Almas Obscuras - Despertar

5 Capítulo 4 - Este Sangue Culpado


Notas iniciais
Aí está mais um capítulo pra vcs, amores. Espero que gostem! Bjs

Comecei a pesquisa arqueológica na manhã seguinte. Todos pareciam bastante empolgados com o processo de descoberta e desvendar mistérios. Não vi Logan a manhã inteira, e me senti um tanto ressentida pela "quase briga" entre ele e Jonas. Porém, o único fato estranho foi ter visto Mary conversar aos cochichos com Tia Miranda antes.

Quando estava a caminho do treino, sem querer mexi em meu diário de viagens, e vi algo cair no chão. Era um envelope branco. Para Melaine, estava escrito.

Era a letra da minha mãe.

Eu a reconheceria em qualquer lugar. Fiquei chocada. Mamãe havia me escrito uma carta? Porque não me contou? O que seria? Senti meu coração pulsar forte.

Me encostei no meu armário no corredor e corri os olhos ávidos pelo papel.

Minha querida Melaine. Sorria! Você tem um sorriso lindo. Deixe-o fluir.

Se estiver lendo essas linhas, é porque eu parti. Por favor, não se entristeça por mim. Preciso que guarde com carinho nossos melhores momentos, pois tempos difíceis se aproximam pra você, filha. Mas não se assuste. Digo isso porque minha partida a afetará de uma maneira devastadora; eu sei, mas não deve — e não pode! — se deixar abalar. Sei que deve achar difícil encarar o mundo agora sem mim ao seu lado, mas precisa ser mais forte do que nunca agora. E você consegue, filha. Eu sei que sim.

A verdade é que só agora percebo o quanto amadureceu ao meu lado. Enquanto escrevo agora, você está dormindo na nossa barraca aqui no acampamento na Austrália. Hoje foi seu aniversário de 17 anos. Você ficou o dia todo no riacho com as meninas do vilarejo. Pode se sentir frágil, mas saiba que a vejo mais além. Você já está pronta, filha.

E continuo a insistir: se afaste da família do seu pai. Ops, Henry. Eles vão querer se aproveitar da sua fragilidade. Vão querer tirar tudo de você, se deixar. Eles só pensam em dinheiro, status e poder. Vai chegar o momento em que mais coisas serão reveladas. Não deve nada a eles; saiba disso. É independente; sempre foi, e vai saber se virar, tenho certeza.

Não tenha medo de seguir em frente sabendo que eu não não vou mais estar por perto para segurar sua mão quando cair. Minha garota é inteligente , e seu futuro será brilhante.

Guarde o melhor de mim com você. Estarei sempre com você; na sua mente e no seu coração. Siga em frente e não olhe para trás.

Com todo amor e carinho, Mamãe.

Meus olhos ficaram úmidos, e as letras, borradas. O papel tremia nas minhas mãos. Reparei que estava manchado. Lágrimas. Mamãe teria chorado?

Então notei algo mais escrito.

PS: Tem um pendrive dentro do envelope. Cuide dele com muito cuidado, ok? As informações que ele contém são valiosas, e não podem cair em mãos erradas. E você sabe a quem me refiro. Ah, e quero que veja o que tem nele, é claro. Não podia lhe contar na carta porque é perigoso. Saberá em breve porquê. Se a conheço bem, sei que vai saber exatamente o que fazer.

PS: Saiba que a amo muito, sempre. Um forte abraço da mamãe.

Não consegui conter as lágrimas de rolarem pelo meu rosto. Prendi-as por tanto tempo, que não me importava mais. Havia um pendrive branco no envelope. Fechei-o no punho e apertei-o no peito. O que quer que estivesse ali dentro, seria meu próprio mistério.

Limpei o choro com raiva. Raiva por mamãe ter deixado tantas dúvidas pra mim. O que ela quis dizer com "mãos erradas"? Quem seria o inimigo?

– Tia Diana, não espere por mim hoje — disse ao ligar pra ela e cair na caixa postal. — Tenho algo importante pra fazer.

...[...]...

Esperei até o colégio ficar vazio, inclusive o salão onde a feira arqueológica estava acontecendo, e segui apressada para a sala do jornal da escola e acessar um computador. Fiquei um tempo correndo os olhos pelas paredes enfeitadas com diversos jornais e fotografias.

– Mural do Estranho e Inexplicável — li enquanto olhava as diversas notícias relacionadas a fatos sem explicação. Dentre eles, estava o acidente que sofri, onde jazia uma foto minha estampada em prantos. Mary devia adorar essa foto.

