Além da superfície.
64 Apenas coisas idiotas.
Notas iniciais
Por Quinn
Sorrio, sentindo os lábios de Rachel brincarem por todo o meu rosto, enquanto sua mão arruma meu cabelo, carinhosa. Abro os olhos, encontrando sua expressão divertida. Deus! Como eu amo esse sorriso. Eu amo todos os sorrisos de Rachel. Sempre amei, pra falar a verdade. Como quando professor Schue anunciava mais um solo seu e ela sorria, irradiando a sala inteira. Eu queria sorrir junto, mas, por algum motivo idiota, eu só virava os olhos, fingindo não me importar. Eu amo quando ela sorri para os carinhos de Leroy, para as histórias de Brittany ou para Santana, quando a latina conta suas piadas de humor Lopez. Mas, definitivamente, eu amo o sorriso que ela dá só para mim. O meu sorriso.
– No que está pensando? – Pergunta curiosa.
– Do que você mais gosta em mim?
– Ah, Q... Existem muitas coi...
– Fisicamente falando. – Restrinjo.
– Você não vai me fazer responder isso. – Esconde o rosto corado.
– Rachel!! – Eu gargalho. – Como você é safada, amor!
– Hey, eu não disse nada. – Resmunga envergonhada.
– E precisa? – Rio, levantando sua cabeça. – Vai, sério, responde.
– Eu já falei. – Murmura.
– Quando? – Franzo a testa. Ela abre e fecha a boca, se cobrindo. – Oh, você gosta da minha barriga. – Lembro, puxando o lençol. – Mas, você fala isso quando estamos transando, não pensei que fosse sério.
– QUINN! – Repreende, me fazendo rir mais alto. – Por está me perguntando essas coisas?
– Não sei, me deu curiosidade. – Aliso sua bochecha rosada e mordo seu lábio inferior.
– Hm, ok. – Entrecerra os olhos. – E o que você mais gosta em mim?
– Suas pernas, lógico. – Respondo rápido. – Auuuuush, amor! – Passo a mão no meu braço. – Por que me bateu?
– Porque você nem pensou! Depois eu sou a safada.
– E você pensou, por acaso? – Nós rimos.
– Eu amo seus olhos. – Solta. Eu sorrio, abraçando sua cintura. – Eles me passam uma espécie de confiança, sabe? Como se eles não fossem capazes de me mentir...
– Eles não são. – Garanto.
– Eu sinto uma calma... Inexplicável. – Sussurra. Coloco uma mexa de seu cabelo atrás de sua orelha.
– Mas, antes disso, você ama minha barriga. – Brinco.
– Digamos que ela me acalme igualmente. – Solto uma risada sonora. – Você é tão boba.
Rachel junta nossos lábios pela primeira nessa manhã. Em outros tempos, eu certamente afastaria quem quer que fosse e levantaria para escovar os dentes antes. Mas, é Rachel Berry. Eu não resisto a minha namorada. Sua língua entra de forma tão delicada, que eu tenho que controlar todos os meus movimentos só para poder deixar que ela faça o que deseja. E ela faz. Brinca, morde, suga... Devagar. Rachel me enlouquece. Nós nos afastamos, respirando pesado.
– Meu sorriso. – Sussurro.
– O que? – Levanta uma sobrancelha.
– Esse sorriso que você me dá. – Explico. – Eu o amo. – Ela sorri maior. – Esse mesmo.
A morena inclina a cabeça para me beijar outra vez, mas alguém limpa a garganta, nos assustando. Eu me afasto rapidamente de Rachel, vendo Hiram em pé na porta, nos encarando. Ela solta um suspiro alto e frustrado, se jogando no travesseiro ao lado. Eu mando um olhar reprovador pra ela.
– Bom dia, meninas. – Ele finalmente fala. – Já está na hora de vocês levantarem, senão se atrasarão para a aula.
– Bom dia, Sr. Hiram. – Respondo antes que Rachel o faça. – Nós já estávamos levantando.
– Eu percebi. – Murmura. Deixo meu cabelo cair por cima do rosto. – Leroy fez o café da manhã. Não demorem pra descer.
Ele deixa o quarto e eu encosto as costas na parede, soltando o ar. Rachel desliza para fora da cama, buscando sua roupa. Levanto, abraçando-a por trás. Ela se aconchega em meus braços.
– O que acha de tomarmos banho juntas para evitarmos a demora? – Proponho, beijando seu pescoço.
– Amor, eu... – Ela vira. – Melhor não abusarmos da sorte. Ele pode subir novamente e...
– Claro. – Solto seu corpo. – Foi uma ideia besta.
– Quinn, só...
