Além da superfície.
40 É só um resfriado.
Notas iniciais
Três semanas se passaram. Rachel dedicava suas tardes de terça e quinta indo às sessões com Frannie. A morena mostrou progresso, não havia se cortado mais e está controlando melhor o seu humor. Bom, Quinn a ajuda. As duas se apegam mais a cada dia que passa. Quinn ainda se incomoda com o fato delas só ficarem em lugares escondidos e de poucas pessoas saberem sobre a relação das duas. Não que a relação delas tenha um nome. Esse é outro ponto que deixa a loira desconfortável. Elas nunca tiveram uma conversa sobre essa situação. Quinn não quer pressionar Rachel, ela sabe que a pequena não está segura o suficiente, que ainda tem seus medos.
Finn, por outro lado, não mede consequências para tentar reconquistar Rachel. O garoto cantou algumas músicas para ela na hora de Glee e até pediu ajuda a Quinn, alheio a tudo o que está acontecendo de verdade. Apesar do ciúme, a loira se controlou, dando uma desculpa formal de que precisava estudar. Mas, ela não era a única sentindo ciúmes. Joe, o nome integrante do clube, também é novo na cidade e parece encantado com Quinn. Sentou diversas vezes com elas na hora do almoço, puxando conversa com a loira. Rachel percebeu, mas preferiu não comentar nada. Ela não se sentia no direito de reclamar de algo. Quinn é solteira. É bonita. Claro que os homens, e mulheres, ficam loucos por elas. Se ela quer ou não, cabe a somente ela decidir. Por mais estranho que seja.
Ontem, o Glee clube ensaiou um número com água. Eles tiveram que passar mais de uma vez, para que todos acertassem a coreografia. O resultado foi bom. Professor Schue está decidido a tentar de tudo para mais uma vitória. Rachel e Quinn aproveitaram a oportunidade para ficarem sozinhas no vestiário. Como elas aproveitam, sempre que podem...
Por Rachel
Anoto mais algumas observações nas minhas partituras, enquanto tento acertar os tons certos das músicas. Meus ensaios durante os horários vagos estão surtindo efeito. Já consigo notar uma diferença maior em minha voz. Digo, nada do que eu não tenha feito antes. Mas, como fiquei muito tempo sem exercitar, acabei perdendo a prática. Eu sei que pra entrar em NYADA eu tenho que conseguir bem mais do que isso. Talvez eu precise de mais concentração. Ou talvez... Não seja mais possível. Eu perdi tempo demais. Suspiro pesado, esfregando os olhos.
Sinto alguém sentar no meu lado e sorrio ao reconhecer o cheiro. Quinn descansa a cabeça no meu ombro, fechando os olhos. Eu toco mais um pouco de piano, aproveitando o momento.
– Está com sono? – Sussurro. Ela assente.
– Não dormi direito. – Murmura.
– Por quê? – Franzo a testa, preocupada.
– Não me sentia bem. – Dá os ombros.
– O que você estava sentindo?
– Não sei, cansaço. – Ela deita no piano. – Acho que o ensaio de ontem me pegou.
– Você treina com as Cheerios por horas, pula, corre, se equilibra e não cansa tanto. – Tiro o cabelo de seu rosto. – Será que você vai adoecer?
– Hm... – Ela choraminga, puxando minha mão para sua cabeça, pedindo cafuné. Eu faço. – Não é nada. Eu só cansei mesmo.
– Quinn...
– Shhh... – Se aproxima. – Continue cantando.
Teimosa. Balanço a cabeça, mexendo em seu cabelo, enquanto cantarolo baixinho algumas músicas, fazendo Quinn adormecer. Sorrio, olhando-a. Ela parece realmente cansada, mas ainda é bonita. Seus traços são tão delicados, um desenho perfeito. Como ela pode gostar de alguém como eu? O toque nos chamando para as salas soa, assustando-a. Coloco uma mão em suas costas.
– Tudo bem?
– Sim. – Sorri. – Estava quase sonhando. – Beija minha mão. – Obrigada.
– Q, se você não se sentir bem...
