Além da superfície.
48 Casais improváveis.
Notas iniciais
Por Rachel
Quinn dormindo é absolutamente adorável. Ela consegue ser espaçosa e cuidadosa ao mesmo tempo. Encaro os traços suaves da loira, trazendo-a para mais perto de mim. Já está ficando tarde, mas eu não quero sair dessa cama agora. Aliás, não quero sair daqui por uns dias. Talvez meses. Será que Santana deixaria que nós morássemos aqui? Suspiro frustrada, sabendo que não posso fugir para sempre.
Leroy gostaria de vir aqui. Lembro que uma vez ele falou para Hiram que sonhava em morar distante, para que nós fizéssemos nossas grandes festas e pudéssemos garantir sossego nos finais de semana. Nessa época, eles ainda me tratavam como filha e achavam que eu era a super popular do colégio, só porque eu tinha ganhado uma competição de um clube idiota. Abandonei todos esses clubes esse ano. Eles apenas serviam para... Bom, para nada.
Kurt e eu competíamos e listávamos todos os clubes, a fim de conseguir chances maiores para entrarmos em NYADA. Eu sempre tive mais. Comecei a frequentá-los desde cedo, quando Hiram cismou que eu deveria saber cozinhar. Entrei para o clube de cozinha, mas não foi muito produtivo. Posso dizer que foi bastante frustrante, bem como todos os outros. O clube do coral foi o único que entrei com toda minha dedicação e paixão. E eu nem sei o que me fazia gostar daquelas pessoas tão diferentes de mim e que me tratavam mal. Era como se eu precisasse juntá-los.
Quinn se remexe ao meu lado, me tirando dos meus pensamentos. Eu sorrio ao vê-la resmungar coisas sem sentindo, sabendo o porquê dela estar reclamando.
– Merda. – Ela põe o braço na cara. Eu prendo o lábio inferior, tentando não rir. A loira vira para mim.
– Bom dia, meu amor.
– Bom dia. – Murmura, escondendo o rosto em meu peito. – Vou comprar cortinas para Santana. – Eu solto uma risada sonora.
– Auush, Q. – Choramingo, passando a mão em meu ombro recém-mordido. – Você precisa aprender a dormir em lugares claros.
– As pessoas que precisam aprender a dormir em lugares escuros. – Aponta. – Elas não sabem o bom da vida.
– Meu quarto não é tão escuro.
– Mas, é seu quarto. – Levanta uma sobrancelha. – E o sol não entra atacando assim. – Bufa. Eu viro os olhos.
– Pare de reclamar. Estamos aqui, abraçadinhas, escondidas e você está xingando a claridade. – Faço um pequeno bico.
– Hmmm... Não tenho do que reclamar. – Sorri. Eu assinto. – RACHEL! – Pula. – Que horas são? Nós precisamos ir embora.
– Quinn, já perdemos o primeiro tempo.
– Oh, Deus! – Se senta. – Por que você não me acordou?
– Porque eu não quis. – Dou os ombros.
– Você lembra que já teve muitas faltas, não lembra? Não quero te prejudicar, Rach. Esse ano é...
– Tá, Quinn. – Tiro o lençol de mim. – Foi só o primeiro tempo, calma.
– Hey. – Me puxa de volta. – Eu não quis te chatear. Só fiquei preocupada.
– Eu sei, ok? – Suspiro.
– O que houve? – Põe uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha.
– Nada. – Gesticulo. – Só... Só queria ser uma estudante normal faltando aula.
– Mas, você é. – Franze a testa.
– Certo. – Ela me olha, curiosa. – Quando nós vamos pular para parte em que moramos juntas, longe desse povo todo de Lima?
– Logo, meu amor. – Sorri. – Mas, não podemos pular. Será por pouco tempo.
– E por que nós não aproveitamos um pouco mais aqui? – Provoco-a.
– Seria perfeito. – Me beija. – Só não podemos. Você sabe que é distante e ainda precisamos passar em sua casa para pegarmos uma roupa.
– Droga. – Resmungo.
– Vamos, Berry. – Segura meus braços. – Levanta daí.
– Aaaaaush. – Quinn arregala os olhos. – Meu pé. Dói. Ai...
– Ah, dói? – Eu assinto, me encolhendo. Ela joga um travesseiro em mim. – Com quem você aprendeu a ser dramática assim?
– Ei!! – Cruzo os braços. – Não é drama.
– Não? Ontem quando nós estávamos fazendo amor você parecia ter se esquecido do pé machucado.
– Então vamos fazer amor outra vez para que eu possa esquecer de novo. – Abraço-a, sentindo seu riso em meu pescoço.
