Além da superfície.
27 Verdade nua e crua.
Notas iniciais
Por Quinn
Professor Schue decidiu adiar a conversa sobre Rachel, já que as Seccionais são amanhã e não sabemos o que acontecerá com ela, com Mercedes e com Santana. Ele precisava resolver isso, então nos liberou mais cedo, assim como todos os outros professores, a pedido do diretor. Brittany pediu para que todos esperassem para falar com a morena e eles respeitaram. Não que eu ache uma boa ideia essa aproximação de repente, mas talvez seja melhor para ela. Nós quatro fomos para o estacionamento, sendo observadas por todo o colégio. Eu consigo ouvir sussurros, sei que Rachel também consegue e me lamento por isso.
– Eu... – Suspira. – Eu... Queria... – Faz uma careta, procurando as palavras.
– Pode falar, Rach. – Tranquilizo-a, segurando seu ombro, levemente. Ela assente, mordendo a boca.
– Você pode vir comigo? – Me olha, apreensiva.
– Mas, eu achei que você fosse contar para o seus pais hoje, como tínhamos combinado. – Franzo a testa.
– Eu vou. – Se apressa. – Eu só... – Balança a cabeça. – Deixa. – Então, eu entendo o que ela estava tentando pedir.
– Você quer que eu esteja com você? Na hora da conversa? – Ela baixa os olhos, envergonhada. Eu sorrio fraco. – Se é isso que você, Rachel, não tem problema.
– Sério? – Murmura como uma criança.
– Sério. – Abraço-a, sentindo seu corpo relaxar e ignorando os olhares tortos. – Tudo vai dar certo, você vai ver.
– Como você pode ter tanta certeza? – Sussurra contra meu peito.
– Eu apenas sei. – Dou os ombros, sem soltá-la. – Minha mãe costuma dizer que boas coisas sempre chegam para boas pessoas.
– E se eu não for uma boa pessoa?
– Pare de besteira. Você é uma pessoa linda, por dentro e por fora. – Aliso seu braço. – E o que você tem de beleza, tem também de fragilidade. Só precisa de cuidados e atenção.
– Rachel Berry, uma pessoa frágil. – Zomba. – Quem diria que essa frase fosse real um dia?
– Eu tenho frases bem mais surreais que essa. – Falo em um suspiro. Ela se afasta, me olhando curiosa. Merda. – Quinn Fabray abraçando Rachel Berry no estacionamento do colégio? – Desvio. Ela solta um riso baixo.
– Quinn Fabray beijando Rachel Berry. – Brinca. Eu abro a boca, surpresa.
– Rachel Berry beijando primeiro. – Corrijo. Ela me empurra fraco. – Viu só? Tem coisas bem mais surreais que ser frágil.
– Como Santana apaixonada? – Aponta com a cabeça para o casal abraçado ao nosso lado, encostadas no carro.
– Como isso. – Concordo, rindo. As duas olham para nós, percebendo que estamos falando dela. – Estamos indo lá em casa, para pegarmos minhas coisas, vocês não querem ir?
– Eu não posso. O diretor Figgins já fez questão de ligar para os meus pais. – Vira os olhos. Rachel se encolhe atrás de mim. – Eles vão entender, sabem que Mercedes me irrita desde sempre. Sim, porque a culpa é toda dela, vocês sabem, não é? – Nós assentimos. — Não é, Rachel?
– Sim. – Sussurra, incerta. – O que... O que vai acontecer amanhã? – Santana levanta o olhar para mim, questionando se conta ou não. – Eu coloquei o glee clube em problemas, não foi?
– Claro que não, Rachel. – Brittany responde. – San e Mercedes estão correndo o risco de não participarem, mas daremos um jeito nisso.
– Como daremos um jeito nisso? Precisamos ter o numero certo de participantes. Eu nem sei se vou poder cantar também. – Fala nervosa. – E Santana é a dona do solo.
– Calma. – Seguro-a. – Basta confiar. – Ela resmunga algo, balançando a cabeça. – Não adianta se culpar, porque ninguém está pensando nisso.