– Já estou melhor, Rach. – Me interrompe. Eu viro os olhos, assentindo. – Vamos!
As aulas passaram devagar. Infelizmente, não tive nenhuma com as meninas. Mesmo que não tirem mais brincadeiras comigo, eu ainda me sinto desconfortável com algumas pessoas. Elas não falam mais por medo e não porque gostam de mim. Ainda percebo uns olhares estranhos, apenas finjo não notar pra evitar uma confusão maior.
A escolha das músicas para as Regionais ainda é tópico de discussão no Glee. Cada um diz uma coisa, como sempre. Antes que a reunião acabe, Blaine pede um solo novamente. Eu gosto dele, nós nos damos bem. Kurt e ele estão sempre buscando conversar comigo. Eu admito que Kurt está se esforçando, como ele disse que faria. Mas, às vezes, sinto uma ponta de inveja de Blaine. Ele é ambicioso, ele corre atrás, quer várias músicas e mostra que consegue fazer. Ele parece... Comigo. Ou com o que eu costumava ser. A Rachel Berry de alguns meses atrás certamente teria problemas com ele.
Noto Quinn um pouco derrubada na cadeira, mas ela ignora meus comentários e diz que eu estou exagerando. Assim que acaba o ensaio, ela sai com Brittany e Santana para o treino das Cheerios, sem pensar duas vezes. Viro para pegar minha bolsa e percebo Mercedes sentada no canto da sala, olhando para baixo.
– Hey... – Me aproximo. Ela levanta o olhar, assustada. – Acabou a aula.
– Ok. – Murmura, levantando.
– Posso falar com você? – Pergunto, timidamente.
– O que você quer? – Cospe.
– Eu quero te pedir algo, na verdade. – Esfrego meus braços, nervosa. – Não faça isso. – Sussurro.
– Isso o que, Berry? – Levanta uma sobrancelha. – Pirou de vez?
– Eu sei o que está fazendo. – Aviso. – Está evitando todo mundo.
– Estou tentando não entrar em problemas, somente isso.
– Certo. – Suspiro. – Mas, não precisa se afastar das pessoas ou parar de cantar. Glee precisa de suas...
– Cale a boca. – Eu prendo os lábios com força. – Por sua culpa eu tenho que ficar medindo as palavras. Apenas me deixe em paz. Você finge que eu não existo e eu finjo que você não existe. – Ela passa por mim, indo em direção à porta.
– Eu sinto muito, ok? – Consigo dizer. – Eu só não quero que você cometa o mesmo erro que eu.
– Eu não vou sair por ai me cortando, Rachel. – Diz, fria. Eu fecho os olhos. – Sou mais que isso.
– Sei que sim. – Engulo seco. – Você não se cortar não significa que você não sofra.
– Você não sabe nada sobre mim.
– Nem você sobre mim. – Devolvo, irritada. – Só vim até você porque estou vendo como você está agindo e sei que isso não é bom, Mercedes. – Solto o ar, me acalmando. – Infelizmente, eu não tive ninguém pra me alertar. Mas, você tem. – Pego minha bolsa para ir embora.
– Você também tinha. – Sussurra. Eu rio, sarcástica.
– Depois de tudo, todos pareciam estar a disposição na época. – Bufo.
– Eu não iria atrás de você, Berry. – Eu arqueio as sobrancelhas. – Você era forte demais pra enfrentar sozinha. Ainda custo a acreditar que isso está acontecendo. É quase uma decepção.
– Oh, sinto muito? – Franzo a testa.
– Ah, Rachel! Você tinha os melhores solos, a melhor voz, tinha um namorado carinhoso e popular, que gostava de você de verdade.
– Mercedes, isso era só a superfície.
– Que seja. Era como eu enxergava. – Senta na cadeira. – Me recusava... Aliás, me recuso, a pensar que Rachel Berry não possa dar a volta por cima. Não a Rachel que me encarava de frente.
– Nos dávamos bem, não era? – Sorrio incerta.
– Não gosto de pessoas que abaixam a cabeça para mim. – Eu sento do seu lado. – Eu sempre fui assim, Rachel. É o meu jeito. Se nós nos dávamos bem, era porque você sabia lidar com isso.
