Além da superfície.
80 Sair de Lima.
Notas iniciais
Por Rachel
– Estou cansada. – Santana bebe um gole do shop e lambe os lábios suavemente.
– Não ensaiamos mais de duas horas. – Harmony ri, encostando no balcão. A latina vira os olhos.
Eu consegui arrastar Santana para o galpão, depois do colégio, ao longo de muita insistência. A latina cedeu e assistiu comigo ao ensaio do grupo e, como sempre, ficou maravilhada com todos eles. New Directions é ótimo, mas eles são perfeitos, sincronizados. Dou graças a Deus todos os dias por eles não participarem mais de competições, porque isso seria vitória para eles, na certa. São melhores que o Vocal Adrenaline, na época de Jesse, e eu nunca pensei que isso fosse possível.
Assim que terminaram o ensaio, a maioria se retirou e deixou o lugar para nós. Harmony puxou uma grande lista de músicas complicadas, com notas altas e de tons diferentes do que estamos acostumadas. Quanto mais difícil, melhor. Santana logo se deitou no palco, nos deixando ensaiar as ultimas músicas sozinhas. Harmony precisou fechar o galpão para ir trabalhar, nos chamando para acompanhá-la. Pensei um pouco, antes de aceitar. Avisei a Quinn, que só resmungou, mas disse que não tinha problema. O bar ainda está vazio, por conta do horário, o que nos deixa mais confortável.
– Já tive o Glee clube por hoje.
– Desde quando você se acomoda só no coral, San? – Apoio um cotovelo no balcão e descanso a cabeça na mão.
– Não estou acomodada. – Rosna. – Professor Schue está puxando muito para as nacionais, sabia?
– Você irá fazer um teste para NYADA, sabia? – A bar girl lembra.
– Basta. Não posso mais cansar? Inferno. – Volta a beber.
– Você treinava horas e horas nas Cheerios, Santana.
– Rachel, o que você quer? – Bate a mão na perna, mais frustrada do que chateada. – Por que vocês estão me tratando assim? Ensaiamos, não ensaiamos?
– Ensaiamos. – Eu respondo. – Pouco.
– Olha, arrumem o porcelana, ou o namorado idiota dele. – Levanta. – Eu não sou de ficar esse tempo todo ensaiando. Sinto muito.
– San. – Seguro o braço da latina. – Desculpa. Só estamos preocupadas.
– Preocupadas com o que? – Joga as mãos para o alto. – Eu estou ensaiando, estou... – Ela inclina a cabeça. – Oh...
– O que? – Harmony pergunta, curiosa pelo silêncio da outra.
– Nada. – Pisca os olhos com força, sentando-se novamente. – Me traz um daquele drink, por favor.
– Santana, você já está tomando shop e nem ia beber. Não vai misturar. – Bronqueio.
– Outro shop, pode ser, senhorita estraga prazeres? – Eu assinto. Harmony vira, enchendo o copo. – Bela vista. – Encara a parte traseira da menina.
– Santana! – Bato em seu ombro. Harmony entrega a bebida, sorrindo.
– Você tem olhos lindos. – Sorri. – Eu devo ter muita atração por olhos azuis. – Franze a testa.
– Obrigada. – Responde, divertida. Eu encaro minha amiga, de boca aberta.
Mudo de assunto para quebrar esse clima que Santana criou. Nós ficamos conversando um tempo, antes do local começar a encher. Consequentemente, a menina de olhos azuis fica mais ocupada. A música já está alta e várias pessoas falam ao mesmo tempo. Sinto falta de Quinn aqui e estremeço ao lembrar a performance de toxic que ela fez nesse lugar. Peço para irmos, mas a latina insiste em ficarmos um pouco mais.
Um homem barbudo, forte, vem em direção ao balcão e eu me afasto. Ele se aproxima do ouvido de Harmony, fazendo-a fechar a expressão. Ela vira buscando uma garrafa e derrama o líquido no copo até enchê-lo. O homem sorri, olhando-a com malicia. Ela o entrega, séria.
– O que foi isso? – Santana pergunta, sentando-se no banco da frente. Harmony suspira.
– Só algo que eu tenho que aguentar.
– Ele te desrespeitou? – Pergunto, preocupada. Ela sorri.
– Rachel, eu já estou acostumada com certos tipos de comentários.
– Homens. – Santana bufa.
