Além da superfície.
28 Novas ajudas.
Notas iniciais
Por Rachel
Sinto o meu corpo inteiro congelar. O que ela falou? Eu ouvi direito? Ela não pode ter dito isso, é loucura. Quinn Fabray, a líder das Cheerios, a loira mais temida e mais desejada do colégio, a ex namorada de Finn, minha ex arqui-inimiga, se é que isso existe, acabou de dizer que me ama? Ama? Solto um riso incrédulo. Isso não está acontecendo. Por que ela brincaria assim? Só porque nos beijamos? Não quero abrir os olhos, eu não posso encará-la. É como se nossa amizade pudesse deixar de existir se eu o fizer. Sinto seus dedos traçarem a linha da minha mandíbula, delicados como sua respiração. Não faz sentido. Nada faz sentido. Suspiro forte, encontrando seus olhos verdes curiosos e preocupados nos meus. Tento lê-los, mas é tão difícil fazer isso. É tão ruim querer confiar em alguém e não conseguir.
– Você não acredita, não é? – Pergunta em um tom triste. Eu balanço a cabeça, negando. Um sorriso falso se forma em seu rosto, apertando meu coração. – Não te julgo...
– Você me... – Franzo a testa. – Você me ama... ¬Como amigos se amam, certo? Como Brittany diz...
– É assim que você acha que eu te ame? – Abro a boca, confusa, mas nada sai. Ela levanta, segurando minhas mãos. – Sente aqui. – Bate ao lado. Eu faço o que ela pede. – Eu sempre soube que seria difícil te dizer isso, que você não acreditaria, mas... – Se interrompe, pensando. – Também é difícil me controlar perto de você, querer te beijar sem medo.
– Pare, Quinn. – Digo séria. – Isso não tem graça nenhuma.
– Claro que não tem, Rachel. – Suspira. – Deus, eu gosto de você, de verdade. Eu...
– Já chega. – Saio da cama. – Vai embora.
– Você não está me botando para fora. – Arqueia as sobrancelhas. – Você não pode fazer isso.
– E você pode brincar comigo assim? É justo, então? Todos podem brincar com Rachel Berry, porq...
Antes que eu pudesse continuar, sua boca vem contra a minha, me assustando. Seus lábios se movem nos meus, enquanto eu continuo em choque. Ela se afasta um pouco, como se esperasse eu processar e volta, suave. Fecho os olhos, me rendendo. Sem dúvidas, Quinn tem a boca mais gostosa e macia que eu já beijei. Seu hálito, seus movimentos, tudo é tão perfeito. Parece que é o encaixe ideal para a minha. Sinto uma pequena mordida no meu lábio inferior e sua língua pedindo passagem. Solto um gemido fraco, cedendo. Ela vai me empurrando até que eu choque contra a parede, tentando diminuir ao máximo os espaços entre nós. Levo uma mão em sua nuca, necessitando de todas as formas de contatos. O que diabos nós estamos fazendo? Quinn parece pensar o mesmo, porque encerra o beijo, que eu queria que durasse um pouco mais.
– Seu rosto... – Coloca a mão direta na minha bochecha. – É lindo. – Sussurra. – Seu corpo... – Desliza a esquerda na minha cintura. – É enlouquecedor. – Você... – Encosta a testa na minha. – É perfeita.
– Quinn... – Tento me soltar.
– Shhhh... – Me abraça. – Só... Me deixa falar, por favor. – Eu assinto em seu peito. – Quando nós notamos que algo estava errado com você, eu fiquei muito preocupada. Isso meio que me pirou, porque... Ah, não tinha motivos para eu me preocupar com você. – Encolho, sentindo seus braços me apertarem. – Britt percebeu e até me perguntou se eu sentia algo a mais por você. Claro que eu neguei. Neguei pra mim, durante uns dias. Até perceber o que era óbvio. Eu gosto de você. – Diz firme, me fazendo estremecer. – Quero cuidar de você, quero te proteger. Eu amo...
– Não. – Sussurro, fraca.
– Mas, eu amo, Rach. – Se afasta para me encarar. Eu abaixo a cabeça, mas ela a levanta. – Quando eu te beijo é porque eu quero. Se eu te aceito, é porque eu quero. Se eu choro quando você me diz que foi erro... – Ela morde o lábio. Oh, meu Deus. – É porque machuca.
– Isso é loucura. – Rio, nervosa.