– Eu te admiro muito. – Mordo o lábio. – Por favor, não se feche.
– Ninguém se importa.
– Eu me importo. – Garanto.
– Você deveria me afastar para longe e não me ajudar.
– Eu sei o que eu devo fazer e eu estou fazendo. – Coloco uma mão em seu ombro.
– Isso não está certo. – Levanta novamente. – Quem deveria se importar não se importa. – Sussurra.
– De quem você está falando, Mercedes?
– De ninguém, Berry. – Passa a mão no rosto, impaciente. – Você acha que só você teve problemas naquela viagem?
– O que aconteceu? – Franzo a testa, sem entender.
– Alguém mentiu pra mim! – Exclama, jogando os braços para o ar. – Você era como eu. Bom, nós temos nossas diferenças, mas ao menos pertencíamos ao mesmo grupo. Eu também levava raspadinhas, também tinha apelidos. Não tanto quanto você, mas... – Respira fundo. — Por que diabos você preferiu se juntar a elas, Rachel? Logo as Cheerios!
– Eu não preferi ninguém, Mercedes. – Me defendo. – Elas que vieram até mim. Por que essa raiva toda?
– Por quê? – Pergunta, incrédula. – Você está mesmo perguntando isso? São as Cheerios, Rachel. As populares, as mandantes do colégio.
– São nossas companheiras do coral.
– Você é inacreditável. – Ri, balançando a cabeça. – Quer saber? Não importa. No final, todos acabam preferindo a Quinn mesmo... – O nome da loira faz meu coração saltar. – Você sabe bem disso.
– Eu não estou conseguindo te acompanhar. – Digo, derrotada.
– Ótimo. Eu não preciso que me acompanhem.
– Espera! Quem te mentiu? O que aconteceu em NY? – A morena me dá as costas, saindo da sala. – Mercedes! – Ela bate a porta, me deixando sozinha. – Merda.
Por Quinn
Minha cabeça dói, meu corpo dói e eu mal consigo respirar. Sento na arquibancada, cansada e coloco as mãos no ouvido. Tenho a sensação que algo dentro de mim pode explodir a qualquer segundo. Sue coloca uma mão sob a minha testa, estranhando meu desempenho no treino. A treinadora me manda para a enfermaria, dizendo que eu estou com febre e que não posso treinar assim. Isso explica o frio esquisito que estou sentindo. Tento relutar, querendo continuar os exercícios, mas sou vencida pelo próprio cansaço.
– Não deveríamos ter ensaiado tanto ontem. – Joe se aproxima da cama que estou deitada. – A água estava fria demais.
– Não foi nada. – Bufo. – Já ensaiamos assim antes.
– Mas, dessa vez você não resistiu. – Sorri. Eu devolvo o sorriso. Ele é um garoto simpático. – Quinn Fabray também adoece.
– Shhh... – Brinco, puxando sua mão. – Não saia espalhando isso para todo mundo. Eles perderão o medo de mim. – Nós rimos.
– Duvido. – Tira uma mecha de meus olhos. – Até eu que sou novo por aqui, sei que te respeitam mais que o diretor.
– Não é pra tan...
– QUINN! – Me assusto. Rachel entra correndo na enfermaria. – O QUE ACONTECEU? VOCÊ ESTÁ BEM? EU DISSE QUE... – Ela para ao perceber a presença do menino e encara nossas mãos. – Oh... Oi, Joe.
– Oi, Rachel. – Sorri. – O ensaio de ontem fez mal a essa loira.
– Ah, sim? – Ela me encara. Eu levanto uma sobrancelha.
– Ela só precisa se cuidar. – Mexe no meu cabelo. Vejo Rachel abrir a boca algumas vezes, mas acaba desistindo. – Pegou um resfriado.
– É besteira. – Minha voz sai rouca e eu gemo com a dor.
– Fique quieta, Quinn.
– Bom, já que você tem companhia, eu vou para casa. – A morena sussurra. – Qualquer coisa... – Limpa a garganta. Eu me remexo na cama, querendo pedir para que ela fique. – Fique bem. Tchau, Joe.
