Além da superfície.
63 Sonhos.
Notas iniciais
Por Rachel
E as luzes acendem, iluminando um ponto único do palco. Enquanto o som do violino vai se tornando presente, eu caminho do outro lado, saindo da escuridão. Quando dou a primeira nota, todos conseguem me ver. Alguns aplausos educados fazem meu coração bater loucamente no peito. Mas, eu respiro fundo e continuo cantando. O palco agora está todo iluminado, bem como a plateia. Cheia. Consigo reconhecer alguns rostos importantes. Sorrio. Encho o peito, sem desafinar. Vou do grave ao agudo sem nenhum problema ou esforço. Sorrio novamente. Todos os ensaios valeram a pena. Aqui é o meu lugar. A música vai parando, devagar e o único som que eu consigo ouvir agora são os aplausos calorosos, escandalosos, junto a alguns assobios altos e atrevidos. Fecho os olhos, sentindo meu corpo entorpecer...
Quando abro os olhos e percebo que estou no meu quarto, sozinha, tenho a sensação de levar um choque entre os pensamentos. Dobro os joelhos e puxo minhas pernas em meu peito, abraçando-as. Estava até indo bem, mas agora me vejo voltando pra estaca zero. E às vezes gosto de pensar que vou voltar a ser aquela que me conhece mais. Afinal, quem precisa saber de mim, além de mim? É o pensamento mais egoísta que eu tenho, e assumo isso com o coração na mão. Hoje eu consigo ver que eu realmente estou diferente. Guardo sentimentos horríveis, que eu nunca imaginei que guardaria. Mas, isso é uma coisa só minha. Que deve atingir só a mim. Ninguém pode me apontar o dedo e dizer que sou uma pessoa pior por isso. O que eu sinto, só tem que fazer mal pra mim.
Cansa querer entender, comparar, sentir saudade, chorar, explodir, descontar tudo nos outros. Deus, como cansa essa montanha russa sem fim! Esse humor instável. Uma hora conformada, outra hora querendo sumir. Chega! Eu não aguento mais. É só um sonho. Só um estúpido sonho. Eu posso guardá-lo em um lugar na gaveta e seguir a minha vida, como tem que ser. Procurar outra profissão. Algo que me distraia e que me sustente. Eu posso sobrevier muito bem sem o palco. Sem o teatro. Sem a música. Sem os aplausos. Eu posso!
Minha garganta queima. Sinto um braço rodear meus ombros e, rapidamente, eu disfarço minha posição e agarro o corpo ao meu lado. O cheiro de Quinn me invade e me desmonta. O soluço escapa sem que eu perceba e, mais uma vez, estou chorando forte em seu colo. Escuto sua voz dizendo que tudo está bem. Tudo está bem, Rachel.
Depois de alguns minutos... Horas... Não sei, eu consigo parar. Nós continuamos abraçadas.
– Artie tem razão. – Minha voz sai rouca demais e eu faço uma careta. Quinn vira a cabeça para me encarar. – Nós devemos ter sempre outros planos.
– Devemos. – Concorda, tirando meu cabelo de meu rosto. – Mas, nunca devemos desistir do que realmente queremos. Podem existir outras formas de conseguirmos, entende? Sempre nos levará ao mesmo lugar.
Eu assinto, querendo acreditar nisso. Deito em seu peito, acompanhando sua respiração suave e tranquila. Ela passa os dedos em meu braço, carinhosamente.
– Você dormiu essa noite? – Eu nego, envergonhada. – Deveria ter me ligado.
– Desculpe. – Sussurro.
– Tudo bem. – Se afasta. Eu resmungo com a falta de contato. – Vem, levanta. Vamos deitar na cama.
Eu deixo que ela me guie. Estremeço ao vê-la no uniforme das Cheerios. Que horas são? Quinn tira o tênis, ficando só de meias e sobe na minha cama, me abraçando novamente.
– Você não vai treinar?
– Eu pedi permissão para sair mais cedo.
– Quinn! – Olho para ela. – Não quero que você se meta em problemas por minha culpa. Sue ficará furiosa.