– Oh, eu recebo propostas de mulheres também. E elas nem sempre são sutis. – Ri. – Mas, sério. Portanto que não passem disso, eu estou ok. – Ela pisca um olho para mim e eu me remexo.
– Bem... Não é pra menos. – A latina ergue uma sobrancelha. – Você é muito bonita. – Harmony balança a cabeça, rindo. – Então? NYADA é seu maior sonho?
– É um dos maiores, sim. – Concorda. – O maior deles é sair dessa cidade. – Nós rimos.
– Não pertencemos aqui. – Digo.
– Não. Somos pessoas que sonham alto. – Bebe. – Eu gosto de pessoas que olham para frente, que correm atrás. Isso é bom.
– Sim... – Entrecerro os olhos.
– Já pensou todas nós lá, uh? – Seu tom faz um choque percorrer meu corpo e eu finalmente reajo, segurando seu punho. – O...
– Harmony, a noite foi muito agradável, mas amanhã temos aula e precisamos ir. – Aviso.
– Hey, eu não que... – Santana tenta protestar.
– Tchau! – Mando um olhar de desculpas para a menina de olhos azuis, que assente, sorrindo e logo acena.
Continuo arrastando Santana para fora do lugar, empurrando as pessoas de nossas frentes. Ela resmunga até chegarmos a porta. A música vai silenciando e tudo que podemos ouvir agora são os carros passando na rua e o ruído fraco do bar.
– O que merda é essa, Santana? – Eu puxo-a para dentro do carro.
– Eu sei que foi Brittany que falou com você.
– O que? Não! – Ela me encara. – Ok, e daí? Isso é motivo para dar em cima de Harmony?
– Está com ciúmes? – Levanta uma sobrancelha.
– Sant...
– Se eu fosse a Quinn, me preocuparia. – Põe o cinto. – Ela está arriada por você.
– Do que você está falando?
– Harmony. – Ri. – Ela quer você.
– Você... – Fecha os olhos. – Você está bêbada.
– Não sou tão fraca assim.
– Então você ficou louca de vez, é isso. – Balanço a cabeça, ligando o carro. Ela sorri, abrindo a bolsa.
– O que está fazendo?
– Eu preciso de um cigarro.
– O que... Santana, largue isso!
– Só um, Rachel, não é como se eu fosse morrer. – Vira os olhos.
– Eu estou no meu carro, dirigindo e estou mandando você não acender. – Exijo. Ela dá os ombros. Pego sua bolsa e jogo para trás.
– HEY, EU QUERIA ISSO!
– PARE DE AGIR ASSIM! – Ela cruza os braços, em silêncio.
– Te incomoda o fato dela querer você? – Pergunta, de repente. – Harmony...
– Me incomoda o fato de ter uma pessoa preocupada com o seu futuro e você tratar isso como merda e dar em cima da primeira que aparecer. – Cuspo. Ela se encolhe.
– Ela está pouco se fodendo para nós. – Ri, amarga. – Às vezes, eu acho que ela quer que eu fique longe mesmo.
– Não é verdade, San. – Suavizo. – Britt te ama.
– Já vejo. – Suspira. – Eu não ia traí-la. Você sabe, não sabe?
– Sei. – Respondo, sincera. – Você não pode perder o foco. Você me ajudou a chegar até aqui, eu não vou deixar que desista agora.
– Eu não perdi foco algum.
– Perdeu. Está deixando de se esforçar porque... – Ela me encara. – Porque está com medo de ficar longe dela.
– Pra você é fácil falar. Quinn já está de malas prontas. – Dá os ombros. – Se eu não passar, eu vou continuar tentando. Daqui, mas...
– Daqui? – Rio. – Santana, você sabe que NY vai te fazer crescer bem mais que...
– Eu sei. Ok? Eu sei disso. – Cruza os braços. – Mas, eu já decidi.
– E por isso não faz questão de passar mais?
– Eu faço! Eu quero essa merda, Rachel. É meu sonho também.
– E se você passa? E se ela fica aqui? – Vejo-a fechar os olhos.
– Eu vou. É óbvio que eu vou. Acabei de dizer que é meu sonho. Você não entende isso?
– Perdão. – Coloco a mão em seu joelho. – Fique tranquila, San. Estaremos todas juntas no final.
– É o que falam...