– Para, Rachel. – Se afasta. – Eu sei o que você está tentando fazer. Vem aqui. – Me encosto em seu peito, enquanto ela brinca com meus dedos. – Você está com medo, não é?
– Medo? – Me finjo de desentendida. – De quê?
– De seu pai, Rach. Não mente pra mim. – Suspira.
– Um pouco. – Descanso a cabeça em seu braço. – Eu não queria pensar que ele pode me pedir desculpas. Eu não quero me decepcionar mais...
– Shhhh... – Afaga meu cabelo. – Aconteça o que acontecer, nós daremos um jeito, certo?
– Podemos ficar aqui mais um...
– Não! – Ela ri, levantando. Eu deito, colocando um travesseiro no rosto.
– Se tivesse cortina, você ficaria.
– Pode apostar que sim.
Por Quinn
Rachel tagarelou todo o caminho de volta. Eu posso ficar feliz por ver a antiga Berry voltando aos poucos. Mas, me preocupa, porque sei que ela está tentando disfarçar seu nervosismo. Eu não quero deixa-la sozinha, mesmo sabendo que ela precisa disso. Depois de passarmos em sua casa, Leroy a incentivou a ir ao encontro de Hiram. Só que quando a morena subiu para trocar de roupa, ele me alertou, pedindo para ficar por perto, caso aconteça algo inesperado. E eu me pergunto se se existe algo que não seja esperado hoje.
Ao chegarmos ao colégio, Santana veio com toda sua criatividade e fez sua lista de brincadeiras sobre nós e a casa dela.
– Às vezes eu acho que você tem um caderno só com as besteiras que você ensaia pra nos dizer, Santana. – Rachel fala, entrando na sala do coral.
– Eu já reclamei da claridade em seu quarto?
– Já, Quinn. Desde o primeiro dia que você pôs os pés lá. – A latina vira os olhos. – Eu gosto, ok?
– Nós gostamos de ver o sol nascer na cama. – Britt diz, carinhosa. Santana sorri para a namorada, abraçando-a.
– Quinn é estranha, amor. Não liga. – Dá um selinho na dançarina.
– Rachel, me defende. – Cruzo os braços.
– Você é estranha, Q. – Eu olho-a, incrédula. – Mas, eu te amo, mesmo assim. – Sorri.
– Insuportáveis. – Bufo, enquanto os outros integrantes do clube entram.
Todos falam com a gente, menos Finn, que segue para o seu lugar, nos ignorando. E, bem, Mercedes, que não tem falado muito com alguém por aqui. Professor Schue entra na sala, com sua alegria irritante e eterna.
– Tenho uma surpresa para vocês. – Anuncia, puxando um banco. – Aos que chegaram a agora, conheçam a grande... – Batuca os dedos no piano e eu resisto ao impulso de virar os olhos, coisa que Santana não faz. – Holly!
A loira entra na sala, sendo aplaudida e ovacionada como se fosse a maior celebridade dos últimos tempos. A verdade é que eu não tive muita intimidade com ela, mesmo que ela tenha vindo no tempo da minha gravidez. Brittany levanta, abraçando-a fortemente, sendo seguida pela namorada. Holly olha para as duas com orgulho.
– Eu sabia que viria. – A latina sussurra. – Obrigada.
– Não tem de quê. Eu disse que sempre virei quando precisarem. – Pisca um olho. – Hey, pessoal, como estão?
– Ótimos. Acabamos de ganhar as Seccionais. – Artie diz, empolgado. – Você veio nos ajudar?
– Claro. – A mulher senta conosco. – Will disse que precisam de ajuda com a escolha das músicas.
– Lá vem briga. – Puck deita na cadeira, com as mãos na cabeça.
– Por quê? – A professora franze a testa.
– Porque é difícil eles entrarem em um consenso. – Schue coça a nuca.
– Eu tenho algo a dizer. – Mercedes levanta a mão. – Acho injusto não ter participado das músicas de MJ.
– É incrível o que eu vou dizer, mas... Eu concordo com ela. – Santana continua. – Eu quero cantar MJ também.
– Ah, de novo? Ficará batido. – Sugar fala, inocentemente, levando um olhar mortal de ambas as morenas.
– MJ nunca será batido. – A latina volta sua atenção para nós. – E só seria uma música. Rachel quem deu a ideia também não cantou. – A morena se encolhe um pouco na cadeira. – O que acha?
– Eu acho... – Aperto sua mão, incentivando-a. – Acho que uma música não seria ruim.
– Bom, se a capitã disse... – Professor Schue sorri. – Está dito. Escolheremos qual será.
