Além da superfície.
11 Descobertas.
Notas iniciais
Por Rachel
Meu coração dispara. O que diabos professor Schue quer comigo? Vejo os olhares curiosos e preocupados das três lideres para mim. Eu suspiro, acenando que está tudo bem. Elas assentem e saem da sala. Eu, sinceramente, espero que ele não venha me cobrar músicas. Ele senta no banco do piano e dá um pequeno sorriso, me convidando a sentar ao seu lado. Obrigo meu corpo a se mover, fazendo o que ele pede.
– Você e Quinn foram mesmo incríveis. Estou muito orgulhoso do trabalho que vocês fizeram. – Eu encolho os ombros. Em outros tempos, eu provavelmente sairia pulando com esse elogio. Hoje, eu só não consigo acreditar. – Então, como você está?
– Bem. – Franzo a testa, confusa. – Desculpe se parecer rude, mas... Por que você está me perguntando isso?
– Eu sinto sua falta nos ensaios, Rachel. Eu realmente faço.
– Ok, mas eu só faltei algumas vezes. – Levanto uma sobrancelha. Ele suspira pesado.
– Você entendeu o que eu quis dizer. Você é a líder do Glee. É a nossa voz, nossa cabeça. – Eu solto uma risada baixa. – Ao menos você costumava ser.
– Existem vários querendo ser o líder do clube, professor. Isso não é um problema. Além do mais, Finn continua sendo também.
– Finn é um excelente líder, eu não tenho dúvidas. – Eu aceno. – Mas, você é quem tem as melhores ideias, as mais adequadas. Você pensa profissionalmente.
– Eu apenas falava demais e não deixava ninguém se expressar. Ouça as ideias deles e tudo ficará ok. – Levanto do banco, colocando minha bolsa no ombro.
– Eu vi o seu vídeo. – Paraliso, fechando os olhos. – Foi uma brincadeira estúpida, você não deve ligar para isso.
– Estou acostumada, professor. – Murmuro.
– Era sobre isso que eu queria falar. – Eu mordo os lábios, querendo fugir daqui. – Eu dei play e simplesmente ouvi a música. Rachel, eu sempre soube que você era uma ótima compositora, mas dessa vez você se superou.
– O... O que? – Eu viro de volta para ele, encontrando seu sorriso enorme.
– A sua música!! – Exclama empolgado. – Ela é maravilhosa. A letra é forte, sentimental. E a melodia é genial.
– Você... Você me chamou para elogiar a minha música? – Pergunto incrédula.
– Não. – Sussurra. Eu assinto. – Quero dizer, também. Mas, eu tenho uma proposta para te fazer.
– Seja o que for, professor, eu não quero. – Eu encurto logo. Ele franze a testa.
– Você não sabe o que eu vou te pedir. – Eu suspiro, virando os olhos. – Bem, eu ia sugerir que você cantasse a música nas...
– Como eu disse... Não. – Vou em direção à porta.
– Por que, Rachel? A música é...
– É uma merda, ok? – Digo irritada. – É isso que você quer? Perder por minha culpa outra vez?
– Não foi sua culpa. – Sua voz é firme. Eu balanço a cabeça. – E sua música é linda, Rachel.
– Eu sinto muito por te decepcionar, mas eu não quero esse peso para mim.
– Que peso? – Ele pergunta confuso.
– O da responsabilidade. – Sussurro, cansada. – Eu não posso fazer isso.
– Tudo bem, não vou te forçar. Foi só uma sugestão. – Ele se aproxima, colocando uma mão em meu ombro. – Nós precisamos que sua confiança volte, Rach.
O homem beija a minha cabeça e sai. Eu respiro fundo, tentando controlar a tremedeira que está querendo tomar conta do meu corpo. Ele não deveria ter apenas escutado. Ele precisava ler os comentários. Se tivesse feito, nunca me sugeriria algo do tipo. Eu consigo ouvir as vaias daqui. Logo depois, todos os olhares raivosos dos meninos do coral. Então, chegaríamos ao colégio e seriamos recebidos por uma série de gargalhadas estridentes no corredor, como aconteceu quando perdemos as nacionais em NY. E, mais uma vez, seria tudo culpa minha. Rio, sarcástica. Minhas mãos não param de tremer e esse pensamento só piora tudo. Sinto o ar enganchar na minha garganta. Olho para a porta e depois para minha bolsa. Repito o gesto mais duas vezes.
