Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=ENFXS-RFM7U

Rachel se afasta do abraço apertado, deixando sua namorada beijar cada canto de seu rosto demoradamente. Quinn havia a enchido de carinho e mimos desde que acordaram. Na verdade, a loira nem dormiu direito, zelando o sono assustadoramente tranquilo da menor. Rachel segura seus punhos, sorrindo com os olhos fechados, aproveitando a sensação que os dedos de Quinn causam ao traçarem sua bochecha.

– Tem certeza que você está bem? – Quinn pergunta. – Você está tão quieta.

– Eu estou fazendo repouso vocal. – Sussurra. – Você sabe. – Ela abre os olhos e a loira ri.

– Certo. – Suspira, olhando o relógio. – Preciso ir ao aeroporto.

– Eu posso ir com você. – Fala, suavemente. – Espera eu trocar de roupa.

– A Frannie vai me levar. – Põe o cabelo de Rachel atrás da orelha e beija o pequeno bico que ela formou. – Você não pode perder a hora. Vai se trocar e correr para o colégio, ok?

– Ok. – Choraminga. – Me liga quando chegar lá?

– Claro, pequena. – Quinn sente o coração bater mais forte quando junta os lábios nos de Rachel outra vez. – Você é a melhor. Não se esqueça disso.

– Eu te amo. – Sorri.

– Eu também te amo. – Sussurra, como se contasse o maior dos segredos. – Muito.

As duas se abraçam forte antes da loira finalmente criar coragem e se dirigir ao carro parado na frente da casa de Rachel. Elas haviam saído cedo da casa da loira e aproveitado todos os minutos que tiveram. Com uma última olhada para a namorada, Quinn respira e dá partida no carro, deixando-a para trás com o coração mais apertado que o normal.

– Berry, finalmente eu te achei. – Santana suspira, se aproximando. – Sua mulher me mandou ficar de olho em você, facilite meu trabalho.

– Estou só conversando com o Kurt. – Vira os olhos, com um sorriso escondido. É reconfortante saber que Quinn está cuidando dela, mesmo que distante.

– Achei que você estivesse fazendo repouso vocal. – Levanta uma sobrancelha. Kurt ri. – Está preparado, porcelana?

– Ele quer mudar a música. – Rachel fala, incrédula. – Aos quarenta e cinco do segundo tempo, o Kurt quer mudar a música. – Bate a mão na perna. – Eu não posso ficar calada quando ele está prestes a fazer a maior burrada da vida dele!

– Espere... – A latina franze a testa. – Você enlouqueceu?

– Não enlouqueci. – Kurt encosta no armário. – É só que... The Music of the Night deve ser uma dessas músicas que todos escolhem para seus testes, entende?

– Mas, eles não cantam como você! – A morena balança a cabeça. – Kurt, você ensaia essa música desde sempre. Não pode trocar por uma do nada.

– Rachel tem razão.

– Eu... Eu não sei.

– Você está se auto sabotando. – Conclui.

– Rachel!

– Se você não passar, você terá uma desculpa. Você está com medo, Kurt.

– Não estou com medo. Eu só quero inovar. Quero surpreender. – Se irrita. – Por quê? Acham que eu não consigo fazer isso? Que eu só irei me dar bem se eu ensaiar dias antes?

– Dias? Kurt você canta essa música há anos. Ela é sua segurança. Não estamos falando sobre um concurso qualquer. É a sua entrada em NYADA. – Respira fundo. – Eu não vou cantar Don't Rain On My Parade porque eu sou ótima nisso. Eu sei que eu posso cantar qualquer outra, mas essa eu canto desde meus dois anos de idade. É o meu porto seguro, como The Music of the Night é o seu! Eu não posso errar, entende? Se eu perder essa chance, eu... Não sei, eu enlouqueço.

– Rach, calma. – Santana aperta seus ombros. – Não precisa ficar assim. Ninguém aqui perderá essa chance, ok? Independente de música. – A encara. – Se o Kurt não está confortável, deixa que ele faça o que precisa ser feito.

– San... – Sua amiga entrecerra os olhos. – Ok. – Suspira. – Eu acredito em você, Kurt. – Ele sorri de lado. – Mas, eu também acredito nessa música. Tanto que eu posso ser sua Christine.

– Você... Você tem certeza? – O rosto do menino se ilumina. – A Tina não ficaria com raiva se eu a dispensasse e...

– Claro que não. Ela entenderá. – Segura a mão dele. – Vamos fazer isso, certo? Juntos.

– Ok, vamos fazer isso. – Diz, mais animado.

– Ótimo. – Rachel comemora. – Confie em mim.

– Ok. – Abraça a menor.