– Não! Você tem razão. – Beijo sua testa. – Não podemos arriscar.
Ela assente, indo para o banheiro. Sento na cama, tentando não pensar que Rachel esteja me evitando, mas é simplesmente impossível. Antes de ontem, minha namorada teria me arrastado lá pra dentro ou até mesmo puxado o lençol, sem se importar com as novas e estúpidas regras. Balanço a cabeça, agoniada. Ela não me esconderia nada... Certo? Óbvio, Quinn! Rachel só está preocupada com Hiram. É normal.
Quando escuto seu chuveiro desligar, lembro que não trouxe muita coisa em minha bolsa.
– Rachel? – Chamo.
– Sim?
– Amor, você poderia me emprestar uma blusa?
– Lógico, Q. – Escuto seu riso. Tenho certeza que ela está revirando os olhos. – Pegue algo no meu guarda roupa. Você sabe onde encontrar.
Faço o que ela pede. Abro algumas gavetas, procurando. Droga, Rachel é tão pequena.
– Algo que não tenha esses bichinhos na frente, por favor. – Provoco. – Ainda tenho uma imagem a zelar.
– Imbecil. – Grita, mas sem raiva em sua voz. Eu rio. – O que você tem contra meus suéteres?
– Quando estão em você? Nada. – Brinco, afastando algumas roupas penduradas. – O que é isso? – Franzo a testa.
– Isso o que? – Pergunta do banheiro.
Eu tiro uma sacola escondida do fundo do armário e ponho em cima da cama. Demoro alguns segundos pra poder entender o que são. Pôsteres. Vários deles. Todos dobrados. A morena aparece e toma da minha mão.
– Rach... – Encaro-a. – Você me disse que tinha jogado fora.
– Eu devo ter esquecido, ok? É apenas lixo. Logo mais eu jogo.
– Não faça isso. – Pego de volta. – São seus pôsteres. Olha, o pôster da Barbra.
– É só um pôster idiota.
– Eu gostava do seu antigo quarto.
– Você só esteve nele uma vez, Quinn.
– Mas, eu me lembro de cada detalhe. – Aponto um canto na parede. – Esse ficava aqui. – Aponto outra parede. – Esse ali. – Aponto novamente. – Esse... Ali. – Penso um pouco. – Esse ali. – Pego mais um. – Esse ali.
– Eu não acredito que você lembra. – Ri, incrédula. Eu percebo algo no fundo da sacola.
– Hey, sua estrela. – Sorrio, mostrando-a. – Coloque na porta.
– Não. Isso é ridículo. – Balança a cabeça.
– Não é ridículo, Rach. A estrela é sua marca. – Ela suspira. – Só ela?
– Certo. – Segura a imagem, colocando durex atrás. – Só ela. – Repete.
A morena coloca a estrela na frente de sua porta, deixando os dedos lá demoradamente. Ela solta um suspiro cansado, encarando o desenho. Envolvo meu braço pelos seus ombros, puxando-a para mim.
– Você está bem?
– Uhum. – Aperta minha mão.
– Rachel, ontem...
– Foi só um surto idiota, ok? – Se afasta, forçando um sorriso. – Estou bem, sério.
– Não gosto quando você fala assim. – Admito.
– Assim como?
– Surtos idiotas, sonhos idiotas... – Olho para dentro do quarto. – Pôsteres idiotas.
– Ok, ok. – Prende meu rosto entre suas mãos. – Ok, eu não falarei mais. Se você quiser, eu coloco tudo nas paredes outra vez.
– Não quero que você faça por mim. – Franzo a testa. – Só quero que você fique bem.
– ESTOU BEM! – Fala mais alto, me assustando. – Você deveria ir tomar banho. Vamos acabar nos atrasando de verdade. – Eu assinto, virando. – Me perdoe, eu não queria ter gritado.
– Você me espera? – Ela balança a cabeça, voltando a me abraçar.
Por Rachel
Mais um dia e Sue me rouba Quinn depois das aulas, dessa vez levando Santana junto, dizendo que precisava de outra reunião. Eu imagino o quão torturante deve ser ter Sue como treinadora. Professor Schue não tem as melhores das ideias e isso sempre foi um tanto irritante pra mim, apesar de gostar dele, o que nos trouxe algumas calorosas discussões. Quinn tem uma paciência divina. Com certeza, eu iria brigar com a treinadora todos os dias.
Vejo Karofsky dobrar no corredor, com um copo de raspadinha nas mãos. Meu coração começa a bater acelerado. Olho para trás, me perguntando se ainda dá tempo de correr parar o lado das meninas, mas elas já entraram na sala de Sue. Engulo seco e apresso o passo, entrando no auditório e fechando a porta rapidamente, antes que ele me veja. Uma música me chama a atenção. Vejo Brittany sozinha no palco e me sento em uma das ultimas fileiras, sem que ela perceba minha presença.
