Além da superfície.
81 Reunião.
Notas iniciais
Por Rachel
Eu prendo o cabelo com as mãos, colocando-o de lado, enquanto viro para o espelho do banheiro. Minha nuca está vermelha, com arranhões que, se tivessem sido feitos com um pouco mais de força, certamente teriam sangrado. O reflexo da loira sonolenta atrás de mim me faz sorrir. Quinn se aproxima e faz uma careta ao olhar minha pele, beijando suavemente minha nuca, baixando pelos traços. Eu me encolho.
– Dói? – Sussurra.
– Arde. – Admito. Ela choraminga.
– Me perdoe. Eu preciso cortar mais minhas unhas, não... – Eu junto nossos lábios, interrompendo-a. – Rach...
– Acabei de ter uma das melhores tardes com você naquela cama, e em vários outros lugares dessa casa, não estraga isso. – Aliso sua bochecha.
– Mas, eu te machuquei, está...
– Eu nunca me orgulhei tanto de uma marca assim. – Sorrio, olhando o espelho novamente. – Essas que deveriam ficar.
– Não fala isso, Rachel. – Repreende. – Você não deve ter nenhuma marca.
– Você se arrependeu? – Levanto uma sobrancelha.
– Eu... Lógico que... – Ela balança a cabeça, com um sorriso reprimido. – Óbvio que não, Rachel. Eu nunca me arrependeria de fazer amor com você.
– Não fizemos só amor. – Sussurro em seu ouvido. – Fizemos muito sexo. Sexo descontrolado. Sexo selvagem.
– Se você não parar de falar agora, eu não responsabilizo por suas outras partes do corpo. – Avisa. – Seus pais poderiam viajar mais vezes. – Eu rio.
– Engraçado, hm? Há uns meses eles não paravam em casa e eu não tinha você aqui pra... Cuidar... De mim. – Digo, com um sorriso malicioso.
– Eu vou... Cuidar... De você, sempre que precisar. – Ri, mordendo meu lábio levemente. – Por que não me acordou para tomarmos banho juntas?
– Porque eu não consegui. – Faço bico. – Você estava tão jogada na cama, que eu fiquei com pena de te acordar.
– Você acabou comigo. – Sussurra.
– Bom saber que não sou a única assim. – Sento na pia, vendo-a tirar a blusa. – Nem a única marcada. – Ela se olha no espelho.
– Você fez uma arte aqui, olha só. – Aponta, rindo. – Não podemos ficar longe, senão na próxima vez, nos mataremos.
– Provavelmente. – Brinco.
Ela entra no chuveiro, cantarolando baixo e, às vezes, falando sobre coisas aleatórias. Eu apenas admiro a cena. Quinn tem um corpo maravilhoso, suas pernas, sua barriga, suas costas, é tudo tão perfeito que... Suspiro alto, conseguindo seu olhar e uma risada gostosa, ao descobrir meus olhos nela. A loira sabe o efeito que causa em mim. Depois de hoje, não deve sobrar alguma duvida quanto a isso.
Nunca havia acontecido. Nós explodimos de um jeito fora do nosso comum. Nossos corpos pareciam estar pegando fogo e eles davam choque ao se encostarem. Os toques eram dolorosamente deliciosos e nós só paramos quando ambas caímos exaustas na cama. Leroy e Hiram avisaram que teriam que viajar a negócios. Sim, apesar de tudo, eles ainda trabalham. Ao menos eles avisam agora. Então, Quinn veio passar o final de semana comigo.
– Você já pensou no que vai fazer para mais tarde? – Pergunta, saindo do box.
– Q, você não acha que... É melhor desmarcamos isso? – Sussurro.
– Por quê? – Franze a testa. – Vai ser divertido.
– Minha casa não é divertida. Digo, é espaçosa, mas não temos muito o que fazer. – Dou os ombros.
– Iremos ensaiar, certo? Só precisamos da sala.
– Não sei se foi uma boa ideia.
– Amor... – Ela me abraça pela cintura. – Apenas, relaxa, ok? Se algo der errado, eu darei um jeito. Confia em mim?
– Sim. – Suspiro, apertando-a. – Enquanto você estiver perto, eu confio até em mim.
– Hey, você não precisa que... – Junto nossas bocas, ela aceita o beijo, mas se afasta rapidamente. – Rachel!
– Só foi um jeito de dizer. – Encolho os ombros. Ela entrecerra os olhos. – Coloque sua roupa, vamos comprar comida...