– Eu sei. – Balança a cabeça. – Eu falei que tinham coisas mais surreais para acreditar.
– Eu não... Eu... É impossível de acreditar. – Falo sincera. Ela assente, parecendo derrotada. Um nó se forma na minha garganta ao ver seus olhos cristalinos. – Quinn...
– Tudo bem. – Encolhe os ombros. – Eu posso ter estragado tudo, sou consciente disso, então... Se você quiser que eu saia...
– Não. – Me apresso, surpreendendo-a. – Digo... – Sento na cama, escondendo meu rosto nas mãos. – Eu não quero que você vá. – Sussurro.
– Fale alguma coisa, por favor. – Suplica, brincando com os dedos.
– E o cara que você estava afim?
– Eu nunca disse que estava afim de um cara.
– Você... Você...
– Estava falando de você. Sim. – Sorri fraco.
– Oh, meu Deus. – Levanto outra vez. – Eu te beijei e você... Eu sinto muito.
– Não faça isso. – Pede.
– Se eu soubesse...
– Espera. Para. – Fica na minha frente. – Eu te falei que me machuca quando você faz isso. Agora você sabe. Não é porque você não acredita, que eu vou deixar que você faça, ok? – Assinto, envergonhada. – Está tudo bem, se você não quer que eu vá embora, apenas finja que isso não aconteceu.
– Impossível. – Bufo.
– Então eu vou sair, para que você pense um pouco.
– Não saia. – Peço, segurando seu punho. – Eu quero tanto acreditar nisso, mas...
– Por que você iria acreditar em mim? – Ri, sarcástica.
– Não é por causa disso, Quinn. – Bronqueio. – Eu só... Tenho problemas com o amor. Isso aconteceria independentemente de ser você ou não.
– E o que eu faço? – Pergunta, deixando uma lágrima teimosa escapar.
– Não fuja. – Me aproximo. – Fique comigo. – Encosto nossos rostos, sentindo sua respiração em mim. – Me beije.
Ela obedece, começando outro beijo incrível. Dessa vez, eu a comando, levando-a para deitar na cama. Não tenho outras intenções, não tem desejo, só carinho. Eu sempre sou a frágil, sempre sou a que enlouqueço. Ver Quinn desarmada assim, de igual para igual, me dá vontade de abraça-la para nunca mais soltar. Suspiro, quando o ar acaba, encarando-a.
– Eu não posso entrar de vez nisso, Q. Eu tenho muito medo.
– Eu sei, pequena. – Sussurra, rouca. – Não quero te forçar. Só queria que você soubesse a verdade.
– Essa verdade é paralela a minha.
– É a certa. – Garante. – Eu te amo e vou fazer você acreditar nisso.
– Então Brittany sabe? – Pergunto, curiosa. Seus lábios se curvam para cima, em um sorriso terno.
– Santana também. – Dá os ombros.
– Isso explica algumas frases que eu não entendia. – Rio, pensando.
– Elas te davam indiretas, não é? – Levanta uma sobrancelha. – Essas duas não conseguem ficar quietas.
– Davam. – Sorrio. – Engraçado, Britt é muito esperta.
– Você acha isso engraçado? – Ri.
– Não, boba. – Viro os olhos. – É que ela parece ser tão desligada e viver em um mundo diferente do nosso, mas tem pensamentos tão maduros e coerentes.
– Britt é especial, como Santana fala. – Ela coloca um braço na minha cintura, me puxando para meu lugar. Descanso a cabeça em seu peito. – Ela sabe ler as pessoas muito bem. É desligada sim, e também tem seu próprio mundo. O que não quer dizer que ela não saiba o que acontece no real.
– Quando eu contei sobre o nosso beijo, ela...
– Você contou sobre o nosso beijo? – Me interrompe. Cubro meu rosto em sua camisa, com vergonha. – Como você é besta, Rachel. – Ri, arrumando a camisa. – Não tem problema em falar.
– Eu... É... – Murmuro. – Ela parecia já saber. – Volto para o assunto. – Pensei até que você tivesse dito. – Admito.
– Como eu falei, não precisamos dizer, ela sabe nos ler. – Aceno, um pouco decepcionada, confesso. – Eu falei para Santana, no entanto. Ela pode ter dito a Britt, mas não acho que foi o caso.
– O que Santana disse? – Ela franze a testa. – O que?
– Me chamou de trouxa. – Rola os olhos.
– Por quê?