Acidente deixa filha sem mãe. Causas ainda desconhecidas.

– O que está fazendo aqui? — a voz indignada de Mary me espantou. Ela me encarava de braços cruzados e testa franzida.

– Ah, desculpe invadir — disse-lhe.

– Não vou escrever seu discurso de rainha do baile, se é o que quer.

Eu ri.

– Só quero usar seu computador.

Ela me olhou melhor.

– Não está no seu horário de toque de recolher? — ela quis saber, ligando uma das máquinas.

Suspirei, sentando-me e ignorando sua pergunta.

– Mary...não quero parecer intrometida, mas...vi você conversando com a minha tia. O que ela queria.

Mary hesitou.

– Ela...só veio me oferecer um estágio — e voltou à arrogância. — Por que? Os meros mortais não podem trocar palavras com os mais badalados da cidade?

– Não é isso — permaneci na defensiva. — Olha...não deve conversar com eles, ok? Eles...são complicados.

– Nem quando se trata de reparar um erro do passado?

Franzi o cenho.

– Erro do passado?

Mary se acuou, então percebi que ela havia se equivocado e falado algo que não queria que eu soubesse.

– Meu pai trabalhou na LancasterCorp. E eles o demitiram...injustamente — ela suspirou. — E isso acabou com ele; com todos nós. Minha mãe não aguentou a pressão por muito tempo e...ele também não — e riu sem jeito. — Os dois mal me notam.

Eu arquejei, tamanha era a revelação de Mary.

– Poxa, Mary. Que barra!

Ela agitou as mãos.

– Já faz muito tempo, Pom-Pom. Esqueça.

– Se quiser ajuda pra descobrir, pode contar comigo — ofereci, sincera.

Depois de um tempo em silêncio, ela me encarou, olhando fundo nos olhos.

– Sabe, vendo você na pesquisa, vi o quanto tem da sua mãe em você — ela deu uma risada seca, e então parou. — Tem sorte de ter tido uma mãe como ela — Mary parecia me avaliar com os olhos. — Não sei como consegue se segurar.

Engoli em seco.

– Acredite em mim. Eu me desfaço em pedaços todos os dias.

– Sei como é — ela disse depois de um tempo — A única diferença entre nós duas é que eu tenho uma mãe...mas ela não se importa comigo...como a sua parecia se importar, a ponto de dar a vida dela em troca da sua — ela se aproximou da notícia do meu acidente. Notei que sua voz vacilou, e ela abaixou a cabeça, constrangida. — Você honra a morte dela. — e sorriu. — Está...começando a mudar um pouquinho no meu conceito.

Sorri de lado.

– Obrigada, Mary.

Ela caminhou até a porta e parou.

– Quando terminar, você desliga tudo?

Acenei com a cabeça, e ela me deixou sozinha.

Suspirando, eu olhei para o pendrive branco naquela sala escura e silenciosa. Ponderei um pouco antes de plugá-lo; esperando que aparecessem senhas secretas e arquivos em línguas desconhecidas. Porém, apareceram somente duas coisas: um vídeo e uma pasta com o nome "O Pecado Divino".

Aquilo me fez questionar qual dos dois abriria primeiro.

Ansiosa, e com o coração saindo pela boca, cliquei primeiro no vídeo.

E lá estava a imagem de mamãe outra vez. Resolvi deixar em pausa apenas para olhá-la. Seus cabelos escuros e seu olhar sempre muito alegre, naquele momento, deram lugar a uma imensa tristeza. Notei também o cenário ao fundo: era a barraca onde nos alojamos na Austrália, e lá estava eu dormindo como uma múmia.

Enfim, apertei o play.

Melaine, minha filha – mamãe começou a dizer no vídeo, sorridente. — Esse vídeo que faço agora será o início de sua própria jornada. E é exatamente por isso que você terá que seguir à risca o que vou lhe dizer — ela se virou pra me ver dormindo. — Depois de tanto tempo juntas, chegou a hora de você por em prática o que aprendeu comigo. Sabe aquela pesquisa que fiquei fazendo suspense o verão todo? - ela gargalhou, mas não teve emoção. – Pense nisso como uma espécie de teste; mas não para testá-la em si, mas porque terá que fazê-lo sozinha.

Meu coração acelerou de expectativa.

Ela suspirou.