–
Santana e Brittany, obviamente, haviam sido as primeiras a chegarem. Nós quatro arrumamos tudo, deixamos a sala mais espaçosa, empurramos os objetos quebráveis e montamos o equipamento de karaokê que eu não tinha pego há muitos meses. Por mais que minha namorada tentasse, eu não conseguia evitar o nervosismo. Da ultima vez que eles vieram aqui, a lembrança foi muito agradável. Os meninos logo reclamaram do tédio e convenceram todos a irem embora para um lugar melhor. E eu havia tentado agradá-los de todo os jeitos.
Quando a campainha toca, sinto meu corpo tencionar. Quinn segura a minha mão e me leva até a porta. Eu respiro fundo, antes de virar o trinco. Kurt me dá um sorriso largo e eu suspiro por ser ele. Blaine aparece logo atrás, com seu cabelo arrumado milimetricamente no lugar. Os dois me cumprimentam e entram. Eu não tenho tempo para sentar, a campainha volta a tocar até o ultimo membro do Glee clube chegar. Puck abre os braços e eu desvio o olhar para uma de suas mãos.
– Isso é...
– É só para nos alegrarmos um pouco! – Dá os ombros.
– Não estamos dando uma festa. É só um ensaio extra.
– Eu sei, Rachel. – Vira os olhos. – Mas, podemos aproveitar isso. Nunca nos reunimos fora do colégio. Por que não aproveitarmos? – Ele me puxa para o abraço. Troco um olhar duvidoso com Quinn.
– Você promete não passar dos limites? – A loira pergunta, calma.
– Você já me viu passar dos limites? – O sorriso malicioso dele faz com que eu me afaste e abrace Quinn com força.
– Acho melhor que isso tenha sido um sim. Não quero ter que chutar bêbado para fora de casa. – Levanta uma sobrancelha.
– Sim, senhora.
O moicano bate continência, antes de entrar e erguer a garrafada, fazendo todos da sala vibrarem com ele.
– Tudo bem? – Quinn sussurra.
– Sim... – Dou meio sorriso.
Me tranquilizo mais ao ver todos na sala, conversando animadamente. Alguns meninos sentados no chão, enquanto outros se distribuíam pelo sofá e pelas cadeiras. Santana colocou o balde de pipoca em cima do centro e ele logo foi atacado. Eu e Quinn nos sentamos perto deles. Finn foi o primeiro a puxar o assunto sobre as nacionais e eu o agradeci mentalmente por ele não esquecer o motivo da reunião. Mike e Brittany ouviam os comentários sobre a dança, atentos. Os dois dançarinos mudavam os passos e auxiliavam quando preciso. O mesmo aconteceu com a questão das vozes. Não só eu, mas todo mundo opinava sobre os tons e a harmonia da música.
Foi uma conversa inicial bastante proveitosa. Ensaiamos as coreografias algumas vezes e tenho percebido uma grande melhora na sincronia do grupo. Isso é muito bom. O clima foi suavizando mais, a vodka que Puck trouxe foi servida e nós resolvemos ligar o karaokê para passarmos o tempo. E continuarmos ensaiando, de um jeito ou de outro.
– Droga, eu deixei a lista de músicas lá em cima. – Choramingo. – Eu vou buscar, só um minuto.
Corro para o meu quarto, buscando a pasta por minhas gavetas e não fazendo ideia de onde eu havia guardado desde quando usei. Alguém bate na porta, que está aberta. Eu me viro, encontrando uma morena desconfiada.
– Desculpe, eu saindo do banheiro e vi você passar...
– Tudo bem, eu vim atrás da lista. – Continuo procurando.
– Está... Diferente... Aqui... – Mercedes diz, olhando para os lados. Eu a encaro. – Você sabe, desde a ultima vez que eu vim.
– Eu estou diferente. – Dou os ombros.
– Percebi.
– Você está diferente. – Ressalto.
– Eu sempre fui assim, Rachel.
– Não. Você era minha amiga. Ao menos... Parecia ser.
– Nos dávamos bem porque você era como eu.
– Eu nunca fui como você. – Faço uma careta.
– Ah, foi. Você era ambiciosa, não media esforços para conseguir o que queria. Passava por cima sem se importar com os outros. – Abro a boca. – E eu te admirei por isso. Apesar de ser uma perdedora, você estufava o peito e se erguia.
– Uma hora a gente cansa de fingir não se importar.
– Talvez. – Ela encolhe os ombros. – Mas não posso evitar a decepção.
– Eu que me decepcionei, Mercedes. – Ponho o dedo em meu peito, ficando chateada. – Você não se importou comigo!
– Vamos lá, Rachel, você colocou tudo a perder e, além de baixar seu status, você se entregou. Nossa relação não era mais saudável.
– Porque vocês só pensam nisso. – Sussurro.
– Foi saudável para você ser assim? – Desafia.
– Não. – Balanço a cabeça. – Não é saudável ficar só.