– Porque...
– Ah, como você é besta, Quinn. – A imito. Ela ri, me beliscando. – Auush, pare com essa mania.
– Não, você merece. – Dá a língua.
– Depois eu que pareço uma criança. – Zombo. – Você vai responder ou vai me enrolar?
– Ela me chamou de trouxa porquevocêmebeijouprimeiro. – Fala rápido e baixo.
– Ok, tente outra vez, de forma audível agora. – Ela suspira.
– Santana tira onda porque foi você quem me beijou primeiro. – Eu travo os lábios, tentando não rir. – Ah, vamos lá... – Não aguento, soltando uma gargalhada sonora. – Depois eu te belisco e você não sabe o que foi! – Avisa.
– Desculpe. – Tento parar. – É bem a cara de Santana fazer isso.
– E você achando que eu não sofria bullying.
– Tadinha. – Beijo seu pescoço rapidamente. – Sinto muito por isso.
– Não sinta. – Ri. — É sempre bom ser surpreendida.
– Você foi a primeira mulher que eu beijei. – Admito, sem graça.
– Bem... Você também.
– Sério? – Viro, para olhá-la. Ela sorri.
– Foi a única que me interessou. – Beija minha testa. – Rachel, estou feliz que você esteja mais controlada. De verdade, eu achei que... Não sei, você fosse reagir mal.
– Posso reagir mal com você por perto? – Sussurro. – Não quero que se afaste.
– Isso é bom... certo? – Suspira. Eu assinto devagar. – O que você achou da conversa com seus pais?
– Você pode denominar aquilo de conversa? – Ironizo. – Hiram está furioso.
– Leroy vai acalmá-lo. – Ela diz, sem ter muita certeza. – Durma, Rach. Amanhã o dia será cheio.
– Não quero ir para o colégio. – Choramingo. – Todos irão me olhar torto. Não que isso seja novo para mim, mas...
– Isso não vai acontecer. – Garante. – Não pense nisso. E só estará o Glee presente.
– Você acha que Santana e Mercedes...
– Eu não sei. – Passa a mão no meu cabelo, fazendo carinho. Eu fecho os olhos, me entregando ao sono. – Vamos confiar no professor Schue.
Por Quinn
Vejo Rachel adormecer em meus braços. Tão terna. Beijo sua cabeça, sentindo o cheiro delicioso de seu cabelo. Eu a amo. E agora ela sabe disso. Parece que tiraram 50kg de minhas costas. Me sinto mais leve por não esconder mais nada dela. E o melhor de tudo: ela não pirou. Talvez um pouco, mas não o suficiente para me querer longe ou achar que eu estou brincando com ela. Rachel confia em mim e isso é tudo o que eu quero no momento. Acordo abraçada em sua cintura. Sorrio, quando vejo seus olhos me encarando, sonolentos.
– Bom dia. – Sussurro.
– Bom dia. – Sorri de lado. – Sinto muito. Não te dei espaço essa noite, espero que você não tenha dormido mal.
– Sério? – Levanto uma sobrancelha. – Depois do que eu te falei ontem, você vê isso como um problema? – Rio. – Não tenho do que reclamar, na verdade.
– Você vai se aproveitar de mim? – Se finge de inocente. Eu entrecerro os olhos.
– Sempre que você deixar.
– Como agora? – Ela se aproxima. Prendo minha respiração.
– Você está brincando com fogo, Berry. – Aviso.
– Hm... – Ela morde o lábio inferior, me tirando a consciência.
Uma batida na porta nos afasta. Eu tento recuperar meu controle, respirando pesado. Rachel dá um riso fraco, levantando.
– Bom dia, meninas. – Leroy abraça a filha, calorosamente. – Dormiram bem?
– Sim, papai. – Rach responde contra o peito do homem. Eu posso ver seus olhos fechados, aproveitando o abraço. – Já vamos descer.
– Espero vocês lá em baixo. – Beija a bochecha dela e acena para mim. Eu sorrio.
– Viu? Já está melhorando. – Seguro a mão da morena, que está com uma expressão estranha. – O que houve?
– Tão difícil era fazer isso, Quinn? – Franze a testa. – Por que ele não fazia isso antes?
– Oh, minha linda. – Seguro-a contra mim. Ela descansa em meu ombro, me apertando forte. – Eu não sei te responder. Só queria tirar todas as lembranças ruins de você.