Ela não perceberia. Ela está totalmente concentrada, como se tivesse presa em outro mundo. Eu já vi a loira dançar muitos ritmos durante esse tempo, mas nunca a tinha visto no balé. É absurdo. Tenho certeza que meus olhos estão brilhando com a imagem na minha frente. Tem tanta paixão ali. É impossível alguém negar que Brittany nasceu pra isso. Eu sei mexer um pouco meu quadril. Mas, ela mexe partes do corpo que eu nem sabia que podiam se mover. Sempre achei que ela fosse feita de algum tipo de mola ou elástico.
Depois de muito tempo, a música acaba, assim como seus passos, de forma lenta e suave. Ela levanta a cabeça, me encontrando. Seus olhos crescem, surpresos.
– Uau! – Bato palma, encantada. – Nossa, Brittany, isso foi... Uau!
– Você gostou? – Ela sorri, limpando o rosto suado com uma toalha.
– Eu nunca vi nada igual. – Confesso. Ela balança a cabeça. – Te juro. Você está cada vez melhor.
– Estou tentando montar uma coreografia. – Bebe um pouco d’água.
– Você é ótima com isso. – Me aproximo. Ela sempre faz as coreografias do coral, junto com Mike.
– Mas, eu preciso ser mais, se eu quiser entrar na universidade. – Explica. Eu sento no banco. – Você sabe como é. Está passando pelo mesmo.
– Sim. – Sussurro. – Você está com medo?
– Bastante. – Eu sorrio com sua sinceridade. – Ainda mais porque eu tenho que me apegar com as audições, não confio nas minhas notas.
– Você está tendo dificuldade em alguma matéria? Algo que eu possa te ajudar?
– Eu sempre tenho. – Franze a testa. – Artie está me ajudando, mas... Estamos no final do ano. Talvez seja um pouco tarde.
– Como assim, Britt?
– Eu acho que... – Olha para os lados e senta perto de mim. – Eu acho que eu posso perder o ano.
– O que? – Me assusto. – Brittany, isso é sério?
– Sim. – Abaixa a cabeça, envergonhada. – Por favor, não diga nada a Santana.
– Ela precisa saber...
– Eu sei, eu... – Suspira. – Eu vou conversar com ela. É só que... San depositou toda confiança em mim, não queria decepcioná-la.
– Ei, ei. – Seguro sua mão. – Não vai decepcionar, Britt. Tenho certeza que ela vai te entender e te ajudar. Assim como eu e Quinn.
– Vai ser tudo em vão. – Limpa uma lágrima. – Nossos planos, tudo...
– Não diga isso agora. Não sem antes tentar. – Aperto seu ombro. – Por que você não foca um pouco mais no estudo? Se você quiser, eu posso te ajudar a dividir o tempo. Os treinos das Cheerios irão diminuir semana que vem, já é algo a mais.
– Obrigada. – Sorri, sem jeito.
– Você sabe pra onde quer ir? – Pergunto, curiosa.
– Pra NY, Rachel. – Fala como se fosse óbvio. Talvez seja. – Eu vou pra onde me aceitarem, mas quero NY.
– Eu sei, só fique confusa por causa da ultima briga de vocês. – Confesso.
– Eu amo Santana. – Sua voz sai firme. – Tenha certeza, Rach, tudo que ela quer eu também quero. Namorar, casar, morar junta... – Sorri triste. – Mas, eu não tenho base nenhuma ainda.
– Ninguém tem, B. Essas coisas vão se construindo aos poucos.
– Eu estava assustada. Precisava frear isso. Eu não sei se vou conseguir passar no colégio, imagina na faculdade.
– Eu entendo. – Seguro sua mão. – Fique calma. Tudo se encaixará de um jeito ou de outro. Mas, seja sincera com ela, conversem.
– Eu conversarei. – Aperta meu joelho. – Você acha que a reunião acabou?
– Provavelmente. – Olho para o relógio. Perdi o tempo vendo-a dançar. – Devemos ir pra sala do coral.
– Claro. – Levanta, guardando suas coisas. – Você sabe que sua voz é mais bonita do que a daquela menina, não sabe? – Coloca a mochila nas costas. Eu solto um riso baixo.
– Você nem a ouviu, Britt.
– Nem preciso. – Dá os ombros. – Você é Rachel Berry.
