Além da superfície.
46 Sorte.
Notas iniciais
Por Quinn
A luz do sol me acorda e eu lembro o quanto eu detestava dormir nesse quarto, sempre me fazia levantar antes da hora. Mas, vejo a morena dormindo tranquilamente ao meu lado e minha irritação momentânea logo se vai. Levanto devagar, colocando um lençol na janela, para que ela não acorde também. Nós fomos dormir tarde, conversando, namorando, aproveitando o nosso momento. Cada dia que passa, nós nos conhecemos mais. É perfeito poder compartilhar coisas minhas com ela e ouvir suas histórias. Nós nos parecemos em diversos aspectos. Quando eu imaginei que um dia eu diria que Rachel Berry tem algo em comum comigo? Nunca.
Escovo os dentes e desço para a varanda. Essa casa me traz diversas lembranças. Foi aqui que Santana me contou pela primeira vez que estava ficando com Brittany. Foi aqui que eu presenciei o primeiro beijo entre as duas. Fizemos festas, dividimos segredos. Mas, a lembrança mais forte, com certeza, foi de quando eu vim morar sozinha. Puck insistiu em ficar no primeiro dia, eu tinha acabado de ser expulsa da casa de Finn e estava com ódio de todo o mundo, não deixei ninguém ficar comigo.
Pela primeira vez, eu cogitei ficar com Beth. Eu imaginei como seria nossa vida aqui. Planejei arrumar um emprego, comprar um berço, comprar suas fraldas. Arquitetei todo quarto, primeiramente colocando uma cortina escura na janela para não nos acordamos tão cedo. Nós duas mostraríamos para Russel, Finn, Puck e para todos os imbecis da escola, que nos sustentaríamos sozinhas. Por um momento, eu fui feliz com esses pensamentos. Foram os únicos sorrisos sinceros que eu dei na época da minha gravidez... Até descobrir que não era o bastante.
Sair daqui foi frustrante. Foi atestar minha impotência sobre o assunto. Eu não tinha o que fazer, não tinha escolhas. E ter que me livrar de todas as memórias criadas foi doloroso.
– Quinn? – Ouço uma voz atrás de mim. – Você está bem?
– Hey, você acordou. – Sorrio, limpando uma lágrima perdida em meu rosto.
– Você está bem? – Repete, preocupada.
– Estou. – Estendo a mão e ela segura, rapidamente. Puxo-a para baixo e a morena senta em meu colo, no chão. – Bom dia.
– Bom dia. – Beija meu lábio suavemente. – Acordei e você não estava. – Faz um pequeno bico. – O que houve?
– O sol entrou no quarto e me acordou. – Bufo.
– Imaginei. – Vira os olhos. – Mas, não foi isso que eu perguntei. Você estava chorando. – Sussurra.
– Não estava chorando, Rach. – Ela cruza os braços. Eu rio baixo. – Foi apenas uma lágrima. – Deito a cabeça em seu ombro.
– Posso saber o motivo?
– Nostalgia, eu acho. – Suspiro. – Muitas lembranças.
– Se te faz mal, não deveríamos ter vindo. – Repreende.
– Não me faz mal. Na verdade, elas me fazem muito bem. – Inclino um pouco o rosto. – Não vamos mais falar sobre isso. Você está com fome?
– Um pouco. – Encolhe os ombros.
– Pois vamos comer. Hoje você será minha modelo, lembra?
– Lembro. – Choraminga. – Não podemos ficar aqui alguns minutos? Minha namorada me abandonou na cama sozinha e eu estou meio que carente.
– Sua namorada é terrível. – Ela assente. – Eu posso cuidar disso, mas ela não é ciumenta? Eu não quero apanhar. – Brinco.
– Não se preocupe. Ela é tranquila demais.
– Ah, é? – Seguro seu rosto. – Quer dizer que é fácil assim?
– Facílimo. – Eu mordo seu lábio inferior, fazendo-a fechar os olhos.
– Berry, Berry... – Digo, arrancando um gemido fraco dela. – Você tome cuidado na sua vida.
– Cala a boca. – Resmunga, acabando a distancia.
Eu rio no beijo, abraçando-a. A morena me rodeia com as pernas, fazendo com que eu fique imprensada na parede. Seguro sua cintura, sentindo sua boca explorar a minha com toda a paciência do mundo. Rachel é imprevisível e possui inúmeros beijos. Eu gosto de todos eles, claro. É como se a cada hora ela resolvesse experimentar algo diferente. Nos separamos e a morena apoia a cabeça em meu ombro, brincando com o meu cabelo. Eu suspiro, trazendo-a mais para perto.
– Eu nunca me senti assim antes. – Solto. Ela se remexe um pouco, mas não sai da posição.
– Assim como?
– Bem. – Franzo a testa. – Você me faz muito bem. Eu não sei explicar, só sei que... Eu me sinto completa, entende?
– Entendo. – Ri contra a minha pele, fazendo eu me arrepiar. – Eu também me sinto assim. – Sorrio.
– Ninguém nunca conseguiu me deixar assim. – Encosto minha cabeça na sua. – Só você.
