Além da superfície.
58 Mais uma chance.
Notas iniciais
Por Quinn
Noah trouxe o violão para o ônibus dessa vez e nos permitimos relaxar ao invés de ficarmos nos cobrando com ensaios sérios. Está um clima confortável. Professor Schue tenta manter uma conversa com Emma, enquanto os outros cantam sem pretensão. Sorrio ao ver Santana reclamar com Sugar e Brittany repreendê-la. Mike e Tina gargalham com a latina. A garota pode não ter a melhor voz, mas está se esforçando bastante para não sair do tom. Finn brinca com Artie e Joe. Kurt e Blaine conversam empolgados com Mercedes que, às vezes para e encara Sam, que está acompanhando a música tocada por Noah. Nota mental: Procurar saber o que houve em Nova York.
Essa será nossa penúltima apresentação. Eu nem acredito que eu entrei para o clube do coral ainda e já estamos terminando o colégio. Temos grandes chances de ganhar, apesar de sabermos que os nossos adversários são incríveis. Temos Rachel. Temos nós mesmos. É impressionante ver pessoas tão diferentes juntas por algo.
– No que está pensando? – Minha namorada pergunta, sonolenta.
Ela havia adormecido depois de cantarmos algumas coisas. Rachel está um pouco nervosa e dormiu mal a noite, por isso deixei que ela descansasse mais durante a viagem. A pequena relutou durante um tempo, mas acabou se rendendo ao sono. Eu fiquei acariciando seus braços, impedindo que ela os machucassem. Quando Rachel fica assim, a primeira coisa que faz é começar a coçar até arranhá-los.
– No quanto eu vou sentir falta disso. – Aceno com a cabeça, apontando para nossos amigos.
– Hmm... – Rachel se ajeita em meu ombro.
– Você não vai? – Mexo em seu cabelo, mas ela não responde. – Rachel? – Dormiu outra vez?
– Sentiria sua falta. – Diz, rouca. – De Santana e Britt. Mas, se o plano é de não nos afastarmos, então está tudo bem.
– Não iremos nos afastar. – Garanto. – Glee sempre foi tão importante pra você. Talvez eles só precisem de mais uma chance.
– Eu sei. – Suspira. – Essas pessoas me magoaram, Quinn. Não vou sentir falta disso. – Abro a boca e ela se afasta. – Antes que você comece com o “eu também te magoei” e que nós entremos nessa conversa chata de sempre: Você é minha namorada agora e eu te amo mais que tudo. – Sorrio de lado, alisando sua bochecha.
– San e B...
– Vocês me ajudaram, amor. – Lembra. – Nem que eu quisesse, guardaria mágoa de vocês. Eu gosto deles, sabe? E os perdoei de coração. – Aperta meu joelho. – Só que... É meio inevitável... Ainda.
– Te entendo. – Sussurro.
– É? – Levanta o rosto, com as sobrancelhas arqueadas. – Não vai me rebater? – Brinca.
– Não, idiota. – Viro os olhos. – Não sou a melhor pessoa pra te falar sobre mágoa.
– Você já sentiu alguém te fazer mal só com a presença? – Eu a encaro, confusa. – Uma pessoa te toca e você sente como se tivesse adoecendo. – Tenta explicar.
– Você está se sentindo assim com alguém? – Ponho uma mecha de seu cabelo atrás da orelha, preocupada.
– Não. Agora não, mas já aconteceu com alguns idiotas do colégio.
– Eu me sinto assim com Russel. – Respiro fundo. – Quando nos encontramos por brincadeiras bestas do destino, ver o sorriso irônico dele simplesmente me tira as forças.
– Desculpa. – Beija minha mão. – Eu não queria ter te lembrado dele.
– Não tem problema. – Suspiro. – Não quero que ele seja um tema proibido entre nós. Nem ele, nem Beth... Nem Hiram.
– Ele não virá hoje. — Solta depois de uns segundos. — Hiram.
