que eu fizesse, muito menos pagar, mas ele acabou deixando. Acho que era para me ter longe. — Ela engoliu em seco, voltei minha atenção para o macarrão, eu sabia que era exatamente por aquilo que Charlie deixou uma Renesmee de apenas sete anos fazer balé, só para mantê-la longe a maior parte do tempo.
— Sua professora é bacana? — perguntei enquanto escorria o macarrão.
— Sim, ela é demais! — A voz dela ganhou um tom de empolgação. — Tia Rose é a melhor. Senti falta dela quando teve de se afastar para ter um bebê, mas agora já está de volta.
Renesmee logo estava colocando para fora tudo sobre o balé e, era muito simples perceber o quanto ela realmente gostava da dança. Contava tudo com um misto de adoração e felicidade em sua voz, como se seu mundo inteiro dependesse do balé.
Quando o macarrão com queijo ficou pronto, Renesmee ainda falava sobre a dança e eu ouvia o máximo que conseguia. Não parava de pensar em James, ele tinha de me responder ou me ligar logo, eu precisava falar com ele.
— Você quer assistir? — Ouvi o final da pergunta de Renesmee.
— O quê?
— Vai passar Toy Story, quer assistir? — perguntou tentando conter sua animação.
— Aquele dos bonecos que falam?
— Isso, aquele dos bonecos que falam — respondeu.
— Pode ser — concordei suspirando. — Vai indo para a sala, vou lavar a louça. — Recolhi os pratos, deixando a garota ir para a sala, logo eu estava lá, assistindo bonecos falantes que tinham muitas aventuras.
Renesmee não tirava os olhos da tela, enquanto eu checava de um em um minuto meu celular. Em algum instante entre ver o caubói e o astronauta brigando e, ver se James tinha me dado alguma noticia, peguei no sono ali mesmo no sofá, ouvindo a risada de Renesmee ao fundo.
Acordei sobressaltada com sons de alguém esmurrando a porta, uma rápida olhada no relógio do canto da televisão me mostrou que já se passava das onze da noite. Renesmee tinha dormido no sofá, mas também estava acordando com o barulho na porta.
— Vou ver quem é — falei para ela, que assentiu, coçando os olhos.
Fui até lá, onde o som de socos na porta era mais alto. Abri a porta, dando de cara com James, ele fumava, enquanto com a mão livre faltava derrubar a porta.
— Porra Isabella, você é surda, caralho? — ele gritou entrando na casa, indo para a sala.
— O que está fazendo aqui? — perguntei, o cheiro do cigarro fazendo meu nariz coçar.
Renesmee estava encolhida no sofá, olhando assustada para James.
Na luz o vi melhor, estava com o rosto completamente arrebentado. O lábio inferior cortado, o nariz roxo, um olho tão inchado que estava completamente fechado e o outro com o supercílio cortado.
— James, o que aconteceu com você? Ah, a luta de ontem! — exclamei, eu detestava quando ele voltava tão feriado.
— É, a luta! — debochou. — Vamos dar o fora, agora, Isabella! — Segurou em meu braço.
— O quê? Como assim? Eu não posso voltar a Seattle ainda.
— Não vamos para Seattle — ele disse. — Laurent está ai fora, ele vai nos dar uma carona para New York, mas precisamos ir agora.
— New York? Por que temos de ir para New York? — perguntei confusa, James soltou meu braço com um movimento brusco, dando mais uma tragada em seu cigarro antes de apagá-lo sobre a mesinha de centro da sala.
— Estou fodido, Isabella, você entende isso, porra? — gritou. — Não posso voltar para Seattle, ou vou acabar levando um tiro no meio da cara. Eu tenho que ir embora, não posso voltar para lá.
— Mas...
— Cala a boca! — Ele chutou a poltrona que tinha ali, fazendo com que eu puxasse o ar e não conseguisse soltar. — Vamos logo, nem precisa pegar suas coisas, eu fiz uma mala para você, só temos que cair fora daqui.
— James, o que aconteceu? — perguntei o mais calma possível, no sofá Renesmee ainda via a cena com pavor em seus olhos. — Nós podemos dar um jeito, você e eu podemos morar aqui, vamos resolver tudo, okay?
Os olhos claros dele me encararam, era como se fogo queimasse ali.
— Morar aqui?
— James, eu não posso deixá-la. — Os olhos dele se desviaram para Renesmee, então ele gargalhou.
— Que merda é essa, Isabella? — Eu fiquei entre ele e o sofá onde Renesmee estava sentada, mas ela levantou, ficando escondida atrás do meu corpo.
— James, ela é só uma menina, eu não posso deixá-la aqui — sussurrei, com medo de qual seria a reação dele.
— Que se foda ela, Isabella!
— James...
Ele veio para cima de mim, suas mãos agarrando-me na altura dos meus ombros sem medir sua força.
— Não sei o que você fumou, mas você sabe que ou fica com essa órfã, ou fica comigo, Isabella. Qual a bosta da sua escolha?
Eu estremeci, então senti a mão de Renesmee segurar na barra da minha roupa, foi quando percebi que já sabia muito bem a resposta para a pergunta de James.
— Ela, eu fico com ela.
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