Além da superfície.
57 Perdão.
Notas iniciais
Por Rachel
– Você tem certeza, Rach? – Quinn me pergunta pela centésima vez.
Estamos na sala de espera do hospital faz quase meia hora. Os pais de Karofsky liberaram as visitas no quarto dele. Kurt nos avisou que viria mais tarde com Blaine. Mas, Quinn não estava muito entusiasmada com isso. A loira tentou me convencer a virmos outro dia, ou quando ele já estivesse em casa. Bom, eu não sei quanto tempo ele ficará aqui. Os médicos disseram que ele precisaria ficar em observação com acompanhamento terapêutico, mas seu estado físico está bem.
É realmente estranho estar aqui. Muitas vezes eu imaginei estar lá dentro, em uma espécie de coma, vendo essa sala vazia por mim. Algumas pessoas estão de mãos dadas. Outras com os olhares perdidos. Eu sorrio fraco para um casal se abraçando, comemorando uma notícia dada pelo médico sorridente. O pequeno menino, alheio a toda a realidade, passa o carrinho de brinquedo no braço da cadeira, quieto. É um misto de emoções fortes. Medo, tristeza, felicidade, raiva, esperança... Inocência.
Sinto o corpo de Quinn se encolher e viro para ela. Minha namorada franze a testa.
– O que houve? – Sussurro, segurando sua mão.
– Nada. – Esconde o rosto nas minhas costas. – Esse cheiro.
– Que cheiro? – Levanto uma sobrancelha, respirando fundo. – Não estou sentindo.
– Esse cheiro de álcool. – Torce o nariz. – O álcool que passam nas pessoas antes de furarem elas. – Eu inclino a cabeça.
– Quinn. – Rio baixo. – Eu não estou sentindo nada.
– Mas, eu estou, Rachel. – Cruza os braços no peito.
– Hey... – Puxo-a para perto. – Você está bem?
– Só um pouco enjoada. – Fecha os olhos. – Você acha que vão demorar?
– Não sei. – Faço carinho em seu cabelo. – Você quer ir embora? Eu posso ficar aqui.
– Não. Eu fico com você. – Diz firme, apesar de estar um pouco pálida.
Eu me aproximo mais, fazendo-a deitar a cabeça em meu ombro com o rosto contra o meu pescoço, querendo abafar qualquer tipo de cheiro que estivesse fazendo mal a ela. Sinto sua respiração lenta e controlada. Não vamos ficar aqui. Quando me afasto para levantar, uma senhora com o cabelo preto se aproxima de nós, nos olhando estranho. Logo, um homem aparece abraçando-a, com o semblante um pouco mais simpático.
– Rachel Berry. – Ele fala em um tom grave, forte.
– Sou eu. – Levanto, estendendo a mão. Ele sorri, aceitando. O homem olha para a loira, que me imita.
– Quinn Fabray. – Se apresenta.
– Conheço sua família, Quinn. – Ela dá um sorriso sem graça. — Meu nome é Paul Karofsky, sou o pai de David. – Nós assentimos. Eles são muito parecidos. – Essa é minha esposa, Marta Karofsky.
– Prazer em conhecê-los. – Digo. A mulher continua me olhando sério. Quinn percebe, apertando minha mão.
– Eu estive na escola semana passada. – Continua. – Assisti sua apresentação, Rachel. Devo dizer que fiquei impressionado, mesmo já sabendo de sua belíssima voz.
– Oh... Obrigada. – Sussurro, envergonhada.
– Parabéns pela coragem. – Ele suspira. – Para ambas.
– Só estamos vivendo nossas vidas, senhor. – Quinn fala educada.
– Vivendo um absurdo. – Escutamos.
– Marta! – O homem repreende, irritado. A mulher sai em direção ao restaurante do hospital. – Sinto muito. Ela ainda está atordoada com tudo.
– Não se preocupe. Nós entendemos. – Minha namorada o tranquiliza.
– Obrigado. – Ele gesticula. – Vamos? David já deve estar acordado.
– Rach... – Quinn sussurra.
– Já estamos aqui, Q.