– Berry, você não tem jeito. – Santana brinca e sorri ao ver a namorada se aproximar, mas seu sorriso apaga ao notar a expressão séria da de olhos azuis. – O que houve?

– Sue está nos chamando. – Suspira. – Todos nós, na sala do coral.

– O que aconteceu? – Kurt pergunta, confuso. Brittany dá os ombros.

– Melhor irmos.

Os quatro entram na sala do coral, observando os rostos de seus amigos tão confusos quanto os seus. Sue está de braços cruzados, com uma expressão furiosa. Professor Schue parece desapontado. Rachel inclina a cabeça e percebe a presença da treinadora Beiste, que está com a cabeça baixa.

– Santana e Brittany. – Sue chama, antes que elas sentem. – As duas aqui nessa fileira.

As duas encaram os lugares vazios ao lado de Tina, Mercedes e Sugar e sentam, sem reclamarem, sabendo que Sue não está no melhor humor.

– Eu achei que tivesse deixado bem claro que não iria mais admitir nenhum tipo de bullying ou desrespeito nesse colégio.

– O que nós fizemos? – Tina pergunta, temerosa.

– Você está brincando comigo? – Sue se abaixa, ficando na altura da cadeira de Tina, que engole seco. – Os seus malditos comentários estão circulando por toda parte.

– Nós...

– A treinadora Roz ouviu vocês. – Levanta. – Olha, eu nunca gostei de vocês, vocês sabem disso. Mas, eu realmente esperava mais. Fazer piada com violência doméstica? É sério, Lopez?

Santana fecha os olhos, finalmente entendendo. Naquela manhã, elas haviam visto a treinadora Beiste com o rosto machucado e feito comentários infelizes, mas que na hora renderam boas risadas. As outras quatro meninas se encolhem. Beiste finalmente levanta a cabeça, fazendo com que os demais da sala entendam o que está havendo. Uma pessoa, em especial, se frustra mais que o restante. O olhar de Rachel pousa em Santana, esperando algum sinal que tudo não passe de um mal entendido. Sua amiga, no entanto, não devolve o olhar, mesmo sabendo que o da outra está cravado nela.

– Treinadora Sue, a senhora não pode ser a quem nos dar sermões sobre o que podemos fazer piada ou não. – A voz de Sugar quebra o silêncio.

– É, você faz isso o tempo inteiro. – Santana concorda.

– E eu tenho vontade de matar vocês o tempo inteiro. Isso não significa que vocês mereçam apanhar. Ninguém merece apanhar.

– Nós sabemos disso tudo, Sue. – Mercedes se faz presente.

– Sim e nunca deixaríamos acontecer com qualquer uma de nós. – Tina garante.

– Esse não é o ponto. – Encosta no piano. – O problema está em vocês brincando com algo que não se deve brincar jamais.

– Principalmente se vocês não sabem a gravidade da situação. – Beiste vai para o lado de Sue. – Existem limites, meninas, que não podem ser ultrapassados.

– Sentimos muito. – Sussurra a asiática, envergonhada.

– Não. – Sue balança a cabeça. – Eu quero que vocês juntem suas bundas até o final do dia e nos tragam uma música que fale sobre isso.

– Mas, treinadora, hoje é o dia da minha audição pa...

– Você me ouviu, Santana. – Interrompe. – Dê um jeito.

– Do que exatamente precisamos falar? – Sugar pede, confusa.

– Canções que digam: Você coloca as mãos em mim e tudo acaba. Mostrem a força de vocês na música. Vocês têm até o ultimo horário. E se não trouxerem o combinado, eu levo o caso a direção. Vocês não querem isso, querem? – As cinco negam. – Foi o que eu pensei.

Sue e Beiste saem da sala e o zumbido conhecido da sala do coral soa. Todos falam ao mesmo tempo, mas ninguém presta atenção em ninguém. O professor Schue segue as duas mulheres, sem falar alguma palavra. Ele não se encaixa nessa tarefa. Logo, todos fazem o mesmo caminho, deixando as meninas para trás. Santana esconde o rosto nas mãos, enquanto Britt aperta seu ombro. Mercedes e Sugar começam a discutir sobre as músicas.

– Rachel? – Tina chama, fazendo o silêncio voltar para a sala. Santana levanta, percebendo a pequena menina na mesma posição.

– Rach...

– Eu acreditei de verdade que vocês haviam parado com isso. – Solta. Mercedes ri, atraindo a atenção.

– Você é mais tola do que eu pensei.

– Cale a boca. – A latina rosna. – Rachel, foi apenas uma brincadeira. Nós comentamos entre nós. Nunca faríamos isso para atingi-la ou algo do tipo.