– Leroy não conseguiu falar com ele?
– Conseguiu. – Esconde o rosto em meu pescoço. – Também não sei se eu gostaria de vê-lo.
– Nem eu. – Resmungo, sincera. – Não pensa nisso. – Beijo sua cabeça. – Dorme mais.
Depois de meia hora de viagem, todos foram para trás do ônibus, nos acordar. Rachel sorri, se espreguiçando. Santana senta entre nós, me abraçando. A morena faz um pequeno bico e cruza os braços, sendo abraçada por Finn. Meu corpo fica tenso por alguns segundos, mas ela me dá um olhar tranquilizador e eu relaxo. Joe fica mais distante de nós. Eu sabia que isso aconteceria porque ele sempre muito religioso. Sei que não é por maldade, mas deve ser confuso ainda. Ele não nos trata mal, apenas prefere ficar em seu lugar.
– Vocês parecem recém-casadas. Não se desgrudam. – Santana reclama.
– Olha quem fala, né? – Belisco sua cintura, rindo.
– Deem um tempo na lua de mel, que hoje precisamos da nossa estrela concentrada.
– Finn, não faz isso. – Ela sussurra. – Sem colocar pressão em mim, por favor.
– Não se preocupe, Hudson. Será um solo e não um dueto. – A latina levanta uma sobrancelha, mas pelo seu tom, sabemos que é brincadeira. Rachel ri, batendo em seu ombro.
– Você é uma otária, Santana. – Balança a cabeça.
– Por vias das dúvidas, deixaremos Quinn presa lá trás. – Continua.
– Você não vai parar de implicar? – Resmungo. – Onde está Sugar?
– Não! Não, Quinn! Por hoje já deu minha cota. – A menina fala, desesperada, nos fazendo rir.
– Vocês sabem que eu preciso implicar com alguém.
– Você está nervosa, San. – Britt diz, suavemente e a namorada cora.
– Amor, ninguém precisa saber disso. – Fala baixo.
– Como se não soubéssemos, Santana. – Noah zomba.
– Estamos todos nervosos, mas ganharemos isso, vocês sabem não, é? – Finn sorri e nós assentimos.
– Isso mesmo, capitão. – Professor Schue se aproxima. – Chegamos!
Suspiramos alto e nos olhamos por um tempo. Rachel levanta e nos puxa em um abraço em grupo.
– Ensaiamos, ensaiamos e ensaiamos. – Fala. – Vamos mostrá-los quem somos de verdade.
Santana grita e nós a imitamos, descendo do ônibus. Seguro a mão da minha namorada, caminhando para o teatro. É ainda mais bonito que o das Seccionais. Maior, mais moderno. Posso ver o brilho nos olhos de Rachel, observando cada detalhe do lugar. Já está quase todo lotado. O camarim também é bem maior. Os meninos se jogam no sofá e algumas almofadas são arremessadas. Crianças.
Por Rachel
Encaro o espelho depois que me troco, respirando fundo. Você consegue, Rachel. Já fez isso várias vezes, consegue fazer mais uma. Estão todos contando com você. Fecho os olhos, sentindo uma onda de responsabilidade invadir o meu corpo. Apenas fique calma. Alguém me abraça por trás e eu sei que não é Quinn, porque é um abraço mais pesado, mais...
– O que está fazendo aqui? – Pergunto virando, irritada.
– Seu pai me convidou...
– E você disse que não vinha. – Franzo a testa.
– Eu sei, mas eu mudei de ideia. Você é minha filha, quero te ver brilhando no palco.
– É a única hora que você consegue me ver. – Sorrio amarga. – No palco.
– Rachel, não faz isso. – Suspira. – Podemos conversar?
– Estou ocupada, Hiram.
– Pai. – Tenta corrigir. – Eu sou seu pai. Estrela, nós temos muito que conversarmos.
– Você vai me pedir pra eu me afastar de Quinn outra vez?
– Te explicar meu ponto de vista, talvez. – Eu solto uma risada sarcástica.