Abro a boca para contradizê-la, mas Brittany apenas sai na minha frente. Eu sigo seu rastro, atordoada. Se ela tivesse ouvido, ah... Ela nunca diria isso. Chegamos ao mesmo tempo que nossas namoradas. Ouço Santana resmungar algo sobre o treino, parecendo um pouco irritada. A dançarina entrelaça suas mãos e o corpo da latina relaxa instantaneamente. Quinn parece perceber isso quando sorri, fazendo o mesmo comigo.
– Teremos que ir para a granja outra vez. – Anuncia.
– Sério? – Choramingo. – Alguma outra mudança?
– Não. – Suspira. – Mas, porque nós conseguimos convencê-la.
– Ela está furiosa com isso. – Santana comenta. – Hoje ela descontará tudo na gente.
– Isso é injusto. – Cruzo os braços.
– Diga isso a ela.
– Diva! – Kurt se aproxima. – Fiquei preocupado com você. Faltou ontem e eu te liguei, você não me atendeu. – Me abraça. – Está tudo bem?
– Tudo ótimo, Kurt. – Sorrio. – Só não acordei me sentindo muito bem ontem. – Não era uma mentira. – Desculpe, eu não sei onde coloquei o celular. – Quinn me encara, mas não devolvo seu olhar.
– Não foi uma boa ideia termos ido ao ensaio deles, eu sinto mui...
– Foi uma ideia maravilhosa. – Corto. – Precisávamos levar esse choque de realidade.
– Sim, mas...
– Só ensaiarmos mais e pronto. Ok? – Ele assente desconfiado. Eu abraço Quinn. – Onde está o professor?
– Deve estar com Emma. – Puck entra, dando um sorriso malicioso.
– Estou aqui, Puckerman. – Professor Schue aparece com suas mil pastas. – Vamos começar?
Nós fazemos os aquecimentos, treinando algumas notas musicais. Eu gosto quando os ensaios são mais técnicos. Me sinto mais segura nisso. Bom, eu pareço ser a única a gostar, porque os outros ficaram com expressões entediadas até começarmos a cantar de verdade. O ensaio dura mais que o esperado. Posso dizer que foi proveitoso, mas não o suficiente. Continuo na sala depois da aula, olhando as partituras e tocando um pouco de piano.
Meu pensamento vagueia pela apresentação que assisti antes de ontem. Eles parecem ser tão completos. Quinn entra na sala novamente, já vestida com o uniforme das Cheerios. Eu sorrio para ela.
– Queria que você fosse comigo. – Beija rapidamente minha boca. – Lá é muito lindo.
– Eu sei, você já falou isso umas cem vezes. – Brinco, fazendo bico. – É melhor que você tome cuidado na sua vida, Fabray. – Ameaço. – Não quero pensar em nenhuma ruiva perto de você.
– Ela vai estar perto de mim, isso é inevitável. – Eu empurro seu ombro. – Mas, não é perigo algum, acredite.
– Rum. – Nosso beijo agora é lento. – Tome cuidado, ok? – Ela ia me interromper, mas eu continuo. – Não se esforce além do que aguenta, nem se machuque.
– Você namora a capitã da equipe, não precisa ter medo. – Estufa o peito.
– Eu me lembro da sua queda no segundo ano. Quase pararam a enfermaria por sua causa.
– Foi só uma torção boba. – Vira os olhos. – Alguns arranhões...
– Alguns arranhões na cabeça. – Friso. – Poderia ter sido bem mais sério. – Digo, preocupada.
– Não acontecerá de novo, relaxe. – Ri, beijando minha testa.
– BERRY, LARGA ELA DE UMA VEZ, PRECISAMOS IR. – Santana grita da porta.
– Te ligo depois do treino. – Me abraça. – Vai pra casa agora?
– Eu não sei, acho que sim. Nos falamos mais tarde.
– Te amo. – Se afasta.
– Eu também te amo. Se cuida.
Ela assente, correndo atrás das outras lideres que já estavam no corredor. Eu suspiro, juntando meu material. Ligo o som do meu carro, enquanto batuco os dedos no volante, esperando o sinal abrir. Se eu dobro a esquerda, entro na minha rua. Se eu sigo em frente... A buzina me tira dos pensamentos e eu acelero o carro, sem saber o que eu estou fazendo. Estaciono, engolindo seco. Reconheço alguns rostos e desço, timidamente.
– Hey! Eu não esperava te ver aqui de novo. Rachel... Certo?
– Sim. – Tento sorrir. – Gostaria de me desculpar por ter saído daquele jeito. Eu não me sentia muito bem.
– Tudo bem, não tem problema. Fico feliz que tenha voltado. – A menina de olhos azuis me encara. – Quer conhecer o lugar?
– Claro. Harmony... Certo?
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