– É verdade. Estamos mais preocupados por você do que pelo campeonato. E é o que importa.
– Britt está certa, Rachel. – Santana sorri de lado. – Trate de se cuidar. É isso que nós queremos. – A dançarina dá um beijo na namorada, nos fazendo rir. – Bem... – A latina limpa a garganta, surpresa. – Nós já vamos indo.
– Qualquer coisa que precisarem nos ligue, por favor. – Britt nos abraça.
Nós nos despedimos das duas e fomos para a minha casa. Minha mãe e Frannie não estão, ainda é cedo. Aproveito para fazer algo para comermos, mas sem demorar. Estremeço com a ideia de que já devem ter ligado para os pais de Rachel. Como será que eles vão reagir? Eu preciso estar concentrada e forte para protegê-la. Coloco algumas roupas na bolsa e, antes de sair, deixo um bilhete avisando que não dormirei em casa hoje. Rachel dirige em direção a sua em silêncio. Eu posso ver por seu comportamento o quão nervosa ela está. Ponho uma mão em sua perna, tentando mostrar que eu estou aqui. Ela dá um sorriso fraco e um suspiro sonoro, encostando a cabeça no banco do carro. Meu coração afunda. O carro dos seus pais está na garagem. Respiro fundo para entrar. Nós duas seguimos para o quarto, sem encontramos com ninguém.
– Rachel. – Alguém chama com raiva, nos assustando. – Rachel, você pode me explicar o... – Hiram se interrompe quando me vê. – Não sabia que você estava aqui.
– Oh, eu... – Olho para a morena, que tem os olhos fixos no chão. – Eu...
– Nós precisamos falar com nossa filha. A sós, Quinn. – Leroy aparece. Eu abro a boca, tentando responder.
– Ela vai ficar. – Rachel finalmente fala.
– O que diabos você aprontou no colégio? – Hiram aponta, fazendo a pequena se encolher.
– Hiram! – Leroy bronqueia, me olhando desconfiado.
– Podemos conversar lá embaixo? – Pede. – Eu preciso trocar de roupa. – Hiram ia falar algo, mas Leroy assente e o puxa para fora.
– Vai ficar tudo bem, Rachel. – Seguro sua mão. A menina começa a tremer e agarra minha cintura com força. – Estou aqui. Nada de mal vai te acontecer.
– Você não pode falar isso. – Sussurra, com a voz cortada. – Eles vão me internar, vão...
– Pare, pare, pare. – Me afasto, enxugando seu rosto. – Respire fundo. Você precisa ser forte. Eu vou estar segurando sua mão, ok?
– Promete?
– Claro. – Sorrio de lado, beijando sua testa. – Lave o rosto e troque logo de roupa, antes que eles se irritem mais.
Ela assente, entrando no banheiro. Escuto o barulho da água e de alguns soluços abafados. Aperto forte as minhas mãos, em punhos. Me surpreendo quando Rachel sai, com uma camiseta. Seus braços a mostra, bem como todas as cicatrizes, inclusive a mais recente. Solto um suspiro doloroso, traçando o nome na sua pele. Ela estremece com o meu toque. Deixo um pequeno beijo em seu punho, antes de entrelaçar nossas mãos e sair do quarto. Leroy e Hiram viram para nós, na sala. Eu sento ao lado dela, no sofá. Hiram anda de um lado para o outro e Leroy apenas encara nossas mãos, com a testa franzida.
– Por que nós recebemos uma ligação da diretoria hoje, Rachel? – Hiram pergunta indiferente. Tenho vontade de gritar com ele.
A morena solta o ar, desprendendo os braços do corpo. É a hora. Ela me olha, temorosa. Sem medo dos olhares dos dois homens furiosos da nossa frente, aliso a bochecha dela, colocando seu cabelo para trás da orelha. Ouço Leroy limpar a garganta. Rachel vira os braços, revelando tudo. As expressões que eles fizeram foram idênticas. Um misto de horror e surpresa. Hiram senta, pálido e Leroy leva a mão para a boca, com os olhos cristalinos.