– Preciso me aquecer. – Viro, indo em direção à loira, que me olha de longe.
– RACHEL! – Segura meu braço. – ME ESCUTA. ESTOU AQUI PELO SEU BEM.
– Se você estivesse aqui pelo meu bem, teria apenas sentado naquela cadeira e assistido a apresentação. – Cuspo.
– Eu soube do que aconteceu com o menino do colégio. Não vou me perdoar se algo parecido te acontece. E eu sei que você está correndo esse risco ficando com...
– Pare, por favor.
– NÃO QUERO QUE SE MACHUQUE.
– ELA NÃO ME MACHUCA. – Grito, conseguindo mais olhares. – MERDA.
– Perdão. Eu não quero brigar. – Respira fundo. – Eu tenho tanto o que falar, que nem sei como.
– Eu poderia escrever páginas e mais páginas e elas não conseguiriam dizer um terço se quer, do que eu queria te dizer. – Paro em sua frente. – É ruim quando não existe o olho no olho em uma relação, ainda mais uma relação tão próxima quanto a nossa, não? Quando não existe nem mesmo o diálogo. Quando alguém quer dizer algo, basta levantar o tom de voz, o que gera uma disputa cada vez mais acirrada de quem grita mais alto. – Suspiro, cansada. – Eu sei que nem sempre fomos assim. Também não sei quando mudamos, mas queria muito saber. Saber onde erramos, onde eu falhei. – Imploro, sentindo Quinn se aproximar e rodear um braço em minha cintura. – Não vai adiantar explodir e alguém pedir calma. Ou vim com aquela velha frase de efeito “ignora e não responde que passa”, porque não, não passa.
– Não quero que você tenha raiva de mim. – Fala com uma voz embargada.
– Eu não tenho mais raiva disso. Pelo menos eu acho que não. – Digo, sincera. – Posso até ficar irritada, mas vira só mais um motivo para a mágoa aumentar. Porque esta sim, eu tenho de sobra. – Aperto a mão da loira, buscando força. – E é horrível ter mágoa de você. É horrível não acreditar no que você diz, horrível ouvir coisas que eu nunca imaginei que fosse ouvir... Não de você. – Ele cobre o rosto, limpando as lágrimas. – Quanto mais você me machuca, mais distante a gente fica. Eu não sou hipócrita, não como você anda sendo, não vou dizer que também não machuco, porque eu tenho certeza que sim. Mas, é a minha forma de me defender, dizendo a verdade.
– Rach, me perdoe. – Funga. – Eu juro por tudo que não tenho intenção de te fazer mal. Pelo contrário, só quero te proteger. Me destrói te ver falando desse jeito.
– Já guardei, e ainda guardo coisa demais. Diziam que um dia a casa cai, que nem tudo é perfeito. Vocês conseguiam me iludir muito bem e eu acreditava que isso era mentira, que era fala de pessimista. Até o dia em que o chão se abriu sobre os meus pés. Parecia que uma nuvem negra me rodeava. – Engulo seco com a lembrança. – E eu virei à pessimista da história. Deixei de acreditar em conto de fadas, cheguei a achar que nada e nem ninguém conseguiria me trazer a superfície de novo. – Sorrio, virando para o lado. – Não queira me tirar Quinn, porque ela é tudo pra mim agora.
– Eu não quero te tirar de ninguém. – Soluça. – Eu...
– Rachel e Quinn, vocês precisam vir. – Professor Schue nos chama.
– Não, por favor. Precisamos conversar. Me dê cinco minutos.
– Não podemos ficar, já estamos atrasadas. – Aviso, puxando minha namorada.
– Rachel. – Ela sussurra, me parando. – Mais uma chance.
– Mas, amor... – A loira segura meu rosto. – Ok. – Volto para Hiram, que me olha apreensivo. – Que fique claro que eu estou fazendo isso porque ela pediu. – Ele assente. – Depois que voltarmos para casa, podemos conversar.
