Além da superfície.
84 Audição.
Notas iniciais
– Carmen Tibideaux. – Kurt completa, desesperado. – Uma das olheiras mais famosas de NYADA. Ela já atuou na Broadway. Ela já fez os papéis mais exigentes na maior casa de ópera em todo o mundo. Acho que eu vou vomitar.
– Meus... Meus pais têm ido às salas de NYADA e eles disseram que ela foi nomeada reitora de Performance Vocal e Interpretação de Canção. Agora ela vai por todo o país para escolher sua própria turma.
– Oh, meu Deus, Rachel. Eu não posso fazer isso. – Se levanta.
Rachel encara a mulher cumprimentar as treinadoras e se posicionar. A morena solta um suspiro arrastado antes de ir atrás do garoto. Ela corre para o camarim e o encontra abraçado à Blaine. O mais alto sussurra algumas palavras, enquanto conforta o namorado. Segundos mais tarde, Santana entra no local com uma das mãos entrelaçadas à de Brittany, recebendo carinho fraco do polegar da loira. Rachel olha para o celular outra vez, percebendo que Quinn não respondera suas mensagens ou ligações.
– Blaine Anderson.
Os cinco pulam, sendo tirados de seus próprios mundos. Kurt segura o rosto do namorado, desejando-o boa sorte. As três garotas o abraçam também. A morena sente uma pitada de inveja. Blaine parece tão confiante e pronto para isso. Assim como ela se sentia há algum tempo, quando ninguém era capaz de derrubá-la. Não com palavras tão bobas. Rachel sempre respirou esperança. Tudo o que fazia, era com ela inflando seus pulmões. Quando inspirava, Rachel conseguia quase tudo o que queria. Sempre ia em frente. Bastava ela. Era como uma espécie de armadura infalível. No dia das Nacionais, no ano anterior, ela sentiu como se tivessem a acertado, com uma pontaria perfeita, em um canto descoberto e ela sentiu dificuldade para respirar. Tendo seu ponto fraco a mostra, Rachel era frequentemente atingida. Tiraram o seu ar. E ela acordou respirando pessimismo.
–
A apresentação de Blaine foi boa. Bom, Rachel fez pequenas anotações mentais sobre o que ela melhoraria, mas isso ela faz sempre, porque algumas coisas simplesmente não mudam. Kurt arruma a máscara em seu rosto, com as mãos trêmulas.
– Kurt Hummel. – A mulher chama, fazendo-o engolir em seco.
– Você vai ser fantástico. – A morena assegura. – Eu acredito em você. Não existe ninguém no mundo que canta essa música como você faz.
– Nem o Michael Crawford?
– Hm... – Rachel olha pra frente. – Apenas... Vá, Kurt.
Ele respira fundo e entra no palco. Rachel arruma seu vestido para ajudá-lo na performance, enquanto ele se apresenta à Carmen. Suas mãos congelam ao ouvir a voz do garoto avisando que irá mudar de música. Ela levanta a cabeça para olhá-lo, incrédula.
– Meninas... – Ele chama, tirando sua capa de Fantasma da Ópera. Mercedes, Sugar e Brittany entram.
Kurt dá um último olhar para Rachel, que nega com a cabeça. Ela troca rapidamente sua roupa e corre para as cadeiras do auditório. Coração disparado. Kurt mudou sua música no ultimo minuto. E ele está indo incrivelmente bem. Quão tola ela foi achando que ele não poderia conseguir, caso trocasse? É assim que funciona, não é? As pessoas precisam estar preparadas para tudo e não apenas para o que ensaiam diariamente. Ele está certo. São escolhas de conforto.