– Quem... Quem fez isso com você? – Rachel ri, sarcástica. – QUEM FEZ ISSO?
– Eu. – Franze o cenho.
– O que?
– Fui eu. – Fala mais alto. – Eu que me cortei.
– Não temos tempo para brincadeiras de mau gosto, Rachel. – Hiram cospe.
– Vocês não têm tempo para muita coisa. – Diz magoada. – Inclusive para mim. – Eu aperto sua mão, tentando dar apoio.
– É você que está fazendo isso com ela, não é? Você é igual ao seu pai. – Eu me surpreendo pela acusação.
– Eu não... – Tento.
– Ela está apenas me ajudando. – Me defende. – É isso? Eu mostro para vocês que eu me automutilo e vocês vão ficar destratando Quinn? – Pergunta irritada.
– Calma, Rach. – Peço.
– Você ficou louca? Leroy, fale alguma coisa!
– Por... Por que, Rachel? – Eu vejo suas lágrimas brilhando no rosto barbudo. – Como... Como isso aconteceu?
– Todos me odeiam. – Sussurra. – Eu estava me sentindo sozinha.
– Isso é um absurdo. – Hiram levanta, batendo na perna. – Dai você resolve enfiar a faca em si mesma?
– Eu não enfiei fa... – Se cala. – Não importa. – Bufa. – As pessoas me viravam a cara, me chamavam de nomes, me jogavam raspadinhas, me xingavam. – Começa a chorar. Tenho consciência que eu também estou chorando.
– AINDA NÃO ENCONTREI O MOTIVO.
– E EU NÃO TENHOS PAIS. – Grita. – EU ESTAVA SOZINHA NESSA MERDA, SEM NINGUÉM PARA CONTAR, NEM MESMO VOCÊS. PORQUE VOCÊS ESTÃO OCUPADOS DEMAIS PARA ME OUVIREM. VOCÊS ESTÃO OCUPADOS DEMAIS PARA PERCEBEREM QUE, ENQUANTO FALAVAM SOBRE OS NEGÓCIOS INACABÁVEIS, EU SANGRAVA DO OUTRO LADO DA PAREDE. – Leroy esconde o rosto entre as mãos. Vejo os ombros de Hiram caírem um pouco. – Eu não tenho mãe, nem tenho pai. – Diz, fria.
– Não diga isso. – Leroy fala, magoado.
– Finn terminou comigo no dia das nacionais, porque nós nos beijamos no palco e isso fez que o Glee se desclassificasse. Vocês sabiam disso? – Eles não respondem. – Vocês ao menos perguntaram?
– Não venha jogar a culpa em cima de nós.
– Não estou fazendo isso. – Suspira.
– Foi pelo Finn? Você se cortou pelo Finn?
– Não! Quer dizer... Também. – Eu fecho os olhos com força. – Mas, por tudo. Eu... Eu não sei explicar.
– Você é louca.
– Ela não é louca. – Eu canso de ficar calada. – O senhor não consegue ver que ela não está bem?
– E o que você tem a ver com isso? – Hiram se aproxima. – Por que você não estava com ela? – Eu sinto um golpe no meu estomago.
– Nós... Não éramos próximas.
– Não éramos próximas e mesmo assim ela percebeu. – Rachel ataca. – Diferente de vocês, ela se preocupa comigo. — Um sorriso toma conta do meu rosto, me fazendo esquecer a conversa. Ela acredita em mim.
– PARE DE NOS COLOCAR COMO MONTROS. VOCÊ NUNCA FALOU DISSO COM A GENTE.
– EU PRECISAVA? – Suplica. – VOCÊS SÃO MEUS PAIS. POR DEUS! VOCÊS...
– PAREM! – Leroy levanta, tapando os ouvidos. – PAREM, PAREM DE GRITAR. – Os dois se calam, encarando o outro homem. – Rachel... Minha estrelinha... – Ele se abaixa, na frente dela, tocando seus joelhos. – Rachel... Me perdoe. – Segura o braço da morena, passando os dedos suavemente. Ela soluça alto. – Me perdoe. Me perdoe.