Nós seguimos o homem até o quarto. Ele abriu um pouco a porta, colocou a cabeça e fez um sinal para que entrássemos. Eu entro, tímida. David está acordado, olhando para a janela. Tem uma marca avermelhada em seu pescoço. Seu pai beija sua testa, mas ele não se move. Sr. Karofsky nos deixa a sós com o menino. Eu me aproximo da cama.
– Hey... – Minha voz sai mais baixa do que eu pretendia. Consigo seu olhar.
– David. – Quinn se posiciona atrás de mim.
– O que estão fazendo aqui? – Eu estremeço.
– Viemos... – Limpo a garganta. – Viemos te visitar.
– Conferir o estrago de perto? – Sorri, irônico.
– Não. – Me apresso. – Queríamos ver como você está.
– Já viu, Hobbit. – A loira tenta dar um passo a frente, mas eu a impeço. – Pode ir.
– Fiquei preocupada por você. – Sussurro. Ele vira os olhos, voltando a encarar a janela. – Sei como você se sentiu. Gostaria que soubesse que estou aqui para o que precisar.
– Só se for para você cavar ainda mais fundo o poço em que me meteu. – Eu recuo com suas palavras.
– Olha, eu sinto muito. Eu não queria te fazer mal.
– Não me importa, realmente.
– Rachel, vamos embora. – Quinn me puxa.
– Espera. – Peço. – Karofsky, eu estava tentando evitar tudo isso em cima de mim mais uma vez. Pior, em cima de Quinn. Eu não pensei, na verdade. Você viu como as pessoas são cruéis. Elas...
– Eu sou cruel, Rachel. – Ele me encara. Primeira vez que ele me chama pelo nome. – Eu sempre soube do que são capazes de fazer, porque eu também faço.
– Eu sei, mas agora você tem a visão do outro lado...
– Por isso eu evitei essa merda de assunto. – Me interrompe. – Eu não queria ter essa visão. Você fez o favor de estragar tudo.
– Também estávamos evitando essa merda de assunto. – Quinn fala, irritada. – Você não pensou duas vezes antes de querer espalhar sobre nós.
– Oh, Quinn. – Sorri. – Não finja que não me entende. Você também é assim.
– Eu não sou mais. – Diz, me abraçando. – As pessoas podem mudar, David.
– Não podem. – Abaixa a cabeça. – Minha mãe falou que estou com as passagens compradas para o inferno. Duas vezes. A primeira, eu comprei quando beijei um garoto. A segunda, quando tentei tirar minha própria vida. – Volta os olhos para nós. Estão vazios. Assustadores. – Eu poderia dizê-la que eu tenho mais algumas, pelas coisas que faço no colégio.
– Não diga isso...
– E quer saber, Rachel? – Uma lágrima cai em sua bochecha. – Se não tenho nada a perder, pouco me importa mudar.
– Dave, as coisas não funcionam assim. – Tento segurar sua mão, mas ele afasta.
– São assim que devem ser.
– Meu pai disse que eu era uma pecadora porque engravidei antes do casamento. – Quinn se senta no sofá. – Eu também tenho uma passagem. – Acena, sem graça.
– Eu ouvi isso toda a minha vida, por meus pais serem dois homens. – Continuo, imitando o gesto de Quinn. Eles riem fraco.
– Quando eu vi o rosto de Beth pela primeira vez, não conseguia entender quão grande tinha sido meu erro para meus pais me virarem as costas. – Ela prende a respiração. – Ela era apenas... Um bebê. Talvez a coisa mais linda que eu já tive nas mãos.
– Eu não sei se acredito em inferno. – Aperto o ombro de Quinn. – Mas, se existe, não acho que seja possível o amor te levar pra lá. – Franzo a testa. – Não é justo. Meus pais me educaram, me deram carinho, nunca me faltou nada. Eu também não conseguia entender o erro nisso. – Sorrio para minha namorada. – Não entendo. O que aconteceu nos últimos anos, não foi porque são dois homens. São coisas que acontecem em qualquer família.