A latina encosta a cabeça na janela do carro e eu sei que sua cota de palavras de hoje já esgotaram. Respeito seu silêncio, como ela respeitou os meus por tantas vezes. Não, esse não é nosso lugar.
Por Quinn
Rachel me conta o que aconteceu ontem, na volta do colégio. Ela decidiu não ensaiar no galpão hoje para ficar estudando comigo em casa. Eu rio da minha namorada imitando uma Santana alegre, mas meu sorriso não dura tanto quando eu estaciono o carro na garagem. Rachel me olha, confusa e eu devolvo o olhar. Frannie está de costas para nós, batendo no saco de pancadas, sem parar. Ela nem mesmo percebe nossa presença.
– Você pode ir subindo? Eu estarei lá em cinco minutos. – Sussurro. Rachel olha para minha irmã e me encara, com um sorriso pequeno.
– Claro. – Beija minha bochecha. – Tome o tempo que precisar.
Eu assinto, vendo-a sair da garagem. Suspiro, pegando as duas manoplas em cima da mesa e coloco-as nas mãos. Frannie continua a bater, concentrada. Eu me aproximo de seu campo de visão, procurando não assustá-la. Seus olhos cruzam os meus por alguns segundos.
– Alguém teve um dia ruim. – Digo. Ela inclina a cabeça para o lado, sem parar os movimentos. Toco seu ombro. – Aqui. Vem.
Frannie vira, deixando escapar um grunhido de sua garganta. Levanto as manoplas, recebendo seus golpes pesados. Fica mais fácil de me defender, já que sei o jeito que ela treina. Nós fazíamos isso com frequência. Várias vezes saiamos com grandes marcas no corpo, mas nos sentíamos bem melhor depois. Não conversávamos. Eram apenas descargas de sentimentos. O que me preocupa, porque é exatamente o que ela está fazendo agora. Seus golpes vão ficando mais leves, diferente de sua respiração, que pesa cada vez mais por causa do cansaço. Ela para. A loira senta no chão, encostando as costas na parede. Jogo sua garrafa d’água em seu colo.
Sento ao seu lado, esperando que ela beba e respire um pouco.
– Ele me pediu em casamento. – Sussurra. Eu tenciono.
– O... Que? Você aceitou? – A encaro. Ela desvia os olhos. – Deus, você não aceitou.
– Não. – Engole em seco. – Mas, também não neguei.
– Como assim?
– Eu... Eu pedi um tempo... Para pensar.
– Fran, vocês estão juntos de verdade há quanto tempo? Dois meses? Que loucura foi essa? – Ela encolhe. – Desculpe, eu só estou surpresa!
– Eu também estou. – Suspira. – Só que... Não somos dois adolescentes, Q.
– Vai aceitar casar com ele por causa de sua idade?
– Claro que não. – Esfrega o rosto. – Eu não sei o que fazer, ok?
– Você o ama?
– Sim. – Sorri de lado.
– E ele? Te ama?
– Sim. – Sorri. – Eu tenho medo de machucá-lo, entende?
– Sabe, você aceitar não significa que precisam correr em um cartório e assinar os papéis no mesmo minuto. Casamentos levam tempo para serem preparados. Eu imagino que você queira casar na igreja, certo?
– Com certeza. – Seus olhos brilham.
– Então. – Seguro sua mão. – Precisam ajeitar tudo, procurar um lugar para morarem. Existem coisas para serem discutidas, principalmente se vocês não estavam planejando isso. Noivados, às vezes, duram mais que namoros. – Empurro seu ombro. Ela vira os olhos.
– Não vou enrolá-lo, Quinn.
– Estou brincando. – Rio. – Digo, sobre enrolar... Vocês precisam conversar. Não é isso que você diz? – Ela morde o lábio, pensativa. – Que tudo se resolve com uma boa e sincera conversa?
– É o que eu digo. – Deita a cabeça em meu ombro. – Quando você cresceu tanto?
– Quando eu me apaixonei de verdade. – Suspiro. – Eu nunca cresci tanto como eu cresci com ela.
– Eu sei, eu vejo isso.
– Inclusive, ela está lá em cima.
– Oh, meu Deus. – Se afasta. – Suba. Eu sei que vocês não estão tendo muito tempo juntas.
– Tem certeza?
– Sim, eu estou bem. – Garante. – Obrigada.
– Se precisar de alguma, você promete que...
– Eu bato em sua porta, mesmo se estiver escutando barulhos estranhos.