– Não sei se é possível. – Suspira, escondendo o rosto. – Vamos nos trocar.
Espero Rachel terminar o banho e entro para o meu. Ela coloca um vestido solto, que há muito não usava. Sorrio para ela, segurando seus braços. Pego uma base clara e passo por suas cicatrizes. No braço em que ela escreveu, os cortes parecem mais irritados. Sem perguntar, abro o armário de seu banheiro e encontro um sanativo, coloco em um algodão e, delicadamente, passo nas letras. Ela geme um pouco, mas deixa que eu termine. Suspiro sonoro, sem acreditar ainda que ela se marcou assim. Faço um curativo discreto e o cubro com maquiagem também. Só dá para perceber se olharmos bem de perto. Ela sorri grande para o resultado. Seguro sua mão para descermos juntas. Leroy está sentado a mesa... Sozinho. Rachel aperta minha mão, nervosa.
– Seu pai precisou sair. – Avisa, calmo. A morena assente, sem jeito. – Você sabe que ele é explosivo e que precisa de um...
– Tudo bem. – Corta. Eu a encaro, bronqueando-a. – Desculpe.
– Bom, ele tem o tempo dele. – Limpa a garganta. – Nós conversamos muito sobre ontem. É um tema delicado demais. – Respira fundo. Eu fico tensa. – Em uma coisa nós chegamos a mesma conclusão.
– Oh, meu Deus... – Rachel sussurra, temorosa.
– Nós queremos que você procure ajuda.
– Eu já tenho ajuda. – Diz, depressa.
– Falo de uma ajuda profissional, estrela. Você vai procurar um psicólogo.
– Eu não preciso. – Resmunga.
– Não seja cabeça dura, por favor. Nós queremos te ajudar.
– Ajudar? – Bufa. – Vocês nunca se importaram. – Solta, fria. Leroy abaixa a cabeça, recebendo o golpe. – Eu sabia que vocês iam fazer isso, me jogar para longe.
– Rachel, calma. – Peço. – Eles estão certos. – Ela abre a boca, para contra-atacar, mas eu não deixo. – Existem coisas que eu, Santana, Britt ou até mesmo seus pais, não podemos fazer. Você sabe que essa situação é delicada. Lembra que você me prometeu que iria tentar?
– Lembro. – Sussurra. – Mas, eu não quero...
– Você precisa. – Digo firme. – Sr. Leroy, Rachel pode ter um tempo? Talvez ela precise se conscientizar antes de começar um tratamento.
– Eu não estou doente. – Fala, irritada.
– Pessoas que procuram psicólogo não são doentes, Rachel. – Mantenho o tom sério. – Você está sendo preconceituosa.
– O que? Eu não... Eu não quis dizer isso.
– Certo. – Viro para o homem, que encara a cena, calado. – Tudo bem para o senhor?
– Claro, Quinn, portanto que ela decida ir.
– Ela vai pensar direito. Certo, Rachel? – A morena assente, sem me olhar.
Nós terminamos de comer e ela sobe, buscando sua bolsa. Sem uma palavra, se dirige ao carro. Me despeço de Leroy, escutando seu ‘boa sorte’ e entro no banco do passageiro, esperando uma reação. Mas, ela apenas liga o som e sai. Bato os dedos no joelho, agoniada com o clima ruim. Ela para o carro no estacionamento quase vazio do colégio. Há apenas alguns carros dos integrantes do clube e um enorme ônibus estacionado. Meu coração congela. Quanto tempo não viajamos para um torneio? Desde as nacionais. Ela tenta abrir a porta, mas eu seguro seu punho, fazendo-a ficar no carro.
– Você está com raiva de mim?
– Não gosto de quem me dá ordens, Quinn.
– Eu te dei ordens? – Franzo a testa.
– Você está se metendo demais. – Eu solto seu braço, surpresa.
– Sinto muito, só estava querendo ajudar.
– Então, pare de querer resolver tudo por mim. – Eu assinto, olhando para fora. – Olha, me desculpe. – Ela encosta a cabeça no banco. – É que... Eu preciso tomar algumas decisões, por mim. – Sussurra.
– Só quero que você tome decisões certas e não precipitadas. – Abro o carro, saindo.
– Eu já tomei minha decisão. – Eu paro de costas para ela. A morena se aproxima, botando a mão no meu ombro. – Eu quero ir a um psicólogo.
– Pode ser psicóloga? – Sorrio de lado.
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