Ela será previsível, não arriscará. Ela fará um número que Carmen já deve ter visto bilhões e bilhões de vezes. Ela não dançará como o Kurt está dançando, nem irá subir no piano. Ela apenas vai cantar. Cantar a sua música de conforto. Porque ela a ensaia desde seus dois anos de idade. Carmen sorri e Rachel vê seu sorriso. Kurt chega ao final de sua incrível performance com o seu impecável agudo. A morena também sorri, porque ela o ensinará a melhorar, embora o rapaz já soubesse como fazer.
Will levanta, aplaudindo orgulhoso. Blaine suspira, com o sorriso enorme, aplaudindo junto à seu professor e Rachel.
– Hugh estaria tão impressionado com sua apresentação como eu estou. – Informa a mulher, fazendo todos vibrarem. – Boa escolha, garoto. Eu te parabenizo por arriscar hoje.
Rachel a encara, mordendo o lábio. Nervosismo crescendo dentro dela.
–
– Você é uma estrela. – Fala novamente, pela centésima vez no dia, olhando para o espelho, tentando se convencer.
Santana e Brittany aparecem, fazendo-a virar rapidamente, mas a morena se frustra por não ter sido quem ela esperava. As duas percebem a expressão da amiga e sorriem fraco, abraçando-a confortavelmente.
– Rachel Berry. – Ela ouve a voz chamar do auditório.
Rachel fecha os olhos e respira fundo. É a sua hora. Com passos confiantes, a morena entra no palco e coloca o maior dos sorrisos no rosto.
– Oi, meu nome é Rachel Berry. Eu vou cantar Don't Rain On My Parade, do meu musical favorito, Funny Girl.
Carmen levanta uma das sobrancelhas e anota algo, enquanto a banda começa a soar atrás da pequena menina iluminada pelas luzes do cenário. Rachel toma seu fôlego, antes de começar a cantar o inicio da música que ela tanto ama. Ela se sente no controle do mundo. Ela pode tudo. Ela consegue dar as melhores notas, ela sempre pôde. Ela é Rachel Berry. A garota que nunca desafina, em hipótese alguma.
– Don't bring around a cloud to rain on my parade. – Então, ela abre os olhos e encontra um grupo no canto do auditório. Lena, Karofsky e mais três pessoas torcendo os narizes. — Don't tell me not to fly. I've simply got to. – Canta com um pouco mais de força. — Life's candy and the sun's a...
Carmen inclina a cabeça, os olhos de Blaine crescem e o sorriso de Kurt cai. Rachel leva a mão à boca, se interrompendo. A banda para. Mas, ela é a melhor. Ela...
– Eu... Eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo. Por favor, deixe-me começar de novo, mais uma vez. Me desculpe. – Vira de costas e faz um sinal para os músicos. – Por favor, iniciem outra vez.
Ela tenta se concentrar, mas escuta as risadas abafadas vindas das últimas cadeiras. As risadas se transformam em gargalhadas. Ela vira para encará-los e reclamar com idiotas por desconcentrá-la e encontra os jovens com os braços cruzados, com suas bocas devidamente fechadas. As risadas continuam, no entanto. Cada vez mais altas e próximas. Rachel passa o olhar por toda a parte e não encontra ninguém. A música volta. Perdedora. Ela força um sorriso e brinca com as mãos.
– Don't tell me not to live, just sit and putter. Life's candy and the sun's a... – Sua voz é chata, Hobbit.
E acontece outra vez. Rachel se interrompe, sentindo o pânico subir pelo seu corpo. A banda para também.
– Oh, meu Deus. – Santana sussurra. – Isso não está acontecendo.
A morena coloca as mãos nos ouvidos, tentando abafar o som da sua mente, de forma inútil.
– Eu... Eu... Perdão. Eu não sei... – Dá um passo a frente, com os olhos cristalizados. – Eu sei essa música ao contrário. Eu sei disso. Uh, ok. – Respira fundo. – Por favor, me deixe cantar só mais uma vez. – Vira para a banda. – Eu posso começar de novo mais u...
– Não.