– Não me importo, Rach. – Franze a testa. – Minha namorada desaparece, eu recebo uma ligação de Leroy dizendo como você chegou ontem, fico ainda mais preocupa. Queria ter vindo antes, mas ele disse que não era preciso. Daí você falta aula... – Suspira.
– Eu sinto muito.
– Kurt me contou o que aconteceu. – Eu fecho os olhos. – Preciso ouvir de você. Quero saber o que está sentindo.
– Estou me sentindo fraca. – Ela me aperta. – Você tinha que ouvi-la, Quinn. Ela é incrível. Eu não tenho chances.
– Amor, você vai pra NYADA. Pessoas incríveis entram lá o tempo inteiro. Se ela tem talento, ótimo! Muito bom pra ela. Parabéns. – Levanta meu rosto. – Olha pra mim. – Obedeço. – Você é capaz. Sua voz é maravilhosa. Deus! É a coisa mais linda que existe no mundo. – Sinto meu rosto arder um pouco.
– Você é minha namorada, não vale.
– Eu já achava isso antes de ser sua namorada. – Vira os olhos. – Falo sério, Berry. Não vou deixar que você desista de algo que tem nas mãos. Está aqui. – Põe o dedo na ponta de meu nariz. – E você não consegue enxergar.
– Tenho medo.
– Eu também tenho. Hey! Todos nós temos medo. Isso é normal. – Sorri de lado. – Se, por ironia do destino, algo der errado, nós iremos lá e tentaremos outra vez. Está me ouvindo?
– Não me deixa sozinha. – Ela abre a boca, mas eu empurro nossos lábios, interrompendo-a. – Eu sei que já pedi isso mil vezes, mas eu só... – Respiro fundo. – Preciso de você.
– Eu não vou te deixar, Rach. – Desliza o polegar em minha bochecha. – Eu repito quantas vezes você precisar. Eu não vou te deixar.
– Eu te amo. – Suspiro.
– Eu também te amo, pequena.
Eu fecho os olhos, deixando-a conduzir o beijo. É terno, calmo. Suas mãos estão em meu rosto, tirando os rastros de lágrimas. As minhas estão presas em sua cintura, com o único objetivo de não deixá-la ir para longe. Definitivamente, o efeito que ela tem em mim é o melhor. Se há algumas horas eu estava implorando pro meu coração parar de bater de uma vez, agora eu quero que ele continue acelerando como faz quando eu estou com Quinn.
– Seu pai disse que você não comeu nada hoje. – Diz, se afastando.
– Leroy está aqui?
– Hiram. – Eu assinto, virando os olhos. – Rachel...
– Eu sei, eu sei. – Esfrego meu rosto. – É só estranho ainda, ok?
– Ok. Por que você não toma um banho para irmos comer?
– Não quero sair. – Faço um pequeno bico.
– Tudo bem, eu posso te preparar algo lá em baixo. – Eu sorrio, sem conter um bocejo. – Daí dormirmos um pouco. O que acha?
– Que horas são? – Pergunto, desorientada.
– São 15:20h.
– Amor! Você saiu muito cedo.
– Shhhhhhhhh... – Levanta. – Você vai tomar banho ou eu preciso te levar? – Arqueia as sobrancelhas.
– Não, eu... Eu posso ir. – Sorrio, sem graça. – Obrigada.
Por Quinn
Saio do quarto, meio desconfiada, e suspiro arrastado. Kurt não deveria ter feito isso. Rachel não pode ter recaída, principalmente agora, que precisa de concentração. Vou para a cozinha e abro a geladeira, escolhendo algumas verduras e frutas para fazer uma salada para a morena. Estava lavando tudo, quando ouvi alguém puxar a cadeira atrás de mim.
– Não queria te assustar.
– Tudo bem. – Sinto meu rosto queimar forte. Eu tinha esquecido completamente de Hiram. – Desculpe estar mexendo na cozinha, eu só preciso preparar algo para Rachel. – Tento me explicar. Ele acena.
– Não tem problema. Você quer ajuda? – Assinto, timidamente, por mais que eu não precisasse. – Como ela está?
– Não muito bem. – Sussurro. – Mas, passará.