– Você já pensou que, se fosse eu, talvez você tivesse feito o mesmo?
– O que? – A encaro. – Claro que não, Mercedes! Eu tentaria te ajudar! – Protesto.
– Não a velha Rachel. – Sorri de lado. – Você pode ter tirado um lado bom nisso tudo, afinal.
– Unhum. – Baixo o olhar, pensativa.
– Você ainda faz isso? – Aponta para meus braços.
– Venho tentando parar.
– A Quinn está te ajudando?
– Sim. – Sorrio. – Principalmente.
– Isso ainda é estranho. – Ri baixo e eu a acompanho.
– Como você e o Sam.
– Eu e... Eu... – Ela fica nervosa. – Eu e ele não temos nada.
– Por que você ainda nega? Nós vimos no baile.
– Somos amigos.
– Sério? E New York? – Ela arregala os olhos.
– Quem... Quem te contou isso? Ele...
– Ele é a pessoa que vai te fazer
– Estamos no seu quarto falando de garotos? Essa é uma cena que eu achei que nunca mais fosse se repetir. – Brinca.
– Estão falando de garotos sem mim? – Kurt aparece, colocando a mão no peito e fingindo mágoa. – Está falando de garoto, Rachel Berry?
– Não, eu deixo esse assunto para vocês. – Nós rimos. Solto um suspiro arrastado. – Em que momento nos perdemos?
Por Quinn
Vou à cozinha para tirar a pizza do forno e servir na sala. Percebo a presença de alguém atrás de mim e sorrio com Joe segurando a bacia seca onde estavam as pipocas.
– Fiquei feliz por você ter vindo. – Digo, sincera. – E surpresa.
– Fico feliz por surpreender você de uma forma positiva. – O rapaz retribui o sorriso, passando um pouco de água nos copos que estão em cima da pia.
– Sei que custou para você vim. – Ignoro sua fala. – É bom saber que está nos aceitando.
– Eu não estou aceitando, Quinn. – Me encara. – Eu sinto muito, mas eu não posso aceitar.
– Joe... – Choramingo. – Eu e Rachel...
– Vocês estão juntas. – Franze a testa. – Minha religião e...
– Eu sei. – Interrompo-o. – E eu não vou te colocar contra nada, porque eu sei que isso é importante pra você, mas eu gostaria muito que você me entendesse.
– Vai além da minha religião. – Abaixa a cabeça. – Eu não posso aceitar isso quando deveria ser eu no lugar dela.
– Não fala assim. – Bronqueio. – Eu nunca te dei esperança de algo mais, Joe. Nós estávamos nos dando bem. Eu realmente gostava de sua presença. Gosto.
– Você não deu chance. Eu poderia ter tentado, ter... Te conquistado.
– Ok, poderia, mas Rachel me conquistou antes. – Digo séria. – E se você não aceita isso, infelizmente, eu não posso fazer nada, além de respeitá-lo como companheiro do clube do coral e exigir respeito mutuo. E só.
– Sam gosta de você e vocês são amigos. – Resmunga.
– Sam não gosta de mim assim. – Viro os olhos. – Ele já seguiu em frente e você deveria fazer o mesmo. Você é um cara legal, Joe. Não vá por esse caminho.
– Eu entrei no coral por você.
– Fico lisonjeada. E agradeço, porque você tem uma boa voz e só acrescentou no grupo.
– Você não entende? – Se aproxima. – Eu entrei porque me apaixonei por você.
– Você mal me conhecia. – Dou um passo para trás. – Joe, quando ou como isso aconteceu, não vai mudar nada.
– Quinn...
– Você está me deixando irritada. – Aponto. – Está estragando o pouco que nos resta.
– Eu não quero restos...
– O que está acontecendo aqui? – Rachel franze a testa, puxando minha cintura de forma protetora.
– Estávamos conversando. – O menino resmunga.
– Na verdade, ele estava dizendo que precisava ir embora. – Ponho um braço ao redor da morena, aceitando seu abraço.
– Eu... – Ele me encara. Minha namorada oscila o olhar entre nós dois. – Sim. Eu preciso ir. – Balanço a cabeça. – Vejo vocês no colégio.
– Quer que a gente te acompanhe até a porta?
– Não precisa. Obrigado. – Suspira. – Boa noite.
– Boa noite. – Respondemos em uníssono.
– O que... – Rachel vira para mim. Eu a beijo, impedindo que ela termine logo a frase. – Hm... Devo me preocupar?
– Não. – Sorrio de lado. – Onde você estava?
– Lá em cima com Mercedes e Kurt. – Traça meu rosto com os dedos. – Tivemos um momento nostálgico.
– Você está bem?