– Sim! – Sorri, aliviado. – Obrigado! Muito obrigado. – Tenta se aproximar, mas recua, sem jeito. – Quinn, eu não sei como te agradecer.
– Não me agradeça. – Responde séria. – Não antes de ter o resultado dessa conversa, porque eu sei que posso me arrepender muito por isso.
– Não vai, eu prometo. – Choraminga. – Boa sorte lá em cima. – Aponta para o palco. – Brilhem.
Nós assentimos e corremos para trás do palco, onde todos já estão concentrados. Antes de entrarmos, Quinn me puxa para o lado e beija de repente, quebrando toda a minha estrutura. Eu me permito relaxar em seus braços e aproveito seus lábios, sentindo sua língua explorar minha boca ferozmente. Minhas pernas perdem o equilíbrio e a loira me segura, sorrindo.
– Estou tão, mas tão orgulhosa de você. – Encosta nossas testas.
– Estava preso aqui. – Passo a mão na garganta. – Precisava colocar pra fora.
– Sem perder a razão. – Beija minha pálpebra. – Eu te amo.
– Eu também te amo, meu amor. – Sussurro. – Vamos?
– Vamos. – Me segura. – Já falei que você está linda?
Eu sorrio, dando mais um beijo longo nela. Santana nos grita e nós nos posicionamos com o grupo. Fazemos uma pequena reza, enquanto Finn e professor Schue dão o bom e velho incentivo. A apresentação dos Warblers foi maravilhosa. Blaine acena nostálgico para os amigos e Kurt o abraça.
Mais uma vez, tomo um ar fundo. A cortina abre, nos revelando e eu introduzo Fly / I Believe I Can Fly e todos vão se virando. Logo Santana e Artie começam a cantar. Blaine entra depois deles e eu volto no refrão, vendo a plateia ficar em pé. Sinto minhas pernas tremerem, mas não posso perder a coreografia. Mercedes dá seus agudos incríveis. Terminamos a música com os aplausos empolgados. Quinn para atrás de mim e segura minha mão rapidamente. Eu sorrio para ela e nós saímos do palco.
– Karofsky está aqui. – Quinn anuncia.
– Sério? – Meus olhos brilham.
– Está na terceira fileira com o pai. – Sorri. – Conseguimos trazê-lo. Se concentra que seu solo é daqui a pouco. Cante pra ele.
– Canto para nós. – Digo, confiante.
A voz de Santana soa, iniciando What Doesn't Kill You (Stronger). Brittany continua, fazendo um sorriso orgulhoso se espalhar nos nossos rostos. Professor Schue fez certo dando um voto de confiança para ela. Sua voz é doce. Mercedes se junta a duas, enquanto as dançarinas dão um show na performance que Mike as ensaiou. Quando elas terminam, Quinn beija minha testa.
– Boa sorte, meu amor. – Sussurra.
Santana e Brittany correm e me abraçam, antes que eu entre no lugar delas. Estão todos em pé ainda. Meus pais sorriem quando começo a cantar Here's To Us. Hiram põe as mãos no rosto, emocionado e Leroy canta junto com a música. Eu ando no palco, como se tivesse um contato mais intimo com aquelas pessoas. Judy manda um beijo para mim e eu balanço a cabeça, sorrindo. Finalmente, encontro Karofsky. Ele está sentado, com um olhar indecifrável, cristalinos, olhando um ponto fixo no palco.
As meninas entram para me acompanhar e os meninos aparecem na parte de cima do teatro, pegando todos de surpresa. Quando terminamos a música, o teatro explode em palmas, mais uma vez. Meu coração bate acelerado, enquanto agradecemos. Todos se abraçam. Quinn me segura contra seu peito e eu inspiro com força, sentindo a adrenalina tomar conta de mim.
– Eu estava errada. – Sussurro. Ela continua calada, esperando. – Eu vou sentir falta disso. Eu vou sentir muita falta de todos eles.
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