– Ela não quis que eu entrasse ontem. – Sorri falso, cortando as frutas.
– Rachel precisa de um tempo. Ela não abre os braços assim tão fácil. Digo por experiência própria. – Solto um riso fraco.
– Ela está certa. Nós fizemos mal a ela, então...
– Então não faremos mais. – Levanto a cabeça, sem gostar do rumo da conversa. – Tudo que eu fiz no passado com Rachel eu me arrependo todos os dias. Mas, infelizmente não posso voltar atrás. E ela sabe disso. Eu amo sua filha, Sr. Hiram. Pode parecer inacreditável, mas eu amo. Se existir algo que eu possa fazer para que ela não se machuque de novo, eu farei.
Hiram balança a cabeça, em silêncio. Nós continuamos preparando a salada e em alguns minutos estava pronta. Coloco o prato em cima da mesa. Antes que eu me vire para chamá-la, o homem segura o meu braço.
– Eu também farei qualquer coisa pra que ela não se machuque. – Garante.
Eu sorrio. Acho bom mesmo, Hiram. Eu não quero estar errada quanto a você. Isso causaria um desastre tremendo. Seguro a mão dele e o chamo para ficar com a gente na mesa. Ele me olha, incerto, mas acaba aceitando. Rachel desce com um vestido solto e o cabelo preso em um rabo de cavalo. A morena encara o pai. Dou um pequeno aperto em sua mão, pedindo silenciosamente que ela o aceite. Tento puxar assunto que envolva os dois. Foi um tanto quanto complicado, porque ambos se mostravam tensos, mas acabo achando um que renda alguns sorrisos e frases de mais que três palavras.
Depois que Rachel comeu, nós subimos e em menos de cinco minutos, minha namorada estava entregue ao sono. Fico observando-a dormir. Suas feições estão mais tranquilas que mais cedo, mas seu rosto ainda está um pouco inchado. Me alinho com seu corpo e acabo dormindo também.
Meu celular toca e eu rapidamente silencio. 17:00h. Me espreguiço e desço da cama, sem acordá-la. Santana me avisa que está lá em baixo com Brittany. Eu abro a porta para elas duas, que já estão sem o uniforme das lideres. Peço para que elas fiquem com Rachel enquanto eu tomo um banho.
– Nós não temos só um sonho, nós temos vários deles. – Escuto Britt dizer de forma inocente e sorrio, enxugando o cabelo na toalha. – Por exemplo, eu quero mergulhar com Santana algum dia.
– Sério? – A voz da latina sai surpresa. Eu volto para o quarto e sento ao lado de Rachel. – Mergulhar de verdade?
– Sim. Já imaginou, San? Nós poderemos nadar com todos os peixes e até mesmo golfinhos.
– Oh, Britt. – Alisa suavemente a bochecha da dançarina. – Nós poderemos fazer isso.
– Viu só, Rach? – Bate palmas, animada. Nós sorrimos. – Há algo que você queira, além da Broadway?
– Eu não sei, eu... – Morde o lábio, pensativa. – Ganhar as nacionais?
– Como você é previsível, Berry. – Santana zomba. Eu dou um chute fraco em sua perna.
– Diga um sonho seu, San. – Peço. Ela brinca com os dedos.
– Sonho em levar Brittany para um lanche da tarde na casa de minha avó. – Sorri, envergonhada, sendo abraçada pela namorada.
Nós não falamos nada, apenas respeitamos a latina. Ela havia morado muito tempo com sua avó e nós sabemos o quanto ela sente com a mudança que houve depois que assumiu seu relacionamento com Brittany. Indiferença é algo que machuca o inferno.
– Podemos mergulhar e depois tentarmos um voo de asa-delta? – Ela brinca, quebrando o clima. Eu gargalho, batendo uma mão com a dela.
– Sempre preferimos o ar. – Explico para o olhar confuso de Rachel.
– E os seus? – Pergunta baixinho. – Quais seus sonhos?
– Eu tenho muitos sonhos, Rach. – Digo, sem jeito.
– Tem que dizer, Q. – Britt pede.