Abro o pequeno bolso da lateral, revelando uma lâmina entre alguns algodões e esparadrapos. Respiro fundo.
– Rachel? – Ouço uma voz entrar e pulo, tentando fechar a bolsa. – Me desculpe, eu não queria te assustar.
– Tudo bem, Britt. – Sussurro, nervosa.
– Você está tremendo. Precisa de ajuda? – Eu engulo seco, tentando respirar direito, mas eu não consigo. – Rach, estou aqui com você.
A dançarina me abraça. Escondo meu rosto em seu peito, acompanhando o ritmo de sua respiração. Solto um soluço baixo, fazendo Brittany passar as mãos nas minhas costas, de forma reconfortante. Eu me acalmo em seus braços, agradecendo-a silenciosamente. Nos afastamos quando eu consigo parar de tremer. Ela dá um sorriso fraco para mim e eu devolvo.
– Vamos, está tendo treino das Cheerios. Queremos você lá.
– O que? Não mesmo, Britt. – O olhar magoado dela me aperta o coração. – Sinto muito, mas as Cheeiros me odeiam de verdade. Não acho que seja uma boa ideia. E o que você está fazendo aqui? Sue vai te matar.
– Apenas vim ver se estava tudo bem. – Encolhe os ombros. – As Cheerios não podem te fazer nada com a gente lá, Rach.
– Melhor não abusarmos da sorte, certo? – Merda, por que é tão difícil negar algo a Britt?
– Mas, Quinn disse que nós iriamos sair para comermos algo depois do treino. – A dançarina faz um pequeno bico.
– Britt, eu não... – Seus olhos ficam cristalinos. Suspiro. – Tudo bem. Vamos fazer o seguinte, eu ficarei na biblioteca. Quando vocês terminarem, nós saímos.
– Ótimo. – Levanto uma sobrancelha pela mudança rápida de humor da loira, que agora está pulando feliz. – Te vejo mais tarde.
A loira me abraça e sai correndo pelos corredores. Eu quase rio da cena. Ela, com certeza, receberá um belo grito de Sue. Olho para o bolso meio aberto e estremeço. Fecho rápido e vou para a biblioteca. Aqui é um lugar seguro, afinal. Dificilmente aparecem lideres de torcidas ou jogadores de futebol. E, se eles o fazem, não podem tirar nenhum tipo de brincadeira, porque bibliotecária está sempre de olho. Raspadinhas então, nem pensar. Bem mais seguro que a quadra em dias de treino da Cheerios. Apesar de gostar muito de ficar nas arquibancadas, é um lugar perigoso pra mim. Fico lendo um livro, tentando me distrair de tudo o que aconteceu nos últimos minutos.
Escuto o toque marcando o término do treino das meninas. Dou um tempo para que elas possam trocar de roupa. Levanto timidamente, desviando as Cheerios que passavam apressadas, sem se importarem com que estava na frente. O que eu estou fazendo aqui? Então, eu escuto duas vozes conhecidas.
– São duas entradas. Você pode falar com Rachel para me dá a dela e nós vamos juntos. – Eu congelo.
– Se eu quisesse ir com você, eu teria te escolhido na hora de fazer as duplas, Sam. – Quinn cospe.
– Você já pensou no desastre que isso vai ser? Vai acabar de vez a sua reputação. – Sinto meu estômago embrulhar.
– Eu não coloquei esse tema em discursão, Samuel. Eu irei com Rachel e pronto. – A loira bate o armário e eu não escuto mais os dois.
Percebo que o ar está me fazendo de novo. Deus, como isso é insuportavelmente difícil. Seguro minhas mãos trêmulas e dou meia volta para o banheiro mais próximo.