– É verdade, Rach. – Britt se aproxima. – Não tínhamos intenção de machucá-la.

A morena encara suas amigas por alguns minutos e suspira alto.

– Tudo bem. – Esfrega o rosto. – Acho que vocês precisam resolver isso logo.

– Fique com a gente. – Santana pede, preocupada.

– Eu preciso tomar um ar. – Levanta. – E é algo que só vocês podem resolver.

Rachel beija o rosto das meninas, antes de ir para fora da sala. Santana chuta uma cadeira, com raiva.

– Droga! – Grita. – Quinn vai me matar.

Rachel lava o rosto na pia do banheiro, sentindo a água fria acalmá-la aos poucos. Ela limpa a garganta e começa a fazer um leve aquecimento para a sua voz, tentando distrair sua mente. A morena estava fazendo vibração de língua em glissando ascendente, mudando da nota mais grave para uma nota mais aguda, sem parar seus movimentos, quando uma risada nasalizada a interrompe.

– Ah, mas eu terei o prazer de assistir isso. – A ruiva sorri, cruzando os braços atrás de Rachel.

– Lena. – Resmunga. – Gosta tanto de mim a ponto de assistir minha audição? – Tenta manter a compostura.

– Gosto das vergonhas que você passa. – Se aproxima. – Me fazem rir.

– Então acho melhor você não perder o seu tempo. – Mexe no cabelo.

– Não perderei por nada, Rachel. – Provoca. – Quer um conselho? Peça a máscara do Fantasma da Ópera emprestada ao Kurt. – A morena franze a testa. – Ao menos você esconde um pouco do seu rosto. – Faz uma careta.

– Irão avaliar minha voz, não minha beleza. – Trinca a mandíbula.

– A sua falta de beleza, você quis dizer. – Ri. – Oh, Rachel! Você é iludida assim mesmo ou finge ser? É tão óbvio que beleza conta. Todo mundo irá preferir assistir a rostos bonitos, corpos bem feitos. É desagradável pagar para ver... Pessoas assim, como você. – Torce o nariz. – A Broadway certamente conta com isso.

– Você não sabe o que diz. – Sussurra, irritada.

– Está vendo isso, Rachel? – Aponta para si. – Isso é um corpo bonito. – Sorri. A morena baixa seu olhar para suas curvas. – É isso que eles querem ver. O corpo de Santana é bonito, o de Brittany é bonito. O dia de Quinn, ah...

– Eu conheço o corpo da minha mulher muito bem. – Fecha a mão. Lena vira os olhos.

– Eu não sei quem te falou, aposto que seus pais, mas... – Solta uma risada. – Sua voz é chata, Hobbit. – Rachel tenciona. – Sua voz é...

– Cala a boca, Lena. – Vira para a garota, que arqueia uma sobrancelha. – Você não vai conseguir.

– Conseguir o que?

– Me desestabilizar. – Aponta. – Eu sei o que você está fazendo.

– Eu não preciso fazer isso. – Estala a língua. – É a minha opinião, eu diria qualquer dia e não porque hoje você tem teste.

– Opinião que não foi pedida em momento algum.

– Infelizmente. – Suspira, se olhando no espelho. – Te pouparia de mais um vexame. – Limpa o batom no canto da boca. – Ou felizmente, né? Mais risadas para mim!

– Veremos quem vai rir por ultimo. – Desafia, escondendo as mãos trêmulas em sua blusa.

– Quantos quilos de maquiagem você usou para esconder essas coisas dos seus braços?

– Não te interessa. – Se encolhe. – Licença. – Empurra a ruiva e vai em direção a porta.

– Boa sorte, RuPaul. – Rachel paralisa. – Não vai querer decepcionar a Quinn.

Lena passa pela morena, batendo seu ombro com o dela. O som da porta fechando com força faz Rachel fechar os olhos. A cantora pega o celular, respirando com mais dificuldade que o normal. Um toque, dois toques, três toques. Uma respiração funda e trêmula.

– Atende, Quinn. – Implora. – Por favor. – Caixa postal. – Droga de viagem. – Resmunga, apertando o celular.

Seu coração batendo muito mais rápido a cada passo que ela dá em direção ao auditório onde as audições serão realizadas. Ela pode sentir borboletas, não só em seu estômago, mas em todo seu corpo. E ela nem sabia que era possível, até agora. É isso, seu sonho se tornará realidade. Rachel esteve esperando por essa oportunidade desde o dia que assistiu Funny Girl pela primeira vez e decidiu querer viver isso a vida inteira.