– Sonho em abraçar Beth algum dia. – Suspiro. Rachel segura minha mão. – Sonho em ter outros filhos com você. – Sussurro.
– Awn! – Santana cantarola com a namorada. – Mas, que fofa, Fabray. – Eu viro os olhos.
A morena segura meu rosto e prende nossos lábios, sem movimento. Sorrio, sentindo sua respiração na minha.
– Posso sonhar com outra viagem de nós quatro? Realizando alguns desses sonhos loucos? – Rachel ri, mais leve.
– Seria perfeito. – A dançarina se joga na cama.
Nós ficamos conversando mais um tempo, até Leroy chegar com o jantar. Hiram havia avisado ao marido que estávamos aqui e ele trouxe comida para todos. O clima na mesa foi realmente agradável. Rachel estava mais falante e sorridente. Antes das meninas irem embora, eu agradeço-as por terem me ajudado a distraí-la. Ficamos mais alguns minutos conversando com Leroy. Hiram falava quando conseguia se encaixar. Os dois homens se recolheram quando começou a escurecer, não sem antes nos lembrar das regras.
Portas abertas. Ok. Tomamos banho e nos deitamos na cama, abraçadas. Seus dedos traçam meu braço e eu brinco com seu cabelo.
– Eu sonhava em ser sua amiga. – Sussurra, fazendo meu corpo estremecer. Abro os olhos. – Quando você entrou no clube do coral, eu finalmente achei que poderia conseguir. – Sinto um nó subir em minha garganta e não consigo dizer nada. – Bom, de um jeito ou de outro, eu realizei, certo? – Sorri.
– Certo. – Imito seu sorriso. – Realizou bem mais que isso.
– Sonhava em um dueto nosso e também consegui.
– Rach...
– Não sonhei namorando você, sentindo isso tudo... – Continua. – No entanto, às vezes não parece ser real. Às vezes tenho medo de acordar.
– É real. – Coloco sua mão em meu rosto. – Acredita em mim, é tudo real.
– Agora eu sonho em morar com você. – Meu sorriso se espalha. – Onde quer que seja...
– Está me pedindo em casamento, Berry?
– Idiota. – Empurra meu ombro e eu seguro seu corpo, sem me afastar. – Eu surtei mais cedo. – Fico tensa. – Eu surtei e eu não sei se eu posso parar com isso quando me sentir fraca.
– O que está tentando dizer?
– Que eu sinto essa explosão dentro de mim de repente, entende? – Seus olhos ficam cristalinos. – Eu sinto como se... Como se tudo na minha vida fosse errado. – Limpa a garganta. – Não quero que você tenha que sair mais cedo das aulas, dos treinos ou do que seja, por minha culpa.
– Rachel...
– Deixa eu falar, por favor. – Eu enxugo uma lágrima de sua bochecha e assinto. – Eu queria controlar isso. Eu queria... – Funga. – Eu queria ser uma namorada melhor.
– Eu não vou deixar você falando besteira, Rachel. – Interrompo. – Eu sei que você não pode controlar isso. Pra mim, você é a melhor namorada que eu posso ter. E basta. Pare de pensar assim, ok?
Rachel avança em minha boca, faminta. Eu aceito o beijo, deixando sua língua entrar, explorando cada canto, brincando com a minha. Ela morde meu lábio e eu solto um gemido baixo. Nos afastamos, respirando pesado e voltamos. Puxo-a para mais perto, entrelaçando nossas pernas. Rachel morde meu pescoço, enquanto pressiono seu centro. Ponho a mão embaixo de sua blusa e a morena se afasta bruscamente, me assustando.
– O que houve? – Tento recuperar o fôlego.
– Eu não... – Se arruma. – A porta... Ela está aberta.
– Sério que isso vai te impedir? – Levanto uma sobrancelha.
– Sim! Melhor dormimos, ok? – Vira, nervosa.
– Rachel? Está tudo bem? – Noto seu corpo tremer um pouco.
– Claro, amor. Só me abraça, por favor. – Eu assinto, obedecendo-a e enterro minha cabeça em seu pescoço. – Boa noite.
– Boa noite...
Eu fecho os olhos, desejando que tudo esteja realmente bem.
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