– Nós também erramos, David. – A loira olha para o garoto em lágrimas. – Eu me arrependo de todos os meus erros. Isso me enchia a cabeça até eu aceitar que não sou perfeita. O dia em que comecei a me aceitar foi quando as coisas começaram a mudar para mim. Mudar para melhor. Não sou uma pessoa ruim. Não mais.
– Eu não sei se... – Ele soluça. – Eu não sei se eu posso.
– Você pode. – Dessa vez consigo segurar a sua mão. – E se você precisar de ajuda, nós estaremos aqui.
– Por que estão fazendo isso? – Troco um olhar com Quinn.
– Acho que somos mais parecidos do que imaginávamos. – Brinco. Eles riem, enxugando os rostos. – Quero te convidar para assistir as Regionais no próximo final de semana. Mudamos o set para você.
– Glee me fazendo homenagem. A que ponto cheguei? – Bufa. – Brincadeira. – Sorri. – Eu fico... Feliz, eu acho. – Suspira. – Mas, não sei se poderei sair.
– Entendemos. – Quinn levanta. – Mas, será incrível se você conseguir ir. Podemos falar com o professor Schue e ele fala com seus pais.
– Pode ser. – Alguém bate na porta. – Oi, pai.
– Desculpem interromper, mas sua médica está esperando, filho. – Anuncia.
– Nós já estamos indo. – Digo. – Espero que fique bem, Karofsky.
– Pense no que te falamos. – Quinn aperta a mão do rapaz. – Esperamos você no sábado.
– Obrigado por virem. – Agradece, sincero. – Rachel... Eu sinto muito, por tudo.
– Eu também sinto. – Suspiro. – Nos vemos.
Nos despedimos de seus pais e saímos do hospital. Vejo Quinn respirar fundo quando chegamos ao estacionamento. Sorrio para a loira buscando ar puro. Quando ela me falou que não gostava de agulhas, eu não imaginei que fosse tão sério a ponto dela passar mal só com o cheiro do lugar. Ela levanta uma sobrancelha e eu escondo o sorriso. Quinn me puxa pela cintura, beijando meus lábios demoradamente. Sinto sua língua entrar, carinhosa. Aproveito o momento, entrelaçando meus dedos em seu cabelo.
– Você foi a melhor coisa que me aconteceu depois que Beth nasceu. – Diz, com os olhos fechados.
– Eu te amo. – Sussurro. – Tanto...
Por Quinn
Quanto mais perto chegam os torneios das Cheerios, mais chata Sue fica. Nosso campeonato é no final de semana depois das regionais do coral. Estou dividida entre ensaiar e treinar, ensaiar e treinar. Santana e Brittany estão igualmente exaustas, o que deixa a latina mais preocupada com a namorada, porque Britt têm dado mais prioridade aos clubes do que aos estudos.
Eu dou alguns passos para trás, pegando impulso para saltar. Duas lideres se abaixam, dando apoio para me levantarem. Sue grita no megafone, mandando repetirmos. Essa deve ser a décima vez que tentamos fazer. Inspiro fundo, me concentrando. As meninas descem e me jogam rapidamente, me fazendo girar no ar. Finalmente, Sue aplaude. Eu sento no chão, cansada.
– Ok, estão dispensadas. – Apita. – Amanhã quero todas atentas para que não precisemos perder tempo com os mesmos saltos.
Santana se joga ao meu lado, deitando na quadra. Brittany nos dá garrafas d’água, sentando junto. Ficamos em silêncio alguns minutos, apenas recuperando nosso fôlego.
– Estou cansada. – A latina anuncia. – Não aguento mais.
– Eu também estou. – Brittany choraminga. – Essas duas semanas serão longas.
– Nem brinca, B. – Mando uma mensagem para Rachel, avisando que o treino acabou. – Pelo menos esse final de semana nos livraremos de um campeonato.
– Vocês acham que passaremos? – A dançarina pergunta, nervosa.
– Claro que passaremos, meu amor. – A latina a abraça. – Com Rachel no solo e nossas músicas... Vamos ficar em primeiro, fácil.
– Somos os melhores. – Sorrio, sentindo uma mão em meu cabelo. – Hey... – Viro. – Lena?