– Por incrível que pareça... Sim! Estou bem. – Sorri. – Vamos, eu estou ficando com fome.
Eu rio, levando as pizzas para o centro da sala. Os meninos avançam, como se nunca tivessem visto comida na frente antes. Enquanto alguns comem, outros cantam. E assim revezamos o karaokê, que nos rende boas e longas risadas. Me sinto mal por ter praticamente expulsado o garoto de dread, mas ele estava quase ultrapassando a linha do limite e eu não podia perder a cabeça. Não em um dia como esse. Rachel está sorrindo e se divertindo com os outros membros do grupo, como há tempos ela não conseguia fazer. O sorriso dela é o que importa para mim agora.
Percebo Tina olhar para Mike com um sorriso triste no rosto.
– Está tudo bem? – Sussurro para ela.
– Sim. – Abaixa a cabeça. – Sabe como eu sou. Já estou com saudade disso tudo. – Gesticula.
– Do Mike.
– Principalmente. – Sua voz embarga, mas ela limpa a garganta. – Vocês irão sair, mas eu vou continuar aqui e isso será difícil.
– Passará logo. – Rachel segura sua mão. – Mike irá te esperar.
– Ele tentará para NY? – Pergunto.
– Com certeza. – Ri de lado.
– Ficaremos de olho nele. – Minha namorada ergue a mão solta para que eu bata com ela.
– Eu confio nele. Confio muito. – Suspira. – O problema é a saudade mesmo.
– Eu sei. – Aperto seu joelho. – Quer cantar comigo?
– O que? – Franze a testa.
– Rachel, me dê a lista de músicas. – A morena vira, me entregando.
– Tina e Quinn farão um dueto? – Ela pergunta, empolgada. A asiática me olha, sorrindo confusa.
– Que música, Q?
– Você me acompanha. Ok?
Levanto, puxando-a pela mão. Todos gritam. O piano começa a soar e ela suspira pesado, voltando o olhar para o dançarino no meio da sala.
– So far away... Doesn't anybody stay in one place anymore...
Santana esconde o rosto no pescoço de Brittany, que a abraça apertado, cantando baixo em seu ouvido enquanto desliza os dedos de forma carinhosa em suas costas. Quando Tina começa a cantar, Mike praticamente paralisa, tenho certeza que não existe mais ninguém aqui no momento, apenas eles dois. Encaro Rachel, sentindo seu olhar da mesma forma. Meu coração bate mais acelerado. Ela não está fazendo nada além de me encarar. Mas, ela é tão linda. Seu cabelo cai pelo ombro de um jeito perfeito, em cima de seu moletom cinza. Ninguém questiona sobre o calor e se está desconfortável. Rachel se acostumou a esconder seus cortes assim por muito tempo. As pessoas não precisavam saber que ela não estava escondendo os cortes dessa vez, e sim todas as marcas que nós fizemos mais cedo. Eu abro um sorriso maior com a lembrança. Ela parece fazer o mesmo, porque seu rosto ganha um tom de vermelho peculiar.
Nós terminamos a música e Tina murmura um obrigada, indo se juntar ao namorado emocionado. O clima logo volta ao normal e as brincadeiras continuam. Sento por trás de Rachel, deixando-a entre minhas pernas. Beijo sua nuca, enquanto ela ri de uma imitação idiota que Sam está fazendo com Brittany. A morena deita a cabeça em meu ombro.
– Eu te amo. – Sussurro. Ela treme em meus braços e eu posso ver seu sorriso alargar no rosto. – Eu sou apaixonada por você, Rachel Berry.
– Eu também sou apaixonada por você, Quinn Fabray. – Aperta minha mão. – E eu te amo muito.
– Bom... – Sorrio, beijando seu pescoço.
– Parem de melação. – Santana vira os olhos.
– Quinn, você já arrumou as coisas na universidade? – Artie pergunta, dando um gole em seu copo.
– Estou tentando. – Apoio o queixo no ombro da minha namorada. – Mas, a matrícula é presencial e eu terei que ir lá.
– Eu imaginei. – Ajeita os óculos. – E quando irá?
– Marquei minha passagem para sexta feira.
– Sexta? – Kurt arregala os olhos. – Dessa semana?
– Sim, por quê? – Franzo a testa.
– Rachel, você não recebeu o e-mail? – Blaine pergunta. – Santana?
– Eu não olhei meus e-mails. – A latina comenta e minha namorada nega. – Mandaram algo?
– Acho melhor vocês olharem.
Santana ergue o celular, curiosa. Nós ficamos esperando. Sua expressão vai mudando aos poucos.
– Algo errado? – Pergunto.
– Não, é só... – Suspira. – A data das audições.
– Santana... – Meu coração acelera.
– Será na próxima sexta.
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