Eu solto a mão dela, incentivando-a. Rachel envolve o pai em um abraço apertado. Os dois chorando forte. Tento enxugar meu rosto, mas é impossível parar. Hiram olha para a cena, demonstrando indiferença. É óbvio que ele está preocupado, mas por algum motivo, ele não quer transparecer. Orgulho, talvez.
– Eu vou cuidar de você, minha pequena. Eu vou. – Alisa o cabelo dela. – Prometa que não vai mais fazer isso, por favor.
– Eu não posso, papai. – Murmura. – Não posso prometer isso.
– Por quê? – Pergunta, agoniado.
– Porque eu ainda não consigo me controlar. – Se afasta, recuperando minha mão. – Mas, eu estou tentando, eu juro.
– Ela vai tentar mais ainda, Sr. Leroy. Eu posso prometer isso. – Digo, segura. Ele sorri para mim, segurando nossas mãos.
– Quinn, eu sei que você está fazendo bem para minha filha. Sei que tem algo acontecendo entre vocês.
– O que? Eu... – Rio, nervosa. – Nós somos amigas.
– Claro. – Balança a cabeça. – Quero te agradecer por estar com ela. E te pedir que continue. Nós precisamos de sua ajuda.
– Pode ficar tranquilo quanto a isso. – Garanto.
– Tenho certeza que sim. – Ele vira para Hiram, que desvia o olhar. – O que você acha de continuarmos essa conversa depois? Eu preciso conversar com o seu pai.
– Ele está com nojo de mim. – Sussurra.
– Nunca, Rachel. – Bronqueia. – Nós nunca teremos nojo ou ódio de você. Nós te amamos muito. – Ela abaixa a cabeça. – Oh, meu Deus! Você não acredita mais em nós.
– Eu sinto muito.
– Eu que sinto muito, meu amor. – Segura o rosto dela, encostando as testas. – Eu sinto tanto. – Meu coração dá uma volta com a cena. – Eu vou te provar que eu estou falando a verdade, ok? Eu vou te mostrar.
– Obrigada.
– Quinn, leve-a para o quarto, por favor. Eu preciso falar com Hiram. – Eu assinto, levantando. – Obrigado por estar aqui. — Balanço a cabeça, deixando Rachel ir na frente.
– Sua filha é uma pessoa incrivelmente frágil. – Aviso a Hiram quando chego perto dele. – Por favor, acorde. Ela precisa de você.
Por Rachel
Depois da conversa, eu desabo. Sento no chão do meu quarto, sendo segurada por Quinn. Ela não fala nada, apenas deixa que eu quebre por um tempo. Recuperada, tomo um banho e deito na cama. A loira assume sua posição de todos os dias. Eu deito por cima de seu peito, sentindo sua respiração devagar. Solto um riso fraco.
– O que foi? – Pergunta, curiosa.
– Você deveria achar ruim dormir comigo. – Mordo o lábio. – Eu fico o terror quando choro e eu choro sempre. – Rio.
– Você não fica o terror. – Vira os olhos. – Você já me viu chorar, Rachel? Meu rosto fica macabro.
– Seu nariz fica vermelho. – Lembro. Ela aperta minha cintura, me fazendo gargalhar. – Desculpe, é que é fofo.
– Fofo? – Ri. – É idiota. E ainda me denuncia. – Bufa.
– Por que você chorou aquele dia? – Solto, sentindo seu corpo ficar tenso. – Não precisa responder se não quiser.
– Eu já respondi. – Franze a testa. Eu levanto uma sobrancelha. – Estava assustada, Rach, assim como você.
– Você tem medo de mim?
– Tenho medo do que eu sinto por você.
– O que você sente por mim? – Ela suspira e me encara, pensando.
– Você não sabe mesmo? – Alisa meu rosto. Eu estremeço, fechando os olhos. – Eu te amo, Rachel.
Fale com o autor