– Tchau, Rachel. – Jogo a cabeça no travesseiro, sentindo tudo girar. – Você quer algo?
– Quero ir para casa. – Murmuro.
Minha mãe logo chega, preocupada. Eu viro os olhos, ouvindo as orientações dadas pela enfermeira. Judy assente, prestando atenção em tudo. Ao chegar em casa, tomo um banho quente, querendo que o frio passe logo e me escondo embaixo dos cobertores, abafando as crises de tosses. Frannie entra com uma sopa, mas eu franzo o nariz, sem querer comer. Minha irmã insiste um pouco mais, antes de desistir.
Consigo dormir meia hora. Alguém bate na porta, delicadamente. Resmungo para a claridade ao abrirem, mas sorrio ao perceber quem é. Rachel entra, tímida e se senta ao meu lado.
– Você está bem?
– Não. – Sussurro com o resto de minha voz. Ela coloca uma mão em meu pescoço.
– Está quente.
– Eu sempre estou quente. – Sorrio, maliciosa. Ela ri baixo.
– Já tomou remédio? – Eu assinto. – Já comeu? – Desvio o olhar. – Quinn, você precisa comer.
– Não quero. – Choramingo. – Não tenho fome.
– Só um pouco, por favor. – Ela pega o prato da cabeceira. – Eu te dou.
– Hmm... – Sento na cama, abrindo a boca. Ela sorri.
– Você fica fofa com esse casaco rosa. – Brinca. Eu faço um pequeno bico. – Falo sério. – Alisa minha bochecha. – Tenho vontade de te colocar no colo.
– Isso soa bem... – Digo, entre uma colherada e outra.
– Você pode preferir o Joe, no entanto. – Ironiza. Eu me afasto.
– O que? – Rio. – Joe é apenas meu amigo.
– Ele quer mais que isso.
– Mas, não terá. – Garanto. – Eu gosto de outra pessoa.
– É? – Assinto, tomando mais. – Sabe, ele é bonito...
– Não importa.
– Talentoso...
– Não importa.
– Simpático...
– Não importa.
– Educado...
– Já basta, Rachel. – Viro os olhos. – Você está com ciúmes?
– O que? Claro que não. – Resmunga, nervosa. Eu sorrio.
– Certo. – Empurro sua mão. – Por favor, eu não quero mais. – Faço uma careta.
– Tudo bem. – Coloca o prato longe. Eu deito outra vez. – Muito frio?
– Sim. – Sussurro, fechando os olhos. A morena deita atrás de mim, me puxando em seus braços. – Rach, não quero que você adoeça.
– Deixa eu cuidar de você. – Pede. Eu amoleço, me alinhando em seu corpo.
– Por que eu iria querê-lo se eu tenho você? – Pergunto baixo. Ela suspira, acariciando meus braços.
– Por que você iria me querer se você o tem? – Inverte a pergunta.
– Porque eu te amo. – Encolho os ombros. – Aush...
– O que foi?
– Minha cabeça dói...
– Shhhhhhh... – Ela me aperta. – Vai passar. Tente dormir.
Eu relaxo, agradecendo o calor de seu corpo. Rachel começa a cantarolar uma música. Eu abro os olhos, rindo ao reconhecê-la. A morena continua cantando, fingindo ser uma música qualquer. Não acredito que Rachel está cantando Run Joey Run de David Geddes. Giro em seus braços, mantendo meu rosto em uma distancia segura do seu. Eu realmente não quero que ela adoeça, apesar da minha vontade de calá-la com um beijo nesse exato momento. Ela sorri, terminando.
– Você é uma besta. – Rimos. – Sabe, quando você fez aquele filme...
– Cale a boca. – Manda. Eu mordo o lábio, prendendo o riso. — Durma.
– Só se você admitir que estava com ciúmes.
– Mas, eu não... – Suspira. – Ok, eu estava. Eu tenho ciúmes dele. Pronto?
– Pronto. – Sorrio, fechando os olhos. – Boa noite, Rach.
– Boa noite, Q.
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