Seu corpo congela. Tudo fica em silêncio absoluto. Sem risadas, sem xingamentos, sem piadas. Apenas o som do seu coração batendo rapidamente com sua respiração pesada.
– Desculpe...? – Encara a olheira.
– Eu já te dei mais chances do que deveria. – Arruma seus papéis. – Você sabe o que acontece quando alguém esquece a letra na Broadway? Eles dão o papel para o seu inimigo. Sinto muito, mas essa audição está encerrada.
– Não. Por favor. – Suas lágrimas começam a cair descontroladamente. – Por favor, me dê mais uma chance. Você tem que acreditar em mim. Por favor. – Implora. – Por favor...
– Eu vou sair para um café por dez minutos. – Levanta. – Quando eu voltar, quero a próxima aluna já posicionada.
Carmen deixa o auditório.
–
Santana anda de um lado para outro dentro do pequeno camarim, soltando palavrões em espanhol, enquanto segura seu celular com uma força que pode quebrá-lo a qualquer minuto. Brittany volta para o seu lado, recuperando o fôlego por ter corrido. A latina a olha, ansiosa.
– Ela não quis esperar. – Santana soca a mesa. – Ela disse que estava bem e... Ela parecia calma. Calma demais. – A dançarina sussurra. – Eu me ofereci para levá-la, mas ela disse que eu não podia ir, porque Sue nos deixou de castigo até mais tarde e...
– Sue entenderia! – Santana esfrega o rosto. – Deus, ela não pode ficar sozinha.
– Eu sei, San. Ela foi mais rápida que eu. Eu não consegui pará-la. – Soluça baixo.
– Vem cá. – A latina abre os braços e sua namorada esconde o rosto em seu peito. – Shh, não é sua culpa. – Fecha os olhos, tentando controlar o próprio choro. As duas se assustam com os passos fortes se aproximando. Santana afasta a cabeça. – Quinn?
– Hey! – Sorri. – Você já se apresentou?
– Não, eu... – Britt continua na mesma posição. – O que está fazendo aqui?
– Eu não consegui viajar. Digo, eu fui... Mas, não consegui ficar. Peguei o vôo de volta logo em seguida. – Dá os ombros. – Onde estão os outros? – Olha para os lados. – Cadê a Rachel? Eu tentei ligá-la e...
– Quinn, você precisa ir atrás dela. – Seu tom urgente faz a o sorriso da loira sumir.
– O que...
– AGORA, QUINN.
– Santana... – Suas mãos começam a tremer.
– Ela não pode dirigir assim. – Britt sussurra. – Eu vou com você.
– Santana Lopez. – Carmen chama.
– Puta que pariu. – A latina se senta.
– Amor, você precisa ir lá. – Brittany se abaixa. – San, é a sua vez. Não a deixe mais irritada.
– Fique com Santana, eu vou atrás de Rachel. – Quinn se vira.
– Não! Ela vai com você.
– Você precisa dela aqui. – A loira declara. – E eu preciso ir atrás da minha namorada. – Suas mãos não param de tremer.
– Eu levo você. – As três se viram.
–
– Regrets collect like old friends here to relive your darkest moments. I can see no way, I can see no way. And all of the ghouls come out to play...
Santana começa a cantar com os olhos fechados e o pensamento em suas amigas, assim como Brittany. Ela havia acabado de se apresentar. Sua audição foi excelente, recebendo comentários positivos da olheira. Mas, a latina não estava em clima de comemoração. Com um sorriso sem graça, apenas pediu para que as outras meninas se juntassem ao palco e se apresentassem logo para Beiste e Sue. Ela precisava sair logo dali.
And every demon wants his pound of flesh
But I like to keep some things to myself
I like to keep my issues strong
It's always darkest before the dawn...
Quinn solta o ar ao ouvir sua chamada cair na caixa postal pela quinta vez. Ela bate os dedos na porta do carro e suas pernas não param de balançar um segundo.
– Você pode dirigir mais rápido? – Pede.