– Frannie. – Resmungo, envergonhada.
– O que? – Abre os braços. Eu faço uma careta.
– Não, você está nojenta. – Ela faz bico. – Argh. – Abraço-a.
– Eu te amo!
– Eu também te amo. – Beijo sua testa. – Fica bem, ok? Vocês irão resolver isso.
– Ok. Vai pra sua mulher.
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– Mas, Rach, eu não o conheço! – Protesto.
– Ele já demonstrou ser um bom rapaz, Q. Fique calma. Frannie não cometeria nenhuma loucura.
– Bem, mamãe cometeu. – Afunda o rosto nas mãos.
– Olha para mim. – Obedeço. – Chris não é o Russel.
– Ele pode ser!
– Certo, não precisamos confiar nele agora, ok? – Assinto. – Vamos deixar o tempo cuidar disso.
Depois de contar o que havia acontecido para Rachel, nós resolvemos tentar estudar um pouco. Ela lê algo sobre química, que eu desisto de prestar atenção em minutos. A conversa com Frannie fez minha cabeça turbilhar. Sinto a cama afundar e o cheiro da minha namorada me invade, me arrancando um sorriso sincero.
– Amor? Você está bem? – Pergunta, timidamente.
– Sim. Só estou... Pensando. – Suspiro.
– Você quer me dizer? – Eu a encaro.
– Acho que, pela primeira vez, eu estou com medo de sair daqui.
– Daqui...?
– De Lima. – Ela arqueia as sobrancelhas. – Vou estudar fora. Minha irmã, mais cedo ou mais tarde, também irá sair de casa. Eu... – Me calo. Seu olhar compreensivo faz meu coração errar uma batida.
– Judy é uma mulher madura, saudável e responsável. – Fecho os olhos. Ela se aproxima.
– Não quero que ela fique sozinha. – Sussurro, sentindo seus braços me acolherem.
– Ela nunca ficará sozinha.
– Você sabe o que eu quero dizer. Essa casa é enorme e... Já é meio vazio morarmos nós três aqui.
– Ela pode procurar um apartamento para ela, quem sabe. Isso ela resolverá com o tempo, Q. Não acontecerá de uma vez. – Mexe em meu cabelo.
– Nós nos aproximamos muito esses últimos dois anos. – Eu me aconchego em seu peito. – Foi como se nós três tivéssemos morado juntas por todo esse tempo e só nos encontrado quando o filho da puta foi embora. – Ela me aperta.
– Vocês não irão se separar. Confie em mim. Nada mudará na relação de vocês.
– Você não tem medo? – Olho para ela. Ela morde a boca.
– Q... O que aconteceu com você, aconteceu exatamente o contrário comigo. – Suspira. – Lá em casa nós... Nos desencontramos. – Sorri triste. – Estamos nos reaproximando e tudo mais, mas... Ainda não é mesma coisa. E eu não sei se será novamente um dia. – Abro a boca, mas ela continua. – Então, eu não estou me importando em ter que me mudar. Estou rezando para que chegue logo a hora.
Eu inclino a cabeça, unindo nossos lábios. Rachel aprofunda o beijo, segurando minha nuca e brincando com meu cabelo. Me afasto para encará-la. A boca dela fica tão linda depois que nos beijamos. Ganha um tom avermelhado tentador. Vejo os dentes dela prenderem o lábio inferior e subo o olhar para seus olhos.
– E quanto a nós? – Sussurro. – Você está mesmo disposta a isso?
– Você já me perguntou tanto, que estou com medo de que desista. – Sua voz é brincalhona. – Você vai me beijar todos os dias, quando formos dormir e quando nos acordarmos?
– Claro.
– Nós iremos fazer amor depois de um dia chato?
– E depois de dias divertidos. – Declaro. – Antes e durante eles também. – Ela ri.
– Você tem alguma mania que eu não saiba? – Eu franzo a testa. – Você joga toalha molhada em cima da cama?
– Não. – Viro os olhos, escutando sua risada. – E você? Tem alguma? Anda nua pela casa? – Aperto sua cintura.
– Não... Ainda. – Nós rimos. – Iremos fazer isso, certo? – Passa o dedo em meu rosto. – Iremos conseguir.
– Rach, nada me deixa mais feliz e confiante do que te ouvir falando assim. – Beijo sua mão. – Sim, nós iremos conseguir.
– Sairemos de Lima.
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