– Bom saber. – Beija meu pescoço. Eu viro os olhos. – Vai ver estávamos destinadas. – Brinca.
– Talvez. – Mordo o lábio. – Quando nos casarmos e tivermos nossos bebês, nós poderemos conta-los que somos frutos do destino? – Belisco sua cintura, provocando-a. Ela não responde. – Rachel?
– Eu não... – Se afasta, sem me olhar. – Eu não gosto de fazer planos, Quinn.
– Eu só estava brincando. – Encolho os ombros, um pouco magoada.
– Eu sei, mas... – Levanta o olhar. – Pensar no futuro me assusta, sabe?
– Por quê?
– Porque eu já fiz tantos planos, já criei tantas expectativas e me decepcionei. – Suspira.
– Eu não te decepcionarei. Se eu digo que quero casar e ter filhos com você, é porque eu quero mesmo. – Garanto-a.
– Bom, Finn também dizia isso. – Abro a boca, surpresa. Ela fecha os olhos. – Desculpe, eu não queria...
– Tudo bem. – Levanto. – Vamos comer algo.
– Quinn...
– Está tudo bem, Rachel.
Entro na cozinha, frustrada. Ela sabe o quanto esse assunto é sério para mim pra poder ficar enfiando Finn na conversa? Merda. Me apoio na geladeira, querendo não me importar com isso. É claro que ela tem medo. Todo mundo que ela amava se afastou dela.
– Eu não quero te perder. – Sinto seus braços rodearem minha cintura. – Eu sinto pavor só em pensar.
– Você não vai me perder, Rach.
– Por que você sente tudo isso por mim? – Sussurra. – Eu sou só um monte de problemas com uma mente confusa.
– Hey... – Viro em seus braços, levantando seu rosto. – Não diga isso.
– Eu queria ser mais, sabe? Queria estar a sua altura.
– Não diga estupidezes, Rachel. – Repreendo-a. – Você é tudo o que eu preciso e pronto.
– Desculpe. – Ela encosta nossas testas. – Eu sinto muito. – Abro a boca para reclamar com ela, mas ela continua. – Você quer ter uma família comigo? – Pergunta, tímida.
– Sim. – Sorrio. – Muitos filhos.
– Eu te amo. – Roça nossos lábios. – Você deixará que eu escolha os nomes deles?
– Portando que você não coloque nenhuma Barbra.
– Quinn. – Me dá uma tapa. – Óbvio que eu colocarei. – Aponta.
– Certo, certo. – Balanço a cabeça, rindo. – E se for um menino?
– Não tenho um nome ainda. – Franze a testa.
– Charlie. – Sorrio. Ela levanta uma sobrancelha.
– Quem é Charlie?
– Nosso futuro filho. – Digo, como se fosse lógico. Ela bufa.
– Mas, por que esse nome?
– Porque eu acho bonito. – Suspiro. – Seria o nome de Beth. Bem, se ela fosse menino...
– Charlie, então. – Rachel sorri, doce, traçando meu rosto com carinho.
– Estamos fazendo planos? – Sussurro. Sinto seu riso fraco.
– Acho que estamos...
Por Rachel
– Rachel, relaxe. – Quinn ri, enquanto bato os braços na perna, sem jeito.
– Não tenho como relaxar com você me apontado uma câmera direto. – Protesto. – Não sou modelo.
– Ok, veja... – Ela se aproxima. – Para mim, a beleza das fotos estão na espontaneidade. – Coloca uma mexa do meu cabelo atrás de minha orelha. – Finja que não estou aqui. Haja naturalmente.
– Como eu finjo isso, sabendo que você está aqui?
– Cante algo. – Sugere. – Cante algo... Para mim. – Sorri.
Eu mordo o lábio, pensando. O que eu gostaria de dizer para ela? Lembro de nossa conversa mais cedo. Eu posso não ser grande coisa, mas para Quinn eu sou o bastante. Ela gosta de mim de verdade. O que mais importa? Ela aceita todos os meus defeitos e cuida tão bem de mim. Eu tenho tanta... Sorte. Respiro fundo, sabendo a música certa.
Ela levanta a cabeça, curiosa. Eu começo a cantar Lucky de Jason Mraz. Um sorriso enorme aparece no rosto da loira, me contagiando. Primeiro flash. Eu viro, andando pelo pequeno lago. Segundo flash. Eu troco o “boy” por “girl” na letra, arrancando um riso gostoso da loira. Terceiro. Quarto. Quando eu chego ao refrão, Quinn se junta a mim, cantando junto. Minha vez de sorrir grande. Quinto flash. Olho para minha namorada, hipnotizada por sua voz rouca. Ela pisca para mim, me lembrando a voltar a cantar. Perco a conta dos flashs à medida que a música vai acabando.
Quinn coloca a máquina na grama e junta nossos lábios. Eu relaxo em seus braços, me deliciando com o beijo.
– Cante outra. – Sorri. Eu viro os olhos.
Nós continuamos com as fotos. Diferente do que eu imaginei, estava sendo bastante divertido. Quinn fica me fazendo rir o tempo inteiro, querendo registrar todos os meus sorrisos. Eu desço do banco, pisando em falso em uma pedra. Perco o equilíbrio e caio no chão.