– A pesquisa se chama "O Pecado Divino", e já adiantei algumas coisas pra você — ela riu, olhou ao redor e se aproximou da tela. — Me escute bem agora. Não pode deixar que Henry ou a família dele saibam disso, ou vão tentar interceptá-la. Sério. É estranho, eu sei, mas confie em mim. Eles não podem, em hipótese alguma saber disso. Se, por acaso, souberem, pelo menos terá essas informações. Quando chegar a hora, filha, vai precisar.

Nunca tinha visto mamãe tão séria e preocupada. O que os Lancaster não poderiam saber? Isso poderia explicar em parte o súbito interesse deles em uma pesquisa arqueológica, assim, do nada.

Agora, a parte menos burocrática e mais...difícil — ela sorriu e se afastou da tela. — Sinto muito não estar agora que precisa. Você corre perigo, filha; nós duas. E eu jamais a deixaria partir. Essa pesquisa vai chamar a atenção de muita gente...perigosa — ela hesitou ao dizer "gente". E suspirou. — Deve se perguntar porquê me envolvi com Henry se sempre tivemos desavenças. E isso é só o início pra você entender. Pelo menos, eu achava que era amor — ela então olhou com ternura para a tela, e uma lágrima rolou, e sorriu. — Vai achar o seu também, sabia? E vai ser lindo, Mel. Ele vai preencher o vazio que a minha falta vai fazer na sua vida. Ele irá fazê-la feliz. Não o afaste da sua vida, ou tenha medo que ele se aproxime, ok? E, com o tempo...você vai se esquecer de mim — ela sorriu sem jeito, em meio às lágrimas. — E como ele vai ser? Bem, conhecendo você...é meio difícil dizer.

Nossas risadas se fundiram. Por fim, ela suspirou novamente antes de enxugar as lágrimas.

– Tentei criá-la para que este momento não fosse tão doloroso. Mas a vida é feita de sacrifícios, Mel — ela olhou profundamente para a tela. — Ele vai chegar, filha. Em breve. Talvez esteja mais perto do que imagina. Talvez esteja só esperando o momento certo — e suspirou. — Não deixe que a saudade supere isso, ok? Saiba que irei amá-la para sempre. Estaremos sempre uma com a outra. A mamãe sempre estará aqui pra você, Mel.

Ela voltou a sorrir e chorar, desligando o vídeo.

Fiquei em choque, completamente sem fala. Lágrimas rolavam por meu rosto. Corri os olhos pela tela até diminuir o vídeo e aumentar a pasta, que estava organizada de maneria aleatória; como se mamãe tivesse colocado tudo aquilo às pressas, deixando tudo bagunçado.

Parei quando vi uma antiga fotografia. Cliquei para aumentá-la. Nela, estavam mamãe e eu. Eu estava por volta de uns 8 anos. Mamãe me abraçava de lado e sorria. Meu cabelo tinha uma franja frontal cortada por mim mesma. Foi uma peripécia que me fez rir. Então vi uma figura preta ao fundo, escondida atrás de uma árvore.

Pela silhueta, era um homem. Ele estava nos observando.

Aquilo me assustou. Quem poderia ser? Estaria nos seguindo?

Engoli em seco quando as palavras me mamãe voltaram à minha mente: Ele vai chegar, filha. Em breve. Talvez esteja mais perto do que imagina. Talvez esteja só esperando o momento certo.

O susto veio antes que meu coração desse conta.

De repente, como uma ave de rapina, uma mão pousou sobre a minha, fazendo-me perder o controle e retirar o pendrive de uma só vez. O toque, porém, me era familiar.

– Que susto! O que está fazendo aqui? — exclamei.

Logan exibia um sorriso presunçoso.

– Parece que todos resolvemos ficar até mais tarde hoje, não é?

Vendo meu semblante condescendente, ele suspirou.

– Estava na biblioteca. Você sabe, a pesquisa. — e sorriu. — Estamos todos nessa.

– Eu...já estava de saída — falei, e logo em seguida emendei. — Como sabia que eu estava aqui?

– Me encontrei com Mary no corredor — disse ele.

– Ah...se quiser usar — me levantei, pegando minhas coias. — Eu já estava de saída mesmo...

– Ótimo — ele me interrompeu, me segurando pelo braço. — Porque você tem que dar o fora daqui.

– O quê? — indaguei, confusa.

– Vai ter que confiar em mim — demos alguns passos enquanto ele me segurava.

– Como posso confiar em você? — eu me soltei bruscamente. — Primeiro, você aparece no hospital logo depois que sofri um acidente. E logo em seguida aparece aqui no colégio sem mais nem menos...como acha que posso confiar em você?