– Estou dando o meu máximo, Quinn. Não posso nos arriscar em algum acidente agora. O trânsito essa hora é um inferno.
A loira geme em frustração e encosta a cabeça na janela.
And I've been a fool and I've been blind
I can never leave the past behind
I can see no way, I can see no way
I'm always dragging that horse around...
Rachel desliza na parede do banheiro, segurando a gillette firmemente nas mãos. Ela escuta o celular tocar e inclina a cabeça, esperando que o som pare. Assim que ele some, ela volta o olhar para o objeto. Sua mente continua em silêncio desde o “não” que ouvira no auditório. O não que barrou todos os sonhos. O não que mudou completamente os seus planos. E agora? O que ela fará? Ela não quer outra coisa, além disso. O que ela vai fazer em Lima quando todos estão traçando suas vidas? Enquanto Quinn está traçando sua vida. Quinn...
Our love's pastured such a mournful sound
Tonight I'm gonna bury that horse in the ground
I like to keep my issues strong
It's always darkest before the dawn...
– Eu vou andando! – Tenta tirar o cinto.
– Não vai te fazer chegar mais rápido, Quinn. Estamos perto, tenha calma.
– Eu vou ligar para os pais dela mais uma vez. – Enxuga o rosto e recebe um aperto solidário em seu ombro.
Shake it out, shake it out, shake it out, shake it out, ooh...
– Merda! – Joga o celular para baixo.
Shake it out, shake it out, shake it out, shake it out, ooh...
And it's hard to dance with a devil on your back
So shake him off...
Rachel pisa em cima do objeto com o seu salto, quebrando-o em vários pedaços. A morena segura a lâmina solta com as pontas dos dedos. Luxaria brilhando em seus olhos. A sensação familiar invade seu corpo. Ah! A sensação! Finalmente ela sente algo depois de descer daquele maldito palco. E é tão bom sentir algo além do vazio.
And it's hard to dance with a devil on your back (Shake it off)
And given half the chance would I take any of it back...
Brittany agarra a mão de Santana, apertando-a contra si.
It's a fine romance but it's left me so undone
It's always darkest before the dawn...
– Eu vou te esperar aqui. Se você precisar de algo, você me chama e eu corro. Se não, apenas me dê um toque e eu vou embora. – Quinn assente e sai do carro.
– Obrigada, Finn!
A loira toca a campainha, sentindo-se mais aliviada ao ver o carro da morena estacionado na garagem. Ninguém aparece. Ela toca outra vez. Quinn vira a maçaneta da porta e ergue as sobrancelhas ao conseguir abri-la. Ela dá um ultimo olhar para o menino encostado no portão, com um semblante visivelmente preocupado. Sem pensar duas vezes, ela corre para dentro da casa.
– RACHEL? – Grita. – Amor? – A loira tropeça pela escada, indo em direção ao quarto da morena.
– Looking for heaven, found the devil in me. Looking for heaven, found the devil in me. – Quinn escuta a voz baixa da namorada e a segue. – Well, what the hell I'm gonna let it happen to me?!
– Rachel? – Chama outra vez, olhando o quarto vazio.
Shake it out, shake it out, shake it out, shake it out, ooh...
Rachel se assusta como se voltasse de um transe e faz uma careta ao sentir a fisgada no braço esquerdo. A pequena levanta, enrolando-o na toalha de rosto, que logo fica encharcada. Seus olhos crescem.
– Rachel? – Ela escuta mais uma vez. E agora ela tem certeza que não é sua imaginação.
– Quinn? – Sussurra.
Shake it out, shake it out, shake it out, shake it out, ooh...
– Oh, meu Deus, Rach. – Quinn fica enjoada ao encará-la.
– Eu preciso de ajuda. – Sussurra. – Eu não consigo fazer parar.
And it's hard to dance with a devil on your back
So shake him off.
Fale com o autor