Depois de algumas discussões, Holly levanta, cantando com todos os meninos. Eles dançam loucamente ao lado dela, babando como adolescentes que não podem ver uma mulher mais velha. Santana cutuca minha perna e me dá um olhar assustado. Eu olho para onde ela acena, ficando confusa também. A música termina e o professor Schue encerra o ensaio, babando igualmente. Todos se despedem de Holly, agradecendo-a pela ajuda e dicas que ela deu durante a aula.
– Isso é sério? – Sussurro para Santana.
– O que é sério? – Rach pergunta, curiosa.
– Mercedes passou a música inteira olhando para o Sam. – Explico.
– Mercedes e Sam? – Britt franze a testa, enquanto a latina gargalha alto.
– Agora eu entendo porque ela é tão frustrada.
– San, não fale assim. – A dançarina repreende. – Será que ela está afim dele?
– Se estiver: coitada. Ele só tem olhos pra Quinn.
– Santana! – Bronqueio-a novamente. Ela dá os ombros. – Deve ser só imaginação nossa. Isso é muito... Estranho. O que você acha, Rach? – A morena não responde. – Rach?
– Santana tem razão. – Diz, saindo do transe. – Deus! Por isso ela tem tanta raiva de você. – Senta. Eu a encaro, sem entender. – Ela disse que você sempre consegue tudo. Claro! Ela estava falando do Sam.
– Estou perdida. – Assobio.
– Algo aconteceu em NY. – Ela me ignora. – Vocês sabem de algo sobre o Sam em NY?
– Depois que ele brigou com Quinn? Sumiu. – Santana arregala os olhos. – Oh, meu Deus, você acha que eles estavam juntos?
– É muita informação. Isso ainda é estranho. – Admito.
– Por que é estranho, Q? – A morena pergunta enciumada.
– Porque eu nunca imaginei. Só isso. – Rio.
A morena estava prestes a dizer algo, quando Holly entra na sala outra vez.
– Estou muito feliz de vê-las assim. – A professora aponta para Britt e Santana.
– Nós também estamos. – A dançarina beija o nariz da namorada. – Mas, agora não somos nós que precisamos conversar. – Eu franzo a testa.
– Rachel, lembra que eu falei que alguém poderia ajudar vocês com a questão de assumirem para o colégio? – A pequena assente. – Está aí.
– Hey, vocês. – Holly sorri. – Incrível. Nunca imaginei vocês juntas. Formam um bonito casal.
– Obrigada. – Estufo o peito. – E obrigada por vim. Elas falam muito bem sobre você.
– Espero poder servir para algo. – Diz, sincera.
– Me perdoe, eu gostaria de ficar. Mas, hoje eu realmente não posso. – A morena olha para o relógio.
– Tudo bem. Ficarei por uma semana. – Sorri. – Nos vemos logo?
– Com certeza. – Assinto. Ela se despede. Eu abraço minha namorada. – Você está bem? – Sussurro.
– Preciso ir. – Devolve no mesmo tom.
– Te levarei. – Beijo-a levemente. – Está pronta?
– Não, mas... – Respira fundo. – Vamos.
Santana e Brittany dão um abraço apertado na morena e nós saímos na direção marcada.
Por Rachel
Encaro o parque, sem coragem de descer. Parece que estou indo me encontrar com um desconhecido qualquer e não com o homem que passou a vida inteira na minha casa, me criando. Quinn segura minha mão, entendendo meu tempo.
– Eu te ligo quando...
– Não precisa, eu ficarei aqui.
– Quinn, não precisa ficar aqui. – Repreendo-a. – Pode demorar e...
– Não ligo. – Dá os ombros. – Eu ficarei.
– Ok. – Suspiro. – Me deseje sorte.
– Boa sorte, meu amor. – Captura meus lábios rapidamente. – Não perca sua cabeça em momento algum, tudo bem? A razão está do seu lado.
– Eu tentarei. – Sorrio fraco.
Quinn me beija com toda a delicadeza que pode, eu sei que ela está tentando passar sua tranquilidade para mim. E lógico, ela passa. A loira alisa meu rosto, sorrindo doce. Eu quase esqueço o que viemos fazer aqui. Saio do carro, vendo o homem sentado perto dos balanços. Ele levanta ao perceber minha presença. O que eu faço? Abraço? Aperto sua mão? Dou um pequeno aceno. Hiram parece desconfortável, mas devolve com um sorriso.
– Você está linda. – Diz. Outro aceno. – Então, como... Como você anda?
– Bem, obrigada. – Suspiro. – E você?