Por Quinn
Eu sabia que não era uma boa ideia deixar Rachel sozinha. Ninguém sabe o que o professor Schue falou para ela. Pelo menos na quadra nós estaríamos de olho. Fomos para a biblioteca e não a encontramos. E agora, além de tudo, eu preciso me esconder de Sam. Por que ele não cansa um pouco de ficar correndo atrás de mim como um cachorro molhado querendo abrigo? Estou ficando furiosa com isso, mas a voz preocupada de Santana interrompe meus pensamentos.
– O carro dela está aqui ainda. Vamos para o banheiro.
– Oh, meu Deus. – Coloco a mão na cabeça. – Você acha que...
– Eu espero que não, Q. Mas, é melhor corremos lá.
Entramos no banheiro, desesperadas. Eu solto um suspiro aliviado quando vejo a morena sentada no banco. Isso é melhor do que encontra-la trancada no box, certo? Tento avaliar seus braços, mas eles estão cobertos. Rachel encara o espelho com tanta atenção, que nem mesmo percebe que estamos lá.
– Rach... – Santana chama, sentando ao seu lado. A morena não se move. – Rachel. – Tenta outra vez, fazendo-a piscar os olhos, como se estivesse saindo de um transe.
– Rachel, está tudo bem? – Sussurro, sem querer assustá-la. Ela encontra meus olhos pelo espelho e dá um pequeno aceno.
– Por que você está aqui? – A latina pergunta com cuidado.
– O corredor ficou muito cheio, não queria que ninguém me visse. – Encolhe os ombros. Troco um olhar com as duas Cheerios.
– Bom, se está tudo bem... Vamos? – Britt tenta quebrar o clima.
Rachel dá um sorriso fraco e levanta. Nós três saímos do banheiro. Ela está certa. O corredor ficou cheio mesmo. É a hora dá troca de treinos, os meninos usarão a quadra agora. Estávamos quase chegando a porta de saída, quando vimos um rapaz alto se aproximar, com um copo de raspadinhas. Vejo Rachel prender a respiração e fechar os olhos.
– Pra quem é isso? – Interrompo o objetivo dele, ficando na frente da morena. Percebo que Santana se posicionou atrás de mim, também protegendo-a. Brittany coloca um braço pelo ombro de Rachel, que ainda está de olhos fechados.
– O... O... Que? – Ele balbucia com medo. Ótimo. Aumento minha expressão de capitã.
– Perguntei quem era sua mira. – Minha voz sai congelando, fazendo-o recusar dois passos. – Você queria acertar em mim?
– Não. – Se defende. – Claro que não. Era em Berry.
– Santana? – Chamo. A latina vem para o meu lado. – Quais foram as modificações que nós fizemos na lista?
– Eu tenho certeza que ele lembra, Q. – Ela coloca uma mão no ombro do rapaz, que está totalmente assustado. – Você pode nos dizer a lista?
– Quinn, Santana, Brittany... – Suspira. – Rachel. – A morena abre os olhos, incrédula.
– Por que diabos você iria jogar raspadinha nela se nós proibimos? – Rasgo.
– Porque... Porque...
– Me dê a merda desse copo. – Digo. Ele recua. – Eu não estou pedindo. – Ele me dá rapidamente. Eu viro para a pequena, que está encolhida nos braços de Brittany. – Segure, Rachel.
– O que? – Sussurra, confusa.
– Segura, Rachel. – Santana repete. A morena o faz, tremendo. – Agora jogue.
– Não!! Eu não posso. Eles vão...
– Nós estaremos te protegendo. Apenas jogue. – Digo calma, dando um sorriso confiante para ela.
– Quinn... – Murmura, incerta.
Ela olha para Santana, que está com uma expressão maliciosa. Vejo uma pequena curva nos lábios da morena, enquanto ela derrama de vez o líquido no menino parado e se esconde atrás de Brittany. Nós gargalhamos com a cena.
– Agora dê o fora daqui e avise aos seus amigos idiotas que se eles tentarem outra vez, vai ser bem pior. – Santana avisa.
Ele assente e sai correndo, desaparecendo da nossa frente.
– Rachel? – Chamo. Ela tira a cabeça dos braços de Britt e vira, prendendo o riso. – Isso foi muito bom.