Ela analisa cada detalhe do corredor e um filme passa por sua cabeça, fazendo o momento cair em um clichê de cena final do filme que passa todo mês na televisão. Rachel recorda as várias raspadinhas recebidas, em diferentes momentos, em diversas posições. Ela escuta todos os nomes que já a chamaram até então, em diferentes tons, em diversas vozes. A morena para em frente ao armário de Puck e encara a pequena marca na porta, que está presente desde o primeiro ano. Finn havia feito. Tinha sido dias após ela revelar o segredo de Quinn sobre a paternidade de Beth. O garoto não estava bem com seus amigos e tudo o que Puck falava, ele se irritava ao extremo. Ele socou o armário numa tentativa de aliviar a sua raiva e não machucar o rapaz que dizia ser seu amigo, mas que engravidou sua namorada. Rachel insistiu em levá-lo para enfermaria quando viu seus dedos sangrarem. Mas, Finn recusou e a pequena cuidou dele sozinha, levando-o para o vestuário e fazendo um curativo na sua mão. Finn sorriu e a beijou.

Ela se lembra de ir para o coral com a mão entrelaçada a mão não machucada de seu namorado e o olhar da loira cair sobre ela. Quinn disse que havia a perdoado. Rachel não soube dizer se a mágoa nos olhos da loira era para ela. Mas, os olhos de Quinn estavam cheios de mágoa o tempo inteiro. E o porquê isso afetava tanto a morena, ela também não sabia explicar. Hoje talvez ela consiga. Rachel sorri nostálgica e olha para outro canto do corredor, na direção do armário da garota de olhos verdes. Um sentimento bom a invade, quando as memórias recentes de Quinn passam na sua mente. Ela a ama. Definitivamente, ela o faz.

Rachel esbarra em alguém e seus olhos arregalam ao ver as roupas das meninas.

– O que... Vocês...

– Quentes? – Santana dá uma volta. – Eu sei.

– Sim. – Franze a testa. – Vocês estão... Quentes. O que é isso?

– Vamos apresentar logo isso de uma vez. – Aponta para o auditório. – Você quer ir?

– Hm, claro. – Ela continua olhando as roupas. – Eu já estava indo para lá mesmo.

– Se você continuar me olhando assim, eu terei que te lembrar que somos comprometidas. – A latina ri, mas Rachel parece alheia a brincadeira. – Tudo bem? – Levanta o rosto da morena.

– Si... Sim.

– Vamos, Santana. – Mercedes chama, irritada.

O número para o qual você ligou está fora de aérea ou desligado. Tent...

Rachel vira os olhos e coloca o celular na bolsa. Sue entra com um enorme copo de vitamina nas mãos e Beiste aparece logo atrás, com sua inseparável prancheta. A morena se pergunta se ela passa o dia inteiro fazendo anotações ou mudando as posições dos meninos do futebol americano. A luz vermelha ilumina o palco, tirando-a de seus pensamentos.

Ela levanta uma sobrancelha quando Mercedes faz a introdução. As outras garotas logo aparecem atrás dela, arrastando algumas cadeiras de forma sensual. Mike entra no solo de Tina, ajudando na encenação. Rachel olha para a treinadora Sue, que está com a expressão fechada. Elas continuam cantando e dançando até serem interrompidas pela saída de Beiste.

– Fizemos algo errado? – Santana franze a testa.

– Além de assassinarem minha música favorita? Sim. – Sue balança a cabeça. – Vocês são malucas? Eram para encontrarem uma música que fale sobre confiança e auto-estima para saírem de uma situação abusiva, e o que vocês fazem? – Levanta. — Vocês escolhem uma música sobre mulheres malucas de calcinha, que matam seus homens por mascarem chicletes. No que isso ajuda? – Eleva o tom.

– Nós só... – Tina limpa a garganta. – Queríamos mostrar nossa força.

É tão óbvio que beleza conta. Todo mundo irá preferir assistir a rostos bonitos, corpos bem feitos. É desagradável pagar para ver... Pessoas assim, como você.

Rachel encara as meninas, sem prestar atenção no que está acontecendo, até sentir uma mão fria em seu ombro. Ela salta em susto.

– Shhh... – Kurt coloca o dedo na boca, fazendo sinal de silêncio. – Ela chegou.

– Ela quem? – Sussurra.

– A nossa olheira. – Deita na cadeira, parecendo nervoso.

– Onde ela está? – O garoto põe a mão no rosto e aponta lentamente para o canto do auditório, onde uma mulher conversa com Schue.

– Oh, meu Deus. – O ar prende na garganta. – É a...

– Carmen Tibideaux. – Kurt completa, desesperado.

Notas finais
ask.fm/FlorDeLins_ ;***