– Estou com saudade. – Cruza as mãos. – Sinto sua falta e a falta de seu pai.
– Bom, foi você quem saiu. – Encolho os ombros.
– Eu sei. Eu precisava pensar. – Inclina a cabeça. – Foi um pouco perturbador saber de tudo isso.
– Imagino. – Falo, sincera.
– Soube que está indo para a psicóloga...
– Sim, Frannie me ajuda bastante. – Sorrio.
– Que bom, Rachel. – Olha para baixo. – Você... Parou...?
– Estou tentando. – Admito. – Faz tempo que não faço nenhum corte. – Ele estremece.
– Está curada?
– Eu não estou doente. – Franzo a testa.
– Oh, certo. – Sorri sem graça. – Só é... Difícil ver minha pequena... Assim.
– Sinto muito. – Digo com um nó na garganta.
– Eu que sinto muito, minha estrela. – Ele se ajoelha em meus pés. Eu respiro fundo, tentando controlar minhas lágrimas. – Eu só quero que tudo volte ao normal. Seremos uma boa família outra vez. Hm? O que você acha?
– Hiram, eu...
– Não me chame assim. – Choraminga. – Eu sou o seu pai.
– Ok, papai. – Suspiro. – Eu não sei como... Como fazer isso.
– Eu sei. – Segura minhas mãos. – Olha, eu sei. Não deixaremos que ninguém te faça mal. Você se afasta de Quinn e nós...
– Espera. – Solto sua mão. – O que você disse?
– Querida, você precisa se afastar dela.
– Você ficou louco? – Rio, incrédula.
– Rach, ela só irá te trazer problemas. – Levanta. – É uma Fabray. E... É uma mulher.
– EI! – Grito. – Você mora junto com um homem. – Lembro. – Você pirou de vez? Qual o problema de eu estar com outra mulher?
– Não estou falando por preconceito, Rachel. – Suspira. – O problema é ela ser a Quinn. Ou você esqueceu tudo o que ela já aprontou?
– E por que diabos você lembraria? – Gesticulo. – De todas as coisas que você tem para lembrar, por que lembra justamente disso?
– Porque ela te fez muito mal! – Levanta os braços.
– VOCÊ ME FEZ MUITO MAL. – Aponto.
– Se você a perdoou, por que não pode me perdoar também?
– Porque diferente de você, ela me dá motivos para perdoá-la. – Digo, calma. – Ninguém nunca me fez tão bem quanto Quinn me faz. E você vem me pedir para que eu me afaste dela... E quer que eu te perdoe?
– Ela pode te fazer bem agora, mas no futuro...
– QUE SE DANE O FUTURO. – Explodo. – Ela não me fará mal. Eu não sei porque eu vim aqui. – Levanto.
– Não! Fique. Me escute. Eu sei do que estou falando, essa menina...
– Cale a boca. – Viro, com raiva. – Cale essa estúpida boca se você for falar mal de minha namorada.
– Namorada?
– SIM! Namorada. Quinn é minha namorada. É a pessoa que eu amo. – Bato no peito. – E você não é absolutamente NADA meu.
– Rachel, estou tentando te ajudar.
– Sério? – Bato palmo, irônica. – Ótima ajuda.
– Você e Quinn... Não tem como dar certo. Vocês são pessoas completamente diferentes.
– Eu não me importo.
– Você não pode estar com ela. – Balanço a cabeça, derrotada. – Escute. Você não pode estar com outra garota agora, principalmente com ela. Isso será ruim para você. Você não sabe...
– Vá à merda, Hiram.
– RACHEL.
Eu apresso o passo, ouvindo seus gritos. Vejo o carro de Quinn estacionado na esquina e corro em sua direção. A loira abre a porta rapidamente.
– Me tire daqui. – Peço.
Ela assente, dando partida. Vejo o homem pelo retrovisor, sentando em um banco e enterrando o rosto nas mãos. Eu faço o mesmo no carro, deixando os soluços tomarem conta de meu corpo. Minha namorada acelera. Depois de alguns minutos, sinto o carro parar. Ela tira meu cinto e puxa para seu colo. Escondo minha cabeça em seu pescoço.
– Shhhh... – Passa as mãos em minhas costas. – Estou aqui. Está tudo bem.
– Eu... Eu... – Choro forte. – Ele...
– Calma, meu amor. Fique calma. Eu estou aqui. – Repete.
– Por favor, não saia. – Imploro.
– Eu não sairei, Rach. – Apoia o queixo no topo de minha cabeça. — O que quer que seja que ele tenha dito... Estou com você. – Eu suspiro. – Eu te amo.
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