– Perfeito, Berry. – Santana bate as mãos nas delas.
– E se ele...
– Não tem “se”, Rach. – Brittany fala. Nós assentimos. – Você está bem?
– Sim. – A morena dá um sorriso tímido.
– Vamos, eu estou morrendo de fome. – A latina nos puxa para fora.
Fomos em carros separados e nos encontramos na lanchonete. Santana e Brittany não estavam se falando muito bem, mas fizeram de tudo para deixar o clima leve. A latina não poupou nas brincadeiras com Rachel sobre o acontecido mais cedo. A morena, que no inicio estava com medo, acabou se rendendo a boas risadas junto com a gente. Bem, eu notei que ela estava tentando me ignorar a maioria das vezes. Suspiro frustrada. Pensei que estávamos bem, depois de ontem. Isso já está me incomodando. Invento uma desculpa, para deixar elas sozinhas e levanto.
– Você já vai? – Rach sussurra. Eu franzo a testa.
– Você deixou claro que não me quer aqui. – Tento não deixar a mágoa sair.
– Eu quero. – Diz rápida.
Eu não posso entender suas mudanças repentinas. Troco um olhar com Santana, perguntando silenciosamente se eu posso deixa-la com Britt. Ela entende e assente. Puxo Rachel para longe da mesa.
– E por que está fazendo isso? O que eu fiz dessa vez? – Suplico.
– Você não fez nada. – Suspira.- Quinn, eu estava pensando... Talvez seja melhor você ir com outra pessoa para o Breadstix.
– O que? Mas, por que, Rachel? Nós ganhamos juntas.
– Eu sei, mas... Não será bom pra você, então...
– Oh, meu Deus. – Cubro meu rosto com as mãos. – Você ouviu, não foi? Você ouviu Sam falando aquelas estupidezes.
– Não, eu não...
– Não minta. – Digo firme, encarando-a.
– Ok. – Sussurra. – Eu ouvi, mas ele está certo. Você não pode ficar saindo comigo assim.
– Pensei que tivesse deixado claro que eu não ligo para o que eles vão pensar, que eu quero sua amizade. – Sinto meus olhos arderem.
– Eu sinto muito. – Murmura.
– Você vai comigo? – Pergunto temorosa. Ela suspira pesado.
– Claro. – Sorri de lado. Eu devolvo o sorriso, abraçando-a. Ela solta um gemido.
– Desculpe, te machuquei? – Franzo a testa, confusa.
– Oh, não. – Ri. – Só fui pega de surpresa. Não sou acostumada com pessoas me abraçando.
– Espero que você se acostume. – Pisco um olho, ela sorri.
– Acho que eu posso fazer isso... – Sussurra baixinho.
Voltamos para mesa, onde as meninas estavam em silêncio, encarando pontos distantes. Me sinto mal por elas.
– Então, Rach, o que o professor Schue queria com você? — Santana pergunta.
– Nada. — Nós viramos os olhos. — Ele queria que eu cantasse uma música.
– Oh, isso é ótimo. — Brittany sorri.
– Eu não aceitei, no entanto. — Murmura.
– Por que não? — Pergunto.
– Porque eu não quero. — Sua voz soa grossa, mas ela rapidamente continua. — E porque eu não estou preparada, não estou treinando o suficiente.
– Bom, eu ainda tenho um solo. Nós poderíamos ensaiar juntas. — Santana sugere.
– Sim, nós poderíamos. — Nós sorrimos.
Conversamos um pouco mais e nos despedimos. Dirijo para casa, pensando em tudo. Eu preciso que ela confie em mim, preciso protege-la, preciso cuidá-la. De repente, sinto uma vontade imensa de mudar a direção e ir para a casa dela, ver um filme e depois dormirmos abraçadas. Deus, o que está acontecendo comigo? Subo para o meu quarto, correndo e deito na minha cama. Eu não consigo tirá-la da cabeça nem um segundo. Eu não posso assustá-la com isso. Como eu poderia dizer para ela que... Que eu não a odeio? E sim que eu estou... Apaixonada por ela.
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