– Eu concordo... Em partes. – Ela levanta uma sobrancelha. – A parte que você seja a melhor, sim.
– O que você quer? – Franzo a testa.
– Quero que você me ajude com um salto que não estou conseguindo executar direito. – Faz um pequeno bico. Santana me lança um olhar malicioso.
– O treino já acabou e eu estou realmente cansada. – Vejo Rachel se aproximar. – Amanhã vemos com a treinadora.
– Prefiro com você. – Sussurra.
– Hey. – Minha namorada senta ao meu lado. – Estão vivas?
– Eu acho. – Santana deita a cabeça no colo da dançarina.
– Precisando de um banho. – Faço uma careta. Rachel ri, beijando minha boca rapidamente.
– Sabe... – A voz da ruiva me faz lembrar que ela ainda está ali. – Eu já sabia que você era gay, Berry, isso era tão óbvio. – Vira os olhos. – Mas, você, Quinn, foi uma surpresa... Boa, se me permite dizer.
– O... Eu... – Olho para Rachel, que arqueia as sobrancelhas.
– Quando será nosso treino?
– Que treino? – A morena passa um braço em meu ombro.
– Oh, Quinn me ensinará a fazer um salto. – Diz, como se nada.
– Eu disse que amanhã nós falaremos com Sue. – Corrijo.
– Tanto faz. – Dá os ombros, se aproximando. Rachel me puxa para trás. – Se quiser marcar um particular, eu não vou me importar.
– Você é louca? – A pequena se põe na minha frente. – Está dando em cima da minha namorada na minha frente?
– Estou mostrando a ela que ela tem mais opções.
– Lena, eu não estou interessada.
– Ah, Q. – Sorri. – Quando cansar da anã de jardim, você pode me procurar.
Eu olho para Rachel, temerosa. Até alguns dias atrás ela dizia que não se achava o suficiente para mim. Agora essa idiota está tentando rebaixá-la novamente. A morena gira o corpo, ficando de frente para mim. Encaro seus olhos, tentando descobrir algo. De repente, ela sorri, segurando minha cintura firmemente. O corpo dela vai pra cima do meu, me deitando no chão outra vez. Sua boca é apressada, prendendo meus lábios com domínio. Deixo que ela faça o que quer, enquanto sinto sua língua sugar a minha com força. Levo uma mão para sua perna, apertando-a um pouco. Rachel faz o mesmo, passando as mãos pelo meu corpo. Depois de alguns minutos, nós nos separamos.
– Ela não precisa de você, Lena. – Minha namorada estufa o peito e eu sorrio, orgulhosa.
– Ela... Ela... – Desvia o olhar.
– Se eu fosse você, sairia logo daqui, antes que a humilhação seja maior. – Santana ri.
– Isso é o que você pensa, ManHands. – Cospe, saindo.
– Ok, isso foi estranho. – Digo.
– Se alguém fizer isso com minha Britt, eu parto a cara. – A latina avisa, nos fazendo rir.
– Se ela chegar perto de você de novo... – Rachel segura meu uniforme.
– Você faz o que?
– Faz sexo no meio da quadra. – Santana nos interrompe. – Se agora foi isso tudo, se chegar perto de novo, é sexo.
– Cala a boca, Santana. – Falamos em uníssono.
Brittany leva a namorada para o banheiro e nós ficamos mais um tempo sozinhas, deitadas no chão. A mão dela brincando com meus dedos. Rach cantarola uma música baixa e eu fecho os olhos, sorrindo para a sua voz.
– Estou feliz. – Sussurro.
– Está? – Sinto seu corpo virar para mim.
– Estou. – Confirmo. – Você me faz feliz.
– Você também me faz feliz. Gostei do que você falou hoje cedo. – Passa a mão no meu rosto. Eu abro os olhos. – Sobre Beth.
– Eu não tenho motivos para acha-la um erro. – Suspiro. – Ou um pecado.
– É lindo te ver falando dela assim. – Sorri. – E não com culpa ou tristeza.
– Estou me perdoando. Aos poucos, sabe?
– Aos poucos. – Sussurra, encostando a testa na minha. – Aos poucos...
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