Ele me olhou profundamente.

– Porque sou a única chance que você tem.

Sem acreditar nele, me virei. Seria melhor não ter feito isso.

Três figuras distintas surgiram subitamente no corredor tão logo eu saí. A sombra sobre suas silhuetas não me permitiu enxergar seus rostos. Pelas formas, eram duas mulheres e um homem.

Eles avançaram um passo.

Logan tomou a minha frente protetoramente.

– Deixem-na em paz. — advertiu num tom sério.

Escutei uma risada.

– Não acredito que foram capazes de arriscar tanto — continuou ele, sem sair da minha frente.

– Quem são eles? — sussurrou.

Logan me ignorou, e apoiou seu peso em mim, como uma recado silencioso para que eu recuasse.

– Você nos obrigou a fazer isso no momento em que se aliou a essa aí — disse a garota do meio. Pela sua postura, ela agia como a líder. — Estamos a sós agora. Vamos, sabe muito bem o que fazer.

– Corre, Melaine — Logan se virou pra mim.

Engoli em seco e recuei devagar, petrificada pelo medo e pela confusão. Vendo minha hesitação, ele se virou de vez.

– Corre, Mel! Sai daqui!

Só então a adrenalina correu pelas minhas veias e saí em disparada, ao mesmo tempo que via se o trio me seguia. Desci ofegante as escadas e me atrapalhei ao pegar a chave do carro. Os perseguidores não estavam em lugar nenhum. Assim que consegui, entrei no carro.

E logo tomei outro susto ao ver Logan lá dentro, no banco do motorista.

– Como chegou aqui?! — me exaltei, totalmente sem ar.

Ele tomou a chave das minhas mãos e ligou o carro. Aproveitei o momento pra respirar. Fizemos parte do trajeto em silêncio; até que eu, recuperada, disse:

– E aí? Não vai falar nada? O que foi aquilo? Quem eram aquelas pessoas? Por que me protegeu?

– Quantas perguntas... — ironizou ele. Vendo que eu estava séria, ele suspirou. — Está viva, não é? Devia se sentir grata.

– Isso não cola comigo — continuei. — Tudo isso é muito estranho — cruzei os braços. — Acho que Jonas está certo sobre você.

Ele grunhiu.

– Devia se afastar daquele playboyzinho.

Ele enfim virou e parou na esquina da minha casa, se virando pra me encarar.

– Olha, sobre a pesquisa que sua mãe deixou...

Eu me assombrei.

Como sabe sobre isso?!

Ele fechou os olhos, como se esperasse essa minha reação.

– O que posso fazer pra que confie em mim?

– Provar!

– Pois bem — ele levou as mãos para um lindo colar que pendia em seu pescoço. Só agora eu havia notado; antes oculto pela camisa. Era um cordão prata-dourado, cujo pingente era um par de asas abertas, que me hipnotizou.

O colar caiu quente nas minhas mãos.

– O que é isso? — quis saber, manuseando o delicado colar.

Ele saiu do carro e abriu minha porta, caminhando comigo até a porta.

– Escute, se conseguir relacionar isso às pesquisas da sua mãe, você vai me dar uma chance? — propôs ele. — Vai confiar em mim e me deixar ajudar você?

– Depende — eu o olhei. — Como conheceu minha mãe?

Ele estampou um sorriso enigmático.

– Prefiro deixá-la curiosa a meu respeito. Mas vou lhe dar um incentivo — ele se aproximou. — Se eu estiver errado, eu simplesmente irei sumir da sua vida e nunca mais vai me ver. E aí? — ele ergueu uma sobrancelha.

Hesitei antes de lhe dar as costas.

– Vai pensar sobre o assunto! — ele gritou enquanto eu entrava.

Subi para o meu quarto devagar, enquanto pensava sobre isso. Tudo bem que mamãe era arqueóloga e muita gente a conhecia. Mas como ele poderia saber sobre essa pesquisa que ela me deixou? Ela teria falado com mais alguém? E o aviso de que era perigoso?

Cansada e cheia de pensamentos na cabeça, desabei na cama. Pelo visto, a estranha perseguição tomaria conta dos meus pesadelos naquela noite. E a estranha reação de Logan e o fato de ter me protegido só me deixaram ainda mais curiosa a seu respeito.

E eu iria descobrir. Estava na hora de desvendar aquele mistério.

Notas finais
Confesso que foi difícil fazer essa declarações da mãe dela..rs E aí, oq acharam? Comentários? Próx cap vai ter mt ação!! Até mais! ''D