– Rach! – A loira vem em minha direção. Fecho os olhos, sentindo uma dor fina em meu pé. – Você se machucou?
– Está doendo. – Choramingo. Ela tenta segurar meu pé, mas eu a afasto. – Não toca!
– Deixa eu ver...
– Dói. – Faço bico. Ela sorri de lado.
– Vem, levanta. – Ela estende a mão, me ajudando. – Suba em minhas costas. – Pede.
Eu abro a boca para protestar, mas a loira abaixa, me segurando. Prendo as pernas nela, enquanto seguro seu pescoço. Ela caminha para casa, tranquilamente e me coloca no sofá.
– Eu vou pegar gelo. – Anuncia. Eu aceno, estendendo a perna no sofá. Ela volta com um saco na mão e coloca no meu pé.
– Auuush. – Deito a cabeça. – Tira, tira...
– Eu preciso colocar, amor. – Diz, preocupada. – Está doendo muito?
– Só quando toca.
– Deve ter dado um jeito. – Coloca um travesseiro embaixo do meu pé. – Quer ir pra um hospital?
– NÃO. – Puxo-a pra perto, sem querer ir embora daqui agora.
– Está bem. – Ri. – Mas, se piorar nós iremos, ok? – Eu assinto. – Vou ligar para Santana e perguntar se tem algum remédio por aqui.
Escuto minha namorada falar com a latina no celular, explicando o acontecido. A risada que Santana dá no outro lado da linha é audível em toda a sala. Quinn repreende a amiga e eu xingo Santana para que ela possa me ouvir também. A loira desliga, indo para a cozinha e volta com um spray na mão. Ela tira o gelo e põe o remédio no meu pé, depois de 10 minutos coloca novamente.
– Não está inchado. – Fala. – Não foi nada sério.
– Você aprende essas coisas com Frannie?
– Não. – Sorri. – Eu já me machuquei muito nos treinos e também tive que cuidar das outras. – Explica.
– Das outras quem? – Franzo a testa.
– Das outras Cheerios.
– De Santana e Brittany, eu espero.
– Bom, também. – Inclina a cabeça. – Mas, eu sou a capitã, Rachel. Tenho que cuidar da equipe.
– No colégio tem enfermaria. – Cruzo os braços.
– Nem sempre treinamos no colégio. Quando chega mais perto dos campeonatos, Sue nos leva para treinarmos ao ar livre. – Eu viro o rosto, incomodada. – O que? – Ela ri. – Você está com ciúmes.
– Não. – Resmungo. – Só não sabia que vocês treinavam fora. — Dou os ombros.
– É porque tem quer segredo. – Suspira. – Você não sabe disso, aliás. Sue me mataria.
– Mas, você me dirá o dia desses treinos. – Aponto. Ela levanta a sobrancelha.
– Eu direi, ciumenta.
– Não sou ciumenta. – Ela me beija. – Só um pouco...
– Minha pequena. – Sorri. – Nós precisamos ir embora. Já está escurecendo e...
– Auuuuush. – Encolho a perna. Ela olha para mim, assustada. – Ai, ai, ai, ai, ai...
– O que foi, Rachel? – Arregala os olhos. – Está doendo muito?
– Ai, ai, ai... – Ela se aproxima mais e eu puxo seu corpo pra cima do meu. – Ai, ai...
– Rachel. – Entrecerra os olhos.
– Ai... – Faço bico.
– Você está fazendo chantagem emocional, Berry?
– Ai, ai, ai... – Sussurro. – Não consigo levantar, socorro.
– E quando você conseguirá se levantar? – Arqueia a sobrancelha.
– Amanhã de manhã. – Choramingo.
– E enquanto isso, o que nós faremos?
– Não sei. Minha namorada forte e atlética poderia me levar até a cama para fazermos amor sem parar. – Ela estremece.
– A que te deixou sozinha hoje de manhã?
– A própria. – Ela ri. – Ai, ai...
– E se ela quiser fazer amor aqui mesmo? – Minha vez de estremecer.
– Ela faz o que ela quiser. – Quinn toma conta do meu pescoço, enquanto eu fecho os olhos.
– Ah, é? – Eu assinto, sem conseguir mais falar. – E se... – Meu celular começa a tocar.
– Não pare. – Seguro seu rosto no lugar, sentindo seu riso. O celular fica mudo. – E se o que? – Volta a tocar. – Merda. Não pare, por favor.
– Pode ser importante.
– Não é. – Mordo sua mandíbula, arrancando um gemido seu. – Se fosse importante, ligariam pra você também. Todo mundo sabe que estamos juntas. – O celular não para.
– Atenda. – Pede. – Depois nós continuamos.
– Droga. – Grito, frustrada. A loira pega o aparelho, dando um sorriso de desculpas. Viro os olhos, sem reconhecer o número da tela. – Alô?
– Alô, Rachel? – Ouço uma voz masculina soar. Meu corpo fica tenso. – Rachel?
– Hiram? – Sussurro.
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